26 janeiro 2015

O que é o dinheiro: resumo - Parte III

Então, até aqui conseguimos estabelecer que o dinheiro não existe, nem entre bancos e privados, nem no Estado. Ou seja, não existe um valor real e tangível, mas apenas um código abstracto que transmite os bens reais, que são o valor verdadeiro (coisa que o dinheiro não é!).

Mas agora que acabámos com a velha e errada ideia de que o dinheiro seja um valor, não podemos ignorar que a invenção da moeda teve outros fins, e muito mais importantes.

Desde pelo menos 5000 anos, a moeda é o monopólio de quem tem o poder de cria-la: desde os governantes de antigas civilizações, passando pelo Império Romano, os imperadores, os príncipes, até os Estados modernos, a questão do dinheiro sempre foi um monopólio.

O que é um monopólio? Simples: é uma situação particular em que um único vendedor detém o mercado de um determinado produto ou serviço. No caso do dinheiro, o monopólio era dos governantes (os tais réis, príncipes, Estados), os únicos que tinham ou têm o poder de cria-lo.

Mas por que isso? A razão é simples: o Soberano (vamos chama-lo assim, mas pode ser o antigo rei ou o moderno Estado) manteve para si o poder de criar dinheiro para conseguir o dinheiro de que ele precisava. Como? Através do poder de emitir o mesmo dinheiro e....dos impostos.

Pensemos nisso: se o Soberano (ou o Estado) não tiver o poder de nos obrigar a pagar impostos com o dinheiro dele, quem entre nós iria trabalhar para ele? Muito poucos, provavelmente ninguém.
Não ficou claro? Não faz mal, eis que calham bem dois exemplos, um inventado e o outro real.

Pedro e os Balboas

Pedro trabalha por conta do Estado brasileiro e ganha um rio de dinheiro. No fim de semana vai com toda a família num centro comercial: compram e comem como uma manada de búfalos porque o Estado paga bem e os donos das lojas são bem felizes de vender.

Até que um dia o chefe do Pedro diz: "Ó Pedro, venha no meu escritório". Pedro pensa "Um aumento?". O que é verdade mas também há uma novidade. Dilma escolheu poupar uns trocos e a partir daí paga todos os funcionários estatais em Balboas, que é a moeda de Panamá. A ideia é boa, o Balboa custa pouco e o Estado Brasileiro poupa com isso. Só que há um pequeno senão: o Balboa não é a moeda oficial do Brasil e a comida do centro comercial ainda deve ser paga em Reais. Não só: os impostos também!

Pelo que: Pedro ganha como antes (aliás, até um pouco mais com o aumento), só que agora é pago em Balboas e para gasta-los deve ir até Panamá. Não só: mas tem ainda que arranjar os Reais para pagar os impostos no Brasil.

Podemos pensar: bom, Pedro pode entrar numa agência de câmbio e trocar os seus Balboas para Reais. O que é verdade: só que trocar dinheiro custa e com esta operação Pedro não apenas anula o efeito do pequeno aumento como também perde parte do antigo ordenado. Então o que faz Pedro? Despede-se e vai a trabalhar numa empresa que paga directamente em Reais.

Mais simples, não é?

A vidinha dos nativos

Vamos agora ver um exemplo bem mais sério, pois trata-se aqui de História.

Quando os Ingleses chegaram na África, tentaram forçar os nativos a trabalhar por conta deles: todos trabalhos divertidos, como cultivar algodão ou recolher café, e tudo pago em moeda inglesa.

Os nativos não passavam o tempo à sombra da bananeira: já trabalhavam. Nas aldeias havia quem se dedicasse à pesca, quem à caça, quem cultivasse...enfim, faziam a vidinha deles, pelo que a ideia de ficar 10 horas por dia a cultivar plantas por conta de alguns estrangeiros não obteve grande sucesso. E os Ingleses ficaram mal, pois algodão e café eram óptimos bens para ser exportados e vendidos em todo o mundo.

Então, como convencer os nativos a deixar a vidinha deles para trabalhar como escravos nos campos dos Ingleses? Simples: com a emissão de dinheiro e a introdução de impostos.

Os Ingleses disseram: "Ó nativos, a partir de agora todos têm que pagar (a nós, claro) um imposto sobre as vossas cabanas, e têm que paga-lo com o nosso dinheiro. Obviamente ninguém põe em causa a liberdade de escolha e vocês podem continuar a não pagar. Só que neste caso as vossas cabanas vão ser incendiadas. A propósito: alguém tem um fósforo?"

Os desgraçados de nativos de repente viram-se com a necessidade urgente de encontrar dinheiro, e não dinheiro qualquer: o dinheiro dos Ingleses. O que poderiam fazer para encontrá-lo? Apenas uma coisa: trabalhar para os Ingleses, cultivar os tais algodão e café.

Isso é: forçados pela chantagem do tirano, encontraram-se subitamente desempregados, porque nenhum deles tinha um trabalho que permitisse ganhar a moeda de quem detinha o poder. E acabou a vidinha deles.


O tirano

Então, esta coisa dos Ingleses é História? Sim, verdade: é passado mas também é actualidade. É exactamente o que se passa hoje.

O Estado moderno tem o monopólio do dinheiro e pretende, com a força das leis, que todos nós (cidadãos, empresas) pagamos os impostos com o dinheiro que ele emite. Então, todos nós temos que trabalhar para isso, caso contrário é desemprego. O Estado impõe a sua moeda: o trabalhamos para ser pagos na moeda com que o Estado quer que sejam pagos os impostos ou estamos desempregados.

Alguns entre nós vão trabalhar por conta do Estado que, desta forma, tem pessoal suficiente para as suas funções; outros vão trabalhar no sector privado. Mas todos, sem excepção, têm que ganhar o dinheiro do Estado para pagar os impostos; então, também quem trabalha no sector privado exige que o seu salário seja pago na moeda do Estado. Porque um salário pago em Balboas ou em feijões não adianta.

Esta é a forma como o Estado que pode cobrar impostos se torna monopolista e utiliza a moeda dele para nos manter ligados a ele. O que significa que o Estado utiliza a moeda para garantir a sua existência, porque sem moeda e sem impostos não poderia existir. Sem impostos cobrados na moeda emitida pelo Estado, qualquer um poderia inventar uma outra moeda e usa-la, ignorando completamente o Estado.

Nesta obrigação, o Estado é de facto um tirano. Mas, como vimos, é uma tirania necessária ao Estado para que o mesmo possa existir.

Então, uma pergunta: mas afinal o dinheiro é um código abstracto que representa bens reias, como vimos nas primeiras duas partes, ou é uma invenção do Estados-tirano para nos obrigar a trabalhar por conta dele e pagar os seus impostos?

Podemos pensar: a resposta é "ambos", porque o dinheiro é tanto uma convenção (um código) quanto um instrumento utilizado pelo Estado. Podemos pensar isso, mas estaríamos errados: na sua forma actual, o dinheiro é em primeiro lugar uma invenção do Estado-tirano. Só depois é um código.

Algumas populações africanas utilizam as conchas de Cypraea e Monetaria come dinheiro. Aí não há necessidade nenhuma de existir um Estado ou de ir trabalhar por conta dele: é só ir até a praia para encher a carteira. Funciona? Sim, funciona há cerca de 5.000 anos e ninguém se queixa.

Neste caso, as conchas são o tal "código", representam uma riqueza (e são elas mesmo uma riqueza): ninguém tem o monopólio das conchas, ninguém as cria (a não ser a Natureza), ninguém diz "trabalha por mim em troca das conchas ou arraso-te a cabana". Por isso, originariamente o dinheiro
é a representação dum bem, é o tal código.

Mas nós não podemos ir até a praia para ficar ricos: temos de trabalhar. Só assim podemos pagar os impostos. E isso porque o dinheiro, na forma actual, é sim um código abstracto (não é riqueza) mas é sobretudo com os impostos uma invenção necessária ao Estado.


Ipse dixit.

Relacionados:
Parte I
Parte II
Parte IV

Fonte: na última parte

1 comentário:

  1. Chaplin26.1.15

    Eis uma assunto em que não aprendemos a discorrer, em nenhum momento da vida. E por que não? Ora, pois o entendimento sobre as relações de poder e dominação poderia mudar e fazer com que segmentos se organizassem para enfrentar o estabelecimento da ordem institucionalizada pela minoria dominante. Somos ensinados a perseguir o dinheiro, e não a identificar os processos do sistema opressor e monopolista. E quem foram os primeiros a identificar os monopólios como fonte principal de dominação? OS SACERDOTES JUDEUS, cuja Torá representa a primeira propaganda monopolista. Recentemente, assistindo um documentário no History Channel, originado por uma pesquisa de opinião pública feita pelo próprio canal televisivo, sobre uma pseudo elucidação dos mandantes do assassinato de John Kennedy, quando foi cogitada a questão do retorno ao padrão ouro, uma clara intenção do presidente de então, associaram a hipótese ao Vaticano, omitindo os verdadeiros donos do Federal Reserve e fazendo com que a percepção do público fosse desviada pela própria dificuldade de ligar o Vaticano com o controle monetário estadunidense. A conclusão do programa foi a de que a máfia seria a responsável pelo ato contra Kennedy. Mais uma manipulação grosseira, mas facilmente aceita sob a visão do cidadão comum.

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