12 junho 2013

Turquia e arredores

O que acontece na Turquia?

A mobilização da Praça Taksim levanta algumas questões importantes: estamos diante duma extensão da "Primavera Árabe"? Ou é um dos efeitos da crise global?

Tudo nasce por causa das árvores: a ameaça de construir um grande centro comercial na grande cidade, as manifestações, a intervenção das autoridades, o choque. Mas é claro: o abate das planta foi uma faisca, é evidente como haja muito mais do que isso.

A Turquia tem vivido nos últimos dez anos de governo AKP (Adalet ve Kalkınma Partisi, o partido sunita) taxas de crescimento económico notáveis, ao nível dos Brics; as manifestações espontâneas (?) chegaram assim de forma inesperada. Mas o modo de acção, a organização da revolta, dizem que estamos diante de algo profundo, não ligado apenas à arrogância e insensibilidade do governo.

Em primeiro lugar, o efeito-faisca: um único acontecimento local, o tal abate das árvores, foi suficiente para fazer saltar o equilíbrio até aqui mantido, tudo em tempos muitos rápidos; uma faisca amplificada mas não criada pelos media.

Em segundo lugar, a distribuição geográfica dos protestos: praticamente todas as cidades da Turquia responderam, enquanto nas ruas encontram-se pessoas de todas as idades e classes sociais.

Em terceiro lugar, o efeito-espelho: a crise surgiu já grande e repentina, como se cada um tivesse reconhecido no protesto, e de imediato, os próprios problemas, a ocasião para libertar um descontentamento há muito reprimido e a vontade de mudar.

Como pano de fundo: uma sociedade bem viva, que conhece e utiliza internet, as redes sociais, mas não apenas isso.

"Primavera Árabe"? Não. Na Turquia há algo mais sério e nada tem a ver com alegadas "revoltas" apenas comandadas do exterior. A Turquia conta uma história diferente: a história dum País preso no meio duma crise global, económica e geopolítica.

O crescimento da Turquia implicou a abertura aos mercados internacionais, favoreceu a burguesia e as classes mais desfavorecidas, como aquelas das zonas rurais: mas apoiou-se em boa medida nos circuitos financeiros e em qualquer caso foi um crescimento com uma forte especulação imobiliária, uma industrialização dependentes dos capitais estrangeiros e a prevaricação dos direitos individuais.

A Turquia hoje é um País fortemente endividado, internamente e exteriormente, com poucas poupanças individuais, decididamente corrupto e com esperanças frustradas em particular entre os mais jovens.

Mas o governo entrou numa fase de alta instabilidade por causas exteriores também: a Turquia ficou refém duma situação política internacional delicada. Ankara sonha a Europa mas tem os pés no Médio Oriente.  

Tentou propor-se ao mundo árabe como um interlocutor privilegiado, com um modelo político islâmico moderado e eficiente: inseriu-se na guerra da Líbia, e mais ainda, na Síria. Isso aproximou Ankara às monarquias petrolíferas do Golfo (Qatar e Arábia Saudita), afastou-se de Moscovo, mergulhou na espiral das sangrentas rivalidades locais (ver o recente ataque em Reyhanli, perto da fronteira com a Síria), diminuiu a sua oposição contra Israel (que tinha-lhe dado um prestígio no mundo árabe e não só), voltou completamente para o campo das alianças dos EUA.

No entanto, com um activismo excessivo e a tentativa de jogar "por conta própria".
Um "erro" imperdoável do ponto de vista de Washington, que sempre apresenta as contas na forma de mudanças de regime.

Do lado interno, o governo de Ankara perdeu o apoio dos cidadãos: enquanto a política das portas fechadas com israel e a abertura em relação ao mundo árabe tinha o endosso da população (99% islâmica), a agressividade do governo Erdogan contra a Síria não ficou percebida e mais do que uma vez ficou claro o desagrado dos cidadãos perante esta escolha.

Ankara é assim esmagada entre a necessidade de encontrar o seu próprio espaço económico e geopolítico, olhando para o Ocidente mas actuando no Oriente, no meio duma crise financeira global, com uma guerra à porta e os ecos da Primavera Árabe bem presentes.

Mais: não podemos esquecer a complexa manobra dos EUA no caminho para a contenção da China, uma estratégia que não prevê fortes autonomias regionais desde o Médio Oriente até a fronteira com a China. E depois há israel, que bem pode ver nisso a oportunidade para livrar-se duma vez por todas dum ex-aliado incómodo, cuja população é maioritariamente árabe.

Assim a Turquia, média potência regional em ascensão, na verdade fica assentada por cima duma profunda linha de falha: e os sismos fazem parte da crise global e das consequências desta.

Dúvida: onde acaba esta falha? Será que atravessa o Bósforo ou morre nas praias do Mar Egeu?
Não, não morre na frente das ilhas gregas: atravessa a ponte para a Europa, insinua-se nos Países mediterrânicos.

E se ficarmos em silêncio, até é possível ouvir um surdo barulho em constante aumento: chama-se "Falha da Zona Euro" e, podemos acreditar ou não, mas está intimamente ligada à falha turca. É a lógica continuação dela.
Mas esta é outra história.

Tranquilos: é pura coincidência




Ipse dixit.

Fontes: InfoAut, SSRC, Megachip

2 comentários:

  1. Chaplin12.6.13

    A Turquia sempre funcionou como um portal e divisor geográfico entre o Ocidente e o Oriente. Culturas e etnias que não se alinham. Os EUA tentam controla seu povo baseados numa imposição econômica e política, insuficientes para seus própositos. O que pode restar é o recurso bélico como fez com o Iraque.

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  2. Anónimo18.6.13

    Organizations Funded Directly by George Soros and his Open Society Institute:

    http://keywiki.org/index.php/Organizations_Funded_Directly_by_George_Soros_and_his_Open_Society_Institute

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