23 outubro 2014

Um disparo, 28 inocentes

One shot one kill (um disparo, um morto) é o lema dos fuzileiros americanos.

E o lema dos drones? É um pouco diferente. Não que faltem os mortos, pelo contrário: é mais uma questão de objectivos. Mas tentamos apresentar esta notícia duma forma um pouco mais optimista...tanto para não falar só de desgraças.

De acordo com um relatório do Bureau of Investigative Journalism (uma organização da imprensa independente baseada em Londres), apenas bem 12% das vítimas dos drones americanos no Paquistão pode ser identificado como um militante. No estudo, publicado na Quinta-feira, também é feito observar que menos até 4% dos mortos foram identificados como membros da al-Qaeda.

O documento afirma que, das 2.379 vítimas oficiais dos ataques com drones que ocorreram entre Junho e Outubro de 2014, apenas bem 704 (mais do que um terço!) foram já identificadas e, entre estes, apenas nada menos de que 295 parecem ter características pelas quais podem ser consideradas como filiadas de grupos armados.

De acordo com o relatório, foram detectados "alguns detalhes" consistentes e suficientes para reconhecer as vítimas como "militantes", enquanto mais de um terço das vítimas não parecem ter tido qualquer papel numa organização militante (mas poderiam ter tido!) e quase 30% não estavam absolutamente ligadas a qualquer grupo (isso agora: mas no futuro, quem pode saber?).

Apenas Bem 84 desses militantes puderam ser identificados como membros da al-Qaeda, 4% do número total das pessoas mortas. Contas feitas, este representa um resultado fantástico: para abater um único terrorista é preciso matar só 24 inocentes (que, é bom não esquecer, não são seres humanos normais, são árabes).

Doutro lado, este sucesso não surpreende o Secretário de Estado americano, o democrata John Kerry,  que no ano passado defendeu como os ataques dos drones fossem todos destinados a "alvos terroristas certos e ao mais alto nível".

O relatório é um resumo de um estudo realizado pela organização, Naming the Dead ("Dando um Nome aos Mortos"), um projecto que visa recolher os nomes e outros detalhes das pessoas mortas pelos da CIA no Paquistão. Em Outubro deste ano, chegou-se a um número total de 400 ataques de drones, desde o primeiro que sabemos ter acontecido em 2004.

Os nomes dos mortos foram recolhidos após uma pesquisa que durou um ano, dentro e fora do Paquistão, investigando e verificando uma variedade de fontes, incluindo documentos governamentais do Paquistão e centenas de outros relatórios escritos em Inglês, Pashtun e Urdu.
As pesquisas encontraram evidências de duas mulheres identificadas como vítimas dos ataques durante todo o período, o que não surpreende dados os diferentes papéis para mulheres e homens na sociedade paquistanesa.

Em Outubro de 2006, um drone atingiu uma escola, matando 69 crianças (pequenos terroristas, portanto), e todos eram meninos.

Ao contrário do que é dito nos Estados Unidos e no resto do mundo, há um enorme número de pessoas mortas no Paquistão acerca das quais não se sabe nada e das quais nada será alguma vez sabido. Portanto, surge a pergunta: sem ter os meios para identificar as vítimas, como é que podemos chegar a qualquer conclusão que nos permita saber se a campanha dos drones está a funcionar?

Simples: é só confiar no faro dos drones.


Ipse dixit.

Fonte: Newsweek

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