13 junho 2014

Iraque: caos total mas não natural

O Iraque faz parte da lista de Países que nos últimos anos conheceram a intervenção militar dos
Estados Unidos.

Característica comum a todos este Países: o caos no qual precipitaram e do qual ainda não conseguiram sair.

Não é um acaso: a intervenção militar aposta na ocupação (permanente, por parte de empresas privadas ocidentais) dos principais recursos encontrados e na implementação duma "democracia" de fachada que, como é óbvio, deve ser amiga dos interesses americana.

Paradoxalmente, o que mais contribui para a desestabilização dos Países é o segundo ponto: introduzir o sistema democrático em realidades que alcançaram um ponto de equilíbrio após séculos de história, significa atropelar este equilíbrio e pretender substitui-lo, dum dia para outro, com algo novo e totalmente estranho à cultura local.

Do ponto de vista ocidental, existe "o" Islam (o Islão), como se este fosse algo monolítico. O que está errado: é um pouco como pensar que o Cristianismo seja todo igual, ignorando os Católicos, os Protestantes, os Calvinistas, os Ortodoxos, etc. e as várias diferenças entre eles. Achar que a democracia possa resolver os atritos entre as várias correntes é infantil, sobretudo em Países nos quais a componente religiosa na vida de todos os dias é muito mais forte do que no Ocidente.

Símbolo do SIIL
Como pode a democracia regular a coexistência no mesmo País de correntes religiosas diferentes? O Islam, tal como o Cristianismo ou qualquer outra religião, não pode ser gerido tendo como base o número de votos. E os Estados Unidos, no decorrer destas tentativas, sempre favoreceram as correntes mais "abertas" ao Ocidente, em detrimento das outras. O que é meio caminho andado para o caos.

Foi assim no Iraque, na Líbia, no Egipto, Países onde há o encontro das várias correntes. Diferente o caso do Afeganistão, mais compacto do ponto de vista religioso, e da Síria, onde ainda há um regime que governa com as mesmas regras de antes.

Doutro lado, a implementação duma democracia é fundamental para conseguir o controle dos recursos (basicamente: petróleo e gás): já não é tempo de ditadores-fantoches, sempre perigosos porque imprevisíveis, bem melhor um regime democrático, mais estável e "maleável".

O Iraque conheceu a intervenção de Washington duas vezes e está de rastos.
Vamos ver porque, apesar do facto que explicar exactamente o que se está a passar não é tão simples: o Iraque está mergulhado no caos e descrever os vários acontecimentos é caótico também, porque nem sempre o que parece é.

Os ataques

No passado 7 de Junho, a ofensiva dos combatentes jihadistas do Estados Islâmico do Iraque e do
Levante (SIIL) na cidade de Samara destruiu uma delegação da polícia, matando vários agentes, e foi seguido pela ocupação da prefeitura e da universidade.

Mas a cidade não caiu e, com a intervenção da aviação militar, tiveram que recuar para a periferia da cidade. Pelo menos 11 terroristas foram eliminados nesta fase das operações.

Todavia a vaga de ataques continuou, aliás, já tinha começado antes: mais de 900 pessoas tinham sido mortas em Maio e em Junho a situação não melhorou. Em Mosul, 21 policiais e 38 terroristas foram mortos em dois dias de combates, enquanto um duplo atentado suicida atingiu um bairro da cidade. Pelo menos 36 pessoas foram mortas enquanto lutava-se para libertar os alunos e os funcionários feitos reféns por terroristas na Universidade al-Anbar em Ramadi.

No dia 12 de Junho, as tropas iraquianas travaram a avançada terrorista do SIIL na província de Tiqrit, ocupada pelos terroristas na semana anterior. O SIIL entrou na área de Diyala, a nordeste de Bagdad, depois das forças de segurança terem-se retiradas, idêntico cenário em Dhuluiyah, 90 quilômetros de Bagdad.

Kirkuk foi ocupada por milícias curdas. O governador de Kirkuk, Najm al-Din Karim, disse que as forças curdas substituíram as tropas iraquianas, que retiraram-se da província. De facto, a ofensiva da jihad permite que os curdos assumam o controle do território em disputa: as províncias de Nínive, Salahadin, Kirkuk e Diyala, infiltradas por organizações da SIIL, encontram-se no território reivindicado pelo governo do Curdistão, que tem as suas próprias fronteiras, forças de segurança e governo, mas que depende financeiramente de Bagdad.

O Curdistão quer a independência, mas a presença duma grande organização islâmica-jidahista mesmo à porta do Curdistão será uma fonte de grande preocupação para os potenciais investidores e habitantes da região.

Segundo o jornalista Asos Hardi, se os radicais islamitas controlassem as áreas sunitas, "praticamente iam dividir o Iraque em três partes diferentes. Uma situação muito perigosa, não só para os curdos, mas para todo o Iraque".

O Governo central joga na defensiva, por enquanto muito mais não pode fazer. O País parece encontrar-se em pleno estado de decomposição, com forças centrífugas radicais (SIIL) que miram a subverter a frágil ordem imposta por Bagdad e com desejos independentistas antigos (caso do Curdistão). Mas a situação não é tão simples, há outros actores envolvidos.

Mosul, por exemplo: quem controla esta cidade pode enfraquecer o governo central. A região abriga a segunda maior reserva de petróleo do País e, durante o regime anterior, Mosul era um centro de controle de vital importância para Bagdad: hoje encontra-se no cruzamento entre a Síria, a Turquia e o Curdistão e e aqui que jogam outras forças: Al-Qaeda, o grupo sufis dos naqshabandi e o que resta do partido de Saddam Hussein, o Baath. Em Mosul e na província de Nínive cooperam.

Ex-oficiais do Baath lideraram o ataque contra o aeroporto, o centro do governo local e a televisão. De acordo com muitos testemunhos, há bandeiras do SIIL nas posições abandonadas pelo exército iraquiano, mas perto da entrada da cidade há também imagens de Saddam Hussein. Esta aliança já teria nomeado um novo governador, Azhar al-Ubaydi, um ex-general do exército iraquiano; e nem faltou uma parada militar com tanques, veículos blindados e três helicópteros, realizada ontem (12 de Junho) na frente dos líderes da SIIL e representantes do Baath.

al Maliqi, a Arábia e Obama

Obama (Esq.) e al-Maliki (Dir.)
O Primeiro-Ministro do País, Nuri al-Maliqi, disse que a ocupação de Mosul é uma "conspiração",
com a polícia e o exército que simplesmente abandonaram Mosul nas mãos dos militantes do SIIL.

A realidade é um pouco mais complexa: não há apenas o SIIL e muitos no exército têm dificuldades em reconhecer-se no governo "democraticamente" eleito. Não surpreendem, portanto, as afirmações do Ministro das Relações Exteriores, Zibari Hosyhar, segundo o qual as forças de segurança treinadas por Washington simplesmente "derreteram-se".

O Primeiro Ministor também disse que os terroristas que lutam no Iraque são os mesmos que perderam na Síria e procurou a aprovação do Parlamento para declarar o estado de emergência, mas não conseguiu ter um quórum durante a votação (apenas 128 dos 325 deputados estavam presentes na sessão anunciada dois dias antes). al-Maliqi reconhece que a única solução é organizar um exército do povo, formando uma organização semelhante à das Forças Nacionais de Defesa da Síria: não podendo contar plenamente no exército, a alternativa é reunir todos os que apoiam o novo regime e tentar resistir.

Por isso, o Primeiro-Ministro também está em negociações com alguns membros do governo regional curdo, para lançar uma contra-ofensiva com a ajuda dos peshmerga (os combatentes independentistas curdos).

Na verdade, as forças do SIIL são bastante reduzidas: cerca de 10.000 elementos que chegaram do Golfo, da África do Norte e da Europa, armados e financiados pela Arábia Saudita; uma força que mal permite ocupar permanentemente cidades como Fallujah, Samara, Mosul e Ramadi.

O grupo é liderado desde 2010 por Abu Baqr al-Baghdadi. Em 2003-2007, al-Baghdadi "radicalizou-se" na prisão americana de Camp Bucca, no sul do Iraque, onde provavelmente adquiriu as habilidades tácticas e organizacionais que tornaram a sua organização a mais eficiente no  mundo islâmico combatente.

Como indicado, à luta juntaram-se os baathistas de Izat Ibrahim al-Douri, ex-vice-presidente de Sadam Hussein, e mais de 40 oficiais do antigo exército iraquiano; também alguns comandantes iraquianos da região, como o general Abud Qanbar, o Tenente-General Ali Ghaydan e o general Mahdi al-Ghazawi, todos do antigo exército que em 2003 rendeu-se aos americanos sem luta.

Mas há uma dúvida: como explicar que 1.500 terroristas SIIL consigam entrar em Mosul, teoricamente defendida por uma guarnição de 52.000 soldados?

Mais uma vez, a realidade é mais complexa: dum lado há um governo no qual não poucos iraquianos não se reconhecem, incluindo boa parte do exército.
Do outro lado há, como vimos, movimentos independentistas locais. Finalmente, o que é vendido como uma "ocupação islâmica do Iraque" não é nada mais do que uma série de ataques contra objectivos limitados, que permitem apresentar um quadro geral catastrófico e justificar assim uma nova intervenção militar de Washington, cujo verdadeiro objectivo é abater o governo de al-Maliqi (que, lembramos, é pró-Irão e pró-Síria) e substituí-lo por um governo mais "amigável".

O facto do SIIL ser armado pela Arábia Saudita (o financiamento de grupos "terroristas" é uma especialidade da casa de Riad) explica muitas coisas. Enquanto o simpático Barak Obama pede uma solução política, afirma também que está a analisar "todas as opções" para travar a escalada de violência que atinge o Iraque e o avanço "fulgurante" dos combatentes jihadistas em direção a Bagdad.
Aquilo a que assistimos nos últimos dias demonstra a que ponto o Iraque vai precisar de mais ajuda, da parte dos Estados Unidos e da comunidade internacional. [...] A nossa equipa de segurança nacional está a analisar todas as opções. Estamos a trabalhar sem descanso para identificar como fornecer-lhes a ajuda mais eficaz. Não excluo nada.
Segundo o chefe de Estado norte-americano:
O que está em causa é garantir que esses jihadistas não se instalem de forma permanente no Iraque ou na Síria ou noutro local qualquer.
Algo que poderia ser evitado com um único e simples telefonema para Riad.
Não é difícil, portanto, prever uma intervenção "humanitária" dos Estados Unidos (talvez camuflada com as cores da ONU ou da Nato) e a próxima queda de al-Maliqi (morto num atentado?), substituído por um homem mais "amigo" de Washington. Na altura, serão os "terroristas" a "derreter-se". Mas nem todos, pois no Iraque há também uma divisão autêntica: as rivalidades étnicas e religiosas, que agora são exploradas para os objectivos americanos, existem e ficam todas aí, para ser resolvidas.

Mas este é o futuro: por enquanto, realçamos como al-Qaeda faz um favor aos americanos e prepara o terreno para uma intervenção armada, seja directa ou indirecta. A história do costume.
E nós continuamos a chama-los "terroristas islâmicos"...


Ipse dixit.

Fontes: Aurora, al-Akhbar, AWD, Islam Times (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7), Naharnet (1, 2, 3, 4, 5), Orient XXI, Diário de Notícias.

3 comentários:

  1. Anónimo13.6.14

    Max agradeço-te a atenção. Obrigado :)

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    Respostas
    1. Ora essa: é um assunto interessante, obrigado por ter-me lembrado disso.

      Abraço!!!

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  2. Olá Max: na atual conjuntura ( como se dizia no Brasil em 60), a melhor coisa que pode acontecer a qualquer povo é viver num Estado totalmente desprovido de recursos naturais, especialmente gás, petróleo, terras raras e que tais, e passar absolutamente despercebido aos interesses corporativos. Caso contrário, o caos será o "destino". Abraços

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