07 novembro 2013

Escravos, como sempre

Um mini-bus branco da agência de trabalho temporário agência Werk & Ik está estacionado na frente de uma longa fila de garagem numa área industrial de Osdorp, um bairro de Amsterdam. Uma destas garagens  serve como habitação para alguns trabalhadores da Werk & Ik, imigrantes da República Checa.

Uma mulher mostra os quartos, cinco armários feitos de madeira, cada um com beliches. Uma luz néon ilumina toda a sala, mesmo os lugares onde as pessoas querem dormir. Não há janelas, não existe um sistema de ventilação.

De acordo com algumas estimativas, cerca de cem mil checos, polacos e outros cidadãos da Europa Central e de Leste trabalham na Holanda nestas condições.

Férias?

A Werk & Ik, cujas receitas atingiram 12 milhões de Euros, está disposta a trabalhar com os Checos, especialmente em Schiphol, onde limpam os aviões e cuidam das bagagens dos passageiros.

Os trabalhadores temporários são pagos de forma justa pelo seu trabalho?

Não de acordo com George, estudante checo que trata das limpeza. Henry Stroek, chefe do sindicato nacional CNV, realça como George em 2012 não obteve pagamentos dos feriados, o que significa 16,3 por cento do seu salário que perdeu:
Essa é uma soma importante, principalmente para quem ganha o salário mínimo
Ivan Karels, director e proprietário da empresa de trabalho temporário, reconhece que um número de checos não foram pagos para a época natalícia:
Escapou, agora vamos prestar mais atenção.
No site de recrutamento em checo Wekczeck.cz, Werk & Ik promete um salário de € 5 por hora, independentemente da idade. Para Stroek, a folha de pagamento de George mostra que, para um ano, o salário anunciado (bruto) foi pago com horas extras correspondentes à noite e trabalho nocturno, mas não no ano seguinte.

Salário?

O empregado temporário Rewiesh Jibodh , que administra a chegada dos checos na Werk & Ik e é responsável pelo planeamento dos trabalhos e tem uma explicação:
Provavelmente, as horas nem sempre correspondem ao trabalho feito Quando alguém está doente e a sua substituição não está na lista, pode acontecer que as horas de trabalho são contadas em nome do empregado doente. Mas, então, corrigimos os erros cometidos.
Outro problema é que os trabalhadores temporários não recebem, como exigido por lei, a folha de pagamento. George teve a sua apenas nos últimos tempos, pouco antes de deixar a Holanda, quando ameaçou recorrer a um advogado.
Explica Jibodh:
Os trabalhadores perdem a folha ou deitam-a fora. Tudo isso nos custa apenas papel, não vejo o interesse em fazer uma coisa dessas.
As folhas de pagamento devem também estar disponíveis on-line, mas os trabalhadores temporários entrevistados nunca receberam um nome de usuário ou uma senha. Novamente, foi uma distracção, admite Karels.

Deduções

A Werk & Ik também deduz alguns custos. Por exemplo, a agência deduz do salário os montantes para os danos causados, mesmo quando o trabalhador não for responsável. A principal dedução, no entanto, refere-se aos custos de habitação: 2.5 Euros por cada hora trabalhada, especifica o contrato.

Consequentemente, os trabalhadores checos pagam entre 120 e 150 Euros por semana para um beliche numa garagem que, segundo a Câmara de Amesterdão, não é habitável. Numa Segunda-feira, alguns inspectores chegaram e evacuaram o local: "muito perigoso" observava o relatório, que também utiliza o termo "exploração".

Explica Karel:
Nós respeitamos as regras em vigor acerca da habitação. Quanto à garagem, este não é o caso, admito. Mas são mesmos eles que querem morar lá. Tenho diferentes acomodações disponíveis, mas permanecem vazias.
Stroek da CNV:
Um empregador pode deduzir um máximo de 68 Euros por semana, quando se trata de uma pessoa que ganha um salário mínimo. O que faz a Werk & Ik é um roubo.
Responde Karels:
É verdade que, ao fazer essas deduções, estavam errados. Mas não tínhamos más intenções. Sou apenas um homem de negócios que trabalha muito e que quer crescer rapidamente. Às vezes a dor do crescimento é inevitável. Iremos resolver os problemas de todos.
E afirma ainda que estas deduções também cobrem outros custos: energia eléctrica , água, internet e o motorista que leva os dependentes ao trabalho e que os traz de volta.

Um dia de folga por mês

Os excessos também afectam as horas de trabalho. Por exemplo, o caso do motorista, Pavel, que há mais de um ano traz os conterrâneos para o trabalho e depois de volta para "casa". O seu dia de trabalho facilmente dura 20 horas. E George, o trabalhador da limpeza, em Agosto teve apenas um dia de descanso. De acordo com a lei, depois de um dia de trabalho, o dependente tem direito a 10 horas de descanso sem interrupções.

Um ano de turno de noite

Karels também reconhece isto
Em alguns casos, não temos prestado bastante atenção.
O Director Jibodh explica que a sua empresa só queria responder aos pedidos dos trabalhadores:
Os checos implora-me para trabalhar mais. Eu sempre pergunto se desejam fazer mais umas horas.
No entanto, quando um colega de George, depois de ter passado um ano a fazer turnos de dia e de noite, pediu para fazer horários diferentes, a resposta foi: "Queres voltar para casa? Basta dizê-lo".

No entanto, Werk & Ik, que conta entre os seus clientes regulares algumas grandes empresas como a KLM, é titular de um certificado da Normering Arbeid Stichting (Fundação para a regulamentação do trabalho), instituição que monitoriza o cumprimento do salário mínimo legal.

Em Maio de 2013, a empresa de trabalho temporário obteve a renovação do certificado.


Ipse  dixit.

Fontes: Trouw, Press Europe, Werk & Ik

2 comentários:

  1. maria7.11.13

    Olá Max: tenho que discordar do título (escravos modernos). Essa escravatura que descreves, que desdenha dos direitos mais comuns dos trabalhadores, que os empurra para acomodações absurdas e insalubres, é muito antiga e muito comum, talvez a mais corriqueira no terceiro mundo e no mundo que vai se "terceromundizando". As vãs que descreves me lembra os containers dos trabalhadores norte americanos já na década de 80, as carrocerias abandonadas de caminhão no México na mesma época etc. A cada direito adquirido,uma burla. Este é um dos princípios dos patrões em busca de lucro fácil. Abraços

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  2. Assim vemos o motivo do desemprego: a crueldade da raça.
    Poderiamos ter o trabalho bem fracionado entre todos e com condições confortáveis, teriamos assim resultados melhores para todos.
    Mas qual a graça de um mundo perfeito?

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