28 outubro 2014

Sakineh antes, Reyhaneh depois

Lembram-se de Sakineh?

Corria o ano de 2010 d.C. e no malvado País do Irão um inocente rapariga que tinha assassinado o marido com a ajuda do amante foi presa e condenada a morte (no Irão é assim: matas? Morres).

Aqui, no evoluído Ocidente, começaram a circular versões assustadoras: Sakineh apedrejada, o advogado dela torturado...enfim, um típico caso de crueldade iraniana. Hillary Clinton, Amnesty International, Avaaz e muitos mais, todos juntos para impedir um apedrejamento que ninguém tinha sentenciado (a rapariga ia ser enforcada).

Sakineh hoje
Moral da história: a pressão internacional foi muito forte e Sakineh, culpada de homicídio e adultério, fez 4 anos de prisão depois dos quais recebeu a amnistia. Hoje está livre, enquanto, segundo as últimas notícias, o ex-marido continua morto.

Passados 4 anos, eis um novo caso, sempre no malvado reinado do Irão: Reyhaneh Jabbari.

Segundo a versão circulada no avançado Ocidente, Reyhaneh foi acusada de ter assassinado um homem após este ter tentado viola-la. Reyhaneh teve que enfrentar o processo sozinha, sem advogados. Por fim, foi enforcada.

Muito triste, assim como triste é a última carta de Reyhaneh enviada para a mãe, Shole. Não leiam, nenhum coração humano pode aguentar aquelas linhas.

Esta, como afirmado, a versão que circula no Ocidente. E o Ocidente não mente, nunca. No máximo pode esquecer-se dalguns pormenores, mas mentir não.

Por exemplo: o Ocidente pode ter-se esquecido de mencionar o facto de que Reyhaneh comprou a faca com a qual matou o quase-violador alguns dias antes, mas este não é um facto particularmente significativo. Como insignificante é a mensagem enviada via telemóvel para um amigo, com a qual Reyhaneh anunciava a intenção de matar o alegado violador. Também sem importância são as facadas, todas nas costas da vítima.

Como afirmado, pormenores que não mudam a questão de fundo: a rapariga pode ter cometido um assassínio premeditado, esfaqueando nas costas um homem que nem tentou viola-la, mas moralmente Reyhaneh era inocente. Porque? Porque sim.

Infelizmente, os quatros advogados dela não conseguiram convencer os juízes.
Estes, machistas e ao serviço dum Estado cruel por definição, queriam sangue, o sangue duma assassina inocente.

E assim foi: Reyhaneh foi enforcada.
Muito triste.

Reyhaneh
Nós gostamos de lembrar a assassina moralmente inocente Reyhaneh com a carta enviada para a mãe.
Esta carta foi trazida para o Ocidente por um grupo de voluntários que, provavelmente, arriscaram a vida para isso. São "pacifistas", como afirma o americano Huffington Post.

Mais um pequeno esquecimento ocidental: o nome dos pacifistas é NCRI, National Council of Resistance of Iran, até 2012 considerado movimento terrorista pelos Estados Unidos mas agora grupo amigo e querido que recebe o apoio (e o dinheiro) dos políticos ocidentais.

A carta de Reyhaneh (e, sem dúvida nenhuma, escrita por ela) é terrível: nem tenho a coragem de propor-la aos Leitores, muitos não aguentariam. Eu mesmo tive que tomar uma camomila. Ler coisas como "Vês, eu nunca sequer matei os mosquitos e atirava para fora as baratas levantando-as pelas antenas" é demais, e não há coração que possa resistir (também é verdade que esfaquear um mosquito nas costas não é simples).

Enquanto os nossos rostos são molhados pelas lágrimas de dor, o pensamento voa até as 14 mulheres que na Arábia Saudita arriscam a decapitação com a acusação de feitiçaria e das quais o Ocidente não fala.
Olhem, um outro esquecimento.

E, se a nossa alma estiver contra a pena de morte, então o voo será até as 11 mulheres que nos Estados Unidos esperam de ser ajustiçadas: algumas são tão pobres que nem um advogado decente podem permitir-se.
Ops, mais um esquecimento.

Não seria mal organizar um movimento qualquer em favor destas mulheres, não acham? Mas também é verdade que o Ocidente não pode lembrar-se de tudo. Por enquanto, choramos o facto dum cruel País ter ajustiçado a autora dum assassínio premeditado.


Ipse dixit.

Fontes: National Council of Resistance of Iran, Il Tempo, Amnesty International, Sky Tg24, The Huffington Post, The Telegraph

5 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado Carlos!

      Abraço!!!

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  2. Anónimo28.10.14

    Não consegui reunir informação completa ou minimamente satisfatória sobre este caso.
    A imprensa passa sobre ele com muita superficialidade e com os lugares-comuns habituais.
    Pelo pouco que se pode perceber, o assassinato pode ter sido premeditado, o que não invalida que a rapariga estivesse sob assédio ou coacção do assassinado. Que não tenha havido tentativas anteriores de sexo forçado.
    De qualquer forma, não estando em causa a pena de morte, que existe noutros países, o que foi colocado em causa pelas organizações internacionais de carpideiras, foi a existência objectiva de garantia dos direitos da acusada. Não sei se com razão ou sem ela.

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    Respostas
    1. Olá Anónimo!

      O problema da violência sexual contra as mulheres nos Países islâmicos é sério. E, mais uma vez, as raízes disso podem ser encontradas na religião. Acerca disso, é simples encontrar na internet artigos delirantes, mesmo quando escritos por pessoas que supostamente deveriam saber o que dizem.

      Exemplo, um artigo de Right Side News: "O Islão não considera o estupro como um crime contra a mulher. [...] Em uma sociedade tribal, o estupro é um crime contra a propriedade e a honra".

      Isso é falso: o Islão considera o estupro um crime contra a mulher, mas prova-lo é complicado e aqui está a dificuldade. Neste aspecto, o Islão teria que progredir, e de pressa também.

      Todavia, no caso de Reyhaneh, é difícil saber se houve sexo forçado anteriormente: os media ocidentais nada dizem acerca disso. A mensagem que passam é que Reyhaneh "defendeu-se" matando o homem que tinha abusado dela, como se tudo tivesse acontecido na hora. O que não é assim, pois a premeditação não pode ser posta em causa.

      O que tem de ser realçado, do nosso ponto de vista, é a maneira parcial com a qual, mais uma vez, os factos são relatados para espalhar uma ideia negativa e montar um protesto contra um País (e, indirectamente, contra biliões de pessoas que praticam a mesma fé).

      Isso enquanto num outro País, com a mesma religião mas amigo do Ocidente, mulheres esperam a morte por um alegado crime que aqui faz sorrir (feitiçaria!). Mas neste caso não há movimentos humanitários, não há media, não há grupos de defensores dos direitos das mulheres: não há nada, só o silêncio.

      Pergunto: é lógico defender uma mulher que, seja como for, premeditou e cometeu um assassínio enquanto ignoramos outras que apodrecem nas prisões, à espera da morte, mesmo que não tenham cometido crime algum?

      Acho que certos princípios deveriam valer para todos e todas: mas a nossa sociedade ocidental parece ter outro ponto de vista.

      Abraço!!!

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  3. Olá Max: a nossa sociedade teria outros pontos de vista se a vista dos pontos que avista não fosse a repetição de julgamentos de valor tomados como conhecimento isento, dados precisos, informações, e tudo de acordo com os interesses dos poderosos. Só tem um jeito de modificar este estado de coisas: inventar mecanismos de rebentar o que é dado como informação. Abraços

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