30 abril 2014

O Anti-Fascismo

Passou há pouco o dia 25 de Abril.

Por um mero acaso, é festividade nacional em Portugal e na Italia também: em Lisboa celebra-se a Revolução dos Cravos e o fim do regime salazarista, em Italia o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim do regime fascista de Mussolini.

Discursos, reportagens, bandeiras, algumas lágrimas. O fascismo italiano acabou há mais de 60 anos, aquele português há 40 anos.

Em ambos os casos, não faz sentido o sobreviver dum antifascismo "clássico": épocas que acabaram e se tivessem de voltar seria com outros moldes. Mas um anti-fascismo sem fascismo e feito de fotografias amareladas não é apenas inútil: até é prejudicial, porque em muitos casos é apenas um álibi para não ser anti-capitalista.

Hoje ninguém, ou quase, tem a coragem necessária para afirmar publicamente que o nosso sistema tem que ser trocado por outro. Há críticas, sem dúvida, mas o teorema de fundo é sempre o mesmo: o sistema é bom, tem algumas arestas, mas basicamente o conceito é saudável. Misturam-se ideias diferentes, como Democracia, Liberdade, República, e apresenta-se tudo como se fosse um monólito, algo que tem de ser aceite em bloco: ou assim ou nada.

Então podemos observar um Partido Comunista que já não fala de revolução (e ainda bem, faltava só uma revolução comunista), limita-se a berrar contra os "patrões" e a pedir o aumento dos salários. Como se esta fosse a solução. Nas últimas eleições até era visível um slogan que teria sido anedótico se não tivesse sido muito triste: um Partido Comunista "patriótico". Só numa sociedade que já não sabe nem que horas são é possível falar dum Comunismo "patriótico".

Eu não sou comunista, mas esta silenciosa aceitação do sistema por parte de quem deveria constituir uma frente tipicamente popular é um dramático sinal das condições nas quais vivemos. Porque as bandeiras e as flores, assim como os sermões do dia 25, servem apenas para esconder o fascismo no qual vivemos. Um fascismo sem uma matriz ideológica tão forte como nas épocas dum Mussolini, dum Salazar, dum Franco: mas por isso ainda mais subtil e perverso, porque camuflado.

É um fascismo novo, pois os tempos mudaram: nada de camisolas pretas ou saudações romanas. Hoje o hierarca é o CEO. Atenção: não o "patrão" (termo já por si idiota), mas o executivo duma grande empresa, possivelmente multinacional.

O papel que era da Igreja Católica, sempre próxima dos poderes autoritários, foi ocupado pelos partidos políticos: são eles que agora encaminham as massas para os rituais (as eleições), são eles que falam de esperança (a luz no fundo do túnel), são eles que recolhem o dinheiro (para auto-alimentar-se e para premiar os homens do sistema), são eles que mantêm ocupado o cidadão no tempo livre (com uma boa grelha televisiva).

A única diferença é que a Igreja, pelo menos, era mais honesta: sempre disse de trabalhar para o futuro das nossas almas, não mentia acerca do presente, feito hoje de desemprego, precariedade no trabalho, exploração, insegurança, corrupção, privatizações selvagens, injustiças, usurpações. O cacete utilizado todos os dias chama-se nestes tempos "economia": já não bate nas cabeças, não é preciso, pois é muito mais eficiente tratar da nossa carteira.

Quantas vezes ainda será preciso lembrar do passado para abrir os olhos sobre o presente?
O anti-fascismo, hoje, fica à defesa do barril de pólvora enquanto tudo em volta desmorona.

A espiral descendente da Esquerda pode ser lida nos temas tratados: as condições dos imigrantes (os imigrantes?!? Fomos nós, o Ocidente, que empobrecemos até a fome aquela gente! Mas claro está, melhor fazê-los "circular" como mercadorias em vez que lutar para restituir-lhes os bens roubados), o casamento gay, o aborto, o racismo, etc. etc. Tudo muito bonito, tudo muito emocional, um tudo que serve para manter as mentes ocupadas, de forma a não poder ver qual o verdadeiro inimigo.

Isso enquanto a Direita fica cristalizada na defesa dum sistema ultra-liberal, como se este fosse o único dever duma ideologia que já viu pensadores de bem outro nível.

E, numa farsa socialmente aceite, temos que ouvir indivíduos partidários que enchem as suas bocas com termos como "Liberdade" ou "Ideais". Eles, que o máximo que fazem para este País é sentar-se (e nem sempre) na Assembleia da República e obedecer às ordens do partido. Como podem pessoas assim nem sequer falar de homens que talvez não falavam o politicamente correcto, mas que não hesitaram em fazer quando era preciso, arriscando as suas próprias vidas em prol de todos?

Este Portugal, País que tem um Presidente da República mentecapto que nunca vestiu um cravo vermelho, símbolo da liberdade reencontrada, até proibiu que os Capitães de Abril falassem este ano no Parlamento: um Parlamento que eles construiriam, com a coragem deles. Um País sem memória, que lembra dos Valores de Abril explicados por quem aqueles mesmos Valores vendeu.
O que sobrou do 25 de Abril?

A ditadura em que vivemos hoje é suave e educada: mas escraviza na mesma.
Não seria mal deixar as bandeiras no armário, pôr "Esquerda" e "Direita" na naftalina e começar a pensar num novo 25 de Abril em nome do que realmente conta: nós.


Ipse dixit.

8 comentários:

  1. Anónimo30.4.14

    Sim Max, todos nós aqui no blog sabemos isso, o facto de por cá andarmos ( excepto algumas anormalidades cognitivas ) significa tambem isso.
    O que nós não sabemos e aparentemente ninguem sabe é como fazer a "revolução", ideias há muitas, mas o comodismo fala mais alto para uns e para outros a tarefa apresenta tantas frentes de batalha que a 1.ª dificuldade é organiza-las por prioridade e ter um porta-voz de referencia, um coordenador, um lider, o que lhe queiram chamar, mas acima de tudo é necessario vontade da maioria e a maioria, esta demasiado entretida, com os cento e tal canais de tv, com chamadas á borla e com concursos de tv que de um momento para o outro os irão tornar milionarios, com congressos partidarios messiânicos...etc etc etc sem capacidade mental para discernir que os estão a entreter com uma mão e a roubar com a outra. Vamos fazer uma revolução Max? Para entregar a quem? Ao povo? E ele merece-a e sabera dar-lhe valor? Ou vai-nos "apedrejar na praça publica" por lhe estarmos a perturbar o descanço e força-los a PENSAR ?

    Jorge Tavares

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  2. Olá Jorge!

    Não acredito em revoluções armadas, por várias razões. Até pouco tempo atrás teriam sido viáveis, agora provavelmente seriam travadas de forma bastante simples até.

    Então? Então acho que teremos de tratar disso num próximo artigo, que tal? Na verdade já falei do assunto, mas já faz bastante tempo, as coisas mudam, as ideias também. Em alguns casos, repetir não faz mal (há muitos Leitores novos, por exemplo) e ao argumento é bem complexo e profundo. Vou tentar fazer do meu melhor, prometo.

    Para já, das hipótese apresentadas, eu escolho a última: vai-nos "apedrejar na praça publica" por lhe estarmos a perturbar o descanso e força-los a pensar.

    Não sou uma pessoa pessimista, mas a realidade é aquela que é...

    Abraço!!!

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  3. Anónimo30.4.14

    Grande Max, esse não será um artigo, será "O artigo" esse é o "santo graal" da pensamento actual e quando me referia a revolução não teria nada de ver com armas nem com atitudes belicas, do mesmo modo que não estamos a ser subjugados com armas mas com ideias, com modos de vida, com ilusões e acima de tudo com MENTIRAS muitas para todos os gostos desde a mentira da sustentabilidade da segurança social, do ensino, que não ensina mas formata, a mentira da segurança e da defesa...mera estatistica e aparencia; a mentira da democracia e da liberdade de expressão, a mentira do modelo do crescimento economico até á mentira ou encobrimento do fenomeno ovni, temos para todos os gostos, mas todas elas caminham para um fim unico, estimular até á cisão um mercado de incautos consumidores, pagadores e caladinhos...Mas Max! há quem goste, o conhecimento escondido durante seculos esta agora ao alcance de quem o quiser e quase de borla ( misturado com muito lixo, também é verdade) mas termino com uma duvida que me atormenta... já sabemos desde Confúcio de que de nada serve, mas, será licito tentar ajudar alguem contra a sua vontade?

    Jorge

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  4. anónimo 5630.4.14



    O poder do chavão "inevitabilidade" é poderoso, quando os média reflectem os interesses do Capital, na Europa e no Mundo.

    Existe uma mão invisível de quem controla todos estes mecanismos da Finança e dos circuitos do dinheiro que sempre nos tem envolvido numa rede de falácias e sofismas ideológico/financeiros.

    Para além de uma classe política lamentavel, que nada mais são que lacaios do poder financeiro, dos Ricardos, Ulrichs, Ricciardis, etc... Falando de Portugal, claro... Mas não só aqui...

    Quem percebe minimamente como funciona o BCE e o sistema monetário da UE (sistema este que os poderosos da Finança souberam manter como aliados a Alemanha e França e outros lucrando com o perverso sistema) , e a ignomínia a que sujeitam os países do Sul em benefício do poder financeiro que tudo manipula com a desculpa da inevitabilidade.



    A UE (com a eterna desculpa de uma guerra que hoje em dia na Europa é cada vez menos provável), é um instrumento de centralização de poder em detrimento das soberanias nacionais, em benefício do poder global, multinacionais, alta Finança, ou seja, tudo nas mãos dos mercados, mercados estes que estão nas mãos de uns poucos indivíduos a quem o bem comum nada diz, muito pelo contrário...

    Impôs-se a moeda única sem ter dado a perceber ás pessoas que isso foi entregar os Países a mãos alheias, mãos essas que só beneficiam quem lhes convém, nunca o interesse das populações...

    Mais um passo nas pretensões de uma agenda já não tão oculta:

    "O mundo está suficientemente preparado para se submeter a um governo mundial. A soberania supranacional de uma elite de intelectuais e de banqueiros mundiais, seguramente é preferível à autodeterminação nacional."
    David Rockfeller
    1991

    Um mundo sem fronteiras é muito bonito, em tese, mas a realidade é bem mais perversa...

    Torna-se o poder dominante (Financeiro, cultural e mediático) Centralizado, e quando o Poder Global é exercido por quem não só não pretende o Bem Comum, mas muito pelo contrário, pretende tratar as massas como escravos que devem ser degradados e manipulados para serviço de uma Elite com propósitos demasiado obscuros.

    È o futuro meus caros... Nada a fazer.

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  5. Anónimo1.5.14

    Anonimo 56 , 1 cão pode dominar um rebanho de ovelhas, não só porque ele quer , mas acima de tudo porque as ovelhas deixam.
    No nosso caso tambem, nós deixamos, mas ao longo da história sempre houve pontos de viragem, os imprevistos acontecem até para as "supostas elites" posso até concordar contigo " É o futuro..." mas como sabemos todos os futuros serão um dia passados e darão lugar a novos futuros.E os futuros constroem-se no presente.

    Jorge

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  6. anónimo 561.5.14

    Sim Jorge.
    Mas as causas deste estado de coisas, estão mais que tudo dentro das pessoas e reflectem-se na sociedade.
    Ainda que há certos elementos que contribuem muito mais que outros para que assim seja.

    Mas considero essa sua visão correcta.

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  7. Chaplin1.5.14

    Alguns tópicos.
    -a única ideologia praticada é a burguesa, que seduz a todos com seus apelos propagandísticos, impondo seus objetivos através da indústria cultural.
    -a total ausência de representatividade da maioria nos medias de massa, exigência primeira para que seja autorizada a concessão governamental.
    -a educação editada para doutrinar o indivíduo e transformá-lo, quando adulto,numa ovelha.
    -a ocultação sistemática do que se decide nas cúpulas institucionais, como a diplomacia, e nas organizações internacionais.
    -a hierarquia de valores, onde a moeda não apenas deixa de ser uma função meramente organizativa, mas transforma-se num valor,enquanto capital, aliás , no principal valor social.
    -O justificar existencial unicamente baseado no trabalho, que também deixa de ser uma função torna-se um valor.
    Fiquemos por aqui...

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  8. Tenho tratado deste tema várias vezes no semanário O DIABO, se bem que numa perspectiva ligeiramente diferente, talvez devido ao meu passado: prefiro o termo tirania a fascismo.

    Defendo também há muito a tese de que o 25 de Abril foi o que foi preciso mudar para ficar tudo na mesma: quem era das alas liberal ou conservadora da União Nacional a 24 de Abril já adormeceu a 25 de Abril como sendo dos PS e PSD. Para ver quem mandava e manda é preciso ler os jornais económicos e as revistas cor-de-rosa: não houve mudança de elites, logo não houve revolução nenhuma (nem sequer mortos houve).

    Quanto à sua afirmação acerca dos capitães de Abril, há um erro factual: foi a própria Constituição forjada por esses senhores e nunca sujeita a uma alteração de fundo e os regulamentos da Assembleia da República que não permitiram que os capitães falassem.

    Não pensaram nisso na altura? Olhe, também muitos dirigentes e fundadores do PSD não pensaram que iam ser expulsos quando aprovaram os Estatutos que proibiam que concorressem por outras listas onde concorriam listas do seu partido.

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