28 fevereiro 2013

China: marcha atrás. Grillo: em frente.

Wen Jiabao, o líder da China, decidiu fazer uma mudança de direcção. Antes a política de aumento do deficit em 50%, o que teria sido a salvação da Europa, agora é fechar as torneiras dos gastos e controlar a política monetária. E aumentar os impostos sobre os imóveis.

Como se não bastasse, há poucos reconheceu o Dólar como a moeda das próximas décadas. Pelos vistos não era apenas táctica.

Alguém conseguiu convence-lo? Parece. Quem? Não se sabe, mas podemos espreitar nos arredores de Harvard.

O quê significa tudo isso? Muitas coisas. Um revés na politica monetária europeia, luz verde para os Estados Unidos. E depois haveria o BRICS...

Em qualquer nação soberana, se o sector do governo reduzir os gastos públicos e aumentar os impostos, as empresas e os cidadãos são obrigados pôr mão ao bolso. É matemático. É como um jogo de cartas com dois participantes: se eu (governo) ganhar (reduzindo os gastos e aumentando os impostos), forço o outro jogador (o cidadão) a pagar. Um dos dois tem que perder, não é possível ganhar ambos.

27 fevereiro 2013

As lei da energia

O blog, como é sabido, publica com prazer artigos de autoria dos Leitores.
É este o caso do Anónimo, que é tal porque mais uma vez esqueci-me de pedir a autorização para publicar o nome real.
Acontece.

Olá a todos.

Eu uma vez disse ao Max que conseguia perceber melhor os problemas que atravessam a sociedade se os analisasse a partir do fator religião, e como ele já aceitou postar vários artigos anónimos sobre esse tema, eu escrevi mais este.
O Max diz que isto não é uma igreja, mas o certo é que muitas vezes é a partir do fator religião que se consegue perceber certos da sociedade, e esta não é só feita do fator economia...

Aqui vai:

Há uns tempos atrás, foi aqui postado este artigo. Eu gostaria de o levar ao próximo nível.

Há um campo da ciência que permite explicar tudo quanto está descrito na Bíblia e que, à vista dos céticos, pode parecer absurdo: é o campo que trata dos campos eletromagnéticos e energia.

26 fevereiro 2013

Os guardiões do futuro

Suzanna Arundhati Roy é uma escritora e activista anti-globalização, a primeira pessoa indiana a vencer o Man Booker Prize pela sua obra The God of Small Things (O Deus da Pequenas Coisas), em 1997.

No último livro dela, Walking with the Comrades (Caminhando com os Camaradas) escreve:

Aqui na Índia, mesmo no meio de tanta violência e ganância, há ainda esperança. Se os outros podem fazê-lo, nós também podemos. A nossa população ainda não tem sido completamente colonizada pelo sonho consumista.
Arundhati Roy
Ainda está viva entre nós a tradição daqueles que lutaram em favor da visão de Ghandi, da sustentabilidade e da independência económica, das idéias socialistas de igualdade e justiça social. Temos a visão de Ambedkar, um desafio para os "ghandistas" e os socialistas. Temos uma espectacular coligação de movimentos de resistência, com a experiência deles, compreensão e visão.
Mas a coisa mais importante é que, na Índia, sobrevive uma população adivasi (indígena) de 100 milhões de pessoas. Eles são os únicos que conhecem os segredos da sustentabilidade. Se essas pessoas desaparecerem, esses segredos desaparecem com eles. Guerras como a Operation Green Hunt [Operação Caçada Verde: acção militar do governo indiano contra alguns rebeldes das regiões Andhra Pradesh, Bihar, Chattisgarh, Jharkhand, Madhya Pradesh, Orissa, Uttar Pradesh e West Bengal, ndt] iria fazê-los desaparecer.

25 fevereiro 2013

Eleições Italia: é caos

Ainda não chegaram os resultados finais, mas as mais recentes projecções assumem um tom cada mais significativo, sendo que a margem de incerteza diminui.

Se as percentagens forem confirmadas, o Parlamento italiano dificilmente será governável.

Vamos ver mais em pormenor (com dados das horas 19:40).

2013: virar de esquina?

Quando o blog era bem mais jovem, costumava publicar com regularidade os relatórios GEAB (Global Europe Anticipation Bulletin).
Este é o boletim do Leap, um grupo de estudo, que tem como objectivo prever quais os desenvolvimentos económicos globais.

As "profecias" do GEAB muitas vezes tornaram-se factos, mas isso não esconde uma visão demasiado Euro-optimista que a realidade demonstrou não ter bases. Assim, as traduções do boletim deixaram de ter espaço no blog.

O último GEAB apresenta-se como particular: a previsão, neste caso, está relacionada com o segundo semestre de 2013, e vê um inevitável "crise sistémica global", um cenário de transição entre "antes" e "depois". E o "depois", naturalmente, deve ser visto como a reconstrução económico-financeira global.

Um dos pontos-chave do documento reside nas mudanças que estão a ocorrer no âmbito do petróleo e dos petrodólares. A notícia mais importante é esta: em 2005, o consumo de petróleo dos Países emergentes superou aquela dos Países ocidentais. E hoje esse processo ainda continua, acompanhado pelo clima de desconfiança em relação ao Dólar, que é a principal moeda no comércio do ouro negro (mas não podemos esquecer os sinais controversos que chegam da China). Este facto terá consequências de longo alcance.

24 fevereiro 2013

Eleições italianas: tudo claro.

Sendo o vosso blogueiro italiano, eis uma janela exclusiva acerca das eleições de hoje e de amanhã na alegre península.

Breve resumo: após a queda do governo Berlusconi, para conduzir o País foi chamado (e não eleito) Mario-GoldmanSach&CocaCola-Monti.

Este simpático indivíduo implementou as medidas de austeridade necessárias para que a situação económica do País piorasse com uma certa rapidez. Uma vez obtido o precioso resultado (e, de facto, a Italia está bem pior agora), Monti deixou o governo e o povo soberano de nada volta agora para as urnas.

Isso de forma sintética. Mas quais e como estão os partidos, os movimentos, as facções em jogo e as ideias deles?

Basicamente existem três grandes coligações (Esquerda, Centro e Direita), uma mini-coligação de extrema Esquerda (Comunistas) e o Movimento 5 Estrelas. Mais alguns partidos menores que não ganhariam nem se concorressem sozinhos.

Antes de mais: a situação apresenta-se bastante clara.

22 fevereiro 2013

Entre balas, sofá e gasolina

Como estão as coisas nos Estados Unidos?
Bem, não há dúvida. Alguns problemas, mas nada de realmente grave.

A cidade de Detroit, por exemplo, está perto da falência.
Mas os EUA são assim: há quem siga Chicago e as ideias dos economistas dela, há quem tente sobreviver apesar de ficar numa cidade falida. Pode não ser má uma ideia ver na capital da automóvel a directa consequência da capital do Illinois.

Alguns acreditam que o que se passa em Detroit seja uma antevisão dos tempos vindouros. Esperamos que não, porque esta cidade é em muitos aspectos um pesadelo. E não pode não assustar uma consideração: Detroit está bem perto da falência, mesmo sendo a sede das Big Three: Ford, General Motors e Chrysler.
Num ano em que tais companhias conseguem aumentar as vendas, a cidade afunda, o desemprego dispara, a criminalidade atinge o nível máximo.

"É o mercado". Lucros privados, perdas socializadas? Não é o mercado, é este mercado.

O voo dos pássaros e o esquema genial

Antes de tratar de coisas sérias, uma breve nota acerca da Zona NEuro, pois Bruxelas publicou as previsões económicas para o ano 2013.

Diário Público:
A economia portuguesa vai cair este ano 1,9%. [...] Segundo Bruxelas, o desemprego, que atingiu no ano passado 15,7% da população activa continuará a aumentar até atingir um "pico" de 17,5% este ano.
E estas são as previsões, imaginem a realidade...
Bruxelas assume sem rodeios que estas projecções – que contrastam com as suas anteriores estimativas e do Governo de um crescimento negativo de 1% este ano e de 1,8% no passado – constituíram uma evolução "inesperada" e mesmo uma "surpresa", que atribui sobretudo ao aumento do desemprego, à queda do consumo interno e à redução das exportações em resultado da deterioração da conjuntura europeia.
Sim, sem dúvida trata-se de algo "inesperado", uma verdadeira "surpresa": pessoalmente fiquei espantado e ainda tento reaver-me do choque. Este blog sempre defendeu que a austeridade é o caminho ideal para a retoma, pois a teoria é muito simples: retirar dinheiro aos cidadãos e entrega-lo aos bancos privados é a melhor forma para garantir o funcionamento da economia. O máximo seria retirar todo o dinheiro das carteiras, a economia só teria que ganhar com isso e alcançaria um estado muito próximo do Nirvana.

Esta, pelo menos, é a teoria; agora, porque na prática não funcione, é um autêntico mistério. Provavelmente é simples azar.

21 fevereiro 2013

Europa: o beco sem saída

Sim, eu sei: seria oportuno dedicar algumas linhas aos últimos acontecimentos na casa portuguesa, nomeadamente ao facto das previsões do governo acerca da recessão terem dobrado (em negativo: vai haver mais recessão), da necessidade de mais cortes (delira-se acerca de 800 milhões de Euros para serem encontrados algures), do mesmo governo pedir mais tempo aos (ir)responsáveis da Troika (basicamente Fundo Monetário Internacional e Bruxelas) quando até bem poucos dias excluía qualquer hipótese acerca disso...

Seria oportuno, de facto. Mas falta a vontade.
Seria repetir, mais uma vez, quanto já afirmado e reafirmado inúmeras vezes.

Os mais curiosos podem ir e procurar quanto escrito neste blog ao longo dos últimos dois anos e meio, podem ler os comentários de alguns Leitores que bem previram uma tal situação (olá Krowler!) e, no final, eventualmente chegar à mesma conclusão: este governo, este políticos (PDS ou PS: há diferença?) são os meros executores dum projecto que tem como objectivos principais devolver o dinheiro aos bancos (com juros, claro) e desmantelar o Estado. Ponto.
O resto é optional.

Meus senhores, estes gajos não são nada estúpidos (são incapazes, que é diferente): sabem muito bem, melhor do que nós, que a austeridade cria recessão. Sabem que retirar dinheiro a cidadãos e empresas significa deprimir a economia. É matemático. E se mesmo assim esta receita aparentemente suicida é seguida, então fica evidente que os objectivos são outros.

Do ponto de vista local, como afirmado, as metas estão claras.
Mas, como não existe só Portugal, no plano europeu?
Aqui o discurso é mais complexo.

O Dólar fica

O banco central chinês parece ter radicalmente revisto a abordagem acerca do poder económico e monetário dos Estados Unidos: anuncia que o Dólar continuará a ser a moeda-chave, o dinheiro de reserva ainda por décadas.

O dr. Jin Zhongxia, chefe do Instituto de Pesquisa do Banco Central, disse que a revolução energética e o ressurgimento das exportações por parte de Washington podem levar a um Dólar forte ainda ao longo de muito tempo:
O domínio global do dólar vai continuar.
Segundo o dr. Jin, o mundo está a mover-se em direcção dum sistema de "4+1 moedas", com o Dólar usado como um hub para todos os pagamentos no mundo, complementados por "quatro moedas menores": Euro (Europa), Libra (Reino Unido), Ien (Japão) e Yuan (China).

19 fevereiro 2013

Dívida, spread, austeridade

Um recente trabalho de Paul De Grauwe mostra como a austeridade nos Países PIGS (os falidos ou quase-falidos da Zona NEuro) é imposta com base no medo do spread, dos "sentimentos" dos mercados e não tendo em conta dados objectivos.

Paul Krugman compara a austeridade fiscal aos tratamentos da Idade Média, nos quais o médico retirava o sangue dos pacientes. Paul De Grauwe e Ji Yuemei (neste artigo em inglês) utilizam termos mais diplomáticos, mas as conclusões são as mesmas: é um flagrante fracasso político-económico.
E, além disso, injustificado.

De acordo com os dois economistas, os governos optaram por seguir o "sentimento" dos mercados em vez de racionalidade. O resultado foi a imposição duma austeridade pesada, sem que isso significasse melhorias nas taxas de juros sobre os Títulos de Estado dos Países em sofrimento. Pode custar ler isso, mas a verdade é que em Portugal, por exemplo, o spread desceu não por causa das medidas do governo mas por causa duma bem precisa intervenção do Banco Central Europeu.

Os vegetais de Todmorden

E se cada aldeia ou cidade cultivasse os seus próprios vegetais?

Na Inglaterra, no condado de West Yorkshire, já há um lugar onde são cultivados todas as hortaliças consumidas. É Todmorden, uma cidade de 14.000 habitantes, onde, desde o ano passado, os vegetais são cultivados nos canteiros e em outros espaços públicos.

Todmorden não é uma aldeia perdida no meio do nada: a cidade de Manchester fica aí ao lado, apenas 17 milhas. Tem boas estradas e duas linhas ferroviárias. Por isso: não necessidade, mas sim escolha.

A primeira experiência começou há poucos anos: os jardins que ficam na frente da estação da polícia foram os primeiros. Uma vez os legumes e outros vegetais terem crescidos, os cidadãos foram convidados a efectuar a livre colheita. E, coisa estranha, os habitantes actuaram de forma consciente, levando o necessário e deixando espaço e produtos para todos os que quisessem colher também.

O acesso aos espaços públicos, obviamente, é gratuito.

18 fevereiro 2013

BCE: simples, estúpido, mas funciona

Eis uma história...como dizer? Divertida? Não, não divertida mas curiosa.
Mas antes: um passo atrás.

Há pouco mais de um ano, o Banco Central Europeu foi atingido por uma ideia genial: criar o LTRO. Não o "litro", aquele já existe, mas o Long Term Refinancing Operation. O pensamento era tão simples como evidentemente estúpido: criar dinheiro e entrega-lo aos bancos para favorecer o crédito.

"Simples" porque, de facto, se faltar o dinheiro é lógico imprimir novas notas e distribui-las.

"Estúpido" porque a ideia parte do pressuposto segundo o qual o banco privado, uma vez recebido o dinheiro, vai tratar dos interesses da economia e não dos seus próprios.

Claro, depois havia também a necessidade de ajudar algumas instituições bancárias em sérias dificuldades; mas a tónica foi posta no ciclo do crédito que o LTRO deveria ter despoletado, na intenção de conter o credit crunch. Mais dinheiro aos bancos = mais dinheiro para cidadãos e empresas = retoma económica = saída da crise = triunfo. 

Cereja no topo do bolo: a entrega de dinheiro foi apresentada como um empréstimo, ao miserável interesse de 1%. Na mesma altura, os Países europeus em dificuldades pagavam (e ainda pagam) interesses bem maiores sobre as esmolas concedidas pela dupla FMI-BCE.

Total do LTRO? 1.000 biliões de Euros, um discreto montante criado a partir do nada.

Chevron, petróleo e migalhas

Os 400 indígenas da tribo indígenas Kitchwa vivem no coração do Parque Nacional Yasuní, no Equador: a mesma zona que a Chevron está prestes à invadir.
A empresa pretende pôr as mãos em 70.000 hectares de floresta, onde foram identificados reservas de petróleo avaliadas 7.2 milhões de Dólares.

Problema: a tribo não concorda.

A comunidade decidiu rejeitar uma oferta da da companhia petrolífera porque preocupadas com os efeitos a longo prazo no território dele.
Recentemente foi descoberto também que o chefe da aldeia, sem autorização, tinha assinado um contracto que dava a luz verde para a exploração. O documento deixa cair todas as ofertas anteriores: a construção de uma nova escola, a assistência sanitária aos habitantes e prevê uma compensação de apenas 40 Dólares por hectare. Mas mais de 80 por cento do indígenas é contrária e pronto para lutar com as armas para salvar a sua própria terra.

O xamã Patricio Jipa admite que haverá confrontos:
Certamente vai acabar em tragédia, só podemos morrer para defender a floresta. Seria melhor a resistência passiva, mas, neste caso, já não é possível. Não vamos começar, vamos tentar detê-los e, depois, aconteça o que tem que acontecer.

17 fevereiro 2013

Paraguai: histórias dum País longínquo

Da América Latina não é que na Europa muito seja conhecido, além dos lugares comuns do costume.
Do Paraguai ainda menos. Sim, existe um País com este nome, fica por ai, algures, não longe do Brasil. E até tem uma capital, chamada Asunción.

Depois, há dois anos, de repente o pequeno País ganha notoriedade: um procedimento de impeachment contra o presidente democraticamente eleito, Fernando Lugo. Figura estranha esta: um ex-bispo católico, agora político progressista, que quebra 61 anos de governo de centro-direita.

O impeachment continua, Lugo tem menos de 24 horas para preparar a própria defesa, o Senado (controlado pela oposição) reconhece o presidente como culpado da morte de 17 pessoas num choque entre polícia e camponeses e o cargo passa nas mãos do líder da oposição, Federico Franco. O centro-direita volta ao poder e o Paraguai desaparece do horizonte.
Até agora.

O IOR e a questão moral

Tanto para esclarecer: não há por aqui nenhuma cruzada anti-católica, não fosse pelo facto que na vida há coisas bem mais interessantes. Mas não é difícil circular na internet e encontrar dados curiosos, que obrigam a pensar.

O IOR, por exemplo, o Istituto per le Opere Religiose (Instituto para as Obras de Religião). Considerado por muitos como o "banco do Vaticano", na verdade é bem mais do que isso: é o organismo que administra todo o património económico da Santa Sé.

Após ter atravessado uma série assinalável de escândalos (Banco Ambrosiano, Enimont, Operação Sofia, Fiorani-Bpi, Anemone-Grandes Obras, reciclagem de dinheiro-Banco di Roma, Vatileaks), finalmente Papa Bento XVI nomeou no dia 15 deste mês Ernest von Freyberg qual novo presidente do concelho de supervisão da instituição.

Uma escolha meditada que, como afirma a Rádio do Vaticano, foi seguida de perto pelo Papa ao longo de todo o percurso. Podemos ler no comunicado da Santa Sé:
Um percurso de alguns meses, meticuloso e articulado, que permitiu avaliar muitos perfis de alto nível profissional e moral, também com a assistência duma agência internacional independente, líder na selecção de altos gestores de empresas.

15 fevereiro 2013

O Banco Mundial - Parte II: o BIS

A sede do BIS
No dia 23 de Dezembro de 2010, no blog tinha sido publicado um artigo com o título: O Banco Mundial - Parte I, que assim fechava: "Acaba aqui a  primeira parte do artigo. Em breve a segunda".

"Em breve" significa hoje, dois anos depois.
Sim, ok, sou pessoa um pouco distraída, problemas com isso? Olha só, nunca satisfeitos...

Bom, dizia: a primeira parte do artigo analisava o percurso histórico do Banco, enquanto hoje vamos ver as coisas do outro ponto de vista.
A razão é um artigo do Wall Street Journal, que bem conhece os bastidores da finança e que de certeza não pode ser considerado como um diário "conspirador".

Conta o Wall Street Journal:
A cada dois meses, mais de uma dúzia de banqueiros se encontram aqui, no domingo à noite, para conversar e jantar no 18 º andar de um edifício cilíndrico, com vista para o Reno [reuniões em Basileia, na Suíça, ndt].

As discussões durante o jantar, sobre o dinheiro e a economia, são mais do que académicas. Na mesa há os chefes dos principais bancos centrais de todo o mundo, representando os países que produzem anualmente mais de 51 triliões de dólares de produto interno bruto, três quartos da produção económica mundial.

14 fevereiro 2013

Citrinos & yogurt em molho grego. E português.

Portugal e Grécia.
Notícias boas e divertidas do primeiro, tristes e preocupantes do segundo.
Normal.

Portugal: 16.9% e basta de electricidade

Portugal acaba de bater um novo recorde. País virtuoso este, que nunca descansa: a taxa de desemprego atinge 16.9%, isso enquanto as previsões do governo apontavam 15.5%.

Este governo tem um dom muito particular: nunca acerta uma previsão, nem que seja por mero engano. Duma certa forma, é uma especialidade, temos que admitir.

Mas não há apenas notícias más, há também as boas.

Uma é que o Estado poupa: só 43% dos desempregados recebem um subsídio, os outros apanham moscas.

Outra é que ninguém terá de gastar tempo na procura das razões que justifiquem uma retoma económica. Isso porque a economia afunda: a economia portuguesa acentuou a queda no final do ano, -3,2% no total.
O governo tinha previsto - 3%, obviamente.
Desconfio que alguém tivesse avançado a percentagem correcta, mas imagino isso ter gerado uma dura polémica no governo: "Ehhhh? -3.2%? Mas estás louco o quê? Queres quebrar a tradição, queres começar a acertar nas previsões agora???" E a seguir porradas entre os Ministros. Este, repito, é apenas o meu palpite.

A Justiça da Rainha Branca

Comecei a ler um livro de Eduardo Galeano, Patas Arriba.
O Leitor pode pensar: "Problema teu".

Errado: porque depois espreito na internet e encontro o quê? Um artigo do mesmo Galeano. Então o problema passa a ser do Leitor também, pois, que goste ou não do Galeano, aqui vai o artigo dele traduzido.


 Odeio incomodá-lo: é a justiça do lado certo?
O atirador de sapatos iraquiano, que atirou os seus sapatos contra Bush, foi condenado a três anos de prisão. Ele não mereceria um prémio em vez disso?

Quem é o terrorista? O atirador de sapatos ou o alvo dele? O assassino em série que intencionalmente tem determinado a guerra no Iraque num terreno de mentiras, massacrando multidões de indivíduos, legalizando e ordenando a tortura de outros, não é talvez o verdadeiro terrorista?

O povo Atenco no México, as indígenas Mapuche do Chile, os Kekchies da Guatemala, os camponeses sem terra do Brasil, todos acusados ​​do crime de terrorismo por ter defendido os seus direitos e a sua terra, são os culpados? Se a terra for sagrada, mesmo que a lei não o especifique, aqueles que a defendem não são também sagrados?

13 fevereiro 2013

Os jovens de Beatriz


Este discurso, pronunciado há poucos dias em Cascais por Beatriz Talegón, tornou-se um vídeo que deu a volta ao mundo, com várias centenas de milhares de visualizações no Youtube e nos outros network.

Eis um trecho traduzido:
Quando as pessoas tomam as ruas de Madrid, de Bruxelas, do Cairo, de Beirute... não reclamam o que nós aqui, como socialistas convencidos queremos defender, reclamam o que o problema do capitalismo do livre mercado lhe causou com as suas consequências.

O que importa é que, infelizmente, não são os socialistas do mundo que têm incentivado a sair para as ruas ou a mexer-se, e o que temos de lamentar é que eles estão a pedir democracia, liberdade, fraternidade, estão a pedir educação pública, uma saúde pública e nós não estamos lá. [...]

Acção, reacção, inacção

Até poucas semanas atrás o mundo era um lugar bem inquieto: havia uma guerra civil na Síria, um Egipto em crise profunda, uma Líbia onde as pessoas continuam a morrer, uma intervenção "humanitária" no Mali, uma Tunísia que eliminava a oposição.

Enfim: havia uma Democracia que avançava alegremente.

De repente tudo isso mudou: entre um Carnaval sul-americano, uma vaga de frio e um idoso que pede a reforma antecipada, o mundo tornou-se um lugar melhor.

Explodiu a paz? Talvez não, talvez os problemas permaneçam.
Simplesmente: há assuntos mais "importantes".

Do Mali

Na França, o presidente socialista Hollande e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Fabius justificam a intervenção no Mali como "luta contra o terrorismo que interessa não apenas a França mas a Europa toda". A Europa toda? Pois, isso mesmo.

Bernard-Henry Lévy, o filósofo-empreendedor orgulhosamente hebraico, amigo pessoal de Sarkozy, afirma que a intervenção francesa contra as tropas islâmicas "confirma o plano dos deveres de protecção já estabelecidos pela intervenção na Líbia". O que significa: uma vez estabelece um precedente, duas vezes torna-se lei. E uma vez estabelecida a lei, tudo é justificado.

12 fevereiro 2013

Um mundo sem taxas

Hoje é dia de Carnaval.
Uma boa ocasião para falar dum assunto que não tem nada a ver com a data.

Alguém se lembra da Modern Money Theory, a MMT? Não?
Não faz mal, vamos com ordem.

Em Italia, Silvio Berlusconi (sempre ele) parece ser o novo adepto desta teoria. Normal: se a tiver sucesso fosse a manteiga, o simpático Silvio afirmaria ter sido ele a inventar o leite.
O que afirma o indivíduo? Promete a abolição de algumas taxas mais um perdão para todos aqueles que ainda não pagaram o devido. Podemos pensar: a típica promessa da campanha eleitoral. Sim, sem dúvida as motivações são estas.

E é uma pena, pois a mensagem tem um fundo de verdade. Aliás, mais do que um fundo: tem a essência duma "nova" (aspas obrigatórias) forma de conceber o Estado e as funções dele.

11 fevereiro 2013

O Papa foi-se

Pois é: o Papa foi-se.

Ás 11:49 (hora de Roma), Bento XVI anunciou em latim (gentilmente traduzido por mim...até que enfim: as horas aborrecidas no Liceu servem para alguma coisa):
Bem consciente deste acto, com plena liberdade, declaro de abdicar do ministério de Bispo de Roma, sucessor de São Pedro, a mim entregue pelas mãos dos cardeais no dia 19 de Abril de 2005.
Eis o texto integral, tal como lido pelo Papa:
Bene conscius sum hoc munus secundum suam essentiam spiritualem non solum agendo et loquendo exsequi debere, sed non minus patiendo et orando. Attamen in mundo nostri temporis rapidis mutationibus subiecto et quaestionibus magni ponderis pro vita fidei perturbato ad navem Sancti Petri gubernandam et ad annuntiandum Evangelium etiam vigor quidam corporis et animae necessarius est, qui ultimis mensibus in me modo tali minuitur, ut incapacitatem meam ad ministerium mihi commissum bene administrandum agnoscere debeam. Quapropter bene conscius ponderis huius actus plena libertate declaro me ministerio Episcopi Romae, Successoris Sancti Petri, mihi per manus Cardinalium die 19 aprilis MMV commissum renuntiare ita ut a die 28 februarii MMXIII, hora 29, sedes Romae, sedes Sancti Petri vacet et Conclave ad eligendum novum Summum Pontificem ab his quibus competit convocandum esse.
Fratres carissimi, ex toto corde gratias ago vobis pro omni amore et labore, quo mecum pondus ministerii mei portastis et veniam peto pro omnibus defectibus meis. Nunc autem Sanctam Dei Ecclesiam curae Summi eius Pastoris, Domini nostri Iesu Christi confidimus sanctamque eius Matrem Mariam imploramus, ut patribus Cardinalibus in eligendo novo Summo Pontifice materna sua bonitate assistat. Quod ad me attinet etiam in futuro vita orationi dedicata Sanctae Ecclesiae Dei toto ex corde servire velim.

Tradução:
Vou-me embora.

Euro-Trolls

Interessante artigo do Daily Telegraph, alegremente ignorado no resto do Velho Continente.

Para os mais distraídos: no próximo ano teremos eleições europeias, fundamentais para eleger um parlamento inútil que aprova as decisões tomadas pela Comissão Europeia, isso é, pessoas que nunca foram eleitas. Portanto, um ponto alto da democracia.

E como correm os preparativos? Correm bem. O diário inglês realça como o Parlamento Europeu irá gastar cerca de 2 milhões de Libras para pagar trolls e debunker, com o fim de controlar e bloquear os eurocépticos nos debates na internet durante a campanha eleitoral. 

Trolls? Debunker? Isso mesmo.
Wikipedia:
Um troll, na gíria da internet, designa uma pessoa cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão, provocar e enfurecer as pessoas envolvidas nelas.
Debunker, por sua vez, é traduzido com o termo "desenganador".
Então a União Europeia vai pagar pessoas para desestabilizar, provocar, enfurecer e desenganar as pessoas? Assim parece.

10 fevereiro 2013

Há crise e crise

Do Sul até o Norte, tudo em três semanas, sem parar um dia. Com meios de transportes públicos e privados. Espreitar, falar, ouvir. Comer, claro: afinal sempre Italia é. E comparar.

Já fazia um tempo que não passeava pelo "Bel Paese" e a altura foi a melhor: um País em crise, no meio duma campanha eleitoral, após o reinado do homem da Goldman Sachs, Mario Monti.

Começamos pelo fim: a crise. Seria difícil convencer um português de que a Italia está no meio duma profunda crise. Aparentemente tudo continua na mesma, é preciso falar com as pessoas para entender. E, verdade seja dita, mesmo assim pode não ser simples. A razão é óbvia: a Italia goza ainda dum padrão de vida bem superior.

Se no Sul existem problemas antigos (melhorados mas nunca resolvidos), com o Norte a comparação é impiedosa. É suficiente parar à beira duma estrada e observar os carros passar: na maioria são automóveis novos, e não, não são Fiat Panda.

Um pouco mais de atenção: há lojas, muitas. Nada de ruas com montras fechadas (tipo Almada), o comercio tradicional está vivo. Talvez não em excelente saúde, mas vivo. Mas este pode depender de outro factor: aqui, como em França por exemplo, não há centros comerciais no meio da cidades, e isso tem uma enorme importância. A falsa ideia de que "afinal o centro comercial gera emprego" não pegou, para boa sorte.

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