08 dezembro 2013

O dia seguinte

- Próximo!- disse S. Pedro olhando para a lista das entradas.
- Nome?
- Mandela.
- Prince Mandela, ex-Mitsubishi, agora directora da Câmara do Comércio da África no Sul nos Estados Unidos?
- Não, aquela é a minha filha.
- Makaziwe Mandela, ex-directora do Banco de Desenvolvimento da África do Sul, agora chefe do Industrial Development Group, área diamantes e petróleo?
- Não, aquela é a outra filha.
- Mandla Mandela, o político do parlamento da África do Sul?
- Não, aquele é o meu neto.
- Ndaba Mandela, o filantropo e homem de negócios que lidera a organização ligada às Nações Unidas Africa Rising Foundation?
- Não, aquele é o outro meu neto.
- Zenani Mandela, a embaixadora da África do Sul na Argentina?
- Não aquela é outra filha ainda.
- Winnie Madikizela Mandela, a política que disse "Com as nossas caixas de fósforos e os nossos colares [de pneus] vamos libertar este país"? Aquela condenada por roubo, fraude e rapto?
- Não, aquela foi a minha primeira esposa.
- Ocansey Mandela, o futebolista do Burkina Faso?
- Não, aquele nem sequer é parente meu...
- Mas então, você é... - S. Pedro levantou o olhar e percebeu:
- É mesmo você!
- Pois sou, Nelson Mandela, o ícone.
- Ahhh, mas esta é uma grande honra Senhor Mandela, há anos que sigo o seu trabalho contra o apartheid, muito bem feito, muito bem...olhe, está tudo pronto, o Paraíso é a primeira porta à direita, é só pôr uma sua assinatura aqui se não se importa...mas olha só, o Mandela mesmo, quem diria...olhe, olhe toda a documentação que temos acerca de si: quando nasceu, onde estudou, a prisão...
- Pois, fui um mártir.
- Eu bem sei, eu bem sei, ora essa, tudo temos. Olhe, olhe, os seus discursos, as suas frases...o que é isso? "Israel deveria retirar-se de todas as áreas que tem vindo a ocupar às custas dos árabes em 1967, e, em particular, Israel deve retirar-se completamente do Golan, sul do Líbano e Cisjordânia". Você disse isso?
- Bah...não lembro...
- Não, é que esta coisa não é nada simpática...sabe, o "povo eleito", há alguém com um fraquinho lá em cima...
- Mas sabe, eu fiz tantos discursos, se calhar este saiu um pouco mal, acontece...
- Pois, percebo, percebo...agora, não vamos criar problemas por uma coisas destas, não é? Já assinou? Muito bem, então arrumo o seu dossier e...espere..."Desde os seus primeiros dias, a Revolução Cubana também tem sido uma fonte de inspiração para todas as pessoas que amam a liberdade. Admiramos os sacrifícios do povo cubano na manutenção da sua independência e soberania face à campanha imperialista orquestrada para destruir as impressionantes melhorias alcançadas durante a Revolução Cubana". Ó Mandela, mas então você é comunista!?!?!?
- Ohhhh, comunista, que exagero...sou um pouco de Esquerda, mas nem muito, olhe, eu diria mais social-democrata, isso mesmo: sou social-democrata.
- Social-democrata? Mas você aqui diz "Viva a Revolução Cubana! Longa vida ao camarada Fidel Castro!"
- Eu disse isso?
- Pois disse!
- É...é que...sabe, era convidado, uma semana em Cuba, tudo pago com o dinheiro do povo, hotel cinco estrelas, comida de borla...parecia-me simpática uma palavrinha assim...afinal sou um ícone...
- Mas qual ícone e ícone, uma coisa destas não passa, lamento, há muitos controles no arquivo central, depois quem leva na cabeça sou eu....vamos ver, para os comunistas seria a porta à esquerda, direitinho para o Inferno, mas considerando o apartheid e tudo o resto...olhe, porta central.
- O que há na porta central?
- O Purgatório.
- O Purgatório? Depois de tudo aquilo que eu fiz? Mas sabe quantos anos já passei na prisão? 27!
- Ainda melhor, está habituado: e depois não esqueça que a cada 2.000 anos mais ou menos há uma amnistia geral, nem o tempo de ambientar-se e já está no Paraíso. Afinal...ehi, o que é isso também?
- Minha nossa, o que encontrou agora?
- Church Street, Pretoria, 20 de Maio de 1983: 19 mortos e mais de 200 feridos...e foi você que mandou explodir a bomba?
- Sim, mas eu sou um revolucionário...que dizer, não comunista, sou revolucionário mas bom...um ícone revolucionário, isso.
- Mas qual revolucionário? Mas qual ícone? Matou 19 inocentes, brancos e pretos, este é terrorismo: você é um terrorista!
- Impossível, deram-me o Nobel da Paz.
- Grande coisa, também deram o mesmo ao Obama...lamento, para os terroristas não há descontos, também o Osama fartou-se de chorar mas com estas coisas não se brinca: porta da esquerda.
- Mas sou Mandela, sou um ícone!
- Quero lá saber do ícone, porta da esquerda e já.
- Mas o apartheid?
- Aquilo fica, e ainda bem, mas também a bomba e os 19 mortos ficam. Porta da esquerda.
- Mas eu conheço Kofi Annan!
- Pois, outro que vai direitinho para a porta da esquerda. Não me faça perder tempo por favor, próximo!
- Mas eu conheço Bono Vox!
- Eh? Bono, aquele dos U2?
- Sim, aquele que investe em Forbes, no Facebook, no Dropbox, na Costa Azul, em Manhattan, na Califórnia, com Bill Gates, ele mesmo, o multimilionário, somos grandes amigos.
- Mas porque não disse isso logo? Bono Vox, Bill Gates, claro...quem acha que forneceu o software do arquivo, eh?
- Bono?
- Mas não, não, foi o amigo dele, o Gates. E Bono, já era simpático antes, depois, desde que escreveu a introdução ao Livro dos Salmos, imagine, lá em cima não lêem outra coisa: Rei David como Elvis Presley, esta foi o máximo, em cima adoraram, rock e Bíblia, o topo. Pronto, vamos fazer assim: o seu dossier fica aqui, aliás, vou emenda-lo eu pessoalmente e a seguir vou envia-lo para o arquivo.
- Agradeço, você é uma boa pessoa, vou dedicar-lhe uma das minhas frases célebres: "nascemos para testemunhar a Glória de Deus dentro de nós".
- Que maravilha, já viu? Esqueça o comunismo, não custou muito pois não?
- Gostou? Então oiça esta também: "Quem sou eu para ser brilhante, belo, talentoso, fabuloso? Na verdade, porque você não deveria ser? Você é um filho de Deus".
- Linda, linda, linda mesmo, bravo Nelson.
- E esta, eh? "Não gosto de matar nenhum ser vivo, nem sequer essas criaturas que nos enchem de medo".
- .....................................
- ah, tem razão, a bomba, esqueci-me...
- Próximo!


Ipse dixit.

8 comentários:

  1. maria8.12.13

    Ahahahahahahahah!!!Perfeito caríssimo! É nestas horas que a gente percebe onde brilha uma in teligência! Abraços

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  2. Anónimo8.12.13

    Que isso Max, todo morto é santo =]

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. ... e não tocamos na santa de Calcutá, que enviou medalhinhas e orações a vítimas de terremoto. Tudo gratuitamente pela gentil $doação$ dos fiéis.

    ops! hoje estou no tanque com as roupas a lavar...

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  5. Olá Max e amigos

    Hahahahah... que dirá o Pedrão quando Max alçar aos céus? Mas não para já, muitos anos de vida para ti e a imortalidade para teu humor e sutileza.

    Receio que o Pedrão escondeu mais informações que não foram apenas uma bombinha e uns poucos mortos... acho isso pouca coisa em relação aos diamantes!

    Ninguém achou estranho que a mulher dele, que o visitava e lutava para retirá-lo da cadeia,
    pouco depois dele ser liberto se divorciou dele?

    - olhe este link: http://www.youtube.com/watch?v=F39l9zy1p-U

    É pena, não tenho fotos ou vídeos dele com um dos Rockfeller, porque montagens de fotos nos videos em separado vira "calúnia"... http://www.newrepublic.com/article/mandela-diamond-shill

    Essa mensagem se autodestruirá assim que abrires o ultimo link, porque todo ancião negro morto não só é santo, mas deve ser canonizado... e toda loira é burra, menos eu!

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  6. Anónimo10.12.13

    "Certo dia, um professor entrou na sala de aula e disse aos alunos para se prepararem para uma prova relâmpago. Todos se sentiram assustados com o teste que viria.

    O professor entregou, então, a folha com a prova virada para baixo, como era de costume... Quando puderam ver, para surpresa de todos, não havia uma só pergunta ou texto, apenas um ponto negro no meio da folha.

    O professor, analisando a expressão surpresa de todos, disse:
    - Agora vocês vão escrever um texto sobre o que estão vendo.
    Todos os alunos, confusos, começaram a difícil tarefa. Terminado o tempo, o professor recolheu as folhas, colocou-se na frente da turma e começou a ler as redações em voz alta.
    Todas, sem exceção, definiram o ponto negro tentando dar explicações por sua presença no centro da folha.

    Após ler todas, a sala em silêncio, ele disse:

    - Esse teste não será para nota, apenas serve de aprendizado para todos nós. Ninguém falou sobre a folha em branco. Todos focaram as suas atenções no ponto negro. Assim acontece em nossas vidas. Temos uma folha em branco inteira para observar, aproveitar, mas sempre nos centralizamos nos pontos negros. Temos motivos para comemorar sempre a natureza que se renova, os amigos que se fazem presentes, o emprego que nos permite o sustento, os milagres que diariamente presenciamos. No entanto, insistimos em olhar apenas para o ponto negro. O problema de saúde que nos preocupa, a falta de dinheiro, o relacionamento difícil com um familiar, a decepção com um amigo. Os pontos negros são mínimos em comparação com tudo aquilo que temos diariamente, mas são eles que povoam nossa mente."

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  7. Depois o professor olhou para a turma:
    "Estou enganado ou falta alguém?"
    Um dos alunos levantou a mão para falar:
    "Senhor professor, falta o Zezé. Sabe, o pai dele perdeu o emprego e já não tem dinheiro para pagar o autocarro para a escola. Entretanto a mãe descobriu ter um tumor e está internada no hospital. O irmão poderia ajudar a mãe, mas foi preso ontem pela polícia porque manifestava contra a roubalheira do governo.
    Mas estes são os pontos pretos.
    A folha branca é que Tobias, o gato do Zezé, está uma maravilha".

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  8. Anónimo10.12.13

    Estou a imaginar no dia seguinte o professor decidir fazer uma nova prova relâmpago. Desta vez com dois pontos negros.
    Dias depois outra, mas já com 3 pontos negros, até que certo dia, habituados a tantos pontos negros que ia aumentando prova a prova, os alunos já não viam na folha quase nenhum espaço em branco.

    Não sei porquê, mas de repente lembrei-me da evolução do território que Israel vem conquistando à Palestina, e que começou com uns poucos pontos negros.

    Lembra-me também a divida dos países ao sistema financeiro, que à medida que o tempo passa, os pontos negros transformaram-se em mancha negra.

    Lembra-me o cancro que começa com um pequeno pontinho negro e depois se espalha.

    Se alguém um dia tiver que fazer uma redacção sobre uma folha com um ponto negro, o melhor é apagá-lo e devolver a folha ao professor, completamente branca.

    abraço
    Krowler

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