04 janeiro 2015

Drones vs. Imigrantes

Começou: eis 2015!

E como reza o ditado: Ano Novo, Drone Novo.
Nos Estados Unidos não se brinca com estas coisas: por isso já pensam em 2016.
O que tem de especial 2016? Dois rios: um Grande e um de dinheiro.

Confusos? Não, muito simples: os novos drones do exército terão a tarefa de acompanhar as movimentações dos imigrantes que cruzam o Rio Grande. A decisão foi publicada nas páginas do Defense Systems: um aeroporto para aviões não tripulados estará pronto em 2016.

E o rio de dinheiro? 33 milhões de Dólares chegam? É este o valor que o exército vai depositar nas contas da multinacional SGS, a mesma que construirá um aeroporto para drones em Fort Bliss, perto de El Paso, no Texas. Faz sentido: fica perto da fronteira com o México, é aquela uma das zonas quentes atravessadas pelos imigrantes mexicanos.

Duas palavrinhas acerca da empresa envolvida.
A SGS S.A. é uma multinacional sediada em Genebra (Suíça) que pertence ao Grupo Fiat e que conta com 80.000 funcionários distribuídos em 1.650 escritórios e laboratórios no mundo. Em 2013 obteve receitas na ordem de 5.830 biliões de Francos Suíços. Como referências pode apresentar a corrupção do marido da então primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto (em 1998, com caso abandonado pela Justiça após 2004) e irregularidades nos contractos com Paraguai e Filipinas.

Voltemos ao projecto perto da fronteira com o México.
O acordo vai permitir a utilização de dois tipos de drones: o modelo Gray Eagle e o Shadow.
O primeiro, o Gray Eagle, é o mais utilizado pelos Estados Unidos, tem 8,8 metros de comprimento e uma autonomia de voo de 30 horas. Trata-se do maior entre os aviões totalmente robotizados. O Shadow é mais pequeno, "só" 3.3, é lançado com uma catapulta e pode de forma ininterrupta ao longo de 6 horas.

Gray Eagle (topo) e Shadow (baixo)
O Gray Eagle já tem sido usado como arma de ataque no Iraque e no Afeganistão; é um meio para vigiar, espiar, atacar, destruir e comunicar.

O aeroporto, um dos poucos deste tipo, terá duas pistas, plataformas e um hangar de manutenção: precisará de um ano para ser completado e apresentará um centro de treino também.

A associação americana de fabricantes de drones (AUVSI) exulta. o projecto envolve a criação de 100.000 postos de trabalho e, sobretudo, 82 biliões de Dólares em receitas em dez anos.

Pergunta: tudo isso faz sentido? A resposta é: depende.

Se a ideia for controlar a imigração clandestina, os drones são uma péssima escolha do ponto de vista económico. Os contractos para a construção das instalações e a utilização dos drones são muito mais caros do que o emprego de helicópteros. A razão é o facto de que cada drone exige uma equipa de terra composta por 5 - 8 pessoas para que possa ser orientado e conduzido.

Há depois outros problemas "menores", como uma certa confusão no espaço aéreo dos EUA. Pilotos e controladores de voo civis relataram que desde o passado mês de Junho houve cerca de 25 incidentes que envolveram drones.

De acordo com a Federal Aviation Administration (FAA), os dados revelam como os drones, particularmente nas fases de descolagem e e aterragem nos aeroportos com tráfego intenso, estão a ameaçar a segurança aérea. No aeroporto de La Guardia, em New York, no passado dia 30 de Setembro o voo 6230 da Republic Airlines quase colidiu com uma pequena aeronave não tripulada enquanto voava a 1.200 metros de altitude.

Mas este não será um problema em Fort Bliss, instalação unicamente militar. Aqui, perto do Rio Grande, podemos encontrar o aspecto que justifica o emprego dos drones: será a primeira vez que aviões não tripulados serão utilizados de forma regular e massiva para controlar movimentos de civis ao longo dum período de tempo indeterminado.

Mais: a presença dum campo de treino permitirá afinar as técnicas de controle, não com simples simulações mas com aplicações directas "no campo".

Com certeza haverá (e já há) alguém capaz de ver além do seu próprio nariz: o que hoje tem como vítimas os imigrantes amanhã poderá ser empregue para controlar os cidadãos dos EUA também. Mas por enquanto os drones terão como alvo os desesperados mexicanos, para "proteger" as fronteiras do País, facto que contribuirá para que a nova aplicação seja bem aceite por boa parte dos norte-americanos.


Ipse dixit.

Fontes: Defende Systems, U.S. Army Aviation Center of Excelence: U.S. Army Unmanned Aircraft Systems Roadmap 2010-2035 (ficheiro Pdf, inglês), FedBizOpps: Y--FY14 Unmanned Aerial Vehicle Complex (UAV) located on Fort Bliss Army Military Installation in El Paso, Texas

1 comentário:

  1. Anónimo6.1.15

    Interessante, mas mais interessante é gastar trilhões(sic)...
    Para isto:
    http://rt.com/op-edge/219655-f35-gun-software-disaster/
    Nem é preciso a rt basta procurar pela net, o que interessa não é guerras mas manter o complexo militar industrial bem fornecido, ao menos enquanto brincam/jogam não matam ninguém.
    Nuno

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