21 novembro 2013

Porquê?

Como sempre, hoje estava à procura de algo para escrever. Um bom artigo de economia, guerra, algumas desgraças...enfim, as coisas do costume.
Quando eis que aparece ele.

Paro e penso (já isso demonstra a excepcionalidade do evento...).

E pergunto: como é possível? É normal viver assim? Há algo de errado em tudo isso, já sabemos: mas como é que ninguém faz nada?

Como é possível aceitar coisas destas, vê-las e mesmo assim levantar-se de manhã, mergulhar nas filas do trânsito ou nas massas que enchem os transportes públicos (com pulgas também, cortesia da Transtejo para quem atravesse o Tejo de barco), ficar 8 horas no lugar de trabalho e saber que somos recompensados com um prato de lentilhas: quando aqui, no nosso mesmo continente, há quem ganhe quase 10 vezes mais desenvolvendo as mesmas funções, talvez inferiores até.

Aqui, quase ao lado, na Suíça.
Eis o que vi:



A Lidl é uma empresa alemã de distribuição alimentar, representada na maioria dos países europeus: a cadeia pertence ao grupo Schwarz e está activa em 22 países europeus possuindo cerca de 9.500 lojas. E a partir de agora, os funcionários dela ganham 4.000 Francos (3.200 Euros, 9.900 Reais) de salário mínimo, mas só na Suíça. Porque nos outros Países, os salários permanecem iguais.

Em Portugal, por exemplo, o salário mínimo continua a não chegar aos 500 Euros (1.500 Reais).

Podemos pensar: bom, ganham muito porque gastam muito também, quem sabe aí a vida quanto custa.
Justo. Então vamos ver quanto custam os artigos vendidos na Lidl da Suíça, que são os mesmos vendidos nos outros Países europeus.
  • Iogurte com nata, cremoso, 150 gr., vários sabores: 0.49 Francos (0.39 Euros, 1,21 Reais)
  • Sumo de ananás, 1 litro, 100% sumo 0.99 Francos (0.80 Euros, 1.98 Reais)
  •  Azeitonas espanholas verdes recheadas com massa de pimento, 314 ml: 0.59 Francos (0.47 Euros, 1.46 Reais)
  • Panettone Clássico, 1 kg.: 3.69 Francos (2.99 Euros, 9.17 Reais)
  • Queijo Camembert, 250 gr.: 2.49 Francos (2,01 Euros, 6.19 Reais)
Deixamos a comida, vamos ver outro tipo de artigos:
  • Calças mulher, modelo Jeggings, várias cores: 11.99 Francos (9,72 Euros, 29.82 Reias)
  • Camisola mulher modelo Dolcevita, várias cores: 11.99 (9,72 Euros, 29.82 Reias)
  • Pijama mulher, várias cores: 11.99 (9,72 Euros, 29.82 Reias)
  • Soutien, várias cores: 7.99 (6,48 Euros, 19.87 Reais)
Saímos da Lidl, vamos espreitar o custo dum carro. Neste caso um carro da gama Dacia, os mais baratos na Europa (no Brasil são vendidos como Renault):
  • Dacia Duster, tracção 4x4, motor 105 cv, versão de entrada sem optional
Na Suíça: 15.700 Francos (12.736 Euros, 48.138 Reais)
Em Portugal, mesmas especificações mas sem tracção 4x4: 15.990 Euros (49.028 Reais)
No Brasil, mesmas especificações mas sem tracção 4x4: 51.350 Reais (16.702 Euro)
   
São os preços que encontramos aqui, em Portugal. Às vezes mais baratos até.
Seria possível continuar. Mas conheço bem a Suíça, fica a duas horas e meio da minha cidade de origem, fui visita-la inúmeras vezes: não é apenas uma questão de preços, é sobretudo uma questão de qualidade de vida. Aí não há comparação nenhuma possível.

É a Suíça um Pais cheio de recursos naturais? Com um clima agradável? Com milhões de empresas que aumentam o PIB nacional?
Nada disso: é um País com um clima frio, 60% do território é constituído por montanhas (os Alpes), recursos naturais não há e a população mal chega aos 8 milhões. 
 
Apesar disso, o salário mínimo não é elevado apenas na Lidl: outras empresas do mesmo sector oferecem remunerações parecidas. É o caso da Aldi, da Kiosk, da Coop, da Migros, todas com salários mínimos entre 3.800 e 4.100 Francos Suíços.

No caso da Lidl, os 4.000 Francos mensais incluem:
  • 13 mensalidades
  • 25 dias de férias (30 no caso de trabalhadores com mais de 50 anos e aprendizes)
  • 41 horas de trabalho semanais
  • Seguros
E quem pensa ainda no bem estar da Suíça como fruto das evasões fiscais dos outros Países (que enchem os cofres dos bancos suíços), faria bem a actualizar-se, pois as coisas mudaram, e muito, nos últimos anos.
E nem vale o discurso do "Capitalismo mau": a Suíça não é de todo um País comunista e o nível de vida é simplesmente espectacular.

A verdade é que as empresas suíças, apresentando preços comparáveis aos do resto da Europa, conseguem pagar muito mais aos funcionários.
Porque a Lidl não paga o mesmo em Portugal, em Italia, Espanha, França, até mesmo na Alemanha?
Porque continuamos a suportar estas coisas?
Porque gostamos de ser escravos e mal pagos?


Ipse dixit.

Fontes: Ticino News, SwissInfo, Carriera, Lidl Ch,

12 comentários:

  1. Anónimo21.11.13

    boa tarde Max,

    O teu artigo é bastante pertinente e depois de pensar um pouco sobre a realidade suiça que conheço razoavelmente, a justificação que gostaria que fosse era que o nível de vida dos suiços está relacionado com o tipo de democracria que implementaram? Muito mais directa e com intervenção da população...Gostava seriamente que fosse, mas tu sabes como eu que este país tal como o Luxemburgo, semelhante à Suiça nas suas particularidades, sendo no entanto de dimensão territorial muito mais reduzida e com muito menos população, viveram e vivem muito da Banca, nomeadamente do Shadow Bank (a que te referiste num artigo à poucos dias), e isso alavancou bastante esses países.

    Mas agrada-me pensar que o tipo de democracia existente na Suíça tem a sua quota-parte no assunto e agradava-me ainda mais que o "tipo de democracia" suíca fosse implementada por nós, povos latinos.

    Um abraço
    Zarco

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  2. Anónimo21.11.13

    AGORA... JOVEM, VOCÊ JÁ ESTA QUERENDO SABER DEMAIS!

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  3. mas afinal de onde vem o dinheiro??!!

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  4. Olá Max: pois é, tudo depende do que as pessoas decidem aceitar. E aí, me parece, reside também o problema. Se num lugar qualquer as pessoas comuns optam pela cooperação ao invés da competição, elas se associam em benefício do coletivo, e aí a democracia direta encontra um bom caldo de cultura. Senão...vivemos como vivemos para regozijo dos mandantes. Abraços

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  5. Não Max, a Suiça nõ é um pais com muitos recursos naturais e nem clima ou varias opções turisticas, no entanto é...o pais com um poderossimo e vasto Cartel Bancário, onde as maiores e mais poderosas Dinastias depositam o seu dinheirinho, o lavam e relavam há long, long time ago.

    Tudo isto com a conivência dos politicos.

    Abraço
    Nuno

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  6. Chaplin22.11.13

    Apenas a combinação de duas características resume o que se está procurando. É um Estado/paraíso fiscal central para o mundo da acumulação de capital, e funciona como um elo entre os grandes banqueiros anglo-saxões sionistas, verdadeiros donos do mundo pós primeira guerra mundial.

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  7. Anónimo22.11.13

    Há muitas pessoas vivendo com este padrão citado por Max na Suiça onde vivi por quase 9 anos, Porém eu conhecí uma realidade muito diferente. Ví suiços, alemães, russos, portuguêses, espanhóis, brasileiros, africanos, asilados de todo mundo conturbado…todos dentro daquele minúsculo país lindo e quase perfeito…mas vivendo de subempregos, fazendo todo tipo de bicos, em um espaço altamente competitivo e com poucas ofertas. Eram jovens e velhos. Existe um constante deslocamento, uma grande insegurança, uma tensão e ameaças a todos, pq o país precisa muito de todo tipo de mão-de-obra qualificadas e não. Os pensionistas sofrem pq precisam de ajuda de diversos caixas para complementar os ganhos insuficientes. Os ativos e inativos sofrem dos mesmos males, exclusão, rechaços, embromações repletas de uma burocracia que é um verdadeiro labirinto. Um grande contingente de pessoas penduradas no sistema social. As escolas suiças são as melhores, mas os suiços se emancipam precocemente, não passam muito tempo nas escolas, pq o mercado de trabalho oferece ilusões. Grande parte dos suiços são técnicos e nas empresas há mais estrangeiros qualificados.

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  8. Anónimo23.11.13

    Ao anônimo de cima: "As escolas suiças são as melhores, mas os suiços se emancipam precocemente, não passam muito tempo nas escolas, pq o mercado de trabalho oferece ilusões. Grande parte dos suiços são técnicos e nas empresas há mais estrangeiros qualificados."

    Isso faz realmente todo o sentido!! Poucas ofertas, porém altas, deve realmente instigar o ser humano na sua caça incansável: ao dinheiro.

    Tony

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  9. Sai de Bilbao e trazia um folheto do Lidl e ao chegar a Lisboa tinha na caixa do correio um de cá. Por curiosidade os preços de certos artigos eram metade em bilbao onde os salarios são bem maiores.
    Quem vive onde a trasnparencia e escrutinio não são a regra estánas maos das corporações que por natureza só protegem os membros ou assalaridos, mesmo que estejam no governo.

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  10. Ricardo23.11.13

    Noruega não é paraíso fiscal. E tem a mesma qualidade de vida da Suíça. Talvez a Suécia também. A Islândia, que não é paraíso, antes da crise, também tinha (acho). Luxemburgo é paraíso e realmente tem…

    Todos pequenos? População pequena? CLARO!

    A questão aqui é, por exemplo, o Quatar tem mais dinheiro que a Suiça… e a qualidade de vida?

    São paraísos fiscais SIM! Facilitam a corrupção e evasão (literalmente FODEM) centenas de países mundo à fora…

    Mas quem ganha com isso? 1% da população deles. Então por que os 99% ganham algo por tabela? E por que o mesmo não acontece em outros países que esbanjam riquezas? Como Brasil… Como Itália… Como Alemanha… Como Reino Unido…

    É uma simples questão de ética… administração interna… boa vontade… seja ela por pressão do povo ou por cultura/educação… não importa… não tem NENHUMA relação com o paraíso fiscal…

    A riqueza Suiça vem das corrupções e corporativismos dos outros países… a riqueza do Brasil vem dos seus recursos minerias… a riqueza da China vem de seus escravos… a diferença é para onde a riqueza vai…

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  11. Olá pessoal: voltei aqui para ver os comentários e...gooostei Ricardo!!
    Por sinal, administrativamente, os cantões suiços se organizam por democracia direta, e isso faz uma tremenda diferença para melhor, do meu ponto de vista, no que tange a qualidade de vida da população nativa. Mas foi muito bom que os comentários ressaltassem que lá, como em qualquer país do primeiro mundo, os não nativos são cidadãos de segunda categoria, bem como os poderosos de lá e seus executivos que exercem a governança são mais poderosos ainda, pois gerem um paraíso fiscal que, diga-se de passagem nada têm a ver com a população em geral.Abraços

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  12. Olá Max, tem bambém o lado da qualidade de vida, as mulheres portugesas são muito mais bonitas que as suiças, dai a razão de pagarem mais para se trabalhar lá.

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