15 maio 2015

O Grand Canal da Nicarágua


Todos em festa, aleluia, até que enfim!
A China vai ter um "seu" canal, basta com a escravidão de Panamá: a nova estrada de água da Nicarágua é o futuro para soterrar os yankees.

Parabéns.
Já agora: alguém parou um pouco para pensar o que significa o novo canal da Nicarágua?

Setenta e dois. Este é o número de tentativas feitas para construir um canal interoceânico naquele País, terra de revoluções, terremotos, vulcões e lagos. Setenta e dois entre viáveis e não, todos (com apenas duas excepções) nasceram e foram promovidos por potências estrangeiras.

Afinal, o governo de Daniel Ortega escolheu o projecto da empresa chinesa HKND para a construção da grande obra. Um canal que irá dividir o País ao meio. Como a metade será cortado o maior espelho de água da América Central, o lago Cocibolca, o segundo maior lago de toda a América Latina.

Estas poucas linhas resumem apenas alguns dos problemas que caracterizam um desastre ambiental muito bem facilmente previsível. Mas vamos fazer assim: dividimos a questão em duas partes. Uma para analisar o impacto ambiental, a segunda para entender quem realmente está atrás deste projecto.


O ambiente

O Interoceanic Grand Canal (IGC) irá atravessar seis províncias: Región Autónoma del Atlántico Sur
(RAAS), Chontales, Rivas, Río San Juan, Masaya, Granada y Carazo.

Interessará directamente um total de 2 milhões de habitantes, os quais poderão gozar de poluição do ar, das águas e dos terrenos. Isso sem contar os problemas relacionados com as expropriações das terras por onde passará o IGC ou a destruição de inteiras aldeias.

Mas esquecemos os homens, pois há algo bem mais importante: a Natureza. Contaminação do solo, do ar, das águas, erosão, desflorestação, impactos hídrico e geológico. Tudo isso no meio de áreas protegidas, porque o IGC irá ou atravessar ou passar muito perto de reservar naturais ao longo do seu percurso:
  • as reservas de Zapatera, Ometepe, as Ilahs Solentinames, Cerro Silva, Punta Gorda, Indio Maiz.
  • habitat de aves aquáticas: La Flor, Los Guatuzos.
  • áreas biologicamente importantes e únicas: a zona de San Juan, a biosfera presente na reserva de Cerro Silva, a biosfera da reserva de Punta Gorda, a biosfera costeira de Bluefield.  
Para ter uma ideia do trabalho, mas também do seu poder devastador do ponto de vista ambiental, é suficiente destacar um facto: dos 105 quilómetros para atravessar o Lago Cocibolca (também conhecido como Lago Nicarágua) ao longo do percurso da rota naval, apenas 15 km tem a profundidade adequada (a chamado fosa de San Ramón).

Tudo o resto deverá ser dragado, inclusive os rios integrados no projecto. Centenas de milhões de toneladas de terra para ser removida, provocando não poucos problemas ambientais.

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Mas não há só o canal em si: já durante a construção deverão ser criadas estradas (a maior parte do IGC atravessa zonas verdes onde há uma completa falta de infraestruturas), depois haverá ferrovias, linhas eléctricas, gasodutos. E há já projectos para portos, aeroportos, hoteis, resorts...

Estudos científicos? Quase nada, isso porque tanto o governo quanto a empresa HKND de facto tentaram tudo para obstaculizar estudos sobre o assunto.

A propósito: quem é esta HKND?

As empresas

A denominação completa é Hong Kong Nicaragua Canal Development Group, uma empresa privada chinesa com sede em Hong Kong mas registada nas Ilhas Cayman (aprendem depressa os chineses, não é?).

Fundada em 2012, é de propriedade da HK Nicaragua Canal Development Investment, um grupo de investimento controlado pelo chinês Wang Jing. O simpático Wang já por si é uma figura interessante, mas vamos em frente, porque Wang não está sozinho nesta aventura.

Na HKND entraram também Ronald MacLean-Abaroa (ex-Presidente da Câmara de La Paz, membro do partido de Direita Acción Democrática Nacionalista), um par de empresas estatais chinesas (China Railway Construction Company e Xugong Group Construction Machinery Co), a empresa norte-americana de consultoria McKinsey & Company, a norte-americana Kirkland & Ellis LLP de Chigaco, a australiana MEC Mining, a belga SBE.

A mais interessante do grupo é sem dúvida a McKinsey & Company, como afirmado uma empresa de consultoria. Pergunta: mas para que os chineses decidiram convidar uma empresa de consultoria dos Estados Unidos?

Talvez para entende-lo seja antes preciso perceber o que é esta McKinsey, que é muito mais do que uma simples empresa consultora: é "a" empresa consultora mundial. Muitos dos ex-estagiários da McKinsey se tornaram executivos de grandes corporações ou ocupam importantes cargos em vários governos. American Express, IBM, Westinghouse Electric, Sears, AT & T, PepsiCo, Citicorp, Merrill Lynch, Tony Blair: estes são apenas alguns dos nomes que orbitam no sistema McKinsey.

A empresa tem "peso" na Administração dos Estados Unidos também: foi ela a ser fortemente envolvida nas discussões em torno da Lei de Saúde e Assistência Social de Barak Obama, em 2012.

Doutro lado, também a Kirkland & Ellis LLP está ligada ao Partido Democrata dos EUA, tendo contribuído com quase meio milhão de Dólares na campanha eleitoral do Presidente (isso sem contar as outras doações para exponentes do mesmo partido: mais de meio milhão de Dólares durante o mesmo ciclo eleitoral). E Kirkland significa General Motors, Honeywell, Apple, Intel, Westinghouse Electric Company e BP (defendida pela Kirkland durante a crise Deep Water Horizons, Golfo do México).

Uma estranha ligação esta. Técnica chinesa, management e influências norte-americanas.
Estranha, ou se calhar nem por isso.

As dúvidas

Tudo isso ajuda a perceber a razão pela qual na Nicarágua as pessoas começam a duvidar.

Duvidam da promessa de criação de lugares de trabalho porque, tal como acontece nas intervenções na África, engenheiros e profissionais são enviados directamente de Pequim. E nada é sabido acerca dos outros tipos de trabalhadores que serão utilizados na construção do Grand Canal.

Duvidam porque as informações públicas acerca da empresa HKND são escassas: quem é na realidade a HKND? Trata dos interesses de quem?

Duvidam porque o governo quase nem ouviu as propostas sandinistas .

É por isso que nos últimos meses tem havido cada vez mais adesão aos protestos. Há muitas aldeias que começaram a manifestar contra a decisão tomada pelo governo do Comandante Ortega. O intervencionismo pode ser americano, chinês ou até misto, mas irrita sempre na Nicarágua: terra de terremotos, vulcões, lagos e revoluções.


Ipse dixit.

Fontes: Qcodemag, EJAtlas, Wikipedia (várias páginas em Inglês: HKND, McKinsey & Company, etc.)

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