03 dezembro 2013

A Terra e a fome

Eis uma daquelas notícias que mereceriam bem mais destaques na imprensa: trata-se de algo perturbador e que tem profundas implicações.

Um grupo de cientistas americanos determinou que ao longo dos últimos dois séculos, as actividades agrícolas têm causado um drástico empobrecimento do ecossistema natural do solo.

Ainda não conseguiram entender o papel desempenhado pelos micro-organismos presentes no terreno(este representa um novo campo de pesquisa), nem sabem se o processo for reversível. Mas as conclusões são preocupantes.

A equipa da Universidade do Colorado, sob a orientação do professor Noah Fierer,  utilizou uma tecnologia genética para examinar o conjunto de micróbios no solo das pradarias, comparando a qualidade da terra cultivada com as poucas amostras ainda disponíveis de terra virgem, obtida em reservas naturais. As conclusões do estudo, publicado na revista US Journal Science, denunciam como as actividades agrícolas têm alterado substancialmente a composição do solo orgânico examinado.

Pode-se dizer que tudo era previsível ou até já imaginado. Na verdade, as coisas não estão bem assim: nunca tinha sido realizada uma comparação genética deste nível. O prof. Fierer adverte:
Conhecemos o sistema microbiológico do solo apenas marginalmente, mas sabemos que é da maior importância e não podemos continuar com o uso indiscriminado dos fertilizantes.
Estudiosos da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, estão preocupados que o uso excessivo das terras agrícolas possa levar a um ponto de não retorno e fome.

O estudo, intitulado "Do pó ao pó ", lamenta a perda de terra virgem, globalmente, com uma taxa de 1% ao ano: um total de 70% do terreno do planeta afectado. O solo pode ser considerado como a membrana que separa a superfície biológica do ecossistema no qual vivemos, daquele presente mais em baixo, igualmente importante para a nossa sobrevivência. Os fertilizantes químicos aumentam o rendimento das culturas, isso é verdade, mas apenas a curto prazo, pois causam o empobrecimento do solo.

O tema é fundamental, considerando que a população mundial está a aumentar e a procura por alimentos cresce mais do que proporcionalmente nos Países em desenvolvimento. A saída da pobreza dos Países asiáticos, como foi o caso da Coreia do Sul e do Japão, também envolve a adopção de uma dieta semelhante à nossa, mais baseada no consumo significativo de proteína animal: basta pensar que, para produzir apenas uma libra de carne, são necessários entre 4 e 8 quilos de grãos para alimentar o gado.

A questão não é limitar o crescimento populacional, mas aprender a a cultivar e adoptar dietas diversificadas e mais naturais.

O prof. Robert Scholes, um dos autores do estudo, adverte que os governos que alimentam os povos com a agricultura intensiva hoje irão comprometer o futuro. E exemplos não faltam: a parte oriental do Madagascar sofreu um desmatamento grave, provavelmente irreversível; no século X, os islandeses reduziram ilha deles numa terra deserta, com um terreno que ainda não está totalmente recuperado, apesar os cuidados.
Arriscamos seriamente uma carestia grave nos próximos 30-40 anos, se não for reconstituído o "capital nutriente" do solo com a adopção de novas técnicas de cultivo.
A civilização da Suméria, que inaugurou a era da agricultura na região entre os rios Tigre e Eufrates, provavelmente desapareceu devido à exploração excessiva dos recursos naturais: a epopeia de Gilgamesh descreve o cultivo do cedro no Iraque antes da sua destruição, devida a venda de madeira perto do 2.600 a.C.

A história repete-se da mesma forma, com os Maya, o Império Khmer, no leste da Inglaterra, conforme
relatado por Jared Diamond no ensaio Colapso. Uma vez abatida a sombra que cobre as colinas, a infiltração natural da água que alimenta o solo está comprometida.Torna-se cada vez mais difícil tornar o solo fértil e os remédios agravam ainda mais a situação: é preciso mais fertilizante e aumentar a área de cultivo, reduzindo ainda mais a reserva de terra virgem.

A Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD ) alerta que a procura de alimentos vai aumentar em 50% até 2030, com um pedido de adicionais 170-220 milhões de hectares de terra virgem para a agricultura. Ao longo dos próximos 25 anos, no entanto, precisamente por causa do empobrecimento da qualidade do solo, as colheitas vão cair em 12%.

A UNCCD tem como objectivo inverter, a partir de 2015, o saldo negativo das terras afectadas pela agricultura, plantando novas florestas. O responsável Veerle Vanderweerde argumenta que talvez ainda seja possível recuperar a situação, mas são precisos investimentos, projectos e acima de tudo vontade política. Que, infelizmente, parece faltar: Yacouba Sawadogo, "o homem que parou o deserto", reintroduziu as antigas técnicas cultivo trinta anos atrás, conseguindo conter a erosão do solo nos seus terrenos no Burkina Faso. Infelizmente, as autoridades locais expropriaram as suas terras.

Veerle Vanderweerde acusa as grandes empresas multinacionais que produzem fertilizantes para explorar a terra sem se preocupar nas consequências.

Um novo grupo de pesquisa , o Land Matrix Global Obervatory, estima que existam compra-vendas de terra arável num total de 48 milhões de hectares, o equivalente à área da Espanha. E este valor pode ser subestimado, porque as grandes empresas envolvidas tendem a manter um "perfil baixo" para evitar possíveis protestos como os que ocorreram na África e na América Latina. Realizam negócios através de intermediários locais para evitar suspeitas.

O Land Matrix descobriu que os principais investidores são americanos, malaios, árabes, ingleses. A China, apesar de não liderar a classificação, pode escalar rapidamente os rankings: ver o caso do contrato de arrendamento de 5% das terras aráveis ​​ucranianas por um período de 50 anos, o equivalente à área da Bélgica . Um terço da preciosa floresta tropical de Papua -Nova Guiné já é de propriedade de empresas estrangeiras.

Actualmente, as preocupações sobre as fomes diminuíram em relação ao anos 2008: a ONU afirma que, graças à produção agrícola norte-americana, canadiana e ucraniana, as colheitas aumentaram 8 %, com um aumento do consumo de "apenas" 3,5%.

Os estoques mundiais de trigo encontram-se num nível de relativa segurança, tendo aumentados 13%, o que corresponde a 69 dias de consumo. Mas as mesmas reservas eram iguais a 107 dias de consumo nos anos 80 e 90. Portanto, uma margem de segurança reduzida. E nos últimos 10 anos o índice dos preços dos cereais aumentou 105%.

No seguinte link é possível visionar uma lista dos investimentos estrangeiros nas terras brasileiras ao longo do período 2000/2013.


Ipse dixit.

Relacionados:
A Grande Corrida: land grabbing
Os bancos, o óleo, a terra dos outros

Fontes: The Telegraph, Land Matrix Global Observatory

2 comentários:

  1. maria3.12.13

    Olá Max: isto sim deveria preocupar os catastrofistas de plantão mas também toda gente com um pouco de neurônios preservados. Desde a chamada revolução verde, desde que comida virou commodities, a terra agrícola do planetinha está definhando e morrendo. Só políticas extensivas e intensivas de agricultura familiar, onde o aproveitamento de dejetos orgânicos entra no ciclo de auto regulação dos ciclos de nutrientes para o solo, onde a produção e o consumo´se dá em escala humana, onde os grupos sociais se reconhecem como parte dos ciclos naturais poderá garantir sobrevivência no pouco que resta. Abraços

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  2. Anónimo3.12.13

    Receio que a queda de produção dos terrenos cultivados actualmente, conduza (e parece que assim é) à destruição de zonas ainda por explorar, ou virgens.
    Isto sim, é uma catástrofe anunciada. Não não se vai resolver o problema, com ainda vai ser mais agravado.
    Porque a ganância não tem limites, com OGM ou outra coisa qualquer, serão encontradas soluções para alimentar a população mundial. Nem que seja com 'Soylent Green'.

    abraço
    Krowler

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