14 março 2015

Os sentidos

Quanto sentimos?

Noutro dia, pensando ao período dos estudos, lembrei-me que ninguém me ensinou a sentir, isso é, a utilizar de forma apropriada os sentidos. Sim, havia as horas dedicadas à música, à arte. Mas sentir é algo mais abrangente.

A nossa sociedade tende a suprimir ou a reduzir fortemente determinados sentidos que, no passado, eram muitos mais utilizados. Por exemplo: o vento é um inimigo que traz frio e constipações, não um instrumento para cheirar o mundo em volta, algo que traz informações. E sabemos que uma vez o olfacto era mais apurado, pois tratava-se dum instrumento que nas idades mais antigas podia ter salvo a nossa vida (o cheiro dum predador).

Um exemplo ainda mais evidente é dado pelo céu: antigamente as estrelas indicavam a nossa orientação, o caminho, as horas e o passar das estações. Hoje quase ninguém olha para o céu, cúmplices as luzes da cidade que retiram um espectáculo maravilhoso.

E o tacto? Quem ensina a reconhecer os materiais ao simples toque? Como apreciar as deferências entre uma superfície natural e uma sintética?

Voltando à vista: hoje com os computadores é possível passear (literalmente) nos maiores museus de todo o mundo. Uma breve pesquisa no Google e qualquer pintura aparece em várias dimensões. Depois pode acontecer ir ao Museu de Arte Antiga, ver ao vivo um quadro de Bosch e ficar hipnotizado com um vermelho "vivo" que parece sair da tela para ocupar o espaço em volta. Algo que nenhum computador poderia transmitir. Como raio terá conseguido aquele homem criar uma cor assim? Esta é uma pergunta que surge só observando ao vivo: no ecrã seria apenas um entre muitos outros vermelhos. 

É possível dizer que a nossa sociedade simplesmente foi actualizada tendo como base as nossas exigências modernas. Qual a utilidade de cheirar um predador? Afinal não é tão frequente encontrar um tigre esfomeado no autocarro. E em caso de dúvidas acerca da direcção, temos sempre o navegador GPS.
Verdade. Mas...

Mas algo não bate certo. O Homem não é apenas o que pensa e o que faz, é também o que consegue sentir: reage perante estímulos exteriores e estes estímulos provêm dos sentidos. E se estes estímulos forem cada vez mais reduzidos, as nossas possibilidades e o nosso desenvolvimento também o serão.

A sociedade cada vez mais globalizada tende a uniformizar os sentidos. Neste aspecto, viver em New York ou em Brasília não é muito diferente: os plásticos do iPhone, os sabores do McDonald's, as imagens dum ecrã LCD. Todos sentimos os mesmos objectos e da mesma forma. É extremamente limitativo.

Quanto mais isso acontecer, tanto mais é perdido o contacto com a realidade. Estamos acostumados a "sentir" padrões que se repetem de forma regular nos limites das nossas cidades, esquecendo como "sentir" o que está fora delas e apreciar assim as diferenças, a natureza das coisas.

Antigamente não existia a possibilidade de ouvir música gravada: ou era ouvida (e vista...) ao vivo ou
nada. Depois chegou o gramofone e a seguir o vinil. Este ficava longe do som real, mas afinal era analógico e conseguia transmitir uma gama de sons suficientemente ampla: com uma boa aparelhagem poderíamos ter a sensação de estar quase "aí".

Foi a vez do digital e a gama de som foi reduzida. E nem pouco. Nenhum compact disc pode apresentar a mesma "profundidade" dum vinil, nem com as melhores aparelhagem em circulação. "Reduz o ruído de fundo, elimina o problema do pó" dizem. Sim, mas os baixos já não são os mesmos baixos.

Passo sucessivo: o formato Mp3. Muito cómodo, música num espaço extremamente reduzido. Mas como? Cortando ainda mais a gama disponível. O resultado é que hoje descarregamos música da internet que, na quase totalidade, é aquela dum compact disc (de qualidade às vezes nem suficiente quanto às frequências) transformada em Mp3 (que com 192 kb nem parece estéreo).

Ganhámos? Sim: espaço, tempo e comodidade. Mas perdemos tudo o resto. E este "resto" era um inteiro leque de sensações.

Há depois outros "sentidos" que dificilmente podem ser explicados mas que sempre fizeram parte do Homem. Aquela sensação de olhar uma pessoa e "intuir" como ela é (observado inconscientemente o seu olhar, os subtis movimentos dos músculos) não pode ser transmitida numa chat ou num relacionamento via Facebook. E nem com uma webcam.

Alguns dos nossos sentidos estão a atrofiar-se. Poderia não ser um problema, não fosse que é com as sensações que nascem as emoções. Menos sensações significa menos emoções. Talvez seja retrógrado, mas não acho ser este um caminho muito prometedor.


Ipse dixit.

4 comentários:

  1. Anónimo14.3.15

    Max Parabéns!
    Tudo o que ai mencionas foi quase uma conversa que tive com o meu irmão e o sobrinho.
    Nuno

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  2. Anónimo16.3.15

    Não são apenas os sentidos que estão a atrofiar-se, é também, e principalmente, os sentimentos humanos: amor, amizade, caridade, companheirismo, compreensão, união, etc, etc.
    Tudo para transformar o ser humano num objecto sem cerebro.

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  3. Chaplin16.3.15

    Convencidos e condicionados de que a "modernidade" é o único caminho, somos um alvo fácil para determinadas mudanças que escondem perdas fundamentais. A única fonte de informação limpa e, diferentemente da literatura, das conversas, dos meios de comunicação,da escola e da própria família, que não sofre nenhuma influência externa é o protagonismo da OBSERVAÇÃO. Mas com a desapropriação do tempo, indivíduos estão cada vez mais distantes desta possibilidade. Max, o assunto é fascinante. Abraço.

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  4. Muito bem observado, atrofia-se também o cérebro com uma alimentação ruim, poucos nutrientes e muitas gorduras venenosas = idiotização

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