18 março 2015

A Cobra e o Pavão

Esta é uma história antiga de séculos:
Um dia, um jovem chamado Adi o Calculator, porque tinha estudado matemática, decidiu deixar Bukhara e sair em busca dum maior conhecimento.
O seu professor aconselhou-o a viajar para o sul, e disse: "Procura o significado do pavão e da Serpente". Isso deu ao jovem Adi material para reflectir.

Ele cruzou o Khorassan e, finalmente, chegou ao Iraque, onde, para sua surpresa, se deparou com um pavão e uma cobra.

Adi começou uma conversa.
"Estamos discutindo os nossos respetivos méritos", disseram eles.
"É exatamente o que eu quero estudar", disse Adi. "Continuem, por favor."
"Eu considero ser o mais importante", disse o pavão. "Represento a aspiração, o impulso para o céu, a beleza celestial e, portanto, o conhecimento das realidades mais elevadas. A minha missão é lembrar ao homem, através da mímica, os aspectos do seu ser que estão escondidos".
"Para mim", disse com voz um pouco sibilante a cobra "eu represento exactamente as mesmas coisas.
Como os seres humanos, estou ligado à terra. Ajudo-o, portanto, a lembrar-se de si mesmo. Como ele sou flexível quando avanço no terreno rastrejando. Ele muitas vezes esquece disso também. Por tradição, sou o guardião dos tesouros enterrados nas profundezas da terra".

"Mas tu és repugnante!", disse o pavão. "Tu és esperto, dissimulador e perigoso".
"Tu estás a listar as minhas características humanas", disse a cobra ", enquanto eu prefiro a listar as minhas outras funções, como fiz. Em Conclusão, olha para ti: és vã, gorda, e tua voz é estridente. As tuas pernas são demasiado grandes e também as tuas penas são desenvolvidas demais".

Neste altura, Adi interrompeu-os. "Graças à vossa discórdia, eu pude entender que nenhum de vocês está completamente certo. No entanto, ao excluir as vossas preocupações pessoais, é claro que em conjunto compõem uma mensagem para a humanidade".

Adi explicou aos dois antagonistas quais eram as suas funções.
"O homem rasteja no chão como a cobra e poderia subir para o céu como um pássaro, mas, ganancioso como a cobra, não renuncia ao seu egoísmo quando tenta levantar-se e tornar-se muito orgulhoso como um pavão.
No pavão podemos ver as potencialidades do homem, mas ainda não correctamente realizadas, enquanto no brilho da cobra podemos ver a possibilidade da beleza que, no pavão, assume um aspecto ostensivo".

Foi então que uma ulterior voz falou para Adi: "Não é tudo. Estas duas criaturas têm vida: é o seu factor determinante.
Eles brigam porque cada um está satisfeito com o seu modo de vida, pensando que isso constituísse a realização dum status real.
No entanto, um guarda tesouros, mas não pode tocar neles. O outro reflecte a beleza, que em si é um tesouro, mas não pode usá-la para mudar. Apesar de não terem aproveitado do que foi-lhes oferecido, eles ainda são um símbolo para aqueles que podem ver e ouvir".

O culto da serpente e do Pavão, no Iraque, foi fundado a partir do ensino do mestre sufi Adi, filho de Musafir, no século XII. Esta história, que se tornou lendária, mostra como os mestre sufi modelaram as suas escolas em torno de símbolos diferentes, escolhidos como ilustrações das suas doutrinas. 

Em árabe, "pavão" também significa "enfeite" enquanto "cobra" é formado da mesma raiz de "corpo" e "vida". Daí o ritual enigmático do Anjo Pavão, praticado pelo grupo sufi dos Yevdi, onde a cobra e o pavão simbolizam o interior e exterior.

Os ocidentais não entenderam isso e rotularam o grupo como um conjunto de islamistas adoradores do Diabo, por causa da expressão "Anjo Pavão", que em árabe é Malak Tauus. Os ocidentais interpretaram Malak como equivalente de Moloch, o demónio da tradição cristã e cabalista.

Mas a coisa engraçada é que o grupo fundado por Adi, não é nem islamista nem adorador do Diabo. E foi perseguido ao longo dos séculos. Na verdade, Adi refundou o Yazidismo, misturando alguns elementos islâmicos para tentar evitar as perseguições. O Yadizismo é muito mais antigo do que o Islam.

A religião Yazidi deriva directamente dos antigos cultos da Mesopotâmia e inclui: abluções sagradas, a proibição de comer certos alimentos, a circuncisão, o jejum devocional, a peregrinação, a interpretação dos sonhos e da transmigração das almas. Todos elementos que foram sucessivamente absorvidos pelas religiões mais modernas.

Os seus fiéis veneram Sete Anjos, emanações do Deus primordial, antigamente chamados "Annunaki"; destes, o primeiro e mais importante é o Anjo Pavão que "caiu, mas essencialmente bom, chorou, e as suas lágrimas de arrependimento, recolhidas durante sete mil anos de ininterrupto choro em sete ânforas, extinguiram as chamas do inferno".

Não sei porque estou a escrever tudo isso.
Simplesmente parecia-me engraçado.
Ok, ignorem. 


Ipse dixit.

Fontes: Tra Cielo e Terra, Sufi, Idriesh Saha: I Sufi - La Tradizione Spirituale del Sufismo

8 comentários:

  1. Anónimo18.3.15

    Muito interessante, Max!

    A serpente é adorada por diversas civilizações antigas, inclusive é símbolo da medicina (caduceu de Asclépio). Existe um certo padrão nas religiões antigas, inclusive há uma teoria que isso se dá porque na antiguidade a humanidade vivia sob uma espécie de Governo Mundial...

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  2. Engraçado nada, isso é um dos fundamentos de nossa cultura moderna, não conhecia, mas no catolicismo temos imagens de nossa senhora sobre uma serpente, e Jesus fala do campo e do conhecedor do campo.
    É uma pena que tais conhecimentos não sejam divulgados e sim futebol, moda , etc.
    A filosofica contida nas religiões (teosofia) é sempre um campo iluminador quando não se vê com olhos apaixonados por religião e sim pelo simples conhecimento

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  3. Anónimo19.3.15

    Yazd na Pérsia, actual Irá/o. Essa geografia está um pouquinho má.
    Abraço
    Nuno

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    Respostas
    1. Explicação:

      O termo Yazidi deriva do nome da antiga província que ficava no Leste de Mossul, no Iraque. Mas segundo os mesmos Yazidas, o nome deriva de Yazid I, califa de Damasco (645-683 d.C.).

      Seja como for, a maior parte dos fieis ainda (150 mil) vive em duas áreas do Iraque: os montes do Gebel Singiār (fronteira com a Síria) e os distritos de Badinan e Dohuk (Norte-Oeste do País). Esta última é a área original do movimento Yazidi, com a Anatólia do Sul (na actual Turquia).

      De facto, o citado (no artigo) Adi Musafir estudou em Bagdade e sucessivamente decidiu estabelecer-se em não longe de Mossul, onde começou a predicar. A tumba dele encontra-se na localidade de Lalish (perto de Mossul) e ainda hoje é meta de peregrinações.

      O movimento Yazida foi perseguido por todos aqueles que passaram no Iraque: o único que não tentou massacra-los foi Saddam Hussein, que decidiu defini-los "árabes". Todavia, em 1987 Saddam mudou de ideia e começou a persegui-los e deporta-los para a região de Jebel Sinja.

      Após a queda de Saddam, os Yazidos pediram para se reconhecidos como povo curdo. Mas em 2014 chegou o Isis: 5.000 fieis foram mortos, 5.000-7.000 vendidos como escravos, 50.000 fugiram.

      Na verdade, os Yazidas nem são curso: a origem da etnia é desconhecida. Entre eles falam o curso mas também o Curmânji, dialecto falado na Turquia, Curdistão, Síria, Irã, Iraque, Armênia, Geórgia, Azerbaijão, Casaquistão, Turcomenistão, Usbequistão, Ucrânia e pelos curdos do Líbano.

      O movimento Yazida nada tema ver com a localidade de Yazd, no Irão, que é um importante centro religioso (Zoroastrismo).

      Concluo lembrando que, na minha humilde opinião, a simples ideia que eu possa cometer um erro deveria ser punida com a prisão, pois não tem emenda possível :)

      Abraçoooo!

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    2. Anónimo20.3.15

      lol
      Obrigado pelo esclarecimento.
      Nuno

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  4. Anónimo19.3.15

    Muito bom, para mudar o mudo primeiro mude a si mesmo...

    Bom texto Max

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  5. Chaplin19.3.15

    Mostra o quanto o interior sucumbe ao exterior mediante a hierarquia de valores truístas ocidentais, estabelecida pela ideologia burguesa judaica, em que estamos inseridos cada vez em maior escala...

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  6. Muito interessante, parece uma boa fonte para sonhos...

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