07 novembro 2014

Danos Colaterais e Terrorismo de Estado

Vamos fazer um pouco de limpeza.
Nomeadamente, vamos retirar da cena um equivoco, ou melhor, um mito: o mito dos "danos colaterais".

Já esta expressão consegue apresentar um concentrado de hipocrisia único: os danos colaterais são os civis mortos durante acções de guerra, como se fosse possível bombardear as linhas inimigas sem provocar vítimas inocentes.

Obviamente, quando for o inimigo a cometer um crime destes fala-se em "massacre"; quando somos nós, as forças do Bem, são "danos colaterais".
E, sendo colaterais, não há nada para fazer: é só alargar os braços, dizer "acontece, é o azar, a guerra é triste" e seguir em frente.

Mas os danos colaterais são realmente um simples azar, fruto do acaso?

Durante as guerras travadas pelos Estados Unidos após a queda do Muro de Berlim, o novo conceito de "danos colaterais" tem sido utilizado para justificar e tornar aceitável perante a opinião pública as vítimas civis: a ideia de base, portanto, é que estes "danos" não sejam desejados pelos militares, que falam de "casualidade", "erros", "errada informação" ou "problema de ordem tecnológico".

Mas um olhar mais atento permite entender que a maioria destes actos de guerra, que destruíram a vida de milhares de civis no Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria nos últimos anos, não são frutos de erros ou de casualidade: são actos deliberados, destinados a matar mulheres, crianças e homens indefesos.

E estes actos não são um monopólio dos Estados Unidos: existe uma específica doutrina acerca disso, que é adoptada pela maior parte dos exércitos do mundo. É mais evidente no caso dos Estados Unidos simplesmente porque estes não conseguem ficar quietos algumas semanas sem invadir alguém, mas o conceito é geral.

A doutrina em si é simples e clara: impor o terror, que é a fonte da obediência.
Síria, antes e depois
A doutrina militar contradiz abertamente a propaganda política: atingir a população civil é uma maneira de ganhar a guerra; a tortura é uma das maneiras para destruí-la; abalar a sua consciência é uma forma de ganhar a sua alma (os bombardeios dos Aliados no final da Segunda Guerra Mundial constituem um amplo testemunho disso).

Os soldados ao redor do mundo estão bem conscientes e respondem com muita clareza: as vítimas do terror raramente se vingam; a maioria sofre em silêncio e deseja apenas a paz para enterrar os seus mortos. Não só, mas às vezes as vítimas pedem a protecção dos seus torturadores: desmoralizados por tanto sofrimento, aceitando a mão que o inimigo tende do outro lado da arma.

Durante a Guerra da Argélia, os militares franceses (em particular os coronéis Trinquier e Lacheroy) desenvolveram uma doutrina que se concentra num conflito armado contra a população civil: Os Ingleses tinham efectuado uma abordagem semelhante no Quénia, no início da década dos anos '50 (onde haviam voluntariamente massacrados inteiras aldeias de não-combatentes), mas ainda não tinham elaborado uma doutrina digna de ser ensinada nas escolas militares.

Líbia
Já não alvos não intencionais duma guerra brutal, os civis se tornam o objectivo militar para
conquistar e destruir em nome de objectivos humanos. Tortura, execuções sumárias, bombadeios de civis não são apenas um crimes de guerra, mas parte integrante duma estratégia militar a serviço da causa política.

O coronéis Trinquier e Lacheroy exportaram esta doutrina em escolas militares norte-americanos que, por suas vezes, implementaram-a nos Países da América Latina, especialmente na América Central.

As legiões "democráticas" e atlantistas que, sob os auspícios da Nato atacaram a ex-Jugoslávia, o Afeganistão e a Líbia também aplicaram esta doutrina na tentativa de impor The American Way of Life, o modo de vida americano e o liberalismo triunfante.

A doutrina militar shock and awe (choque e pavor) aplicada pelos Estados Unidos durante a invasão do Iraque em 2003 é que a reactivação desta doutrina por parte de teóricos interessados na actualização da teoria: Harlan Ullman e James Wade, tomando como exemplo o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki pelos Estados Unidos em Agosto de 1945, descrevem em termos inequívocos que o efeito desejado é infligir destruição de massa, humana e material, com o fim de influenciar uma sociedade para que tome a direcção desejada pelos atacantes. Tudo isso em vez de atacar directamente alvos puramente militares.

Todavia, também aqui podemos encontrar uma profunda hipocrisia: escondido atrás do termo de "doutrina militar" fica mais simplesmente aquele que é um terrorismo de Estado, um terrorismo em massa, um terrorismo do Ocidente (no caso das Forças americanas e da Nato) perante o qual os órgãos de comunicação estão facilmente adaptados, porque é o trabalho dos seus donos atlantistas.

Continuam a utilizar o termo "danos colaterais", sem sequer deixar que o Leitor possa vislumbrar atrás disso uma precisa táctica que, como vimos, não passa de terrorismo.
Homs, Síria

Fica uma pergunta: podem ser considerados simplesmente como "ignorantes" ou "vendidos" ou estamos perante uma voluntária acção de cumplicidade?

Fica uma segunda pergunta: quem é o terrorista? O fanático que corta a garganta do ocidental ou as forças ocidentais que voluntariamente aterrorizam e massacram cidadãos inocentes? Neste caso a resposta é clara: ambos.

Este terrorismo de Estado mascarado com cinismo de doutrina militar tem de facto um dano colateral, e bastante grave até: a morte da Democracia.

Como nota final, alguns aprofundamentos:
  • Marie-Monique Robin, Les escadrons de la mort. L’école française, 2004, La Découverte
  • Maurice Lemoine, De la guerre coloniale au terrorisme d’État, Le Monde Diplomatique, 2004
  • Harlan K. Ullman, James P. Wade, Shock And Awe: Achieving Rapid Dominance, National Defense University, 1996 (versão Pdf em Inglês neste link)

Ipse dixit.

Fonte: artigo baseado em Dommages Collatéraux: la face cachée d’un terrorisme d’État de Guillaume de Rouville em L'idiot du Village

10 comentários:

  1. Chaplin8.11.14

    Democracia e socialismo são utopias humanas, não acredite nem por um segundo...gostei do novo adjetivo para os sionistas, atlantistas...muito bom. Danos colaterais é um eufemismo desses terroristas, portadores da mais alta tecnologia bélica e que se escondem atrás da bandeira estadunidense e da alcunha de defensores da liberdade.

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  2. Anónimo8.11.14

    Chaplin, resumiu o post em poucas palavras.

    Ferreira

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  3. Anónimo8.11.14

    O Noam Chomsky publicou recentemente um texto sobre o terrorismo de estado e que começa assim:
    'É oficial: Os EUA são o principal Estado terrorista do mundo, e está orgulhoso disso'
    O post relata muito bem o conceito, e os pressupostos para os novos termos utilizados para definir estes actos terroristas são tão bárbaros como o acto em sí.

    Krowler

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    Respostas
    1. Olá Chaplin, Olá Ferreira, Olá Krowler!

      Obrigado, como sempre.

      Chaplin vê-se rodeado de sionistas em todos os lados (lol), mas realço esta frase que, como diz Ferreira, bem resume tudo:

      "Danos colaterais é um eufemismo desses terroristas, portadores da mais alta tecnologia bélica e que se escondem atrás da bandeira estadunidense e da alcunha de defensores da liberdade"

      É tristemente verdade.

      Quanto ao Chomsky: vi o artigo dele e alguns relacionados; alguém fala em "sondagens" efectuadas acerca disso. Mas não encontrei nenhum dado: ou percebi mal ou ando um pouco distraído. Se encontrar algo, claro que vou publicar.

      Grande abraço!!!

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    2. Anónimo8.11.14

      EXP001

      Olá Krowler, boa tarde. Durante esta tarde enquanto fazia as minhas leituras deparei-me com esse artigo em http://resistir.info/eua/chomsky_03nov14.html o qual achei muito interessante,

      Ja agora acrescento viva a Hungria :)

      PARLAMENTO HÚNGARO MARIMBA-SE PARA A UE
      O Parlamento húngaro aprovou em 3 de Novembro uma lei que permite a construção do gasoduto South Stream sem a aprovação da União Europeia. A lei foi aprovada por 132 votos a favor e 35 contra. O projecto do South Stream prevê a entrega do gás russo à Europa Central através do Mar Negro e dos Balcãs, sem passar pela Ucrânia.

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    3. Anónimo9.11.14

      Olá EXP001,
      Li os 2 artigos e a frase do Chomsky é a nota de entrada do primeiro.
      Relativamente à questão do gás, existe também uma entrevista do Michael Hudson sobre as negociações entre a Rússia, Ucrânia e UE que vale a pena ler.
      Abraço
      Krowler

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  4. Anónimo9.11.14

    Será? "There's a secret government, inside the government...and I don't control it." Bill Clinton
    .Kennedy ia expor algo que não era para se saber, morreu com a famosa "bala mágica", antes Eisenhower já falava no complexo militar-industrial ( ver youtube ).
    Clinton não consigo encontrar o video, apagado? Sim vi esse vídeo, seja como for aparece em vários jornais.
    Sim é uma plutocracia. Quem brinca com isto são as grandes corporações/senhores do mundo.
    Fallow the money
    Abraço
    Nuno

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  5. Fica uma segunda pergunta: quem é o terrorista? O fanático que corta a garganta do ocidental ou as forças ocidentais que voluntariamente aterrorizam e massacram cidadãos inocentes? Neste caso a resposta é clara: ambos.
    E um da subsidios ao outro, o que faz a coisa mais grotesca ainda.

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  6. Chaplin10.11.14

    Olá Max.A questão não é a de simploriamente sentir-me "rodeado" de sionistas, mas entender que o poder e seu exercício de dominação possui um componente histórico e secular, cujo desenrolar culmina com o atual estado de ordem globalizado e sob amplo controle sionista, cujos vassalos espalham-se por todos continentes e nações. Mas para chegar a tal entendimento é preciso ler as entrelinhas da história, desde os sacerdotes hebreus e suas nuances, onde o fator econômico sempre preponderou. Ou seja, o poder que domina sociedades é real e seus autores são grupos de pessoas e tais grupos são majoritariamente sionistas. Espero que deixes de interpretar minhas colocações como mais uma entre tantas caricaturas internéticas.. Quanto a Chomsky, brilhante mas não se permite, seja por ser sionistas ou mesmo por se alimentar do sistema, ir até a origem do poder histórico e ao princípio dos princípios. .Abraço.

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