10 junho 2014

Ucrânia: os cenários

Enquanto os medias ocidentais escondem as atrocidades cometidas pelas forças governativas de Kiev, concentrado-se naquelas dos independentistas, é lícito perguntar qual pode o eventual desenrolar-se dos acontecimentos.

Há uma guerra civil na Europa, num País que sempre fez parte da "outra" metade, mas que não deixa de ser Europa.

O site Worldcrisis analisa a situação do ponto de vista russo.
Eis a síntese.

O Kremlin estava preparado para lidar com os acontecimentos na Ucrânia?

Sim. É só ler Wikileaks, onde há evidências de que o Kremlin já havia antecipado em 2008 os cenários que vemos hoje:
Os especialistas dizem que a Rússia está profundamente preocupada com as profundas divisões que existem na Ucrânia sobre a decisão de aderir à Nato, por causa da forte componente étnica russa que é contrário à adesão e que poderia levar a uma forte oposição, ou na pior das hipóteses, a uma vaga de violência, casos, guerra civil. Neste caso, a Rússia deve decidir se intervir, e essa é uma decisão que a Rússia não quer ter que tomar.
Portanto, é lógico supor que a evolução dos eventos não constituiu nenhuma surpresa e que esta possibilidade, embora desagradável, já tivesse sido abrangida por um Plano B.

Os objectivos

Para entender o que o Kremlin poderá fazer, temos que definir quais são os seus objectivos:
  • Não permitir a entrada da Ucrânia na Nato.
  • Não permitir a implementação na Ucrânia dum regime Russófobo e pró-nazista
  • Não permitir o genocídio da população russa nas regiões do Sul - Este.
O ideal seria para Rússia conseguir alcançar os três objectivos simultaneamente, evitando bloquear a economia russa durante o seu ré-posicionamento em direcção à Ásia (em pleno desenvolvimento e imensamente acelerado após as sanções impostas por Washington) e, ao mesmo tempo, impedindo que os norte-americanos resolvam os seus problemas económicos à custa da UE.

Cenários

1.
Vamos considerar o cenário mais simples: o exército russo entra Ucrânia, poucos dias depois chega na capital Kiev, em seguida, submete toda a Ucrânia. Desta forma parece que todos os três objectivos foram alcançados, mas existem muitos problemas.

A União Europeia, onde a elite das corporações tentou travar as sanções, o "partido da guerra" o "Partido da Pax Americana")  triunfa, sendo aplicadas contra a Federação da Rússia sanções reais e bem pesadas, com um efeito terrível sobre a economia europeia, que imediatamente cai em recessão.

Neste contexto, os norte-americanos têm jogo fácil para propor a assinatura do Tratado de Parceria de Investimento e Comércio Transatlântico (o TTIP), um pacto de comércio suicida que iria transformar a UE numa apêndice económica dos EUA. As negociações sobre o tratado ainda está em andamento e, para os americanos, a entrada das tropas russas na Ucrânia seria uma autêntica mana do céu.

Portanto o quadro não é nada simpático: uma União Europeia que parece sair duma guerra, os Estados Unidos com a roupa da festa e a Rússia longe da perfeita forma (todos os negócios e acordos comerciais com a Europa seriam rasgados). Um só vencedor: Washington.

2.
Com uma intervenção na Ucrânia, além do facto de que seria uma festa para Washington, temos também que considerar quais os efeitos na própria Rússia.

Com umas sanções impostas antes da assinatura do mega-contrato para o fornecimento gás à China, esta ficaria em posição de negociar um preço melhor.
Mesmo discurso no caso do mega-contrato com o Irão, com o qual Rosneft vai ser capaz de controlar uns adicionais 500 mil barris de petróleo por dia.

Uma intervenção da Rússia na Ucrânia até agora teria tido efeito negativos em Moscovo: pelo contrário, e a partir de agora, todas as tentativas dos EUA para a criação de algo que dificultasse as importações/exportações energéticas vão sair muito mais caras.

Se as sanções fossem instauradas antes da assinatura do acordo sobre a criação da Comunidade Económica da Eurásia (Janeiro de 2015), todo o processo sairia enfraquecido do ponto de vista russo.

3.
Uma invasão da Ucrânia nesta altura significaria assumir a responsabilidade de tratar da economia de Kiev (seriamente abalada após o deflagrar da guerra civil) e a reconstrução duma paz minada pelas diferentes etnias às quais juntaram-se os movimentos nazi da direita.

Uma situação complicada, no fim da qual sobraria apenas um senso de satisfação moral num País que vive num regime de "ocupação".

Tempos

Contrato de gás com a China: assinado em 21 de Maio
Contrato de petróleo com o Irão: próximo Verão
Eleições para o Parlamento Europeu: 25 de Maio (o que levou a um grande número de votos eurocépticos no Parlamento Europeus.da Rússia).
Gasduto South Stream: Maio/Junho (contratos, licenças, etc.)

Este os movimentos "visíveis". Depois há outros aspectos que são muito importantes e que ainda não tem uma data definida no calendário: por exemplo a transição para pagamentos da energia em Rublos. É algo complicado pela simples razão que ninguém ainda transformou todo o sistema de pagamentos para abandonar os Dólares e passar aos Rublos: trata-se aqui de intervir em contrato que foram estipulados há muito.

Finalmente, temos a hipótese de construir um cartel de Países exportadores de gás: Rússia, Iran, Qatar, Venezuela, Bolívia e outros ainda estarão reunidos no Qatar para o Fórum dos Países Exportadores de Gás (GECF), algo parecido ao Opec. Após anos de tentativas, Moscovo quer este cartel do gás tenha início er quer apresentar-se como um dos maiores produtores e exportadores.

A situação na Ucrânia

A economia da Ucrânia já era. As sementeiras de Primavera foram desastrosas, os vegetais foram
destruídos pela gelo, ninguém faz mais crédito, há problemas com o gás, o preço do combustível disparou.

Ninguém vai dar um cêntimo, mesmo o FMI, que prometeu aproximadamente 17 biliões de Dólares (metade do que serviria à Ucrânia para este ano): há uma "cláusula de salvaguarda", muito menos publicitada, pela qual se Kiev não controlar todas as regiões, nada de empréstimo. Fome, frio e hiperinflação vão trabalhar activamente para enfraquecer a junta governamental e arrefecer os espíritos pró-Ocidente (é também justo que vejam o que é realmente o Ocidente).

O caos inevitável e o colapso das estruturas sociais, junto com uma guerra civil que não pára, tornará complicada a adesão à NATO.

Os Estados Unidos têm interesse em acelerar o fim dos problemas, ultrapassando a actual situação, mesmo que isso custe mais sangue: caso contrário, terá apenas instabilidade e algo como uma guerra civil sem fim à vista. A Rússia pode sentar-se e esperar, sabendo que nestas condições cedo ou tarde alguém desejará falar: ajudar os rebeldes sem intervir de forma directa no terreno é a melhor forma de deixar que o tempo passe sem que a Ucrânia se torne um novo País nas mãos de Washington.

Previsões

Agora, para completar o quebra-cabeça, eis as possíveis previsões:
  • A América vai tentar de todos as maneira agravar a crise na Ucrânia, para enfraquecer a Rússia e dominar todo o mercado europeu, e isso antes de ter que parar as suas máquinas que imprimem os Dólares (Dezembro de 2014?). Cenas como aquela de Salvyansk (com o exército de Kiev a atacar uma cidade, com a óbvia morte de civis) vão repetir-se com mais frequência.
  • O Kremlin, pelo contrário, vai tentar transformar a crise na Ucrânia numa espécie de guerra civil-crónica, retardando as negociações no meio do colapso económico do País. Ao mesmo tempo, o Kremlin vai tentar usar o tempo para abandonar o sistema-Dólar nas relações com China, Irão, Qatar e, ao mesmo tempo, criar um novo relacionamento com a União Europeia.
  • Ambos os lados teriam conveniência em terminar completamente a crise antes de Dezembro de 2014, possivelmente mais cedo se os EUA decidissem desistir da ideia de agravar as hostilidades.
  • E se os Washington não desistir? Então teremos uma situação aguda num País no qual a Rússia nunca permitirá a instalação de tropas da Nato. E as doenças agudas dum só órgão bem podem provocar a morte do paciente todo.

Slavyansk, 08 de Junho de 2014:


Cinco mortos confirmados por enquanto, entre os quais uma criança.


Ipse dixit.

Fontes: Worldcrisis

2 comentários:

  1. maria10.6.14

    Olá Max: ou muito me engano, ou esta será uma guerra civil para se perpetuar. Uma só na Europa? A primeira desta nova fase na Europa de hoje? Abraços

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  2. Olá Maria!

    Pois, acho que esta será uma guerra civil para ficar, tipo Síria.

    Outras na Europa? Duvido: os Estados Unidos precisam dum novo mercados e de novos escravos-trabalhadores, não de guerras.

    A coisa poderia mudar se alguém na Europa abrisse os olhos; mas não há perigo, estamos muitos bem calminhos debaixo da confortável camada de valium.

    E mesmo na semana passada surgiu a notícia de que Al-Qaida agora está em Portugal (lololol). Por isso, em caso de necessidade, pode haver intervenções pontuais contra os "terroristas".

    Grande abraço!!!

    ResponderEliminar

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