01 dezembro 2014

A guerra dos preços do petróleo

"Ah, pois, o preço agora é demasiado elevado, mas esqueçam o petróleo abaixo dos 80 Dólares..."
Esta a ideia há poucos anos. Hoje o barril fica abaixo dos 70 Dólares (abriu a 67 em New York).
É bom? É mal? Quem ganha com isso?

Comecemos pela última pergunta: não ganha ninguém.

Não ganham os consumidores porque, por alguma misteriosa razão que deve ter a ver com o delicado Equilíbrio Quântico, quando o petróleo aumentar 5 Dólares a gasolina dispara, quando o petróleo cair de 20 ou 30 Dólares a gasolina baixa 1 cêntimo (e ainda temos que agradecer).

Não ganham os produtores, que vêem as margens de lucro reduzidas e os investimentos limitados.

Mas desta vez a situação é um pouco mais complicada.
A Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) decidiu manter os limites da produção inalterada: 30 milhões de barris por dia. Aparentemente é uma decisão estranha: quando um produto custar pouco, limita-se a produção e o preço aumenta. É a lei da procura e da oferta.

Mas desta vez a Arábia Saudita (cujas decisões "pesam" muito no âmbito da OPEP) decidiu escolher a estrada contrária. E os analistas começam a ver o barril descer até 60 Dólares. A Arábia perderá riso de dinheiro. Parece uma táctica suicida.

Não era esta a decisão que esperava o Irão ou a Venezuela, que precisam de preços muito mais elevados para manter o orçamento de Estado equilibrado. Não era este o desejo da Rússia, pelas mesmas razões. Mas nem era esta a escolha dos Estados Unidos, que com preços baixos vê reduzir-se as margens de lucro das suas explorações de fracking e de xisto.


Então? Qual o objectivo da Arábia? Arruinar os outros produtores de petróleo?
Sim e não.

Dum lado, é claro que um mercado com menos concorrentes é algo que a Arábia vê com simpatia: e na capital Riad sabem que nem todos podem continuar a vender o petróleo com preços tão baixos.

Do outro lado, a Arábia sabe de ter na mão uma arma mais potente do que a atómica: porque todo o nosso mundo funciona com o petróleo. Então decidiu utilizar esta arma para resolver algumas questões "incómodas". Claro, nada disso é oficial, mas não é preciso muito para imaginar quais os movimentos nos bastidores.

A Arábia não é apenas um produtor de crude: é uma entidade política com objectivos bem claros.

Por exemplo: o ISIS, que o petróleo árabe armou também (via Síria) mas que agora tornou-se mais um joguinho nas mãos de Washington e Tel Avive, pode ser sacrificado na óptica dum acordo com os EUA se este abdicar dos "bons tons" recentemente mantidos com o Irão.

Depois há a Síria (e, atrás dela, o Irão): eliminar Assad e reduzir a esfera de influência de Teheran é importante na óptica da Península, foi por isso que armou os "rebeldes" sírios.

Há o problema do fracking: em Riad não vêem nada bem estas novas explorações e não preciso puxar muito pela imaginação para entender a razão.

Para acabar: Rússia e China, um produtor, outro grande consumidor, ambos empenhados a abandonar o Dólar e quebrar assim o esquema que ao longo das últimas décadas tem garantido a prosperidade da Arábia.

Tendo isso em conta, a decisão de não baixar o preço do petróleo faz todo o sentido: são muitos os assuntos para resolver em cima da mesa e em Riad decidiram desta forma fazer a voz grossa para que alguém responda. Quem? Obviamente os Estados Unidos. A ideia dos árabes é utilizar o preço do petróleo para obrigar Washington a sentar-se com eles e encontrar uma série de acordos para que todos possam viver felizes e contentes. "Todos" obviamente seriam os EUA e a Arábia, o resto do mundo ficaria um pouco menos feliz.

Funcionará? 

Hoje começou a chegar a conta: as Bolsas dos Países do Golfo Pérsico em queda livre. Normal: a Arábia tem o petróleo, quem pode responde com a Finança. Era previsível: o limite abaixo do qual extrair com o fracking deixa de ser conveniente fica entre 60-70 Dólares ao barril, lógico que os EUA actuem para tentar "assustar" os árabes. Os investimentos efectuados na área do fracking e do xisto nos últimos anos foram enormes, sobretudo por parte dos privados. E até a passada Sexta-feira, as 75 empresas envolvidas perderam algo como 160 biliões de Dólares em Wall Street.

Mas é um jogo perigoso: muita dívida nos cofres dos bancos internacionais são também garantidos pelos Títulos vendidos nas Bolsas do Golfo. Não só: mas as empresas americanas do petróleo "alternativo" começaram a vender ainda mais para recolher liquidez, o que fez ulteriormente cair o preço do petróleo. 

O que significa tudo isso para nós que estamos à janela? Nada de bom.
Além do desconto de 1 cêntimo nas bombas de gasolina, temos umas más previsões ligadas ao andamento das Bolsas ocidentais (de Wall Street já vimos, mas não podemos esquecer o estados catatónico da Zona NEuro). E se há uma coisa que aprendemos desde a falência Lehman Brothers em 2008 com toda a história dos subprimes é que já não há crises "isoladas". 

Depois há a tensão que irá aumentar, como se já não fosse suficiente. Sem ou com acordos "amigáveis" entre Washington e Riad, alguém ficará sempre insatisfeito. Será bom lembrar os nomes dos jogadores envolvidos: Arábia, Estados Unidos, Rússia e China. Chega para ter uma ideia?


Ipse dixit.

6 comentários:

  1. Mas se na verdade o preço do produto refinado não desce e a preço de compra do produto em bruto desce, o principal beneficiário desta manutenção da quantidade produzida não serão as empresas que vendem o produto refinado?

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  2. Anónimo1.12.14

    A Arábia Saudita é aquilo que é...um satélite de interesses da casa branca (dita cuja obedece aos interesses de grandes corporações, or else).
    O fracking, sim quando destruir e já está a fazer isso ao meio ambiente, é mais um meio rápido de enriquecimento e ao mesmo politico, como vão ficar os territórios no usa e canada:
    http://www.businessinsider.com/there-is-a-deadly-side-effect-of-the-fracking-boom-that-has-nothing-to-do-with-dirty-water-2014-5
    Se a opção é dar cabo da agricultura das reservas de água subterrâneas, já esta a acontecer o resultado é desastroso.
    Se continuar sem a divida inspecção cientifica/ com regulações ambientais, nos próprios
    usa, o que conta é o lucro (profit) imaginemos no resto do mundo.
    Boa ideia, claro que não.
    Quem paga a factura nós os nossos filhos, netos, bisnetos...ou seja nós namos ficar muito mal na fotografia, e nem podemos fazer muito.
    "Arábia, Estados Unidos, Rússia e China"- mmm interesses contraditorios.
    O que interessa é exactamente fazer crer que quem fornece o degenarado liquido é os do costume.
    Posso estar errado mas acho que os ultimos dois até se safam. A Arábia sem o liquido é um acampamento de beduinos, quanto aos outros são perigosos por inumeras razões.
    A dependencia do petroleo não passa de fazer dinheiro atraves de tecnologia obsoleta.
    E já agora pergunto quem inventou a corrente alterna a mais de um século que é o que faz o mundo andar? Nem figura nos livros sequer, aliás com corrente continua nem sequer estavamos onde estamos.
    Abraços
    Nuno

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  3. «Existe um delicado Equilíbrio Quântico, quando o petróleo aumentar 5 Dólares a gasolina dispara, quando o petróleo cair de 20 ou 30 Dólares a gasolina baixa 1 cêntimo (e ainda temos que agradecer).»
    .
    Esta frase vai para o meu arquivo.



    Há algum tempo... quiseram introduzir taxas em cada levantamento multibanco... todavia, no entanto, o consumidor/contribuinte reagiu: "o banco público C.G.D. apresentava lucros... sem ser necessário a introdução de mais uma taxa"!?!?!
    .
    Ora, de facto:
    1- ficar à espera de auto-regulação privada/(de mercado) é coisa de otários...
    2- a Regulação Estatal é necessário... todavia, no entanto... é algo que poderá ser um tanto ou quanto contornável... (uma nota: ver casos do BPN e do BES).
    3- para que certos sectores de actividade [exemplo 1: a actividade política; exemplo 2: sectores estratégicos da actividade económica] não venham a «ficar entregues à bicharada»... é necessário que exista uma apresentação sistemática da sua actividade [ex. 1: governo; ex. 2: EMPRESAS PÚBLICAS em sectores económicos estratégicos] ... para que... o consumidor/contribuinte possa exercer uma constante atitude crítica!
    .
    .
    P.S.
    Não há necessidade do Estado possuir negócios do tipo cafés (etc), porque é fácil a um privado quebrar uma cartelização... agora, em produtos de primeira necessidade (leia-se, sectores estratégicos) - que implicam um investimento inicial de muitos milhões - só a concorrência de empresas públicas é que permitirá combater eficazmente a cartelização privada.

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    Respostas
    1. Anónimo2.12.14

      -Exactamente
      Os mercados não se auto-regulam e não funcionam na base da boa vontade e da ética.

      EXP001

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  4. Anónimo2.12.14

    Mas a maioria dos países exportadores do liquido possuem 51% de participação. Abaixo disso ficam como foi bem dito acima sem poder sobre o que é ou devia ser deles e dos que lá habitam. E evitam uma regulação feita por privados. Aliás sectores chave nunca devem ter mais de 50%.
    http://elpais.com/m/elpais/2014/11/28/opinion/1417193066_924709.html

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  5. Chaplin2.12.14

    A resposta está no final da matéria! O acordo irá ao encontro exatamente dos quatro países mencionados, além da Inglaterra e Israel, é lógico. E o resto do mundo irá assistir e assumirá todas as consequências advindas do mesmo. Ora, a Arábia tem a matéria prima, os EUA o controle tecnológico e militar, a China a garantia do consumo e a Rússia o dualismo geopolítico mundial com os EUA, todos dependentes do sionismo anglo-saxão.

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