07 maio 2015

EUA: os valores Comando africano - Parte I

Seis pessoas sem vida na pútrida água acastanhada.
Foi às  05:09, quando o Toyota Land Cruiser deles caiu duma ponte no Mali, na África Ocidental.

Por cerca de dois segundos, o veículo ficou no ar, fazendo uma pirueta de 180º graus e um voo de 20 metros: depois o impacto com o rio Niger.

Dos seis que morreram, três eram soldados americanos, commandos. O motorista, um capitão apelidado de Whiskey Dan, era o líder dum obscuro grupo de agentes secretos, daqueles nunca mencionados pelos media.

Um deles pertencia a uma unidade ainda mais secreta, cujas actividades são muitas vezes parte integrante do Joint Special Operations Command (JSOC), que realiza missões clandestinas no estrangeiro com licença para matar e capturar.

Os outros três mortos não eram militares e muito menos americanos. Eram três mulheres marroquinas, às vezes descritas como funcionarias de cafés, outras como prostitutas.

Os seis, numa noite de Abril de 2012, passaram pelos cafés da capital do Mali, Bamako, como conta o relatório do U.S. Army criminal investigators, o grupo das investigações militares do exército EUA. Jantar no restaurante Blah-Blah, alguns cocktail no La Terrasse, outros no XS Club, uns copos no Plaza Club. Uma noite num rio de vodka. Vodka e Red Bull. Vodka e sumo de laranja. Vodka de baunilha e romã. Chivas Regal. Jack Daniels. Cerveja Corona. E não podia ter faltado o B-52, o cocktail de Kahlúa, Grand Marnier e Bailey. A conta? 350 Dólares. A conta de um só daqueles locais.

Por volta das 05h00 de manhã, no dia 20 de Abril, os seis entraram no Land Cruiser, com o Capitão Dan Utley ao volante, para seguir até outro ponto quente: Bamako By Night. Cerca de oito minutos depois, Utley chama uma mulher com o seu celular para perguntar se ela estivesse zangada. Passa o telemóvel a Maria Laol, uma das mulheres marroquinas. "Não fique zangada, voltamos para apanhar-te". Depois os gritos e o voo.

Nos anos seguintes, o AFRICOM, o Comando Africano dos Estados Unidos que é responsável pelas operações militares naquele continente, tem-se mantido muito quieto acerca deste incidente, num País que tem visto o presidente democraticamente eleito deposto num golpe de Estado liderado por um oficial treinado pelos americanos, um País com o qual os Estados Unidos tinham suspendido as relações militares no mês anterior.

Estranho? Nem muito.
Não foi a primeira vez que os militares dos EUA morreram em circunstâncias misteriosas em África, ou a primeira (ou última) vez que o espectro de atitudes "desagradáveis" leva a uma investigação criminal. Na verdade, uma vez que foram intensificadas as operações militares em toda a África (recorde de 674 missões em 2014), os relatórios de abuso de álcool, sexo com prostitutas, uso de drogas, violência sexual e ainda mais por parte de funcionários AFRICOM aumentaram, embora muitos tenham sido mantidos em silêncio durante semanas, meses, às vezes anos.

Valores?

Disse num discurso para as tropas no ano passado, o Major General Wayne Grigsby Jr., ex-chefe do comando subordinado do AFRICOM, o Combined Joint Task Force-Horn of África (CJTF-HOA):
O nosso exército está baseado em sólidos valores fundamentais, que são a essência da nossa reputação. Viver cada dia de acordo com os nossos princípios fundamentais e profissional faz parte da participação nesse grupo de elite.
Não parece.
Documentos oficiais do Pentágono, os arquivos de investigação criminal, mostram que a equipa da AFRICOM muitas vezes subestimaram estes "valores". Ou até os ignoraram de todo.

A imagem imaculada espalhada pelo comando através dos comunicados para a imprensa (muitas vezes para jornalistas especialmente seleccionados) não resiste aos factos.

Que fique claro: os soldados gostam de beber, ter sexo, drogas e, por vezes, têm acidentes. Não é novidade, basta abrir qualquer livro de história de vez em quando: sempre foi assim, faz parte da guerra. Mas aqui estamos perante "o" exército, empenhado em espalhar "os" valores, num continente onde por vezes a mesma sobrevivência é algo que tem de ser conquistado dia após dia; este não é tempo das cruzadas, há mais maneiras de controlar as atitudes erradas e, se for o caso, corrigi-las.

Sobretudo este último aspecto tem que ser considerado.

Há uma clara estratégia que reflecte os esforços do Comando para manter "secretos" os acidentes embaraçosos, e muitas omissões. O Comando, por exemplo, emitiu um comunicado de cinco linhas sobre o incidente de Bamako, não forneceu os nomes dos americanos envolvidos, nem a identidade dos três civis que morreram com eles. Omitiu o facto dos homens serem parte das forças especiais, apenas mencionou que eram militares do exército dos EUA.

Durante meses após o incidente, o Pentágono manteve em segredo o nome do sargento major Trevor Bast, um técnico de comunicações do Comando de Inteligência e Segurança (cujo pessoal muitas vezes trabalha em estreita colaboração com o JSOC) até a informação ser desenterrada por Craig Whitlock do diário Washington Post.

Afirma o coronel Tom Davis do AFRICOM:
Ressalto que as actividades das forças militares americanas no Mali têm sido de domínio público
Mas não explica porque agentes especiais ainda estavam no País um mês depois dos Estados Unidos terem suspendido as relações militares com o governo do Mali. Nos anos seguintes, o Comando não divulgou mais informações sobre o incidente.

Sexo, armas, & dinheiro

Nos últimos anos, várias acusações de crimes sexuais têm tido como alvo os militares dos EUA.
Uma pesquisa do Pentágono estima que 26 mil membros das forças armadas foram agredidos sexualmente em 2012, embora apenas 1 em cada 10 dessas vítimas fez relatório. E seria errado pensar apenas em mulher abusadas por homens: há também homens abusados por outros homens.

Em 2013, o número de militares que relataram esses incidentes aumentaram em 50%, até atingir o total de 5.518 e no ano passado chegou a quase 6.000. Dada a grande quantidade de agressões sexuais não declaradas, é impossível estimar quantos desses crimes tenham envolvido o grupo do AFRICOM, Mas há documentos que demonstram como o problema realmente exista.

Há abusos entre militares, mas há também abusos dos militares contra os civis. E, além do sexo, há dinheiro, muito dinheiro gasto de forma duvidosa. É o que iremos ver na segunda parte.


Ipse dixit.

Fontes: no final do artigo.

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