25 fevereiro 2014

A Revolta de Tau

Vivemos num mundo estranho.

E "estranho" é um eufemismo. Haveria espaço para mais do que isso, muito mais.

Todavia, nada acontece. Deixamos que poucos decidam as nossas vidas e o futuro dos nossos filhos.
E já sabemos que o futuro dos nossos filhos será, na melhor das hipóteses, igual ao nosso.

Porque as pessoas não se rebelam? Rebelar-se não significa necessariamente pegar nas armas e partir tudo: há rebeliões pacíficas, construídas com as palavras, os acordos, as iniciativas.

Povos, pessoas, gente, massas, podemos defini-los de várias formas, mas a substância é sempre a mesma: nós, os que vivem nesta sociedade. Os sem-reacção.
Porque?

Desde já: não tenho a resposta. Circulam possíveis explicações, várias delas.
Estas:
  • Resposta nº 1: As pessoas estão bem, ou melhor, ainda não suficientemente mal.
A implicação disso é que a altura da mudança chega quando o cidadãos está muito mal, quando ficar na miséria, com fome. Mas esta ideia é errada. Se estivesse correta, os gulag de Stalin, por exemplo, teriam sido focos contínuos de revolta, e sabemos que não era assim. A miséria não é uma condição suficiente para a revolta: os trabalhadores protagonistas das duras lutas nos anos sessenta e setenta do século XX não eram pessoas ricas mas nem miseráveis ​que morriam de fome. Na altura da Revolução Industrial, os trabalhadores viviam em condições bem piores: mas, apesar disso, não foi houve revoluções dignas de realce.
  • Resposta nº 2: As coisas ainda não pioraram realmente.
A implicação desta resposta (que leva em conta as objecções da resposta 1) é que a rebelião terá efeito não com o sofrimento, mas quando a pessoa experimenta uma acentuada deterioração das suas condições de vida. Este argumento é facilmente refutado pelo exemplo do povo grego, que há anos tem visto as suas condições de vida deteriorar-se de forma drástica, sem que isso estivesse na origem duma uma revolta genuína. Até na Europa e nos Estados Unidos as condições pioraram, mas de rebelião nem a sombra.
  • Resposta nº 3: Falta um grupo organizativo.
Isso significa que as classes mais baixas não têm uma organização que possa gerir uma luta reformadora. Esta resposta, é óbvio, capta uma parte da realidade. Mas a questão é que nem sempre, nas grandes mudanças históricas, há uma equipa de liderança já formada. Há algumas pessoas mais capazes de compreender e gerir, mas dificilmente existe uma liderança pronta, unida e brilhante. Na França de 1789, por exemplo, a equipa de gestão não estava lá. Foi a revolução que forjou os dirigentes. Em muitos casos, embora não em todos, os grupos dirigentes são formados directamente no fogo do combate. Mas as chamas do fogo não podem ser formadas.
  • Resposta nº 4: As pessoas são corruptas.
Dito de outra forma: a corrupção, a ilegalidade, o abuso de poder têm contaminado até as classes mais baixas, que por isso não se rebelam perante o triste espectáculo oferecido pelas classes dominantes; acham ser normal, e no lugar deles fariam o mesmo. Outra vez: é uma resposta que captura alguns elementos da realidade, mas que parece insuficiente. Não há um sentimento comum de aceitação na mente da maioria das pessoas; o desprezo generalizado contra os políticos atesta o contrário. Esta atitude pode mudar a segunda do lugar, mas afirmar que na maior parte dos Países as pessoas já aceitam a ilegalidade não é correcto. 
  • Resposta nº 5: Somos demasiados individualistas.
Ou seja: a ideologia neo-liberal penetrou tão profundamente nas nossas mentes e agora todos nós temos uma comportamento igual ao homo economicus, friamente calculador dos nossos próprios interesses materiais e afastado de qualquer ideologia ou valor humano. A objecção neste caso é fácil: é mesmo do frio ponto de vista interesseiro que haveria a clara necessidade de revolta colectiva. É claro que o projecto das classes dominantes internacionais é a destruição dos direitos e a queda dos rendimentos das classes média e baixa. O indivíduo pode fazer bem pouco perante isso, então a revolta colectiva parece a única estratégia racional.
  • Resposta nº 6: Falta a ideia duma sociedade alternativa.
Isso é: o colapso do Comunismo levou consigo todos os tipos de revolta popular, o Capitalismo (ou aquele que ainda definimos como tal) é concebido como única realidade possível e o que se passa mais parece um desastre natural, em relação ao qual a rebelião não faz sentido. Também nesta resposta há elementos da realidade, mas a explicação parece insuficiente: na verdade, os camponeses rebelaram-se muitas vezes no Ocidente (e em outros lugares) sem que tivessem nenhuma ideia de sociedade nova e alternativa, mas sim para restaurar as antigas relações sociais, preocupados pelas recentes inovações ou pela chegada de "novos senhores". As grandes revoltas camponesas na China nunca subverteram a ordem sócio-económica, mas, quando vitoriosas, substituíam uma dinastia com outra. Algo semelhante pode ser dito acerca das revoltas de escravos, que quase nunca colocavam em causa a ordem social baseada na escravidão. O Comunismo é um produto recente e, antes da Revolução de Outubro de 1917, nunca esteve na base duma revolta.
  • Resposta nº 7: As pessoas não entendem, são temas difíceis.
Que podemos resumir assim: as pessoas são estúpidas, ou as pessoas não entendem quais os seus próprios interesses, não entendem como estão a ser ameaçadas pelas classes dominantes. Como explicação não é grande coisa: os camponeses chineses ou os franceses não eram especialistas em política ou economia, limitavam-se a distinguir o bem do mal. Portanto, não há necessidade de rebelar-se para só depois ter ideias claras acerca das dinâmicas sócio- económicas. Quanto ao argumento mais cru "as pessoas são estúpidas", é algo que é difícil de tratar, devido à sua imprecisão (o que é estupidez? Como medi-la?).

Em qualquer caso, mesmo admitindo esta "estupidez" (seja lá o que for), não seria uma explicação mas por sua vez um problema para resolver. Por qual razão as pessoas tornam-se estúpidas? Também parece estranho afirmar que a grande maioria da população, composta por todos aqueles que têm a perder com a actual dinâmica social e económica (donas de casa, trabalhadores, aposentados, professores universitários, etc.), tornou-se estúpida na sua totalidade.

As pessoas são estúpidas porque não se rebelam? Mas então é como afirmar que não se rebelam porque são estúpidas e são estúpidas porque não se rebelam. Acho que isso tem um nome: tautologia ou algo assim (do grego Tau = Estúpido...ok, ok, estou a brincar).


Resumindo: não há uma única resposta clara, cada uma delas contém porções de verdade, mas nenhuma parece realmente "centrar" o problema. Talvez sejam precisos outros instrumentos: a filosofia, a antropologia, a psicologia. Ou talvez sou eu que sou Tau...

Aceitam-se sugestões.


Ipse dixit.

Nota: fui espreitar na Wikipedia e, em boa verdade, a tautologia é uma coisa ligeiramente diferente.
Tá bom, não é que agora posso mudar o post todo, não é?
Estúpida Wikipedia...

7 comentários:

  1. maria25.2.14

    Só acrescentando uma possível causa, Max, e juntando com mil outras, claro: as pessoas não pensam rebelar-se porque não têm tempo para pensar que as coisas poderiam ser diferentes. Isto me parece um bom motivo. Dá para perceber que o/a cidadão/ã médio/a sujeito/a às regras mais gerais da sociedade ocupa o tempo todo trabalhando em coisas estúpidas, estudando coisas mais estúpidas, divertindo-se com coisas ainda mais estúpidas, e regidas por interesses e gostos individuais e familiares, além dos corporativos. Pronto... o tempo de cada um e da sociedade, como um todo assim se esvai...e não há condições de alguma coisa séria acontecer. São só divagações...Abraços

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  2. anónimo 5625.2.14

    A sociedade é a extensão do individuo.

    Se somos criaturas egoistas,ganaciosas, invejosas, violentas, intolerantes, etc... etc...
    a sociedade e o mundo será igualmente doentio.


    Só uma mudança no interior de cada indivíduo, poderia modificar este estado de coisas.


    Que existem forças empenhadas em acelerar a degradação da humanidade, todos aqui mais ou menos o sabemos.

    A probabilidade de mudar o mundo para melhor é algo mais que improvável.

    O problema é mais profundo... e individual.

    A sua solução reside na regeneração humana oculta na "ciência" das religiões.

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  3. Anónimo26.2.14

    Um bom motivo: as pessoas têm algo a perder.
    Quando as coisas funcionam como funcionam, o pouco que se tem está em risco (embora muitos não o percebam), mas ainda não desapareceu. Numa sociedade alternativa, muita coisa iria desaparecer (por não dar dinheiro a ninguém) e isso inclui muita coisa que as pessoas estão acostumadas.
    Além disso, duas coisas: a primeira é que ninguém imagina como é que as coisas poderiam funcionar de outro modo, a segunda é que a maioria das pessoas (ainda) não vive na miséria para desejar algo melhor.

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  4. É isso aí, "nóis até tem vontade mais num sabe como fazê", então tá.

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  5. Anónimo26.2.14

    Uma terceira coisa ainda: por muito mal que estivessem na vida, as pessoas poderiam achar que essa possibilidade intrínseca às regras do sistema é um mal necessário para que o sistema funcionar, sem que nada tenha de ser corrigido.

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  6. Anónimo27.2.14

    Vendo de outra maneira e é algo que está a acontecer por exemplo no Iraque e outros pontos mas que claro não são notícia.
    Quando muitas pessoas perdem ou perderam tudo(até familiares) e já não têm nada a perder. Se isso acontece quem é que os segura? Para respostas extremas, medidas extremas. Quando já nada funciona.
    Nuno

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  7. Chaplin28.2.14

    A origem está na formação do indivíduo, condicionando-o para que na sua idade adulta identifique sua condição de subserviente como seu destino "natural". Essa força domadora da sociedade chama-se Poder dominador. Percebe-se claramente na história o quanto essas questões fundamentais jamais são modificáveis. O que muda são suas ferramentas e instrumentais, como a representada atualmente pela alta tecnologia. O conjunto de valores é hierarquizado, passando pelas religiões, ciências, onde a filosofia, única fonte de enfrentamento, fui expurgada da
    vida cotidiana por representar um risco a única ideologia praticada. A burguesa sionista.

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