22 maio 2015

A sabedoria de Bill

Bill Gross tem medo.

É verdade: tem também um património (oficial) de 1.700 biliões de Dólares. Mas festejou 70 anos e descobriu uma coisa curiosa: segundo uma sua pesquisa, o facto de ficar sentado em cima dum monte de dinheiro não evita que a Morte possa alcança-lo.

William Hunt "Bill" Gross é um manager, um daqueles que trabalham na Alta Finança. E não é um manager qualquer: foi ele que fundou a PIMCO, um colosso que gere 1.59 triliões de Dólares em activos.

Mas agora tudo isso parece menos importante. Porque Bill começa a ouvir a voz do patrão.

A morte me assusta e causa em mi aquela que o escritor britânico Julian Barnes chama de "grande agitação"... Vou acabar de donde cheguei, esquecido, desconhecido, e inconsciente após biliões de futuras eternidades... Assusta-me o morrer, aquelas horas intoleráveis esticadas indefinidamente pela medicina moderna, que acompanharão a maioria de nós nesses caminhos cheios de tumores, acidentes vasculares, invalidez, velhice...
Pois. Bem-vindo entre os seres humanos, Bill.
Curiosa esta coisa, não é? Seja numa cozinha dum condomínio de Lisboa, enquanto tentas que a reforma possa pagar contas, medicinas e comida do mês, seja num escritório do 120º piso dum arranha-céu de Manhattan, enquanto ficas sentado por cima de 1.700 biliões, o ponto de chegada é exactamente o mesmo.

Qual a condição pior? A segunda, sem dúvida.
Porque o reformado é esquecido e desconhecido já em vida, numa sociedade que não valoriza a experiência acumulada com a idade, e pode encarar a Morte até como uma libertação.

Mas para o top manager é diferente. Porque aí realizas que podes protestar ou atirar os teus 1.700 biliões na cara da Morte: e tanto faz. O teu monte de dinheiro vale quanto a reforma mínima num condomínio de Lisboa.
Há mais. Bill agora tem o "sentido do fim" e fica abalado. Vê o seu pequeno (por assim dizer) império e, com os olhos da nova sabedoria, reflecte. A voz do patrão tem este poder também: gela os ossos e com eles a euforia de imortalidade destes pequenos "imperadores". Bill observa a Economia, aquele jogo enlouquecido feito de High Frequency Trading, de dinheiros infinitos que passam por cima das nossas cabeças, que regulam as vidas de nós escravos.

Bill observa tudo isso e o gelo chega até aí: vê o fim do Poder. 
Tenho o sentido do fim. O mesmo sentido do fim que está a incomodar há algum tempo a Grande Carga dos touros financeiros que começou em 1981. Naqueles anos, com os Títulos de Estado que davam juros de 14,5%, as Bolsas enlouqueceram e a riqueza financeira foi multiplicada como nunca antes na história. Mas, como descreve Barnes para as vidas humanas, o mesmo aconteceu nas economias financeiras dos últimos 30 anos: acumulação, responsabilidade, agitação, e, finalmente, uma catastrófica agonia. Acho que a nossa super-órbita de investimentos esteja no fim.

Mas para a economia global, que continua a inchar bolhas financeiras ao invés de se focar em problemas estruturais, o caminho da salvação parece bloqueado. Se foram inúteis os triliões de Dólares de gasolina monetária bombeados pelo nosso Banco Central dos Estados Unidos, como podemos esperar que o mesmo funcione hoje na Europa de Draghi?

Com crescimentos de zero, taxas de juros para quem poupa perto de zero ou até menos do que zero, e com a crise de endividamento com montantes nem sequer imagináveis, o senso do fim tornou-se um laço que aperta todos os mercados. Haverá um tempo em que qualquer investidor irá recusar-se a trocar os seus Euros com Títulos de Estado e tudo irá secar ao sol. Eu tenho este sentido do fim do jogo das finanças e, como com a morte, incerta é apenas a data. Sinto uma grande sensação de agitação, de ansiedade. E vocês deveriam também.
Bill Gross, o homem de 1.700 bilhões de Dólares, fala connosco. Descreve uma coisa simples: a queda do Sistema. Simples e previsível.

Mas onde estamos nós? A pastar, com as cabeças dobradas por cima da relva.

Empresários, trabalhadores, estudantes, reformados, blogueiros, conseguimos ver um horizonte de 50 metros, feito de televisão, de internet, de promessas eleitorais e de esmolas.

Entretanto a vida passa, desperdiçada num Sistema podre que trata a maioria como escravos e tem os dias contados.

Temos que esperar os 70 anos para entender? Temos que esperar a Grande Queda? Ou vamos fazer algo antes? Sim, é verdade: não se pode fugir da voz do patrão e ela chamará também o nosso nome (esperemos sem muita pressa...). Mas uma coisa é acabar uma existência vivida como um alvo; outra coisa é acabar podendo dizer "Foi dono e senhor da minha vida, agora é tua".

Pensamos nisso: não há nada que possa ser feito por nós? Nada mesmo?
Não vale a pena aos menos tentar?


Ipse dixit.

Fonte: Paolo Barnard, Janus, CNBC

6 comentários:

  1. Chaplin22.5.15

    Ah, se toda família tivesse um doente incurável, um miserável faminto, um negro discriminado e um gay marginalizado...

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    1. Anónimo22.5.15

      O ideal da esquerda.Nada de raro, pois já em seu manifesto comunista de 1848 Karl Marx pregava a extinção da família por esta ser fator de manutenção do capital!!A família dos outros é claro.Nem remotamente acreditavam no que pregavam, mas serviam este prato aos incautos.

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    2. http://www.vagalume.com.br/titas/epitafio.html

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  2. Anónimo23.5.15

    A pergunta é demasiado abrangente Max, vontade não falta o problema são as condicionantes.
    Alvo e FuiDoSrdMVida agora é a tua, interessante sem dúvida mas redutor, é um pouco como aqueles que só tem o preto e o branco, quando existe uma enorme palete de cores ou tons de cinzento.
    Isto é um pouco como um copo que para uns está meio cheio e para outros meio vazio.
    Nuno

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  3. Anónimo23.5.15

    Existem coisas que o dinheiro não compra, e a vida é uma delas.
    Mas, muita desta gente vive como se fossem eternos, até que muitos deles, um dia caem na realidade. Fica cá tudo.
    É uma questão filosófica interessante, a levantada no post.

    Krowler

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