02 junho 2013

Portugal e a nova fronteira da medicina: os tubos

É domingo, dia de descanso, por isso vamos tratar de assuntos mais leves, menos sérios.
Por exemplo: Portugal.

O Governo quer poupar, porque como sabemos não é possível recapitalizar os bancos privados com dinheiro público, pagar os juros da dívida aos bancos internacionais e ao mesmo tempo fazer funcionar o Estado como se nada fosse: alguém tem que apertar o cinto.

Eis então uma medida muito bem pensada: o Ministério da Saúde anuncia que os hospitais vão passar a poder reutilizar os cateteres usados em endoscopias e colonoscopias, tal como alguns dispositivos utilizados em obstetrícia.

Parece um retrocesso de 20 anos ou até mais, mas o que o Ministério quer dizer é que os pacientes portugueses viveram até hoje acima das suas possibilidades. E, pensando bem, isto é verdade.

Se um cateter entrou na boca, no ânus, na vagina ou no pénis dum paciente, porquê deita-lo no lixo? É um cateter que já foi testado com sucesso, demonstrou funcionar e destrui-lo seria um desperdício: é prática lógica e de muito bom gosto (em todos os sentidos) reutiliza-lo num outro paciente, com satisfação de todos.

O Ministério fez duas contas e chegou à conclusão que a reutilização dos cateteres permite uma poupança de 45 milhões de Euros por ano. Pessoalmente acho esta medida do Ministério estar incompleta, porque seria possível ir mais além: afinal um cateter é um simples tubo e um tubo utilizado numa colonscopia dum paciente poderia bem dar para a endoscopia dum outro, com uma poupança ainda mais significativa.

Mas por enquanto apreciamos esta nova medida que, é bom realçar, tem um não sei o quê de ecologista também (reciclagem, meus senhores, reciclagem).

Único senão:
A reutilização de dispositivos de uso único foi autorizada pelo ministério da Saúde. De fora ficam aqueles que são implantáveis no corpo do doente.
E não se percebe qual a razão. Que dizer: enquanto o doente estiver vivo, até se pode perceber, mas quando o doente falecer por qual razão não extrair o implante e reutiliza-lo em pacientes vivos? Pelos vistos há ainda alguns pormenores que devem ser consertados, mas o espírito está correcto.

Infelizmente, há quem não confie nesta ideia do Ministério:
Em declarações ao «Correio da Manhã», a Associação de Empresas de Dispositivos Médicos diz-se preocupada com a segurança dos doentes e quer garantias que os materiais reutilizados vão estar nas mesmas condições apresentadas por materiais novos.
É triste mas é normal, em Portugal deve haver sempre a figura do "Velho do Restelo": são estas as pessoas que atrasam o desenvolvimento do País, são estes os bota abaixo nacionais.
Melhor ignorar.

Dúvidas

O Leitor terá umas pequenas dúvidas. Por exemplo:
Pergunta: Mas não será que isto pode facilitar a transmissão de doenças?
Resposta: Não.
Estamos aqui a falar das infecções nosocomiales: já o termo parece uma coisa de conspiradores, como Haarp ou Bilderberg, mas a verdade é que a introdução de material descartável reduziu e quase eliminou o risco de contágio entre pacientes. As infecções nosocomiales são coisas do passado.
Pergunta: Mas não será que a reutilização pode trazer de volta as tais infecções nosocomiales?
Resposta: Não.
A introdução de material reutilizável produziu a extinção das infecções nosocomiales. É um pouco como com a varíola: foi extinta e nunca mais voltou, o conceito é o mesmo.
Pergunta: Mas a esterilização do material reutilizável pode ser mal feita, não pode?
Resposta: Não.
Esta pergunta nem mereceria resposta, pois põe em dúvida a seriedade e o profissionalismo dos operadores sanitários. Até parece que vivemos num País onde seis pessoas vão para hospital para pôr umas gotas nos olhos e saem cegas. A simples verdade é que as modernas técnicas de esterilização não deixam margem para dúvidas.  

Resolvidas estas insignificantes questões, não resta que sorrir e aplaudir a visão de longo alcance do Governo: porque a verdade é que Portugal vai tornar-se o ponto de referência no âmbito das curas hospitalares do século XIX. Ou até do princípio do XX.


Ipse dixit.

Fonte: Tvi24

5 comentários:

  1. maria2.6.13

    Olá Max: não leva a mal, mas de três, uma;ou estás brincando, ou delirando, ou lestes mal. Simplesmente porque isso que afirmas é impossível. Se fora até meados do século passado, quando seringas, agulhas e cateteres eram feitos de pirex e/ou metal, vá lá, era prática corriqueira ferver, flambar ou aquecer sob pressão porque tais materiais resistiam a altas temperaturas. Mas hoje o plástico domina tudo, e derrete se submetido a esterilização. Seria como dizer: "agora em diante vamos reutilizar as seringas descartáveis, passando uma aguinha nelas" E abrir as portas da infecção hospitalar generalizada. Não existe isso! Abraços

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  2. Rita M.3.6.13

    Olá Maria :)

    Esta notícia tem como base este Despacho: http://dre.pt/pdf2sdip/2013/05/104000000/1719617197.pdf

    O que é e como se faz o "reprocessamento" lá mencionado não sei, mas confesso que me é impossível perceber que mudem os procedimentos desta forma quando as infecções hospitalares são um problema tão grave... quais serão os seus custos?

    Independentemente da qualidade e das garantias do "reprocessamento" não percebo como arriscam aumentar o número de infecções/contágios para poupar 45 milhões... não vi o relatório que deu origem a esta possível "poupança", mas pergunto-me quanto terão colocado nos custos decorrentes desta alteração de procedimento... esses custos têm de existir.
    Como em tudo na vida, nada tem só vantagens.

    Abraço
    Rita M.

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  3. Olá Maria, esterilização hoje em dia não é feita com calor, e sim com Óxido de Etileno, método aprovado pela ANVISA no Brasil, como no Hospital onde trabalho. É esterilização a frio. A dificuldade que vejo neste caso é que para limpar cateter por dentro é preciso de escovas especiais e uma lavadora ultra-sônica. A esterilização também não limpa o material, isto é, ele tem que ser enviado limpo para a empresa, em sujeira aparente. Mas isso nunca foi feito com dispositivos descartáveis, que são feitos para durar por apenas um uso. E economicamente não compensa, pois esta esterilização é cara. Nenhum Hospital daqui, nem o Sírio Libanês ou o Albert Einstein tem capacidade técnica para esterilizar estes materiais, sem estragar ou danificar o material.

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  4. maria4.6.13

    Oi Ricardo Luiz: obrigada pelas informações, mas...e isso é uma lástima, chegamos ao mesmo: é absurdo reaproveitar cateteres. Abraços

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  5. Tambem muita informaçao sobre hospitaais e outras no wwww.tretas.org, e muito bem documentada - vale a pena ver.

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