27 junho 2014

Ideia para o Leitor: a morte útil e ecológica

Encontrar publicidade (positiva) em favor dum produto comercial é um autêntico evento nestas
páginas, mas neste caso vale a pena abrir uma excepção.

O assunto: a morte (tanto para bem predispor o Leitor em vista do fim-de-semana).
O morto: o Leitor (não pensarão que morra eu, não é?).

Quando o Leitor morrer, a prática é mais o menos a mesma em todo o mundo cristão: o funeral, a família que chora, o cão nem por isso porque finalmente terá mais espaço no sofá. Depois o cemitério.

E aqui começam os problemas.
Em primeiro lugar: é raro ter um cemitério com uma boa vista, usualmente são rodeados por muros que impedem ver tudo e mais alguma coisa.

Depois há o problema dos vizinhos: é que o morto não pode escolher perto das quais tumbas ficar, temos que aceitar a escolha e isso careta riscos. Imaginem ficar ao lado dum antigo palhaço, com piadas 24 horas por dia. Passados alguns tempos haverá vontade de estrangula-lo, mas não adianta pois já está morto. Ou, pior ainda, ficar perto dum ex-ladrão: nem podemos deixar a nossa nova casa com tranquilidade para dar uma voltita ou para praticar o papel de fantasma, no regresso podem ter desaparecidos as flores todas.

É verdade: no dia do Juízo Universal tudo estará resolvido, mas até lá teremos que aguentar uma situação que arrisca tornar a nossa morte um verdadeiro Inferno.

Soluções? Haveria a cremação, mas muitos têm medo de não poder estar presentes no dia do dito Juízo (a Bíblia fala de "mortos que voltarão para a vida", não de cinzas que irão juntar-se para reconstruir um morto...). Isso sem contar que o Leitor tem uma alma ambientalista e não quer produzir ainda mais poluição, com todas aquelas cinzas espalhadas no ar.

Para boa sorte, eis o blog que socorre o Leitor nesta altura tão complicada da sua morte: a ideia é tornar-se uma árvore. Uma morte eco-friendly, amiga do planeta.

A empresa Bios comercializa uma urna especial que foi desenhada para acolher as cinzas do Leitor, ser plantada e constituir a base para uma nova árvore. A urna chama-se Urna Bios.

Como funciona?
Simples: em primeiro lugar o Leitor tem que morrer (este é um requisito essencial: a urna é pequena e um Leitor vivo não cabe), depois tem que ser queimado (mesma razão).

As suas cinzas são misturadas com um pouco de terra, a urna é fechada e enterrada no lugar onde desejarmos ver crescer a árvore.

Dúvida do Leitor: "Mas sempre cremação é: como fico no dia do Juízo Universal?".
Resposta: fica como árvore, que é sempre melhor de que apresentar-se sob forma de cinzas todas desarrumadas, não é?

Uma vez enterrada a Urna Bios, é só esperar, sem pressa. Com o passar do tempo, a urna (que é biodegradável) desfaz-se à medida que a árvore crescer. É importante realçar como, numa primeira fase, a semente da planta seja mantida separada das cinzas do Leitor, funcionando estas só como alimentação para as raízes. Depois, uma vez Urna Bios ter desaparecido e as raízes terem crescidos, o Leitor fica uma coisa só com a árvore.

Agora o Leitor pode ter algumas dúvidas, por isso nas páginas online da empresa há as FAQ'S (que aconselho ler antes da morrer). Por exemplo, eis algumas das possíveis perguntas do Leitor:
  • "Posso escolher o tipo de árvore?"
Claro que sim: não desejamos transformar o Leitor numa árvore foleira, não é? Actualmente é possível escolher entre: cipreste, faia, gingko, carvalho, pinho, bordo e freixo.
Já viu o que seria dum Leitor carvalho? A inveja de todos os vivos!
  • "Urna Bios tem um prazo de validade? Não é que compro uma e depois tenho que morrer de pressa antes que Urna Bios se torne inutilizável?"
Nada disso: Urna Bios não tem prazo. O Leitor pode comprar o seu exemplar e depois morrer com toda a calma, quando mais lhe apetecer ou dar jeito.
  • "E o meu cão? Posso leva-lo comigo?"
Não, Urna Bios é individual. Mas há um modelo para os animais domésticos: uma vez morto o bicho também, pode ser enterrado perto de nós, para a felicidade de ambos. Com a morte de parentes, amigos e relativos animais de estimação, é possível formar um bonito bosque.
  • "Tenho em casa as cinzas do meu bisavô e já foram utilizadas por engano como condimento para a salada: posso resolver o problema duma vez por todas utilizando Urna Bios?"
Sim, Urna Bios pode receber cinzas já com alguma idade também, sem problemas.
  • "Mas há publicidade? Não é que morro e tenho que levar com os anúncios para a eternidade?"
Não, o produto é espanhol (de Barcelona), não americano. Nada de publicidade.
  • "Quanto custa?"
Olhem, o preço é bom: 75 Euros mais despesas de entrega. Muito bom mesmo, considerando que esta será a demora definitiva do Leitor. Uma tumba num cemitério qualquer custa muito mais do que isso.

As despesas de envio são cerca de 20 Euros na Europa (40 na modalidade express, caso o Leitor goste muito da ideia e deseje tornar-se uma árvore já); para o continente americano, as despesas devem chegar aos 40 Euros.

Isso significa que o Leitor português vai gastar no total uns 95 Euros, enquanto o Leitor do Brasil pode ter a sua Urna Bios por menos de 350 Reais.

Pelo que: Leitor, não desperdice a sua morte! Transforme o evento em algo útil para o planeta: torne-se uma árvore.

Qual a alternativa? Acabar num triste cemitério? O Leitor merece mais do que isso: morre-se uma vez só na vida, melhor aproveitar.

Endereço internet: Urna Bios

Nota: o blog não recebe rigorosamente nada para publicitar este produto. Simplesmente encontrei-o passeando na internet e achei uma maneira simpática (e útil) de morrer.


Ipse dixit.

7 comentários:

  1. Anónimo27.6.14

    Muito bom! A urna poderia, ainda, ser doada para reflorestar a Mata Atlântica, que dizem estar tão depauperada! E aí, sem nenhum preconceito, as cinzas podem ser do Leitor e do Escritor, também. Uma delícia de artigo, para ler agora e projetar para um futuro bem distante. Mara

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  2. Puxa Max!! nunca tinha pensado nisso!! Adorei a idéia!! Tenho guardados os restos da minha cachorra Anarca, a melhor entre todos/as 4 patas que encontrei abandonados/as. Minha melhor amiga. Recentemente morreu o Zequinha, o segundo na minha lista de estimação. Estão os dois numa espécie de túmulo de cimento ao abrigo e ao pé de um S.Francisco de cimento, tamanho natural, que foi um cara que eu estimo muito e merece ser reverenciado. Vou ser cremada, e minhas cinzas iriam também para essa espécie de túmulo, misturadas aos restos da Anarca e do Zeca. Pronto...agora cheguei ao ideal!! Vou deixar expresso em meu testamento a cláusula que esses restos todos devem ser retirados do túmulo e alí plantado um salgueiro, onde nós 3 seremos adubo.Quanto ao juízo final, não necessito, mantenho em vida minha consciência limpa de qualquer cretinice. Bem pensado...muito bem pensado! Obrigada. Abraços

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  3. Caro Max, uma dúvida: se existir reencarnação, corro o risco de renascer como uma planta ?
    Se minha árvore der frutos, terei que pagar pensão alimentícia para eles ?

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  4. Sinceramente é pra rir ou chorar com sua veia cômica???
    Se é pra sorrir, respondo ao blogueiro do comentário anterior: o processo de reencarnação já aconteceu caso vc tenha escolhido virar um Bios...vc perdeu a chance de ser gente importante na próxima vida e conformou-se em ser uma planta nesta mesmo. Terá a partir deste momento que trabalhar tudo de novo: evoluir no reino vegetal para garantir um ticket para o animal...

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  5. Anónimo27.6.14

    Os suecos estavam a pensar fazer cemitérios verticais: edifícios para enterrar gente (já falecida, óbvio).

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  6. Anónimo28.6.14

    Mais um exemplo de como esta sociedade está doente

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  7. Anónimo29.6.14

    Esta ideia apesar de dividir as opiniões, não me parece má de todo.
    Muito boa gente finalmente vai ter alguma utilidade. Estou-me a lembrar do esquentador do post do lado! Se o Junkers aderir à urna ecológica, vai produzir oxigénio ou será um WC canino, se entretanto não for consumido por um incêndio ou não tiver o azar de um madeireiro se cruzar com ele.
    É uma ideia com grande potencial. Os seus criadores sempre podem dizer que depois de árvore, podemos aspirar e com alguma sorte, a sermos uma bela mesa de jantar ou no caso do pessoal mais intlectual, uma estante. Dá para todos os gostos.

    Krowler



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