18 outubro 2013

Uma ideia: França fora do Euro?

Mudanças na França.

Um partido a favor da saída do Euro acaba de derrotar um os dois maiores partidos de poder (o UMP, o partido de centro-direita também do ex-presidente Sarkozy) nas eleições autárquicas.

E não é apenas o Euro que está em jogo, mas também a ameaça de saída da União Europeia, um factor que estará em discussão no referendo da Grã-Bretanha (que, segundo o primeiro-ministro britânico D. Cameron, poderá irá concretiar-se em 2017).

A Frente Nacional de Marine Le Pen ganhou com 54% dos votos. Uma derrota difícil para os gaullistas do UMP. Isso enquanto os socialistas do presidente Hollande tinham sido derrotados logo no primeiro turno das eleições.

A Frente Nacional é actualmente o maior partido da França, com 24 % dos votos, de acordo com a mais recente sondagem do Ifop (Institut français d'opinion publique): algo nunca acontecido no pós- guerra. O UMP atinge 22%, os socialistas 21%.

A Europa, um engano

Marine Le Pen tinha sido clara: em caso de vitória na eleição presidencial, como primeiro acto o anuncio dum referendum sobre a saída da União Europeia:
Negociarei [...], sem uma solução satisfatória, vou pedir a saída. A Europa é apenas um engano. Por um lado, há o enorme poder dos povos soberanos, por outro lado, um punhado de tecnocratas.
Uma saída imediata?

Sim, porque o Euro impede qualquer autonomia nas escolhas de política económica. A França não é um país que possa aceitar ordens de Bruxelas.
Neste caso, os técnicos seriam encarregados de planear um regresso ao Franco. Os líderes da Zona Euro teriam de enfrentar uma difícil decisão: colaborar com a França para definir a saída, coordenando a dissolução da união monetária, ou esperar uma inevitável confusão, uma autêntico quebra-cabeça.
Le Pen:
Não devemos ouvir as cereias. O Euro deixaria de existir na altura da nossa saída, esta é a nossa força. O que eles poderiam fazem? Enviar os tanques?
Os seus quatro pontos fundamentais para manter-se na União Europeia (lembramos: um País pode ser parte da União sem adoptar o Euro): saída do Euro, reintrodução dos controlos nas fronteiras, superioridade da lei francesa perante as leis da União e "patriotismo económico", ou seja a possibilidade da França perseguir um "proteccionismo inteligente" para salvaguardar o bem-estar social.
Não posso imaginar uma política económica sem o controle da monetária.
O partido de Le Pen consegue os maiores sucessos eleitorais nas regiões tradicionalmente socialistas, o que evidencia como o sucesso da Frente não esteja limitado aos enclaves de Direita: de facto, aspira tornar-se uma força eleitoral capaz de representar a classe dos trabalhadores.

Ultrapassa os socialistas atacando os bancos e o capitalismo internacional. Recentemente, o partido recebeu nas suas fileiras Anna Rosso- Roig, um candidato do Partido Comunista nas eleições de 2012.

O estudo da École
Marine Le Pen

O plano de saída do Euro baseia-se nos estudos dos economistas da École des Hautes Etudes em Paris,
dirigido pelo professor Jacques Sapir.

Segundo as pesquisas, França, Espanha e Itália beneficiariam com uma saída do Euro, sendo capazes de recuperar imediatamente a competitividade no lado dos custos do trabalho, sem anos de declínio. Isso com a inflação da moeda nacional.

Na prática, o percurso inverso da Zona Euro, onde não é possível reduzir o valor da moeda e é necessário criar uma desvalorização interna, isto é, reduzir os salários. No entanto, a consequência é diminuir ainda mais a procura interna e deprimir a economia. Ver caso de Portugal...

A hipótese subjacente deste estudo é que os desequilíbrios entre a Europa do Norte e os Países do Sul da Europa chegaram a um ponto de não retorno. As tentativas de reduzi-los através de uma deflação dos salários e de cortes causaria o desemprego em massa e a perda de boa parte do aparato industrial.

O Professor Sapir argumenta que a melhor solução seria um desmantelamento do Euro com controles coordenados aos movimentos de capitais e com os bancos centrais empenhados a fazer converger as várias moedas nacionais para os valores desejados.

A campanha da Frente parece estar a funcionar. Apenas uma minoria dos eleitores ainda acredita que o partido seja uma "ameaça à democracia". A Frente, com uma liderança feminina, já não é mais um partido machista.

Critica severamente Washington e a Nato, alegando para a França uma política apartidária num mundo multipolar, e acusa o partido UMP de ter vendido a alma da França à Europa e à hegemonia anglo-americana.:
De Gaulle tinha aspectos de esquerda e de direita. Nós somos a favor de ambos.
Deja-vu

Mas há razões ainda mais profundas.

A França tinha visto na União e no Euro a possibilidade de atingir um ponto de equilíbrio, uma ocasião para travar a hegemonia da Alemanha. É esta uma questão histórica, um objectivo perseguido há séculos. Agora, a União e sobretudo o Euro dependem basicamente das decisões de Berlim, e a França percebe que, mais uma vez, o plano fracassou..

Neste dias, a França está a sofrer a mesma lenta agonia e quando aceitou estoicamente a política deflacionária do primeiro-ministro Pierre Laval. A situação só foi temporariamente controlada. Mas em 1936 deflagrou com o apoio da Frente Popular, uma coligação de esquerda , e dos comunistas.

Portanto, um deja-vu.

A Frente Nacional tem agora um caminho aparentemente fácil até as próximas eleições europeias, em Maio de 2014. E não vão estar sozinhos, pois os euro-cépticos ameaçam o hemiciclo de Estrasburgo (é o caso do Movimento Cinco Estrelas italiano ou dos conservadores britânicos).

O prédio da Zona Euro range. E é só culpa do Euro e dos seus obtusos arquitectos.


Ipse dixit.

Fonte: The Telegraph

2 comentários:

  1. continuo com a convicção que se anda com mais ou menos agenda escondida a deitar poeira para os olhos:
    1º os FiveEys são figadalmente os inimigos internos do projecto UE,mas camuflados e hipocritamente inteligentes.
    2º quem não é competitivo com os Bric´s não é por causa do euro( a Alemanha é e tem euro)é por caus a da incompetencia interna
    3º Faz geito á politica de faz de conta de holandinhos e sugeitos identicos que haja uns culpados (Troika,Merkl,Bruxelas,painatal,euro)quanto mais difusos melhor

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  2. Anónimo19.10.13

    A vitória da Frente Nacional em França é um sinal dos tempos.
    Na altura de Jean-Marie Le Pen os desafios eram outros, daí a frente nacional nunca ter obtido tanta expressão eleitoral.
    Esta vitória traduz a insatisfação crescente dos cidadãos europeus face ao projecto euro e o discurso de Marine vai nesse sentido.
    É óbvio que aquilo que serve a uns não pode servir a todos. E o projecto euro por não servir os cidadãos, já fede.

    Eu não acredito no 'fim do mundo económico', como muitos querem fazer crer, caso o euro termine. Quem faz este tipo de afirmações com o objectivo de criar pânico, é porque tem muito a perder com o fim do euro.
    Duvido que quem ganhe 600 euros por mês, e que a partir de 2014 veja este valor reduzido, tenha o mesmo tipo de preocupações.

    A transição do euro para as moedas nacionais, tem sido objecto de muitos estudos (já li alguns) e que sendo feita dentro do mesmo espírito cooperativo com que se fez o processo inverso, resulta quando muito, num período de adaptação que dependendo de país para país, pode ser relativamente curto e sem grandes perturbações nas economias nacionais.
    Por oposição, o processo também pode ser conturbado, dependendo da vontade politica dos liders europeus. E eles não são grande coisa.

    Já quanto à possibilidade da França sair da EU, tenho muitas dúvidas quanto ao beneficio desta medida.

    Não sou propriamente anti-europeísta mas esta Europa, não muito obrigado.

    abraço
    Krowler

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