07 dezembro 2014

Desejo, Prazer & Felicidade

Sabemos como é: o Capitalismo não funciona, é injusto etc., etc... Sabemos isso, estamos fartos de ler estas coisas e todos mais ou menos concordamos.

Mas abandonemos por um momento o dinheiro, a Finança, as desigualdades, as injustiças, e perguntamos: o que deveria proporcionar uma sociedade "boa"? O bem estar de todos cidadãos, parece evidente: promover a saúde e a independência económica, estas são as bases.

Mais: a possibilidade dos cidadãos verem realizadas as suas aspirações. Criar um família, crescer os filhos num ambiente confortável; ou cultivar os relacionamentos interpessoais, ter acesso à cultura; ou ainda ter os instrumentos para escolher e gerir as suas vidas segundo as exigências pessoais. Ou tudo isso junto.

Resumindo: conseguir viver duma forma que possa dar um sentido à nossa vida. Podemos definir esta como "felicidade"? Talvez, não sei. Mas por comodidade utilizamos este termo: felicidade.
A nossa é uma sociedade "feliz"? Não, pelo contrário: é profundamente infeliz. E não é por causa das guerras ou dos malabarismos das Bolsas: são as bases que estão erradas.

Longe do Capitalismo original, a actual sociedade vive num estado muito particular, que do Capitalismo teve origem, no qual o lema parece ser "possuir".

Este modelo económico difunde a ideia duma felicidade inteiramente baseada no consumismo e no materialismo. Publicidade, Public Relations são os instrumentos utilizados pelos defensores desta doutrina na qual a "felicidade" é confundida com o prazer. Nós temos que comprar um carro, podemos compra-lo e com a compra ficamos "felizes". Se não conseguirmos, eis que aparece a frustração e ficamos "infelizes", porque aqui "felicidade" é sinónimo de "posse".

Problema: uma felicidade baseada na "posse" dura pouco. A felicidade que vem de "possuir tudo o que você quiser" não fica connosco muito tempo: só torna todos escravos da dialéctica prazer-frustração, alegria-tristeza.

A emoção de finalmente ter conseguido o que queremos (o novo carro, o iPad, um trabalho, um vestido) termina logo a seguir: em breve irá sair uma nova versão do carro (iPad, computador, tablet...) que acabamos de adquirir e nós descobriremos ter um modelo velho, fora de moda, tecnologicamente ultrapassado. Aparecerá assim o novo desejo que apagará por completo a "felicidade" conseguida com o velho.

Portanto, nos encontramos catapultados para aquela que era a nossa condição de partida. As passagens entre "felicidade" e frustração tornam-se rotineiras (a "rotina hedonista" como afirma o psicólogo britânico Michael Eyenseck), e passamos boa parte da nossa vida a tentar encher um vazio.

Isso porque, como já afirmado, somos levados a crer que as experiências que trazem prazer sejam experiências "felizes", sejam a fonte da felicidade. E assim, passamos dum momento de prazer para outro, na esperança de que o próximo seja ainda mais intenso e mais satisfatório daquele que acaba de terminar.

Vivemos para estes "momentos de felicidade": são eles que definem o ritmo das nossas vidas, o que implica um grande dispêndio de tempo e de energia na tentativa de maximizar o prazer, de procurar a "felicidade" e evitar o seu oposto.

E enquanto isso, o tempo passa. Estamos presos nessa dialéctica que, na maioria das vezes, nos torna ansiosos e infelizes, até que estas "felicidades" tornam-se a medida para avaliar a sociedade: uma sociedade onde a escolha de telemóveis for ampla é uma sociedade que proporciona mais "felicidade" do que uma sociedade onde a escolha for mais limitada ou até ausente.

Um governo que prometa o "crescimento" será portanto encarado como um bom governo: crescimento significa mais produção, mais poder de compra, mais momentos de "felicidade".

Mas a confusão entre "prazer" e "felicidade" tem consequências pesadas. Ao substituir a felicidade (aquela verdadeira, sem aspas) pela "felicidade" proporcionada pelo prazer, nós abdicamos duma satisfação autêntica, algo que possa durar. Resultado? Segundo a Organização Mundial de Saúde, no mundo há não menos de que 350 milhões de pessoas que sofrem de depressão. Destas, bem 64 milhões vivem nos Estados Unidos.

Normalmente o prazer é algo relacionado aos sentidos, muitas vezes hedonista, sempre efémero. E caminha ao lado do desejo. Há muito tempo, Buda identificou o desejo como a causa de todo o sofrimento, pelo que anular o desejo é o começo para conseguir a felicidade (o que, dito por uma pessoa que nas imagens pesa uns 150 quilos é um pouco suspeito: não parece ter conseguido eliminar o desejo da comida...).

Eu não sei, parece-me um bocado radical: talvez o problema não seja o desejo ou o prazer, talvez o problema resida na medida, como em todas as coisas da vida. A água é boa por definição, mas experimentem beber 10 litros duma vez só.

No nosso sistema económico "liberal" (com muitas aspas!), que coloca no seu centro o consumidor e empurra-o a assumir atitudes que exacerbam os desejos individuais e levam a um consequente aumento da disparidade entre as classes sociais, a medida é posta de lado em favor dum desejo que tem sempre de ser satisfeito, para proporcionar um prazer continuo (quando possível). Este é o excesso.

Isso significa que qualquer governo que prometa mais e mais "crescimento", à custa de ou pondo em segundo plano outros valores (liberdade individual, justiça social, cooperação, ajuda aos que mais precisam) não é um governo que escolha o bem estar dos seus cidadãos mas apenas a continuação do perverso ciclo prazer-frustração.

Em teoria todos os governos prometem "liberdade", "justiça", etc., na prática todos têm como primeiro objectivo atingir o crescimento económico. Qualquer sistema para funcionar precisa de dinheiro (felicidade é também um sistema de saúde que funcione!), isso é óbvio: mas onde está mais uma vez a medida?

Onde acaba o crescimento justificado para apoiar o bem estar dos cidadãos e onde começa o crescimento que tem como objectivo o "bem estar" das Bolsas? Onde acaba de ser um instrumento em favor dos cidadãos para torna-se no principal (e por vezes único) objectivo dum País?

Não é dos governos a tarefa de tornar os cidadãos felizes, não pode ser. Mas é deles o dever de eliminar do sistema os obstáculos que impedem a concretização deste objectivo. Os Estados deveriam promover, ao lado duma autonomia económica individual e social, a concretização e a transmissão daqueles valores que podem ser considerados eternos e que, por acaso, são o cerne da democracia também: participação, cooperação, partilha, ajuda.

Se um governo revela-se uma inferência destrutiva neste caminho, as pessoas têm o direito de altera-lo ou mesmo substituí-lo por um novo, capaz de defender o direito à saúde e à felicidade.

E esta não é um a ideia minha: é da ONU.

Bom Domingo.


Ipse dixit.

Imagens: Mighty Optical Illusions

6 comentários:

  1. Anónimo7.12.14

    Eis um modelo interessante:
    http://cidadania-europeia.blogspot.pt/
    Eis um outro que com uma ou outra alteração, poderia funcionar:
    https://www.thevenusproject.com/

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  2. Anónimo7.12.14

    Muito bem dito.

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  3. Caro Max. Bom de ler, sempre... " Mas é deles o dever de eliminar do sistema os obstáculos que impedem a concretização deste objectivo." É aí que a porca da conspiração torce o rabo. Sinto muito, me perdoe, te amo, sou grato.

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  4. Chaplin8.12.14

    Anterior ao hedonismo, que tem como princípio tentar "compensar" as vidas medíocres das pessoas, essencialmentre movidas pelo medo e/ou pela culpa impostos aos católicos e ortodoxos ou estimular a ganância promovida pelo protestantismo, parceiro chave da lógica capitalista, existem valores fundados em sistemas educacionais que se configuraram, ao longo do tempo, nas condições impostas por uma elite econômico/financista.

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  5. Luiz Michel8.12.14

    Max não há como vislumbrar esta mudança de paradigmas, ainda mais partindo dos governos e para que o povo o faça é preciso haver um "diluvio de conscientização" que inunde o mundo, para sairmos dessa escravidão moderna que é o consumismo ( outra coisa bem difícil de acontecer). Este que acarreta uma serie de intempéries na alma que distorce e distancia ainda mais aquilo que imaginamos ser "felicidade" (como você bem disse: prazer e felicidade)
    Nesses moldes Max que você (ou a ONU) nos apresenta acerca das responsabilidades dos governos de inserir e estimular os reais valores para proporcionar uma pseudofelicidade. Ao meu ver, isto não nos levaria a um conceito de felicidade (como costumamos a imaginar) mas talvez um de "FELIZ-CIDADE". Agora até onde isso pode se relacionar com aquela felicidade que nos é própria e individual é difícil de mensurar.

    (liberdade individual, justiça social, cooperação, ajuda aos que mais precisam)

    Não é que isso seja deixado de lado pelos governos, é que para isso acontecer em primeiro plano ou pelos menos aliado ao "crescimento". Estes governantes teriam que ter e praticar isso tudo (que bem poderiam ser virtudes) antes como pessoas , indivíduos ou cidadãos. E isso só nos mostra que a mudança não virá de cima (dos governos) ter que partir de baixo, das massas e mais precisamente dos indivíduos.
    Porém a mesma sociedade que se deixa escravizar pelo consumismo exacerbado, não têm "força" moral para atingir este grande feito. Daí a necessidade de terceirizar e cobrar dos governos, do sistema que é tudo menos humanizado, nossa "porção de felicidade".

    Quando Cristo diz "dê a Cesar o que é de Cesar e dê a Deus o que é de Deus", falava deste caminho alternativo e marginalizado neste mundo globalizado, que somente nós como indivíduos podemos construir e mais tarde extrapolar para uma sociedade mais fraternal. Um caminho marginal porém seguro, eficaz e gratificante porque age de forma direta nos indivíduos e no âmbito da igualdade ( no sentido de que todos podem fazer) alicerçando a felicidade que é efêmera (não duvidemos disto) nos atos de bondade.

    Abraço.

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  6. Anónimo8.12.14

    É preciso manter as pessoas nos seus paraísos artificiais, não aqueles imaginados por Baudelaire, mas os novos. Desta forma os cidadãos não se irão lembrar daqueles valores que realmente são importantes.
    O estado quer cidadãos ao serviço da economia e por isso chama-lhes de consumidores.
    O estado avalia o seu próprio desempenho pelo aumento ou diminuição do poder de compra dos cidadãos.
    Para o estado só uma coisa conta: o orçamento e a consequente cobrança de impostos. Passa então a chamar os cidadãos de contribuintes.
    Para o estado somos contribuintes e consumidores.
    Por falar em consumo, estamos na quadra natalícia, altura em que o consumo atinge o seu apogeu.
    E que lindo que é o Natal!
    É a ultima esperança para alguns comerciantes.
    Os cidadãos passam da fase de stress crónico do dia-a-dia para a depressão, tantos são os presentes inúteis que têm para comprar.
    O melhor é não esquecer ninguém, para não melindrar. E que tal darmos uns 'Mon Cherí' à dona Alice? Custam só 3 euros no Continente!
    Os putos sonham com ilusões que lhes são impostas e escrevem cartas com listas de ... coisas, prometendo que no próximo ano se vão portar melhor. Espero que estejam a mentir.
    Espalha-se uma epidemia de Pais Natal, extremamente mal pagos, vestidos com roupa comprada numa loja chinesa mais próxima, ou aproveitada dos anos anteriores.
    Os católicos desesperados, penduram nas janelas umas peças de tecido com a imagem do Jesus menino, querendo recuperar para sí a origem de tal festividade.
    Na máquina de lavar cérebros é uma orgia publicitária. Perfumes, brinquedos, telemóveis e sobretudo produtos de quem pode pagar a publicidade.
    Para compor o ramalhete, ouvem-se umas deprimentes musicas de natal criadas nos EUA, que deixei de suportar desde o primeiro dia em que as ouvi.
    Finalmente chega a tão almejada noite. As pessoas com as cabeças já amolecidas pelo espírito de natal (alguém por aqui me pode explicar o que é o espírito de natal), sentam-se finalmente à mesa, como se elas próprias se tivessem portado bem o ano todo.
    E os perus sempre a perder.

    krowler

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