13 outubro 2013

Irão: o espelho de Yuli-Yoel Edelstein

O diário italiano Il Corriere della Sera entrevista o porta-voz do parlamento israelita, Yuli - Yoel Edelstein:
Quando se trata do direito do Irão ter uma indústria nuclear, eu oiço de todos os lados: "Mas vocês israelitas não assinaram esta Convenção e esta outra". Francamente, é uma comparação que não se pode subscrever. Dada a história do regime iraniano, é como se um serial killer dissesse: "O que há de esquisito se trago uma arma? Até mesmo os policiais têm armas". Há Países democráticos, confiáveis e Países que não o são
Não é uma piada: disse mesmo isso.

Tanto para ter uma ideia, vamos ver quantas e quais guerras viram envolvido o serial killer Irão desde a Segunda Guerra Mundial até hoje.
  • 1980: Guerra Iraque - Irão.
O Iraque de Saddam Hussein, apoiado e militarmente armado por vários Países, no dia 22 de Setembro de 1980 atacou o Irão. Após sete anos de guerra, o resultado foi de 805.000 mortos (dos quais mais de 200 mil civis) e perdas económicas que atingiram 1.000 biliões de Dólares.

Entre os Países que apoiaram o ataque do Iraque:
- Estados Unidos: vários biliões de Dólares, ajudas económicas, venda de tecnologia, armas, intelligence, treino
- Reino Unido: armas convencionais, armas e equipamentos relacionados com a guerra química
- França: armas e urânio
- Alemanha: armas
- Italia: financiamento, armas e urânio
- Brasil: armas
- Portugal: urânio
- Espanha: armas convencionais e químicas
- Arábia Saudita: 20 biliões de Dólares
- Kuwait: financiamento
- Emirados Árabes Unidos: financiamento
- Qatar: apoio clandestino
- Sul África: armas
- Egipto: armas
- China: armas e financiamento
- União Soviética: armas e formação

Estados Unidos, Italia, Brasil, Portugal, Espanha, China e União Soviética apoiaram o Irão também, na maior parte dos casos de forma clandestina.

Israel ajudou de forma clandestina...o Irão, que na altura, evidentemente, não era ainda um serial killer.

Para encontrar uma agressão do Irão contra um País estrangeiro é preciso ir atrás, até o ano 1838, quando o Império Persa atacou a cidade de Herat. E na altura nem de Irão falava-se , mas de Pérsia (a denominação é o resultado do pedido internacional efectuado pelo Xá Reza Pahlavi em 1935).

Portanto, o Irão moderno foi envolvido até agora num só conflito, sendo que na ocasião teve de defender-se perante o ataque do vizinho Iraque.
Só como curiosidade, vamos ver se e em quais guerras israel desenvolveu o papel de agressor.
Na verdade, aqui o difícil é escolher.
  • Guerra de Suez (1956), na qual israel invade o Sinai e o Canal de Suez;
  • Guerra dos Seis Dias, na qual israel ocupa a Faixa de Gaza (com as consequentes Intifadas, nas quais os Palestinianos tentaram recuperar a liberdade);
  • Operação Litani (1978) contra o Líbano;
  • Operação Orcades (2007), Raid Jamraya (2012), Raid de 2013 e Operação Lakatia (2013) contra a Síria;
  • Operação Quatro Espécies (2009) contra um navio do Irão;
  • Ataques aéreos contra o Sudão (2009, 2011 e 2012);
  • Ataque Jamraya (2012) contra a Síria;
  • Primeira (1982), Segunda (1982-2000) e Terceira (2006) Guerra do Líbano;
  • Várias Operações conduzidas contra a faixa de Gaza: Operação Chuvas de Verão (2006), Operação Chumbo Fundido (2008), Operação Inverno Quente (2008), Gaza Flotilla Raid (2010), Operação Lei de Ferro (2011); Operação Pilar Defensivo (2012); Operação Eco de Retorno (2012).
Pelo que, há um problema: temos que estabelecer qual o derradeiro conceito de "País serial killer".

Se a ideia for: "País que desde o 1838 nunca invadiu um outro Estado soberano", então a resposta pode ser só uma: o Irão é um País serial killer e não pode haver dúvidas.

Se a ideia for: "País que tem armas nucleares, biológicas, químicas (todas não declaradas), que desde a sua fundação esteve constantemente envolvido em guerras, que invadiu Estados Soberanos vizinhos, que conduziu ataques disfarçados até contra unidades de Países aliados" então façam o favor de comprar um espelho para o senhor Yuli - Yoel Edelstein, porque algo está a escapar-lhe.

E nem falamos daqueles que são, segundo o porta-voz israelita, os Países "democráticos, confiáveis". Etiópia, Somália, Nigéria, Sérvia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Egipto: são apenas alguns exemplos do que a intervenção deste Países "bons" pode provocar.

São os mesmos Países aos quais o Irão tem que pedir autorização para avançar com um programa nuclear civil. Porque há Países que são obrigados a pedir autorização, enquanto outros nem por isso.

Mais uma vez, a coisa mais inquietante é observar como estes indivíduos possam mentir descaradamente, sendo que as palavras deles não apenas não são postas em causa, como até são divulgadas com a cumplicidade dos media.
Cria-se desta forma uma "verdade" oficial que, oportunamente espalhada e repetida, é insinuada e solidificada entre o público: sucessivamente, esta "verdade" fornecerá as bases para novos passos contra o alvo escolhido, neste caso o Irão.


Ipse dixit.

Fontes: Corriere della Sera, Wikipedia 1 e 2 (versão inglesa)

2 comentários:

  1. Anónimo14.10.13

    É a conversa do costume, e uma mentira repetida mil vezes transforma-se em verdade, como referido.

    Não me lembro do Irão ter atacado quem quer que fosse, como tambem não me lembro que a Coreia do Norte tenha feito algo semelhante.

    Já os 'paladinos da paz'; aqueles que se arrogam no direito de impor a sua lei aos outros (que aliás têm feito desde sempre), quase que não me lembro de um período em que não estejam em guerra contra alguém. Mas a esses ninguem pede contas sobre o seu arsenal, NBQ (nuclear, biológico e químico).

    Sabemos quem teve a ousadia de utilizar armas nucleares e não foi julgado por isso.
    Sabemos tambem quem teve a ousadia de utilizar armas químicas e tambem nada aconteceu.
    Já as armas biológicas, apesar de mais dificil identificação, o problema será análogo.

    É curioso observar o que a manipulação pode fazer, quando as evidências são tão escandalosas, e mesmo assim a opinião pública continua apática e sem qualquer espirito crítico.

    abraço
    Krowler

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  2. Anónimo14.10.13

    "a coisa mais inquietante é observar como estes indivíduos possam mentir descaradamente, sendo que as palavras deles não apenas não são postas em causa, como até são divulgadas com a cumplicidade dos media."

    Como temos vindo a aprender na actual legislatura em Portugal, num verdadeiro curso de semântica delirante avançada, se considerarmos que o senhor acredita piamente no que diz, não é uma mentira.
    É todo um novo universo semântico que se nos apresenta com esta forma de ver as coisas... as palavras ganham novo significado.

    Pela palavras dele, pergunto-me se, para ele, serial killer não pode então englobar todos quantos de alguma forma incomodam, não concordam ou não se calam perante o que Israel anda a fazer... expandindo-se para além do que foi estabelecido na altura da criação do estado de Israel, por exemplo.

    Claro que se assim for, por esta ordem de ideias, o mundo está cheio de serial killers... e eles têm mesmo de ter muito cuidado com toda a gente.

    Peço desde já desculpa aos leitores brasileiros se me enganar na expressão que vou usar, mas creio que é assim.

    Cutucar a onça com vara curta pode correr mal e creio que com o Irão não será assim tão fácil de obterem o que pretendem, por muito que os media ajudem.
    O mundo não é apenas a realidade ocidental e podem estar a dar um passo maior do que a perna.

    Abraço
    Rita M.

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