09 julho 2014

Jaron, o arrependido de internet

Jaron Lanier
Jaron Lanier nasceu na altura errada: deveria ter vivido os anos '60, apanhar o movimento hippy, possivelmente na zona de San Francisco. Azar dele, nasceu nos anos '60.

O que não lhe impediu tornar-se algo parecido com um hippy.

Mas Jaron é muito mais do que isso. Escritor, compositor de música clássica, cientista informático, profeta da realidade virtual.

Começou a evidenciar as enormes potencialidades da internet em termos de criatividade e relacionamentos, trabalhou em Second Life, colaborou com a Microsoft no desenvolvimento da Xbox 360, tornou-se um ponto de referência incontornável.

Até que um dia entendeu: algo estava errado. Muito errado. 
Após ter defendido ao longo de anos que internet vai libertar o homem, que irá produzir um mundo anárquico, na plena afirmação de todos, depurado do poder, Jaron acordou e percebeu que internet vai na direcção exactamente oposta. Ou melhor: que a liberdade é para poucos.

No âmbito da música, pro exemplo, os estudos de gravação fecham: pode-se compra um aplicativo com poucas centenas de Euros e obter resultados que antes exigiam dezenas de milhares de Euros e o trabalho de muitas pessoas. E não apenas na música: nasceram gigantes que empregam a milésima parte dos trabalhadores que antes costumavam ser contratados e nas ruas as lojas ficam vazias.

De acordo com algumas pesquisas, estão em risco de destruição 47% dos negócios actualmente praticados nos EUA e 40% da força de trabalho. Alguns exemplos são a Kodak, que empregava 140.000 pessoas (isso para não falar da distribuição e a venda ao retalho) e foi praticamente substituída por telefones celulares e alguns aplicativos, até entrar em falência em 2012.

Instagram emprega 13 funcionários e acaba de ser vendida por um bilhão de Dólares. As agências de viagem vendem a Expedia, a Orbitz; as lojas de livros a Amazon; os editores a Kindle, os tradutores são ultrapassados pelos software de tradução; Skype ameaça a telefonia fixa, Google vai lançar um carro; mas o mesmo pode ser dito ao falar de jornalistas, advogados, arquitectos, contabilistas, etc.

É o modelo da nova economia, na qual o vencedor fica com tudo. Baseia-se na exploração sem retorno de valor de uma miríade de micro-conteúdos que são somados, tornados significativos pelo imenso poder do "Big Data". Este é o ponto enfatizado por Larnier hoje: o segredo do sucesso de Google Translate, Facebook, Amazon, You Tube é que todos os conteúdos que se tornam ouro nas mãos deles são na verdade "prendas". Cada fragmento de vídeo, cada livro seleccionado, cada comentário, cada objecto comprado, cada "Like", transmite informações que têm valor.

A ideia de Jaron: estabelecer um sistema para permitir que qualquer conteúdo válido que seja utilizado seja fonte de um micro-pagamento. Mas é uma solução parcial.

O que restará? Definitivamente uma elite com capital cultural e de informação no mundo da hiper-apresentação; são eles os vencedores.
E depois? Aqui é que a coisa fica complicado: um pouco de negócios de nicho, auto-produzidos e com muita fantasia; a glorificação do individualismo extremo.
Mais? Se nenhum mecanismo público ou privado que possa distribuir os recursos, este ficarão nas mãos dos "vencedores". Teremos um deserto.

Basicamente, a economia vai tornar-se um sistema em que os bens são produzidos automaticamente a partir de uma parte muito reduzida de força de trabalho (a tendência é para baixo: 10%, talvez de 5%), valem pouco e pagam salários muito baixos; a grande parte da sociedade permanecerá pobre em dinheiro, rica em termos sociais e antropológicos. Algo que faz lembrar a Idade Média.

Estas as previsões de Jaron Lanier.
Sorte nossa: já errou uma vez.


Ipse dixit.

Fonte: Il Venerdí di Repubblica

3 comentários:

  1. Anónimo9.7.14

    As afirmações do Jaron Lanier vão ao encontro de um estudo que estou a ler, e que já mencionei antes, aqui no blog: Manifesto contra o trabalho.

    Fica o link para quem quiser ler:
    www.nodo50.org/insurgentes/biblioteca/manifesto_contra_o_trabalho_krisis.pdf

    'Necessariamente, a crise do trabalho tem como conseqüência a crise do Estado e, portanto, a da política. Por princípio, o Estado moderno deve a sua carreira ao fato de que o sistema produtor de mercadorias necessita de uma instância superior que lhe garanta, no quadro da concorrência, os fundamentos jurídicos normais e os pressupostos da valorização – incluindo um aparelho de repressão para o caso de o material humano insubordinar-se contra o sistema.' in, Manifesto contra o trabalho

    Krowler

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  2. Manifesto contra o trabalho, vou ler hoje, mas já apoio, dizia-se "quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro"

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  3. maria10.7.14

    Olá Max: em uma sociedade ideal, com estados soberanos, gerenciando o estado de bem estar social generalizado, algo que o planeta poderia alcançar facilmente não fosse a soberba, a hipocrisia e a ganância de muitos, a diminuição da necessidade de trabalhar seria totalmente bem vinda, pois tais sociedades alcançariam a utopia humana da vida em trabalhos criativos, dedicação às artes, ao lazer e ao ócio criativo. Voltando a dura realidade, a diminuição da empregabilidade é apenas mais um a priori para os donos do mundo submeterem facilmente legiões de escravos. Abraços

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