31 maio 2015

A morte de Bin Laden: a outra versão

A morte de Bin Laden carrega duas perguntas.
  1. Como morreu Bin Laden?
  2. Quando morreu Bin Laden?
Responder ao "como" não é difícil: basicamente deixou de respirar, algo bastante comum entre as pessoas que decidem abandonar este mundo.
Já o "quando" é mais complicado.

O assunto não é novo: aliás, um dos artigos mais lidos deste blog tem o nome de Bin Laden Morreu. Ou talvez não. No fundo do presente texto outros links com títulos igualmente estúpidos, todos dedicados ao assunto.

Mas agora voltemos para o "quando".
Em verdade, em verdade vos digo: a ideia de que Bin Laden tivesse morrido bem antes da teatral operação dos commandos em 2011 é velhota. Ao longo dos anos foram indicados dois períodos: perto do ano de 2002 e, mais tarde, em 2006, ambas possíveis alturas da morte.

Os serviços secretos israelitas, o Presidente do Paquistão Musharraf, Dale Watson (FBI), o Presidente do Afeganistão, o diário árabe Al Majalla, Andy Rooner (o jornalista do prestigiado 60 Minutes) e o sucessivo Presidente do Paquistão Zardari, todos estes apontam para o período de 2002 como altura da morte, provocada pelas graves condições de saúde de Bin Laden.

os serviços secretos franceses (DGSE) em tempos explicaram que o simpático Bin tinha falecido no dia 23 de Agosto de 2006, por causa do tifo, uma doença agravada pelas já péssimas condições de saúde. Os agentes franceses nem foram os únicos a acreditar na anterior morte do Senhor do Mal. A base das suas revelações tinham sido alguns agentes dos serviços secretos sauditas, fontes que sucessivamente confirmaram à revista Time a existência de vários relatórios acerca do acontecimento.

Agora temos a versão dos acontecimentos fornecida pelo icónico jornalista americano Seymour Hersh que, na prática, confirma tempos e locais da morte "oficiais" (2011), apesar de desmontar o "como", difundidos pela Casa Branca.

A isso podemos juntar o testemunho do jornalista italiano Paolo Barnard:
Os Estados Unidos nunca mataram Osama Bin Laden. Uma diabetes que degenerou numa nefrite terminal [...] matou-o, e quase certamente vários anos antes da mentira colossal do ataque americano em 2011 no Paquistão.

Como eu sei? A minha fonte foi o terceiro mais alto chefe de Al Qaeda após Ayman al-Zawahri e o próprio Bin Laden no final da década de '90. [...]

Hersh revela a habitual montanha de mentiras, conspirações, desinformação construídas pela Presidência dos EUA, o Pentágono e as agências dos serviços sobre a "prestigiada" operação Abbottabab, o alegado assassinato de Bin Laden de 02 de Maio de 2011 no Paquistão. Grande trabalho, mas coisas bem conhecidas para aqueles que vivem a História Contemporânea fora dos telejornais ou Facebook. O Acidente de Tonkin (Vietname), os bombardeios-genocídios de Laos e Camboja, de Cuba até El Mozote, Suharto e Pinochet, o Iraque, Israel, a Líbia etc.: a política externa de Washington pode ser contada com provas na mão como um rasto criminoso de mentiras, às vezes roçando o grotesco (as pessoas acreditam sempre, tal como os pseudo-jornalistas). Mas Hersh fez aqui o mais triste erro da sua carreira de colosso do meu trabalho: ele dá como assumido que o pobre literalmente desmembrado vivo com mais de 600 balas dos US Navy Seals num quarto de Abbottabab fosse Osama Bin Laden.

99,9% não era ele. É assim que eu sei.

Em 2003, durante as filmagens da investigação Report [de RAI 3, um dos canais públicos italianos, ndt] L'Altro Terrorismo, fui colocado em contacto com um dos fundadores da Al Qaeda numa capital do Oriente Médio que ainda não posso nomear.

Eis quem era a minha fonte:
Ficou por quatorze anos no topo da Jihad islâmica internacional, o berço de Al Qaeda. Sentou-se com Bin Laden e Hasan Al-Turabi nos prédios do governo em Cartum, no Sudão; foi o Dawa número um de Al Qaeda, o "Papa" islâmico. Décadas antes, em 1981, estava no Cairo, e algumas horas após o assassinato do presidente Anwar Sadat pelas mãos dos membros da Jihad Islâmica Egípcia, viu-se atirado para o chão duma cela escura ao lado de outros extremistas religiosos, incluindo também um jovem médico com o nome de Ayman Al Zawahri, agora chefe da Al Qaeda.

Fedor, gritos terríveis, ossos quebrados, testículos assados, dois anos assim, parte da mais violenta repressão do fundamentalismo religioso na história do Egipto, apenas para ser libertado juntamente com outros sobreviventes e deportado através da fronteira com o Sudão. Um bando de jovens exilados com uma coisa em comum: um ódio implacável para o regime apóstata egípcio e para cada um dos seus aliados, Israel, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos em primeiro lugar.

Formando uma grande família que vagueia incessantemente: primeiro Cartum, no Sudão, em seguida, Sanaa no Iémen, depois Peshawar e Islamabad, no Paquistão, onde tece relações particulares com a liderança dos Talebans. A fonte diz-me que estava no Paquistão, muitos anos depois, em 1998, quando oficialmente ocorreu a fusão entre dois componentes beligerantes do Islão que considerados individualmente eram relativamente perigosos, mas que juntos provaram ser mortais: as finanças de Bin Laden e os homens de mão de obra especializada de Al Zawahri. Em outras palavras, a "nova" Al Qaeda.

O encontro com ele durou sete horas, todas gastas no carro a passear nos arredores desta capital, na escuridão. Paranoicos, assustados.

Disse:
A minha especialização (a formação espiritual dos membros da Al Qaeda) era tal que, em 1995, no Sudão Osama Bin Laden e Al-Turabi disputavam para manter-me; Osama ofereceu-me um orçamento ilimitado para treinar os seus homens.
Falámos de muitas coisas [dados relatados no livro Perché ci Odiano, BUR Rizzoli, 2006, ndt], mas duma eu nunca falei. Antes de chegar ao ponto, posso dizer que durante a montagem da reportagem da RAI, chamámos o tradutor oficial árabe da televisão pública, um professor universitário egípcio em Roma, que após apenas 10 minutos de ouvir falar a fonte levantou-se em pânico e gritou que se recusava a continuar. Realço também como a fiabilidade da minha fonte foi confirmada pelo repórter americano Alan Cullison do Wall Street Journal, autor de um scoop por ter descoberto no Afeganistão o computador do então número dois de Al Qaeda, Ayman Al Zawahri, onde a minha fonte aparecia entre os nomes do topo.

Aqui está o que nunca revelei.

A fonte disse-me em 2003 que Bin Laden estava vivo, mas em condições dramáticas. O último mensageiro que o viu após o famoso "incidente de Karachi" (onde os serviços do Paquistão, o ISI, interceptaram outro mensageiro, Ramzi bin al-Shibh, em Setembro de 2002) viu um homem moribundo, que nem se levantava, devastado pelas diabetes e nefrite, obviamente incapaz de começar o complexo de tratamentos necessários porque escondido entre as montanhas: à beira da morte.

Isso aconteceu no início de 2003. Mas mesmo antes, os repórters do The Guardian Jason Burke e Lawrence Joffe capturaram um vídeo de Osama em 2001, onde já este homem aparecia "fino como um fantasma e inválido". Estamos entre 2001 e 2003, imaginem se um doente naquelas condições pode chegar saudável e activo até 2011, sem um pingo de tratamento altamente especializado contra patologias muito graves, já em fase final oito anos antes.

Observem agora uma coisa de considerável espessura que confirma a versão duma morte natural de Bin Laden anos antes de Maio de 2011: o último vídeo que pode seriamente ser atribuído ao verdadeiro Bin Laden foi de 2004, depois o nada total. As suas transmissões sucessivas são áudio ou vídeo irreconhecíveis, julgados "quase certamente falsos" pela mesma CIA. Qualquer outro vídeo que, desde então, chegou até nós mostra o nº 2, Ayman al-Zawahri. Agora perguntamos: como é que, nos anos cruciais para o apoio moral de Al-Qaeda, submetida a operações de aniquilação global, o seu líder carismático nunca se preocupou de aparecer com uma retórica veemente para apoiá-la? Nunca uma única vez. Bem, estava morto. Acabado pela doença, como mencionado acima.

Seymour Hersh nem examina esses factos. E pior do que isso.

O suposto cadáver de Bin Laden foi sepultado no mar a partir de um porta-aviões americano com a velocidade da luz, ou seja, dentro de horas após a morte. Ninguém no mundo jamais viu uma fotografia pelo menos do rosto do alegado terrorista (nunca processado). Vocês podem lembrar-se que houve manifestações dos muçulmanos que exigiam provas sobre a identidade de Osama e um enterro segundo as regras islâmicas. Washington recusou ambos. No entanto, não era complicado. Bin Laden tinha uma cicatriz visível no seu tornozelo, o resultado duma batalha em Jaji, no Afeganistão, na época da invasão russa. A imagem dela teria sido suficiente para convencer o mundo de que o homem morto em Abbottabab em 2011 era ele. Mas não.

Porque Seymour Hersh incrivelmente se esqueceu esse detalhe? Porque Hersh não realça que se o pobre homem morto no quarto de Abbottabab tivesse sido realmente Osama Bin Laden, havia todo o interesse da comunidade internacional em apanha-lo vivo? Cristo, uma fonte de informação infinita, ou embaraçosa, não é Washington? Embaraçosa não porque aquele indivíduo que estava em Abbottabab era o ex-aliado / assalariado Bin Laden que poderia ter dito muito... mas porque aquele indivíduo era um ninguém, um fantoche humano. 600 balas num corpo para torná-lo irreconhecível, literalmente, como relatado por Hersh, desmembrado em partes, para não ter problemas.

Finalmente, os cépticos argumentam que após a operação Abbottabab teria sido interesse de Al Qaeda refutar a versão de Washington com as fotos do verdadeiro enterro do Osama nas montanhas da Ásia Central. A resposta é não, porque tal revelação teria exposto a liderança de Al Qaeda ao ridículo em todo o mundo islâmico: isso é, teria revelado uma organização em desordem há anos, sem a sua figura principal. Quem entende os jihadistas sabe o que quero dizer.

E o grande final. A farsa da operação simulada em Abbottabab, em 2011, explode como um fogo de artifício fora da Casa Branca e para os media na véspera da campanha eleitoral de Obama.

Bom, eu concluo aqui. Acho que há o suficiente. Bin Laden não chegou nem a mil milhas das mentiras de Abbottabab.

Muito claro, acho não haver muito para acrescentar.
Aliás, sim, há. Acrescenta Barnard:
Fiquei chocado com a ingenuidade da mesmo excelente investigação do lendário repórter americano Seymour Hersh sobre os bastidores da morte de Bin Laden, versão da Casa Branca.
Sigo Barnard há anos e duvido que tenha ficado realmente "chocado" com a tal "ingenuidade".

Pode ter ficado surpreendido pelo facto de Hersh ter confirmado, na prática, toda a restante versão da Casa Branca: Bin Laden em Abbottabab, a invasão do Afeganistão como "guerra contra o Senhor do Mal", a luta contra o terrorismo feita com golpes de drones. Pode ter ficado enjoado perante o enésimo colega jornalista (e que colega!) que se dobra ao poder. Estranho, sem dúvida. O curriculum de Hersh fala por si e deveria pô-lo ao reparo duma tal crítica: sempre a sua atitude e o seu trabalho foram contra, nunca ao lado do poder. Mas a triste realidade é que vivemos tempos conturbados, nos quais temos de estar prontos para desconhecer o que até ontem dávamos como certo.

Quem esteve no Vietname, no Laos, na Camboja, no Líbano, no Sudão, no Iraque; quem conheceu profundamente os jogos do Mossad e da CIA; quem atacou JFK, Kissinger, Nixon, Dick Cheney, Bush, Rumsfield; quem se atirou contra as manobras das casas farmacêuticas; quem fez tudo isso e muito mais não corre o risco de ser alvo dum repentino ataque de "ingenuidade", não deste tamanho. Pode ser senilidade. Ou pode ser a decisão de saltar para o outro lado da barricada. Pode ser outra motivação ainda.

Mas "ingenuidade", isso é que não.


Ipse dixit.

Relacionados:
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Nota: após ter passado a ser serviço pago, o host de imagens Imageshack foi por mim abandonado (tenho que pagar para publicar imagens que tenho no meu computador? Really?). Apesar das promessas, parece que algumas imagens já não estão guardadas, pelo que podem ter desaparecido dos velhos artigos.

Fontes: Paolo Barnard: Bin Laden era morto anni prima del raid USA. Seymour Hersh ha toppato; Seymour M. Hersh: The Killing of Osama bin Laden (versão original em idioma inglês; uma versão
resumida em português do artigo de Hersh pode ser encontrada nas páginas online do diário i).
Outras fontes: no texto.


2 comentários:

  1. Chaplin31.5.15

    Cada vez mais, a busca de conhecimento tem um único fim, propiciar proximidade com algum tipo de poder que propicie o ingresso no contingente de vassalos à serviço da dominação, essencialmente exercida por segmentos econômicos/financeiros de âmbito global. Contingente que abrange praticamente todas as atividades de relevo. Desde comunidades científicas, passando por medias, partidos políticos, organizações religiosas, entre outras, estão sob essa égide. Eis a inescapável corrupção cuja uma das principais patrocinadoras é a própria servidão moderna consentida e seu caráter mercenário, onde os valores existencialistas/humanistas deixam de existir.

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