06 maio 2015

Arábia Saudita: o País bom

Os Estados Unidos gostam de lutar contra os maus.
Justo e digno de louvor.

O problema é: quem são os maus?
Pegamos na Arábia Saudita: é boa ou má?
Resposta muito fácil: tem o petróleo e é aliada, por isso é boa.

A Síria não tem petróleo? Não é aliada? Ahiahiahi... é má, não há dúvidas.

Mas voltemos ao reino da família Saud. Por incrível que pareça, há alguém que não fica satisfeito com o petróleo e critica a Arábia. Mundo esquisito este.

Estas pessoas realçam como, desde os tempos da Primavera Árabe, as prisão sauditas estão cheias de presos que não são criminais: simplesmente protestavam contra o regime. O que é mau, porque a Arábia é boa, já vimos. Além disso, é preciso entender como a Primavera Árabe não fosse para todos: uma Primavera aí pode bem ser um Inverno lá. Neste aspecto, na Arábia Saudita é sempre Inverno, apesar do clima.

O rei Salman bin Abdul Aziz Al-Saud, na sua infinita bondade, anunciou o perdão real no passado dia 29 de Janeiro. Mas também aqui é preciso distinguir: nem todos merecem um perdão, sobretudo quando real. Os presos xiitas, por exemplo, não merecem e, como explicado pelo Ministério do Interior de Riad, ficam excluídos. A razão? Porque sim. Que como razão nem parece tão má.

Além de todos os julgamentos injustos que condenaram à morte, à longos anos de prisão e castigos corporais de prisioneiros que exerceram pacificamente o direito à liberdade de expressão, há quem acuse que o cheiro do inferno também ataca as famílias dos detidos: é um País bom que, todavia, parece desprezar os direitos humanos reconhecidos internacionalmente, violar os regulamentos prisionais, gerir as prisões de forma desumana, desrespeitar até as leis islâmicas e tratar muito mal famílias dos detidos.

As famílias também? As famílias também. Há centenas de testemunhos de mães, esposas, irmãs pertencentes à comunidade xiita, relatos que foram recolhidos, por exemplo, pelo Aman Center for Human Rights Studies (Achrs), uma organização independente regional.

As violações dos direitos humanos chegam às famílias dos presos, que são humilhadas e insultadas.Em particular mulheres e crianças estão expostas a procedimentos "anómalos" em ocasião das visitas aos parentes detidos. Isso quando as visitas forem concedidas. Porque é possível ter de esperar seis meses ou até um ano antes que aconteça.
Sempre senti nojo pela forma como controlam, mas sempre tentei manter a calma para a segurança dos meus filhos, minha e aquela dos presos, pois a prisão é um mundo perigoso. Sabemos e entendemos que todos estes procedimentos são destinados a fazer-nos sofrer, mas o cansaço desaparece uma vez que conseguirmos ver os nossos entes queridos.
É uma entre os centenas, milhares de depoimentos.
 
O Centro de Aman condena as autoridades sauditas para a opressão e a tortura praticadas nas prisões, contra os presos e as famílias deles. Também denunciou o Ministério do Interior saudita pelo facto de ter adoptado tratamentos que degradam a dignidade humana, a fim de espalhar o medo e a intimidação.


O Centro de Aman protesta, mas se ficasse calado seria o mesmo: ninguém liga. A maior parte dos seus doadores são privados, as poucas doações "importantes" por parte de organizações internacionais são pontuais e "miradas". Outras ainda são ridículas, como os 2.400 Dólares do Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Doutro lado, falamos duma organização que critica um País aliado e cheio de petróleo. Ok, pode ser que maltratar os presos que nem criminais são não seja tão simpáticos. Nem fazê-los desaparecer. Mas alguma vez ouviram os Estados Unidos queixar-se? Claro que não: a Arábia Saudita é um País bom e demonstra-lo é simples.

Chicoteadas: os bons tempos idos
A Arábia Saudita é um dos Estados onde os tribunais continuam a impor castigos corporais, incluindo a amputação de mãos e pés para os ladrões, flagelação para alguns crimes tais como "má conduta sexual" e embriaguez. Justo: é como nos bons tempos idos.

O número de chicotadas não está claramente previsto pela lei e varia em base ao critério do juiz. Mas os condenados gozam de todos os confortos: a pessoa que inflige a pena deve ter um Corão debaixo do braço com o qual chicoteia, para limitar a potência do golpe. Esta é bondade.

A Arábia Saudita defende a sua reputação ao não realizar apedrejamentos ou crucificações. Nada de fogueiras também. O condenado pode ser decapitado publicamente ou fuzilado na prisão, mas nada de apedrejamento. Isso é importante.

Liberdade religiosa absoluta
A Arábia Saudita tutela qualquer religião e todos os homens podem praticar a fé deles desde que este seja o islamismo sunita.

Em teoria, o governo pode procurar nas casas dos cidadãos e prender ou deportar também os estrangeiros que possuam ícones ou símbolos religiosos não permitidos. Como a Bíblia, por exemplo.

Mas na verdade isso nunca acontece: um estrangeiro pode tranquilamente continuar a professar a sua religião, desde que não conte nada a ninguém, não fale disso, oculte qualquer símbolo, respeite o Ramadão e não seja apanhado.

Liberdade de expressão para todos
Na Arábia a liberdade de expressão e da imprensa segue de perto as regras da religião: é possível dizer ou escrever qualquer coisa desde não se critique o governo ou os valores "não-islâmicos". Nada de sindicatos ou partidos, que são supérfluos. E nada de manifestações públicas também, que são irritantes. Vice-versa, é possível passear ou ficar em casa para ver a televisão (mas não aquela via satélite).

Liberdade sexual total
Os preservativos estão disponíveis nas farmácias e nos hospitais. Já isso explica bem o nível de total liberdade sexual na sociedade saudita.

Existem só pequenas limitações, mas nada de relevante: um homossexual ou o envolvimento em qualquer coisa que sugira a existência de uma comunidade gay é punida com prisão, deportação (só para estrangeiros), flagelação e execução.

Qualquer estrangeiro infecto com SIDA é imediatamente devolvido ao País de origem. Admitimos: isso pode parecer um pouco desproporcionado. Mas na verdade é um favor que a generosa Arábia faz: no País não existe nenhum tipo de tratamento contra o AIDS. 

Trabalho para todos
A Arábia Saudita tem um interessante programa para a plena ocupação. O termo utilizado no Ocidente é "escravidão", que, apesar de ter sido oficialmente abolida em Riad desde o 1962, continua dado o sucesso.

Mulheres na vanguarda
Pelos padrões ocidentais, as mulheres sauditas são vítimas duma intensa discriminação em muitos aspectos da sua vida, incluindo a família, a educação, o emprego e o sistema de justiça. Mas é um exagero: as mulheres sauditas vivem bem.

É verdade que não podem ir de bicicleta na via pública, mas esta é uma prática perigosa: basta uma queda e pronto, parte-se uma perna. Recentemente até foi concedida a possibilidade de tirar a carta de condução.

Não podem sair de casa sozinhas (o crime é sempre um risco), nem podem ter acesso a alguns cargos públicos ou na indústria do petróleo (um trabalho sujo). Mas podem estudar e até aceder à universidade.


Portanto, um País bom, onde tortura, prisão arbitrária, morte e opressão são apenas inocentes instrumentos para ficar saudavelmente ligados às tradições (não às islâmicas) mas olhar sorridentes para o futuro e para o ISIS, a simpática organização onde decidiu investir uma boa parte das finanças. E o sorriso continuará, pelo menos até o petróleo sair dos poços. 

Nada que justifique um qualquer protesto de Washington, como é óbvio.


Ipse dixit.

Fontes: Repubblica, Il Faro sul Mondo, Wikipedia (versão italiana)

6 comentários:

  1. Chaplin6.5.15

    Confesso que fico incomodado com o simples nominar de países como se fossem regiões onde seus habitantes é que definissem, democraticamente, sua política externa, sua diplomacia e todas demais relações políticas/sociais/jurídicas/econômicas. Penso que, de alguma forma, acabamos seguindo justamente a rota de uma percepção fragmentada que interessa a ideologia dominante. Países são divisões territoriais que serviram e servem para organizar e controlar imensas áreas em favor de minorias opressoras. Seria mais proveitoso se víssemos os continentes em separado, mas esbarraríamos nas visões eurocentrista, imperialista e outras menos votadas...

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  2. Mas faltou escrever sobre o fato principal, um natural de lá pode sair de lá e ir morar em outro país?
    Acho que o principal direito é o direito de ir embora ou retornar.

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  3. Aqui no Brasil e na Europa o sonho dos pais e que o filho se torne engenheiro, medico, advogado etc lá e ser policial pois ganha muito mais e serve ao aparelho repressivo estatal....

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