05 agosto 2013

Piripirilândia e a terrível Besta da Inflação

Interessante uma série de comentários que apareceram após a publicação de O dinheiro, o Estado, a História - Parte I e II.

Os vários comentários permitem enfrentar um problema delicado, o da inflação. Por exemplo, a contribuição de Nemo (que agradeço pela participação e pela oportunidade) e as respostas de Anónimo56 (agradecido também, como é óbvio).

Aqui um dos comentário de Nemo:
Existe uma diferença substancial entre a criação de moeda por parte do Estado e dos bancos comerciais.

Quando um banco empresta dinheiro, cria moeda. No futuro, exigirá o retorno do montante emprestado acrescido de um juro. Porém, o banco só empresta quando tem a expetativa que o devedor será mesmo capaz de cumprir a sua obrigação. Isto obriga o devedor a mostrar que tem um projeto viável (no caso de empresas) ou rendimentos futuros condizentes com o que o empréstimo exige; isto é, obriga o devedor a mostrar que tem capacidade para gerar valor suficiente na sociedade (rendimentos do capital ou trabalho) para suportar o empréstimo.

Assim, apesar da criação colossal de moeda nestas últimas décadas, a inflação manteve-se baixa, pois a criação de moeda exigia por contrapartida uma expetativa de aumento do PIB.
Pelo contrário, quando as expetativas são infundadas, assiste-se a uma galopagem nos preços, como se verificou na mais recente bolha imobiliária.

Já no Estado esta expetativa não é necessária. Aos decisores num Estado com plena soberania monetária (sem bancos centrais independentes) nada acontece se os projetos que apresentam gerarem valor nulo ou negativo na sociedade. Em primeiro lugar, geralmente são projetos muito difíceis de avaliar. Em segundo lugar, mesmo havendo mecanismos de proteção do erário público, estes em geral são pouco eficazes devido à influência política no processo. Por último, políticas de expansão monetária desenfreada por parte do Estado são formas fáceis e populares de atenuar os verdadeiros problemas económicos de um país, exceto quando dão para o torto, algo infelizmente frequente.
Tudo somado, impressão por parte do Estado, tem uma tendência notável para gerar níveis de inflação altos e para entrar em descontrolo. 
A questão é delicada e mexe directamente com as nossas vidas.
Perguntem: porque os ordenados não aumentam?
Uma das primeiras respostas será: porque isso aumenta a inflação.

Mas é isso que se passa?

A inflação

Uma das primeiras coisas publicadas neste blog foi Inflação ou Deflação? (Março de 2010...passa o tempo, não é?), no qual era explicado de forma muito simples o mecanismo da inflação:
O dinheiro é como as maçãs. O que acontece quando no mercado chegam de repente tantas maçãs? Acontece que o valor dum saco cheio de maçãs desce. Lei da procura e da oferta.

Da mesma forma, quando o dinheiro impresso e em circulação é demais, o valor dum saco cheio de notas...baixa!

E acontece, para acabar, que as empresas têm que pedir mais dinheiro pelos mesmos bens.

Ou seja: sobem os preços.

Esta é a inflação. Uma subida geral dos preços.

A inflação é "má" por vários motivos:
  • porque o pão custa cada vez mais
  • porque o ordenado sobe em medida menor que a inflação, por isso estamos cada vez mais pobres
  • porque as poupanças perdem valor.
Agora, os preços podem subir pouco ou muito no prazo de um ano, mas também dum mês, dum dia ou até em poucas horas.
Por isso: muito dinheiro em circulação = menor valor do dinheiro.
E isso é mau.
Aumentar salários imprimindo dinheiro cria inflação.
Pagar dívida pública imprimindo dinheiro cria inflação.

Tudo parece claro e linear mas assim não é. E para percebe-lo, temos que abandonar as simplificações, porque aqui deixamos a teoria pura para falar da realidade. Que, como sabemos, simples não é.

Criar dinheiro cria inflação?
Mas a inflação já existe. Qual País tem uma taxa de inflação de 0 (zero)? Aliás, no nosso sistema, quando num País isso acontecer, todos entram em fibrilação porque é interpretado como o sinal de que algo não corre bem.

No caso da Zona NEuro, não apenas a inflação existe, mas os vários Países nem criam dinheiro: costumam toma-lo emprestado. Temos inflação sem criação de dinheiro. Notável.

Este é um ponto importante, porque num sistema como o nosso, permanentemente inflacionado, o poder de compra  fica em lento mas constante declínio. Perceber isso é simples: se houver inflação, o dinheiro perde valor. Se o dinheiro perder valor, o nosso ordenado perde valor. Com o ordenado do próximo mês será possível adquirir menos do que este mês.

Mas aqui acontece uma coisa esquisita: se o Estado emitir moeda, o poder de compra permanece invariado.
Como assim? E a inflação?
Confusos? Calma, vamos com ordem.

Hoje em dia, os bancos centrais (privados, tal como a Federal Reserve ou o Banco Central Europeu) injectam liquidez e criam inflação: isso sem que os salários sejam aumentados, porque os bancos centrais não injectam o dinheiro nos nossos ordenados.

O que fazem os Estados para criar liquidez? Resposta: vendem os Títulos de Estado, que são na sua maioria adquiridos por bancos privados. Atenção: vender Títulos significa não criar dinheiro mas obter dinheiro emprestado, em troca da promessa de devolvê-lo com juros. E são estes interesses que criam inflação, sem que haja no entanto um correspondente aumento nos salários e nas pensões, porque o dinheiro a ser devolvido permanece em circulação, mas não é contabilizado.

Um bocado confuso, não é? Ok, vamos fazer um exemplo prático.

O caso de Piripirilândia

O Estado de Piripirilândia (um País simpático, por acaso) obtém emprestados 200 Guacamoles (a moeda local), com um juro de 5%.

O Estado coloca em circulação 190 Guacamoles e não 200 (há sempre despesas que devem ser cobertas) e, para evitar o fenómeno da rarefacção monetária, vai emitir outros Títulos por uma valor de 10 Guacamoles.
Portanto, em Piripirilândia há agora em circulação 210 Guacamoles, mas o Estado contabiliza apenas 200 Guacamoles. Porquê? Porque os últimos 10 Guacamoles ficaram na posse dos bancos privados.

Nesta altura o Leitor pode dizer:
"Mas este é um sistema confuso!"
Por acaso é.
"Mas este é um sistema sem sentido!"
Sim, mas é assim que as coisas funcionam.
"Mas não gosto nada disso!"
Ó Leitor, e que culpa tenho eu? Pense nisso nas próximas eleições em vez de ralhar comigo, ora essa...

Agora, vamos ver o que aconteceu.
Em Piripirilândia aconteceu o seguinte:
  • o dinheiro em circulação aumentou (e foi criada inflação)
  • o Estado contraiu dívida (que terá de ser reembolsada, com juros)
E no meio de tudo isso, ordenados e reformas permaneceram invariados.
Invariados? Uma ova! Não permaneceram invariados, mas perderam poder de compra. Porque, como vimos, a inflação diminui o poder de compra dos nossos ordenados.

Em Piripirilândia, a taxa de inflação fica agora perto de 5%: isso significa que os preços nas lojas aumentam 5%, mas os salários ficam invariados. E perdem poder de compra.

Dúvida: mas isso acontece apenas em Piripirilândia?
Infelizmente não. Isso acontece normalmente, aqui, no nosso sistema: a venda de Títulos de Estado aumenta a inflação, mas não há um aumento correspondente nos salários e nas pensões, porque o Estado não reconhece o interesse (o tal 5% do exemplo) que deve ao Banco. Portanto, mais dinheiro circula, os preços sobem, salários e pensões não.

E vamos ver um caso ligeiramente diferente: e se fosse o Estado a emitir moeda?
Aconteceria uma coisa esquisita: o poder de compra permaneceria inalterado.

Como assim? 
Ok, voltamos ao simpático País de Piripirilândia.


O Primeiro Ministro, farto deste mecanismo perverso da inflação que deixa os cidadãos mais pobres (mas enriquece os bancos), decide imprimir dinheiro.
200 Guacamoles imprimidos directamente pelo Estado.
Festa grande em Piripirilândia!

Até a manhã seguinte, quando os preços nas lojas começam a aumentar. Normal, a inflação funciona assim: faz aumentar os preços.
Então a CTGTPA (a Confederação Total e Geral dos Trabalhadores de Piripirilândia e Arredores) começa uma série de protestos veementes, pede a demissão do Ministro das Finanças, do Primeiro Ministro, do Governo, eleições antecipadas e saída da Nato. 

Mas o Primeiro Ministro não se demite e decide aumentar os salários e as pensões. O que ontem custava 1 agora custa 2. Mas ontem o salário dos cidadãos era 10, hoje é 20.
Moral: nada mudou, o poder de compra ficou invariado.

Fantasia? Mera teoria?
Nada disso: é isso que sempre aconteceu.

O baubau (Enter Sandman) e os bancos que ganham

Última nota acerca do comentário de Nemo (mais uma vez: obrigado!):
Já no Estado esta expetativa não é necessária. Aos decisores num Estado com plena soberania monetária (sem bancos centrais independentes) nada acontece se os projetos que apresentam gerarem valor nulo ou negativo na sociedade. Em primeiro lugar, geralmente são projetos muito difíceis de avaliar. Em segundo lugar, mesmo havendo mecanismos de proteção do erário público, estes em geral são pouco eficazes devido à influência política no processo.
Discordo fortemente desta ideia.
Esta é uma ideia que pode ser válida em Países de brandos costumes, mas não pode ser assumida como paradigma geral. E, sobretudo, não pode constituir um objectivo.
O nosso objectivo não pode ser "melhor ficar assim porque somos uns desgraçados", deve ser "até agora funcionou assim, tentamos melhorar". Caso contrário, caro Nemo, melhor abolir as eleições e a democracia toda. Perder tempo para quê? Melhor ir para praia e preparar um churrasco com cervejola enquanto observamos o pôr do sol.

Foi com a criação de moeda e com as grandes obras públicas que Hitler conseguiu empurrar a Alemanha para fora do pântano de Weimar, atingindo o desemprego zero.
Foi no meio duma inflação em constante aumento (ou, em qualquer caso, com valores sempre de dois dígitos) que a Italia viveu o boom da década dos anos '80.

Eu vivi aquela época (em Italia entendo, não a de Hitler) apesar de ser um moço na altura, e acredite Nemo: vivia-se bem, mas bem mesmo. Apesar de todas as teorias catastrofistas acerca da inflação.

Foi aí que aprendi a não ter medo do baubau da inflação criada pela emissão de moeda estatal. Tomara nesta altura ter o mesmo problema: desemprego em queda, exportações em alta, um País que produz, carteiras cheias. E eu deveria ter medo da inflação porque o Estado cria dinheiro?

Factos, Nemo, não teorias.

Muito mais medo provoca em mim um sistema no qual os bancos acumulam lucro gerando inflação, fazendo com que os preços subam enquanto o poder de compra das pessoas desce.
Muito mais medo provoca um sistema no qual os bancos ganham também no cenário oposto, no caso duma recessão económica, tendo a vantagem de ficar na posse de bens tangíveis (empresas, casas, terrenos) utilizados como garantias para os empréstimos não devolvidos.
Muito mais medo provoca em mim um sistema no qual os bancos privados ganham sempre.

Por isso: é bom ter medo da inflação, o baubau que estraga as noites dos economistas. É bom que o Estado não crie dinheiro, porque assim ficamos sem inflação (ou não?). É bom que sejam os bancos privados a gerir tudo, eles sabem o que fazer.
E sabem, disso não tenham dúvidas.


Ipse dixit.

8 comentários:

  1. Ricardo5.8.13

    "É bom que sejam os bancos privados a gerir tudo, eles sabem o que fazer.
    E sabem, disso não tenham dúvidas."

    É... nós vemos como os excelentes economistas, secretários e ministros de toda Europa e América são especialistas exemplares... eles têm melhorado horrores a situação de todos os países ocidentais nos últimos anos... impressionante!

    Eu vivi o Brasil da super inflação... durante esse período o mercado era protencionista, então era muito complicado ter algo importado, porém, por causa disso, haviam MUITOS produtos nacionais... fábricas que ou viraram fantasmas ou escritórios e agora trabalham com serviços...

    Em compensação, foi a época que meu pai, o qual sempre viveu com um cargo nada alto, acumulou propriedades e muita riqueza.

    De 94 para cá, acabou a malvada inflação! Eeeeeeee... meu pai virou um consultor (pois não conseguia mais emprego), o maior especialista do país na área dele... até tem uma poupança... mas JAMAIS seria capaz de comprar alguma propriedade novamente...

    O Brasil não é um bom exemplo pois é O PAÍS DA CORRUPÇÃO! Então muito do poder do estado sempre foi voltado para o enriquecimento ilícito, o que dificultou MUITO o crescimento...

    ... mas o mais impressionante é que hoje, após a abertura de mercado, a privatização completa de tudo e a esquerda comunista que é mais capitalista do que Adam Smith, tudo ficou... PIOR!

    Agora temos importados! Eeee! Na verdade só importados, pois o país não produz mais... enfim, inflação controlada (bem alta... mas controlada)... e uma pessoa com o cargo que meu pai tinha, hoje leva 5 anos para comprar o primeiro carro! Casa? Só quando os pais morrem e deixam de herança! LINDO!!!

    PS: não moro mais no Brasil (ufa)... mas meu pai mora!

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  2. Ricardo5.8.13

    PS: A visão do Nemo Economista é fundada. De fato quando se discute com pessoas que dominam o assunto, chega-se ao ponto de que eles não conseguem mais colocar nenhum ponto para defender os banco centrais privados, então vem o jargão:

    Os interesses públicos são tendenciosos... quando funcionários públicos estão gerindo isso, tendem à corrupção, vão beneficiar partidos e bla bla bla bla bla...

    Realmente correto! Tendem! Mas não tem nenhuma relação com o sistema e sim com a desonestidade de alguns! Tanto é que hoje, com tudo sendo privatizado, se demonstra ainda mais, MUITO MAIS, corrupção, obviamente, interesses PRIVADOS...

    Para isso vem os outros pontos do Blog do Max... a democracia participativa e tudo mais... NÓS SOMOS O ESTADO!!! NÓS TEMOS QUE GERIR NOSSA MOEDA!!! NOSSO MERCADO!!! NOSSO CUSTO!!! NOSSO SERVIÇOS!!! Alguém tentou se beneficiar com isso? Todo o resto do país... do estado... da comune... todo mundo tem acesso à isso... todo mundo vê... simples: leva pra praça e queima!!!

    Os sistemas em que vivemos até hoje, TODOS, são uma merda, independente da escolha de ferramenta, pois TODOS são tiranos... pois optamos por votar (ou nós, ou Deus, ou o sangue) ao invés de cuidar do que nosso... optamos pela tirania... temos que conviver com isso!

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  3. Imprimir dinheiro sim, se no passado funcionou, porquê não agora.
    Gosto também da idéia do dinheiro social, em principio acostumados com o sistema atual parece absurdo, mas é muito correto, se o governo tem lucros e arrecadação, eu por fazer parte do sistema devo receber por isso.

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  4. MV = PY
    Esta é equação que, entre os economistas, é conhecida como equação da moeda. Ela não tem origem em nenhuma teoria; pelo contrário, é um truísmo (sendo, por isso, representada muitas vezes com um ≡ em vez de um =). Advém da constatação que Valor das Vendas = Valor das Compras. Uma vez que estas transações se fazem em moeda, então o seu valor é igual ao número de moedas (M) multiplicado pelo número de vezes que estas moedas trocaram de mãos (V). Simultaneamente, as trocas fazem-se por bens ou serviços, sendo que o preço pago por eles será acrescentado ao PIB nominal (PY). Separa-se então o P e o Y, para se extrair o nível de preços (P) e o PIB real (Y). Se nunca houvesse inflação, dir-se-ia MV = Y, pois P = 1.

    Através da equação, então, constata-se que um aumento de M provocará inflação, se V e Y se mantiverem constantes, ou se não variarem o suficiente num determinado sentido (V para baixo, Y para cima).

    Também é importante ter em conta que estamos a lidar com equações simples e, como tal, uma variação de uma variável afeta instantaneamente todas as outras. Ora, isto é completamente irrealista: as alterações ocorrem ao longo do tempo, algo que pode ser apenas representado por equações diferenciais, nas quais não vale a pena entrarmos.

    É por a moeda se “propagar” pela economia que nunca ocorrem aumentos instantâneos de inflação, quer esteja seja impressa pelo Estado quer por bancos comerciais. A velocidade de propagação dependerá do “quão agarradas” as pessoas são ao dinheiro. Se estas o gastarem muito rápido e os futuros detentores da nova moeda fizerem o mesmo, então a inflação ocorrerá rapidamente; caso contrário, não.

    Ao mesmo tempo, é também por as atividades económicas ocorrerem ao longo do tempo que há sempre inflação residual na economia. Se uma empresa se financiar junto de um banco e adquirir uma máquina, demorará bastante tempo a recuperar o seu valor. Esta, a título de exemplo, foi concebida para produzir milhares, quiçá, milhões de produtos. Com isto, o empréstimo, que aumenta M, só terá uma reflexão positiva no Y no futuro. O mesmo raciocínio pode ser feito para o mercado de consumo ou para o Estado capaz de contribuir positivamente para o crescimento da economia. Como a própria moeda exige tempo para se “propagar” e o produto está gradualmente a ser aumentado, então existirá uma inflação residual, muito menor que aquela que haveria se a nova moeda não aumentasse o Y. Isto também acontece, porque, ao longo do tempo o V aumenta lentamente (se bem que se tem tornado errático nos últimos anos) algo que também gera inflação residual.

    Além disso, quando um banco faz um mau empréstimo (incobrável) aumenta M sem aumento de Y, criando inflação (que, como disse, não ocorrerá instantaneamente). Este fenómeno não deveria ser desejável, já que se reflete negativamente nas contas do banco. Acho dá para entender por que caminhos estou a entrar, pelo que vou parar. Só digo: bailouts desvirtuam os princípios do capitalismo. De qualquer forma, este ponto só é relevante quando falamos, por exemplo, em bolhas alavancadas por crédito.
    O mesmo acontece quando o Estado aumenta M sem o respetivo aumento de Y.
    A economia é cega neste aspeto. Independentemente do agente que o faça, aumentar M sem melhorar a capacidade produtiva da economia, com V constante, irá sempre resultar em inflação.

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  5. Passado o enquadramento necessário, falemos dos bancos centrais.

    É importante ter em conta a definição de moeda que estamos a utilizar aqui. O BCE tem em conta 4 definições: a Base Monetária (BM), M1, M2 e M3. A BM é constituída por todas as moedas e notas físicas em circulação e reservas bancárias, sendo totalmente controlada pelo BCE. O M1 inclui as notas e moedas físicas em circulação e os depósitos à ordem. Para se obter o M2 acrescentam-se depósitos a prazo até 2 anos ao M1. Já para o M3 acrescenta-se tudo o resto (depósitos de “muito” longo prazo, produtos financeiros, etc). É preciso ressalvar que embora M3 contenha M2, que por sua vez contém M1, o M1 não contém a BM. Note-se ainda que esta não deixa de ser uma versão simplificada das verdadeiras definições, embora esteja muito próxima da realidade. Além disso, as definições da FED são parecidas.

    Interessa também referir que a FED e o BCE não são instituições públicas nem privadas. Embora a primeira tenha bastante influência de bancos privados, os principais decisores são escolhidos por instituições públicas. Já os decisores do BCE estão dispersos por vários países e também são escolhidos por instituições públicas. Os lucros dos bancos centrais remetem sempre para os respetivos Estados que tutelam.

    Como referi, o que os bancos centrais controlam é a BM, principalmente pela manipulação das reservas bancárias. Ora, não são as reservas que circulam na economia, mas sim o que consta nas restantes definições, em particular do M1 (quando acima falo em M refiro-me ao M1). Com isto, os bancos centrais podem emitir quantidades massivas de moeda que, se esta não entrar na economia por via dos bancos (na Zona Euro) ou por via dos bancos e Estado (nos EUA), então não pode haver inflação significativa, porque o ritmo de variação do M1 não se alterou da mesma forma. Este efeito reflete-se no colapso do V da BM.
    O M1 nos Estados Unidos também aumentou significativamente, possivelmente, devido à política orçamental. Mesmo assim, o V do M1 caiu substancialmente. Já na Zona Euro, o M1 teve um comportamento mais estável que o americano.
    Por essas razões, a inflação da Zona Euro e dos EUA tem-se mantido em baixo, mesmo tendo em conta as quantidades assustadoras de moeda que foram emitidas.

    O sistema de emissão de moeda é diferente nos EUA e na Zona Euro, mas em nenhum dos casos a emissão de títulos de dívida pública, por si só, provoca inflação. Para haver inflação, neste contexto, tem de haver um aumento excessivo da moeda ou da sua velocidade face ao produto. Quando um banco empresta dinheiro ao Estado só haverá inflação se os usos que o Estado fizer do dinheiro não aumentarem o produto. Se o banco central comprar depois esses títulos e aumentar as reservas bancárias, novamente, só haverá inflação se os empréstimos que fizer não aumentarem o produto. O valor dos juros voltará sempre à economia, uma vez que são um tipo de rendimento.


    No exemplo do país fictício está a partir do pressuposto que a economia se ajusta instantaneamente. Mesmo assim, se o Estado injetar moeda na economia (M1), sem ser capaz de aumentar suficientemente o Y, gerará inflação. Se o Y aumentar proporcionalmente, não haverá nenhuma inflação, assumindo V igual. Voltando ao primeiro cenário, se depois de injetar moeda, o Estado decidir aumentar os salários de acordo com a inflação estará apenas a multiplicá-la. Uma subida isolada de salários, com M e Y iguais, provocaria inflação, desta vez pela via do V (há mais moedas por transação). Uma subida isolada de M, com V e Y iguais, resultaria no mesmo. Quando juntamos os dois, temos a inflação a crescer pelo efeito do V e o M.

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  6. Portugal é um país de brandos costumes, assim como todos os países do sul da Europa. É uma ingenuidade ignorar o impacto que isso tem na governação do país. A política económica deve ser adaptada à cultura de cada país para ser eficaz. A principal razão pela qual as previsões falham, para além da situação da economia europeia (algo que é tido em conta exogenamente), é o pressuposto que os povos do sul são iguais ao germânico. A simplificação que todos os povos são iguais é a falha estrutural base do euro, que agora exige que o ajustamento das economias se dê sempre pela via real e não pela nominal.
    Não nego que os países do sul não estejam a evoluir nesse aspeto, porque tenho plena confiança que estão. Estamos apenas umas décadas atrás de outros países europeus.

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  7. Agora vem a questão do papão da inflação? Que efeitos negativos tem a inflação?

    As funções da moeda, há muito tempo pensadas por Aristóteles, o que não deixa de ser estranho, são: servir de meio de troca; medir o valor de bens e serviços; preservar valor no tempo. A inflação desvirtua as duas últimas funções e a primeira por arrasto (Qual é a moeda proibida na Argentina?). Uma economia quer-se eficiente na alocação de recursos, produção e distribuição.

    A inflação não só não é instantânea, como também não é simultânea; isto é, ocorre ao longo do tempo e a um ritmo diferente para cada bem. Trata-se de uma média da subida de preços. As telecomunicações, por exemplo, em Portugal têm registado uma deflação significativa nos últimos anos, em completo contraciclo. Assim, mesmo com uma inflação de 10%, é razoável pensar que há bens a cair 20%, a subir 1% ou 10% e outros a subir 50%.É inegável afirmar que as decisões dos consumidores e empresas são afetadas pela evolução dos preços.

    Com inflação, um consumidor não quer preservar a moeda que possui (3ª função desvirtuada); muito pelo contrário, quer livrar-se dela. Quanto maior a inflação, maior esta vontade, uma vez que o custo de oportunidade de manter moeda aumenta. Não é, portanto, surpreendente constatar que com uma elevada inflação tende a haver um aumento do peso do setor financeiro na economia, algo que deverá ser minorado, atualmente, pela evolução das TIC. Ao mesmo tempo, o consumidor trocará a moeda por algo que preservará melhor o seu valor, aumentando a procura de determinados bens, aumentando ainda mais o seu preço. Por último, um trabalhador, num cenário de inflação, procurará indexar o seu salário à inflação. Ora, a causa original de inflação vai atingir a economia de qualquer das formas, mas agora temos uma nova fonte de inflação: o aumento salarial. Este fenómeno potencia inflações já relativamente elevadas, razão pela qual economias com inflação alta têm tendência para entrar em descontrolo. A posterior desinflação é dolorosa; já a hiperinflação destrói a moeda e a economia. A desinflação que a maioria das economias desenvolvidas começou a fazer a partir dos anos 80 não foi feita por diversão, isso posso garantir.

    Quando falamos nas decisões das empresas surge outro problema. Não importa apenas falar do que aconteceu, mas também do que não aconteceu (o custo de oportunidade). A moeda e os preços são a lubrificação da economia. São o pilar das economias modernas. Os preços comunicam informações sobre a escassez de bens, sobre os custos de produção de bens, sobre a procura dos consumidores, etc. Na URSS, mesmo tendo o comunismo como um dos objetivos a abolição do uso da moeda, tiveram de pôr essa ideia de parte, para poderem planificar a economia (se bem que o sistema de preços não era livre nem fiável). A inflação desvirtua todo este processo, distorce a economia de mercado. Os preços nos quais as empresas baseiam as suas decisões têm variações imprevisíveis (note-se que a inflação não é instantânea nem simultânea), criando um clima de incerteza, diminuindo o investimento e promovendo a fuga de capitais. Também diminui a eficiência económica nos três pontos acima referidos. Existirá escassez de bens e excesso de outros, não as soviéticas, mas uma subtil (a ideia é que podia haver mais, mas as pessoas nem têm noção disso); haverá uma distribuição deficiente dos bens, devido a diferenças salariais que nada têm a ver com o valor criado na economia; contratos implicam um risco maior, assim como qualquer projeto de longo prazo; inventários mal geridos; confusão na tabulação de preços; etc.

    Existem ainda efeitos redistributivos socialmente injustos na inflação, nomeadamente a transferência de recursos de aforradores para devedores; a redistribuição resultante de sistemas tributários que ignoram a inflação; o facto de que os primeiros a gastar a moeda emitida gozarão do poder de compra original, enquanto os últimos é que suportam a inflação.

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  8. Com isto, não é surpreendente verificar que maior inflação está associada a menos crescimento, um efeito que acentua a partir de taxas a rondar os 10%. Note-se ainda que a desinflação é dolorosa e que inflação tende a criar mais inflação. Eu diria, portanto, que uma inflação até aos 5% não causa danos de maior à economia; a partir daí, deve ser baixada. O ideal seriam 1-3%.

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