12 dezembro 2014

Solidão

Segundo o filósofo escocês Thomas Hobbes, no estado natural das coisas, antes do surgimento duma autoridade que pudesse exercer o controle, estávamos todos em guerra "um contra os outros". 

Homo homini lupus, o homem é o lobo do homem tinha já dito Plauto (254-184 d.C.) e Hobbes deu popularidade à expressão.


Todavia, ao mesmo tempo, o homem é um animal social: desde o início foi um criatura que necessitava dos outros para sobreviver. E agora? Somos mais lupus ou mais sociais? Nem uma nem outra coisa: estamos sozinhos.

A doença da solidão

Um estudo do britânico The Independent observa que a doença da solidão grave aflige 700.000 homens e 100.000 mulheres por cada milhão de pessoas com mais de 50 anos, e a coisa está a desenvolver-se a um ritmo impressionante. Também porque os jovens adultos sofrem do mesmo mal.

A solidão mata duas vezes mais do que a obesidade: demência, hipertensão arterial, alcoolismo, acidentes, depressão, paranóia, ansiedade e suicídio ocorrem mais frequentemente quando os relacionamentos com os outros ficam interrompidos. Não somos capazes de ficar sozinhos, esta é a verdade.

Culpa de internet? Dos telemóveis? Sim, as fábricas fecharam, as pessoas viajam mais de carro em vez de que nos transportes públicos, clicam nos links de YouTube em vez de ir ao cinema, trocam mensagens e conversam nos chat dos smartphones, comunicam via Facebook: estas mudanças são suficientes para explicar a velocidade do nosso colapso social? Não, não são, há algo mais.

Estamos perante mudanças estruturais que foram acompanhadas por uma espécie de ideologia do
medo e da negação da vida, que fortalece e reforça o nosso isolamento social.

A guerra do "homem contra o homem", a competição e o individualismo, são a religião do nosso tempo, justificadas por uma mitologia que elogia os combatentes solitários: o que importa é ganhar, o resto são danos colaterais.

Os rapazes já não aspiram a tornar-se trabalhadores ferroviários, mais de um quinto diz que "só quer ficar rico": em 40% da amostra considerada, as únicas ambições são a riqueza e a fama. O resultado é uma matilha de cães que luta para dividir-se os sacos de lixo.

O reflexo desta mudança encontra-se no idioma também: o mais cruel dos insultos é "perdedor". Ao mesmo tempo, a expressão "povo" é utilizada com cada vez menos frequência, porque tem em si algo de velho, ligado ao passado, que já não reflecte a realidade. Agora falamos do "direito à auto-afirmação", das "liberdades do indivíduo": a liberdade de mudar o nosso corpo, até o nosso sexo, são as "conquistas" da nossa sociedade.

A cura

Tratamento? A televisão, óbvio. Dois quintos das pessoas mais idosas afirmam que a principal companhia deles é o aparelho televisivo. É a cura que mata o paciente. Porque uma pesquisa feita por economistas da Universidade de Milano indica que a televisão incentiva as aspirações competitivas. Assim, para fugir dum mundo feito de solidão e competitividade extrema, os idosos só podem refugiar-se em alguém que lhes fala de solidão e competitividade. A quadratura do círculo.

A televisão acelera o hedonismo, empurra-nos para manter elevados os níveis de satisfação (que é sempre individual e material), transmite a obsessão da fama e da riqueza, vende, vende tudo. E o solitário fica ainda mais convencido de viver num lugar que não é o mesmo dos outros.

Consolação: pelo menos quem for ricos estará feliz e satisfeito. O tal 1% da população mundial. É possível ser ricos e preocupados? Sim, é possível.

Uma pesquisa do Boston College, realizada entre pessoas com uma riqueza média de 78 milhões de
Dólares (não propriamente trocos), descobriu que também eles sofrem de ansiedade, insatisfação e solidão.

Muitos confessam sentir-se financeiramente inseguros: para sentir-se mais seguros precisariam, em média, de mais 25% de dinheiro (e não há dúvida de que, uma vez obtido este 25%, a seguir precisariam de outro 25%). Um dos entrevistados declarou que iria ficar quieto só depois de ter um bilião de Dólares no banco: dá a ideia do mal-estar?

Certeza de que o problema sejam apenas internet e os smartphones? Temos destruído a natureza, degradado o nosso modo de vida, abdicado da nossa verdadeira liberdade em troca de quê? Duma vida mais comprida e solitária.

As alternativas

Vale a pena continuar ou será a altura de mudar? Mas mudar como?
Há alternativas.

Em primeiro lugar uma sociedade menos competitiva e mais igualitária. Reduzir ou anular as diferenças sociais.
É possível numa sociedade que descende do Capitalismo? Não. O Capitalismo é por sua natureza competitivo e se isso tem aspectos positivos (é estimulante, contrariamente a uma sociedade sem desenvolvimento vertical), também implica riscos enormes (como aquele de acabar numa sociedade como a nossa).

Mas há mais além do Capitalismo.
Há as teorias post-socialistas do economista egípcio Samir Amin.
Há as teorias do economista indiano Prabhat Ranjan Sarkar., baseadas no lucro da maioria.
Há a sociedade baseada em recursos sociais, tecnologicamente muito evoluída do engenheiro Jacques Fresco.
Há a teoria MMT que ajuda a usar o dinheiro para criar emprego, desenvolvimento pessoal (não só enriquecimento!), social, sempre apoiado por políticas de igualdade e respeito pela natureza.

Alternativas possíveis existem. Tratar da sociedade significaria tratar também da solidão para ré-descobrir uma maneira diferente de viver.
Mas quem pode desejar uma alternativa e tem força para aplica-la?
Com certeza não aqueles psicopatas que afirmam representar os eleitores.


Ipse dixit.

Fontes: The Guardian (1, 2, 3), The Telegraph (1, 2), The Times, The Atlantic, Independent Age, Campaign to End Loneliness (1, 2 ficheiro Pdf, inglês), Universidade de Milano Bicocca - Income Aspirations, Television and Happiness: Evidence from the World Values Surveys (ficheiro Pdf, inglês), Monbiot

6 comentários:

  1. Muito obrigado pelo texto.

    Penso e sinto que a energia da solidão acontece quando estamos em desarmonia com a nossa natureza.

    O tal “mundo” que o texto descreve é um mundo não natural e, portanto, não é a referência, apesar de muitas vezes o nosso ego achar que o seja.

    E diante dessa constatação, ficamos sem qualquer referência para uma VIDA que temos e SENTIMOS.

    Quando isso acontece, vem a “tal” solidão para mostrar que estamos desconectados com A VIDA que somos e sentimos.

    E isso gera, no ego, a tentativa de buscar uma “solução”, ou melhor, uma “alternativa”, sendo que nós somos a própria solução que o nosso ego não enxerga ou foi “treinado” para não enxergar.

    De tanto dizer como devemos ser, acabamos aprendendo como somos: indivíduos que nega sua natureza.

    Na minha visão e intuição, a solidão é a manifestação da nossa negação com a nossa naturalidade e integração com o restante da vida. É o preço que estamos pagando por se acharmos “superiores” à natureza e a humanidade que todos temos e achamos que é algo bobo ou algo que o valha.

    SOLIDÃO, DEPRESSÃO, ou algo que o valha, é um sintoma do DESEQUILÍBRIO que a VIDA impõe a vida não natural.

    O custo, ou melhor, todo o custo é a FALTA DE COOPERAÇÃO e COLABORAÇÃO para com a VIDA que somos e fazemos parte.

    Namastê!

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    1. "SOLIDÃO, DEPRESSÃO, ou algo que o valha, é um sintoma do DESEQUILÍBRIO que a VIDA impõe a vida não natural".

      Concordo plenamente.
      Estamos perante uma "doença" gerada pela nossa sociedade baseada em princípios não naturais e os sintomas são estes.

      O problema é que não são encarados como tais, mas sim como "efeitos colaterais". O que é diferente. O sintoma evidencia uma doença, o "efeito colateral" pressupõe que haja também um aspecto positivo e que determinados sacrifícios até possam ser considerados como aceitáveis.

      Assim, a solidão é analisada, debatida, mas não tratada de forma definitiva porque para tratar deste como de outros sintomas seria preciso ir até a causa originária e remove-la. No nosso caso, implicaria rescrever as bases da nossa vida actual. O que parece estar fora de questão, pelo menos por enquanto...

      Abraço!!!


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    2. Ela será tratada de FORMA NATURAL, pois a VIDA é a VIDA.

      Você é, de uma forma ou outra, uma EXPERIÊNCIA do VIVER "fora" dessa atmosfera e dentro dela.

      Tanto é verdade que seu "BLOG" é uma busca para RESPIRAR A LIBERDADE que BATE no seu CORAÇÃO.

      Vá e seja VOCÊ na sua FELICIDADE para com sua ALMA e VIDA.

      Gosto da sua "ARTE" e gosto da sua "SOLIDÃO" para entender a SOLIDÃO que TODOS temos e VIVEMOS.

      Isso é a tal COOPERAÇÃO e COLABORAÇÃO. Ou melhor, é a POESIA vivendo com o POETA.

      E temos muita DIFICULDADE para interagir.

      Seu BLOG é uma EXPERIÊNCIA DA GRANDE CRIANÇA que HÁ DENTRO DO ADULTO.

      Você é apenas um HOMEM, ou apenas uma GRANDE MULHER. Mas você é um GRANDE SER HUMANO QUERENDO SER FELIZ nesta atmosfera de medo, culpa e desamor.

      És a NOSSA SOLIDÃO para vivermos uma VIDA desequilibrada e sem o ESPÍRITO DA VIDA.

      Por isso, o cachorro, ou qualquer outro ANIMAL, nos ajuda a sermos NATURAIS e "ligados" a nossa VERDADEIRA NATURAL DA VIDA.

      A fonte da nossa VIDA nunca será colocada para a nossa percepção, pois somos "ESCRAVOS" da nossa incompreensão do VIVER A VERDADEIRA VIDA.

      Muito obrigado e seja apenas o seu CORAÇÃO e o que você percebe como tal.

      Muito obrigado e seja apenas seu oxigênio vivendo a sua realidade de mundo e no seu mundo e todos os outros mundos que se vivem e somos.

      Um grande abraço para o seu ego.

      Um grande abraço para a sua VIDA, sua ALMA e o seu GRANDE ESPÍRITO.

      Sawabona

      Shikoba

      Namastê!

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  2. Chaplin15.12.14

    Estava indo tão bem Max...mas sua última afirmação me obrigou a fazer um reparo. Não temos qualquer honestidade intelectual para taxar políticos ou governantes de psicopatas por uma única razão. Eles não são alienígenas! Sempre existirão pois o que é patológico e esquizofrênico é o sistema e seus processos de relações entre sociedades e seus representantes. Mal oriundo da necessidade de uma pequena minoria se perpetuar dominando uma grande maioria. Sem isso, sem a lógica da escassez, do caos controlado, não haveria como reproduzir tal condição, geração após geração...abraço.

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  3. Olá Chaplin!

    Concordo e não concordo. Explico.

    Os políticos são expressão da nossa sociedade, isso é de nós, é verdade. Até são eleitos por nós, pelo que há poucas dúvidas acerca disso: se eles são os culpados, nós somos os cúmplices. correcto?

    Até aqui tudo bem.
    Todavia, na maior parte dos casos estes políticos são pessoas com uma determinada formação, são indivíduos que tiveram ocasião de formar-se e adquirir uma bagagem cultural que deveria ser posta ao serviço dos cidadãos.

    Faz parte desta bagagem a entrada em contacto com outras formas de pensamento político, outros princípios, passados e presentes, alguns dos quais já experimentados, outros nem por isso.

    Um político digno deste nome deveria haver a dita honestidade intelectual de reconhecer quando um sistema ou uma ideologia fracassarem e propor aos eleitores um leque de alternativas. Na prática: incentivar a discussão, que depois é a sala de espera das ideias.
    Mas nada disso acontece. Pelo contrário, estamos perante classes políticas que perante velhos e novos problemas sugerem sempre as mesmas receitas, baseadas em ideias antigas, já ultrapassadas e até podres.

    É claro que um político ou um partido de Direita terá sempre uma visão de Direita. Mas a Direita não fica esgotada com o neo-liberalismo. Pelo contrário, o neo-liberalismo é apenas o ponto final duma parábola que inicia no Capitalismo do fim 1700 e que já mais nada tem para dar. Mesmo discurso em relação à Esquerda (esta mais activa neste aspecto, verdade seja dita, mas com escasso sucesso).

    Nós não elegemos os políticos só para fazer quadrar as contas do Estado; para isso seriam suficientes alguns contabilistas. Nós elegemos os representantes dos cidadãos para que haja alguém (em teoria) capaz de gerir o presente mas também de dar um sentido ao nosso futuro. E para isso servem as bases frutos das experiências do passado e a coragem das novas ideias.

    Que faltam totalmente.

    Abraço!!!

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  4. Chaplin18.12.14

    Continuemos Max. Não achas que o déficit da formação existencialista de um indivíduo é proposital? E que a partir dele o mesmo indivíduo eterniza uma total dependência, e mais do que isso, acaba por legitimar os processos que retroalimentam um mesmo sistema, criado e dominado por suas lideranças, que nada mais representam do que a perpetuação do poder em favor de poucos.

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