26 fevereiro 2014

O mercado dos escravos

O mercado dos escravos nunca acabou. Mudou de nome, mas a essência não.

Hoje é um volume de negócio de 10 biliões de Euros por ano, segundo as estimativas da ONU, atrás só do mercado da droga. E, como as drogas, tem custos: a agência Frontex, que controla (mal) as fronteiras externas da União Europeia, investe a cada ano 85 milhões de Euros, isso enquanto um traficante da África ganha 5 ou 6 milhões, sempre por ano.

Uma viagem ilegal entre o Afeganistão e o Reino Unido tem um preço de 25.000 €, de Bangladesh para o Brasil 10.000 €, da China para o Reino Unido 40.000 €, da Coreia do Norte à Coreia do Sul 6.000 €, do México para os Estados Unidos entre 1.000 e 4.000 €.

Andrea Di Nicola é um criminólogo da Universidade de Trento, Italia, enquanto Giampaolo Musumeci é jornalista. Juntos, tentaram descrever o fenómeno num livro, Confessioni di un Trafficante di Uomini ("Confissões dum Traficante de Homens"), depois foram convidados para escrever no blog de Beppe Grillo.
Andrea Di Nicola: Giampaolo e eu colocámos as nossas experiências por algo que nunca tinha sido falado em Itália: o que está por trás da imigração ilegal.
O que está por trás desses fenómenos? Como é organizada a imigração ilegal? Procurámos por toda a Europa, a África e outros lugares no mundo, muitos, para falar com contrabandistas e entender como organizam o negócio da imigração ilegal.

Giampaolo Musumeci: Diz bem Andrea, é um negócio e aqueles são empresários. Os contrabandistas são empreendedores de facto. Aqueles que conhecemos explicaram como organizam o trabalho, como encontram os clientes, assim quais os locais de origem e de destino; e entre as dezenas de traficantes, mais ou menos de alto calibre, encontramos El Douly, 40 anos de idade, inteligente, muito sensível, que lê os jornais internacionais todos os dias, quando pode, informa-se sobre o que está a acontecer no Egipto, tem uma rede de colaboradores no território, trabalha com uma rede da Líbia que faz chegar os seus clientes até a Itália.
El Douly, o "Internacional" porque tem viajado. Descobriu que podia ser traficante de homens na década de 90, no Iraque, porque é onde conheceu o seu mentor, um traficante que ajudou os desertores do exército iraquiano para escapar durante a guerra no Golfo.
Andrea Di Nicola: Temos ouvido a voz de El Douly, quando perguntámos sobre quem é o maior na sua rede, ele olhou para nós e disse: "Vocês não entendem nada, aqui não há um maior, somos actores numa grande rede, mas somos todos iguais, somos nós, e estas redes estão baseadas na confiança".
Esta é a razão pela qual é difícil alcança-los. É algo fluido, flexível, impenetrável pelas investigações internacionais, a justiça, e mexe entre as fronteiras um monte de dinheiro, recursos substanciais e de capital, que são reinvestidos em outras actividades criminosas.

A este respeito, Oran, um pequeno traficante turco, contou sobre a grande organização de Muammer Küçük, um dos maiores, o chefe da imigração ilegal do Bósforo.

Ele mexe milhões de Euros e milhares de pessoas da Síria, Afeganistão, Paquistão, através da Turquia para a Itália, em barcos, e tem uma grande rede de nós e actores trabalham só para ele.
E circula este dinheiro, dinheiro ilegal. Oran era um pequeno traficante, um peão utilizado por um grande traficante, Muammer Küçük, que ainda está foragido, enquanto pessoas como Oran estão em prisões italianas ou em outros países europeus. Isso faz reflectir sobre estas grandes organizações criminosas.

Giampaolo Musumeci: O que tentamos descrever em Confessioni di un Trafficante di Uomini é a maior agência de viagens no mundo do crime, uma rede composta de pessoas, que ajudam os clientes a atravessar a fronteira ilegalmente.
Isto é baseado na necessidade e nos sonhos desesperados de muitas pessoas.
A "agência de viagens" que descrevemos nas obras trabalha para encontrar uma entrada para a fortaleza da Europa, portanto, com os métodos mais engenhosos, como iates de luxo, ninguém suspeitaria que traz imigrantes ilegais.

O que significa "agência de viagens"?
Isso significa que um grande operador como El Douly, tem os seus colaboradores no terreno, os que interceptam a questão da imigração. Se você é um jovem egípcio que quer ir para a Espanha, entrará em contacto com o meu agente na aldeia de El Douly, e este agente vai entrar em contacto comigo, eu estabeleço o preço, El Douly permite que eu faça que você atravesse a fronteira do Egipto com a Líbia, até Benghazi, por exemplo, ou Zuara ou Tripoli e outros portos da Líbia; e aí El Douly vai garantir-me o contacto com o contrabandista da Líbia que permite chegar até Lampedusa.
Faço este exemplo porque enquanto estávamos com El Douly, no Cairo, num shopping, numa certa altura o telefone toca e era um cliente que queria ir para a Espanha; temos assistido ao telefonema, a duração, na verdade alguns minutos. Falaram um pouco de dinheiro, do destino, El Douly tranquilizou o cliente, pode mandá-lo para a Espanha.

Andrea Di Nicola: É uma agência de viagens com um enorme volume de negócios ilegais, a ONU fala de cerca de 10 biliões de Euros, um negócio que só perde para o tráfico de drogas.
Só na África, estamos a falar de cerca de 150 milhões de Euros e os traficantes como Khabir ganham 5 ou 6 milhões por ano. Pensem que na Frontex, a agência para o controlo das fronteiras externas da União Europeia, são investidos a cada ano apenas 85 milhões de Euros, o que dá a ideia do poder económico deste sistema.


Alguns números para entender: do Afeganistão para o Reino Unido 25.000 €, do Bangladesh ao Brasil 10.000, da China para o Reino Unido 40.000, da Coreia do Norte à Coreia do Sul 6.000; há todo o mundo, do México para os Estados Unidos uns mil - quatro mil Euros. Os traficantes turcos pedem 4-7.000 Euro, dependendo do que os clientes podem pagar, porque esta é uma agência de viagens real, pouco sobra para os scafisti [as pessoas que transportam os clientes de barco até o destino, ndt], cada um ganha por viagem 5.000 Dólares, transportando 50 pessoas.

Traficantes como Cuchuk fazem chegar dezenas e dezenas de pequenas e grandes embarcações, um enorme fluxo de dinheiro que é drenado de economias já na miséria e que é reinvestido em outras actividades criminosas, ilegais.

Giampaolo Musumeci: Os "operadores turísticos", os organizadores desta agência de viagens mundial, oferecem uma variedade de pacotes, é claro, a Itália é um dos destinos principais, mas muitas vezes não é o destino final, os migrantes querem ir para o norte da Europa, porque há o estatuto de refugiado político que oferece maiores garantias.

Esta agência de viagens é eficiente e eficaz no estudo de novas rotas, Andrea citou as patrulhas da Frontex e Lampedusa: se a rota estiver fechada, porque há mais patrulhas, logo em seguida esta grande rede vai encontrar uma outra rota, aquela terrestre turca, o rio Ebro [Espanha, ndt]. Aquela fronteira está fechada? Bem, o operador turístico vai pensar em outro caminho, que é aquela que passa pelas montanhas da Bulgária.
O que acontece então? Que o caminho é mais longo, há que fazer muitos mais

Andrea Di Nicola: A questão é infinita, um traficante como Khabir, um paquistanês que encontrámos na Itália, disse que não faz nada de errado, que realiza sonhos, e vende estes sonhos para as pessoas, e que mesmo que dissesse que hoje a Itália não é mais a terra das oportunidades, eles queriam ir igualmente, então melhor que viagem com ele porque é capaz de transporta-los. Ele aproveita a oportunidade, a vulnerabilidade do sistema, faz chegar pashtuns paquistaneses para ser exacto, a partir das aldeias no Paquistão e no Afeganistão, e fá-los chegar com uma autorização de residência regular, sazonal, esta é uma vulnerabilidade, faz um acordo com uma empresa agrícola depois faz pagar aos compatriotas encargos de 5 a 8 mil Euros; estas pessoas não chegam em Lampedusa, não chegam de barco, mas de avião, e quando chegam ele diz: "Rasguem as roupas, têm que ir para o centro mais próximo e dizer que vocês são afegãos e pedem asilo político, ninguém vai notar porque vocês sabem falar pashtun".

Giampaolo Musumeci: O negócio de tráfico de seres humanos, o contrabando, é um negócio que nunca vai acabar, sem actuar nas economias pobres, deprimidas, é óbvio que estas pessoas vão querer mudar de lugar.
quilómetros a pé, o caminho se torna mais arriscado e mais caro. E talvez chegamos ao paradoxo de que quanto mais a Europa se fecha, quanto mais Frontex gastar em dinheiro e patrulha, tanto mais factura Muammer Küçük porque os imigrantes têm de gastar mais dinheiro.
E todos entende isso, mesmo aqueles que são, talvez, o último elo neste negócio, nesta rede, como Alexander, que com grande clareza e força diz: "Atenção, Moisés foi o primeiro scafista da história".

Ipse dixit.

Fonte: o artigo apareceu este mês no blog de Beppe Grillo, ao endereço http://www.beppegrillo.it/2014/02/passaparola_i_t.html que, nesta altura, resulta não alcançável. O link directo será reposto logo que possível.

1 comentário:

  1. maria2.3.14

    Olá Max: como a escravatura continua, travestida de assalariada, é de se esperar que o tráfico, outrora chamado negreiro, porque eram os africanos negros os mais aptos a serem remetidos ao novo continente (meio milhão por volta de 1750 nos EUA e 4 milhões para o Brasil), assim também continua a migração forçada do escravo contemporâneo. A diferença é que o serviço estendeu-se para outras etnias, circula pelo mundo todo, e a servidão é mais do que nunca voluntária e tida e havida como oportunidade. Abraços

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