27 março 2015

Não é vida

Pensamos nisso: o que é melhor para uma empresa? Um cidadão feliz ou um cidadão infeliz?

A resposta parece óbvia: todas as publicidades são construídas para que o consumidor possa alcançar a felicidade, com a satisfação das suas exigências, autênticas ou induzidas. Mas para que o consumidor possa alcançar este estádio de "felicidade", é preciso que parta dum estado de "infelicidade": deve sentir a necessidade de algo, algo que lhe falta.

Eis portanto a resposta correcta: o ideal para o mercado é um cidadão infeliz, que precisa de comprar.
Mas ainda antes do que isso é preciso que o consumidor interprete a felicidade como algo que pode ser obtido simplesmente gastando dinheiro.

Na prática: o mercado precisa de pessoas infelizes e bem pouco inteligentes.
E o que tem o mercado? Exactamente isso: idiotas tristes.

É normal que assim seja: ninguém quer consumidores felizes pois são inúteis como um par de sapatos sem sola. Um consumidor feliz, satisfeito da sua existência, é inútil para uma economia de mercado. O que vender para uma pessoa assim? Com quais razões? A publicidade, com as suas promessas de sucesso, satisfação, desejabilidade social, teria pouca ou nenhuma influência sobre um indivíduo feliz, em paz consigo mesmo, satisfeito da sua própria vida.

A sociedade do consumo postula o crescimento ilimitado da produção e a criação infinita de bens, assumindo que não há limites para a melhoria e que a tecnologia pode continuar a apresentar produtos que simplificam a vida das pessoas. O sucesso está baseado no empobrecimento psicológico (como dizia Baudrillard) mas também físico e real, determinado por um estado de insatisfação permanente que descreve o indivíduo hoje. O espremedor elétrico, a máquina de lavar roupa, o carro e todas as outras invenções modernas que deveriam devolver o tempo ao indivíduo (esta é a verdadeira riqueza) e com ela a serenidade e a liberdade, tiveram o efeito oposto.

Em vez de ter mais tempo livre para ler, reflectir, para parar e meditar, passar tempo com amigos e família, o indivíduo está cada vez mais sobrecarregado com a falta crónica de tempo livre e, ao mesmo tempo, com os objectivos que tem de alcançar (porque assim requer a sociedade ilusória criada pela publicidade), caso contrário será apenas um falido. Os espaços da existência individual, entendida como o tempo dedicado a nós, são reduzidos ao essencial.

Para pagar a máquina lavar roupa ou o carro ou uma casa ou a geladeira que ficou avariada, tudo com os pagamentos em prestações, é preciso contar com um salário; e para ter um salário suficiente a garantir as necessidades básicas (que hoje já não são as mesmas duma vez, mas muito mais sofisticadas) é necessário ter um emprego a tempo inteiro, que absorve a maior parte do dia. Por isso, sobra apenas a noite, quando uma pessoa volta do emprego, cansada demais para pensar ou aprender: e que a única coisa que queremos é deitar-nos no sofá: claro, com na frente a televisão embutida de publicidade, que mostra alegremente todas as coisas que ainda não temos.

Como pode um ser humano ser feliz nestas condições? O Homem não nasceu para isso, as suas necessidades são outras. Passar a maior parte do dia fechado dentro de quatro paredes, a receber ordens, a trabalhar para os lucros da uma empresa: não é vida.

O nosso conhecimento da realidade passa através de conceitos pré-embalados e transmitidos por outros, como a escola, os meios de comunicação: são já prontos, não são postos em discussão, têm só que ser absorvidos: não é vida.

As ideias acerca da realidade, das leis, dos costumes, das tradições, da mesma língua, tudo isso não pode ser separado do contexto no qual o Homem vive mas são o fruto disso. Qual ideias podem surgir acerca da realidade se tudo o que temos é um ciclo pré-estabelecido e invariável de nascimento - escola - trabalho - morte? Não é vida.

A realidade, tal como é apresentada hoje, não é o resultado do livre pensamento, mas sim fortemente influenciada (e por vezes determinada até) pelo contexto, pela publicidade, pelos meios de comunicação: uma sopa homogeneizada que tende para a exaltação da individualidade. Mas atenção: uma individualidade falsa, pois não tem em conta as reais necessidade de cada um de nós, mas propõe uma imagem de pessoa que tem de comportar-se duma determinada maneira, com gostos e desejos específicos, partilhados com todas as restantes "individualidades", que assim se tornam uma só. Não é vida.

Onde fica a vida? Onde fica a felicidade?
Fica no Paradoxo de Easterlin (do economista americano Richard Easterlin) que mostra como o nível de felicidade das pessoas não cresce em função do crescimento do PIB. Pelo contrário, com o aumento da riqueza económica, antes a felicidade aumenta, depois começa a diminuir.
Num período difícil em que a humanidade perdeu os seus pontos de referência, com as família já não tijolo da sociedade, com os nacionalismos sob-ataque, com as identidades individuais cada vez mais voláteis, o único ponto de referência torna-se, paradoxalmente, a televisão: é ela o único elemento estável (pelo menos fisicamente) num universo de sentidos que muda, é ela que cada vez mais constitui a ligação entre o nosso pequeno mundo e o outro mundo.

E é a televisão que explica-nos o que é a felicidade. Mas como? Trabalhando para mostrar a nossa infelicidade, os nosso medos, as nossas fraquezas. Porque, como afirmado: um consumidor feliz não presta para nada. Mas esta não é vida.


Ipse dixit.

11 comentários:

  1. Anónimo27.3.15

    “O trabalhador incansável de hoje não tem tempo durante a jornada de trabalho para refletir - e à noite ele está cansado demais para isso. E no final das contas, ele acha que isso é sorte” - G. B. Shaw

    ResponderEliminar
  2. Max,

    Muito ilustrativo o seu texto. Estas de PARABÉNS.

    Gostei. Viajei. E percebi um pouco sobre a não vida. Sentir muitas pessoas nesse texto, na verdade a grande maioria. Sentir uma FORÇA se comunicando com o que escreveu. Não sou melhor e nem pior, apenas um buscador sobre da VERDADEIRA VIDA.

    Gostei e percebo essa sua “fome” para ir além das pessoas que estão se “acostumando” com suas “vidazinhas”.

    Salvo não me engano, talvez, este foi um texto muito inspirador que você “canalizou” dentro das suas próprias experiências.

    PARABÉNS.

    Você tem, para mim, a VIDA se comunicando com os ECOS que são também vidas, nunca zumbis.

    Muito obrigado.

    ZENGOLDÁBIL

    ResponderEliminar
  3. Anónimo28.3.15

    Sinceramente, gostaria de entender o que leva uma pessoa à avaliar um texto como este como péssimo. Seriam alguns erros gramaticais? Ou estaria o indivíduo de acordo com o comando geral da humanidade? Talvez feliz com sua existência e, quem sabe, a futura existência de seus descendentes.

    Status Quo.

    ResponderEliminar
  4. Me veio a lembrança Domenico Losurdo e seu Ócio Criativo.
    Hoje temos a velha servidão humana travestida de um consumismo alienante. Tempos outros, vez por outra, os escravos se rebelavam. Rebelião hoje somente se a criatura não puder ter mãos o último uatizap, ipod, iped, ipudi ou outra traquitana atualizada em um inacreditável 0,1% de inovação, geralmente inútil, seduzida apenas pelo ponto.último número acrescido na propaganda do modelo.
    A obsolescência humana sempre foi explorada pelos "donos de sempre", a diferença é que hoje é explorada mais cruelmente pela alienação, o escravo não se enxerga como tal. E,sinto muito, o que temos pela frente não é animador, vem aí a geração yuppie, formada nos anos '90, aquela que pregava que para se ter sucesso valia até pisar no pescoço da mãe ou vende-la e... entregá-la.
    Falta ao mundo espiritualidade, não, religião, que não passa de um cancro crônico da humanidade.

    ResponderEliminar
  5. Anónimo28.3.15

    Boa pergunta, anónimo/a.
    Por mim que não sou apreciador de classificação de temas este leva 6 de 1 a 5.
    Abraço
    Nuno

    ResponderEliminar
  6. Pessoal!

    Obrigado, obrigado mesmo.
    Como sempre disse, este blog é também um percurso pessoal: obriga-me a procurar, pôr perguntas, achar respostas se possível. E uma das perguntas que mais foi feita nestes 5 anos é: o que podemos fazer?

    Não sei. Aliás, sei, mas seria um bocado radical. Ficando no "politicamente correcto", as possibilidades não são muitas e, sobretudo, não prometem resultados no curto prazo, nem no médio. Doutro lado, ninguém tem a varinha mágica. Algumas ideias já foram analisadas no passado, mas a busca continua, só que cada vez mais esta parece a procura do Santo Graal.

    No próximo artigo vamos ver estas ideias: algumas repetidas, outras novas, outras ainda provavelmente erradas. Tenham paciência, deste lado não há génio nenhum...

    Abraçoooooooooo!!!!

    ResponderEliminar
  7. Chaplin28.3.15

    Excelente abordagem Max! Parabéns! As "leis" são ditadas exclusivamente pelos interesses econômicos/financeiros dos controladores do grande mercado globalizado. A lógica imposta reconhece cada indivíduo por sua capacidade consumista e o valoriza sob essa condição. A alta tecnologia teve o "mérito" de acelerar e expandir esse processo. E o que resta são caminhos marginais. São por essas matérias que continuo fiel ao blog. Abraço.

    ResponderEliminar
  8. Chaplin28.3.15

    Já lestes sobre a teoria das seis ilusões? Vais gostar...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Anónimo30.3.15

      Qual? A dum tal de Gordon Walton :)

      Nuno

      Eliminar
    2. Chaplin30.3.15

      Hehe, fiz uma brincadeirinha com nosso amigo...

      Eliminar
  9. Ops, não havia pensado sobre esse aspecto do consumo; Obrigado!
    Simplesmente passou por mim despercebido em meio a muitos outros.

    ResponderEliminar

Printfriendly

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...