16 junho 2015

A Batalha de Shichwa

Uma excelente pergunta de José Eugenio Burgos (que agradeço!) via Twitter:
O que você pode nos contar sobre a matéria da BBC sobre a guerra em Shichwa e a sua autenticidade???
A Batalha de Shichwa, desenrolada-se nos passados dias, foi um temível confronto entre os militantes do ISIS (o Estado Islâmico), soldados iraquianos e combatentes xiitas. No final do conflito, o ISIS foi derrotado mas com custos muito elevado: mais de 10 mil refugiados abandonaram a cidade devastada pelos combates.

Óbvia a reacção de exultação dos apoiantes xiitas e as promessas de vingança do ISIS, isso enquanto no Ocidente a CNN seguia o desenrolar-se dos acontecimentos com tanto de especialistas e uma pergunta: o que deveríamos fazer acerca de Shichwa?

Resposta: nada. Porque Shichwa não existe: é suficiente controlar num mapa qualquer. A batalha nunca passou duma rede social (Twitter) para a realidade.

O combate "virtual" foi obra de Ahmad al-Mahmoud, um iraquiano que vive em Londres, e que um dia “se sentiu aborrecido”. Então, com um amigo, decidiu escrever um tweet afirmando que o ISIS teria sido derrotado em Shichwa. Ahmad até criou imagens com Photoshop, outros utilizadores decidiram juntar-se à “guerra”, criando mapas do lugar do combate e partilhando-os sempre na rede social.

Ao fim de dois dias, Ahmad desmentiu tudo e contou à BBC que o nome da cidade inventada, Shichwa, significa "bexiga de queijo", uma forma tradicional de fazer laticínios:
Não era algo sério. Qualquer iraquiano deveria saber o que é uma shichwa.
Até aqui a primeira parte. Mas vamos ver a segunda.
A seguir as reacções das últimas horas na internet: reparem nos títulos.
  • Falsa batalha inventada nas redes sociais engana 'EI' e opositores no Iraque (Globo)
  • Falsa batalha inventada nas redes sociais engana EI e opositores no Iraque (Rádio Evangelho)
  • Falsa batalha inventada nas redes sociais engana 'EI' e opositores no Iraque (BBC Brasil)
  • Falsa batalha inventada nas redes sociais engana 'EI' e opositores no Iraque (Zap AEIOU)
  • Falsa batalha inventada nas redes sociais engana 'EI' e opositores no Iraque (IG)
  • A batalha falsa que enganou o Estado Islâmico (e os seus opositores também) (Visão: nesta redação de certeza que perderam a cabeça).
Alguns títulos em espanhol:
  • El hombre que engañó a Estado Islámico y sus enemigos con una batalla falsa (BBC)
  • El hombre que engañó a Estado Islámico y sus enemigos con una batalla falsa (Scoopnest)
  • El hombre que engañó a Estado Islámico y sus enemigos con una batalla falsa (Crítica)
  • El hombre que engañó a Estado Islámico y sus enemigos con una batalla falsa (Noticias ABC)
  • El hombre que engañó a Estado Islámico y sus enemigos con una batalla falsa (Ecuavisa)

 E seria possível continuar, mas isso já fornece uma ideia do que se passa. Não há "notícias", há "uma notícia" que é amplificada pelo planeta todo.

E, como se não fosse suficiente, é uma notícia apresentada de forma tendenciosa: a Batalha de Shichwa não enganou apenas o ISIS e os opositores do Iraque, mas também os media ocidentais.

Na CNN, Anderson Cooper, Wolf Blitzer e vários comentadores deliciavam-se com as actualizações do Twitter e as imagens criadas com o Photoshop.

O mesmo acontecia com Al Arabiya, a emissora televisiva de propriedade saudita que transmite para todo o mundo árabe.

Mas a péssima figura dos media ocidentais e não fica para o segundo plano: é um detalhe, a mensagem que passa no título é que o ISIS e o Iraque foram enganados.

Todavia, a Batalha de Shichwa representa um caso interessante. Não é uma novidade absoluta mas tem alguns traços que vale a pena realçar.

Normalmente, o esquema de circulação das notícias é muito bem definido e pode ser resumido da seguinte forma:

A notícia é "trabalhada" num agência de imprensa (Reuters, Associates Press, etc.) que, a seguir, distribui o comunicado aos órgãos de comunicação social. Estes limitam-se a traduzir (se for o caso) o comunicado e a publicar a notícia. É por isso que as mesmas novidades aparecem escritas da mesma forma em vários diários, nacionais e internacionais: as modificações aplicadas pelos "jornalistas" locais costumam resumir-se à eliminação de algumas vírgulas, tanto para tornar o artigo mais "original". Os mais atrevidos chegam até a trocar entre eles um ou dois parágrafos, mas é coisa rara (dá trabalho).

Idêntico processo acontece nos restantes media e na internet também (o reino do copia-cola).

Na Batalha de Shichwa, pelo contrário, a origem é a mesma internet que, sucessivamente, consegue envolver os outros medias:

Não é a primeira vez que isso acontece: nas Primaveras Árabes tinham sido Twitter e Facebook a fornecer "notícias" (por assim dizer) que, além de amplificar os acontecimentos entre os cidadãos locais, criavam material espalhado pelo mundo fora.

De certeza nem é a primeira vez que um comum cidadão consegue inventar uma notícia que é tomada como válida por parte de alguns media e, sobretudo, pelo mundo da internet. Todavia, deve ser a primeira vez que uma "criação" tão básica consegue envolver os restantes media ao longo de alguns dias sem uma intenção bem precisa e, sobretudo, sem que ninguém tenha aquele mínimo de bom senso que deveria sugerir de verificar alguns pontos cruciais.

Por exemplo, abrir um Google Map para ver onde fica esta raio de Shichwa; ou espreitar com mais atenção as imagens; ou consultar um tradutor árabe. Porque é importante lembrar que tudo o que Ahmad al-Mahmoud fez foi "atirar" para internet uma notícia totalmente inventada com um par de imagens trabalhadas com Photoshop: nada mais do que isso, tudo extremamente básico.

A "criação" de Ahmad al-Mahmoud (de muito mau gosto, diga-se) mostra duas coisas.
  • a primeira é a forma irresponsável com a qual trabalham alguns entre os media mais conceituados (CNN). Não é novidade nenhuma, ora essa: no passado (guerra no Iraque, Síria, etc.) fizeram bem pior, mas é sempre bem lembrar-se disso. Assim como é bom lembrar que são estes os mesmos media que contam a todos nós "o que se passa no mundo".
  • a segunda é realçar a cada vez maior força da internet, que consegue misturar realidade e fantasia com uma simplicidade arrepiante e encontrar sempre alguém que acredite. Mesmo que estas sejam pessoas bem informadas e acostumadas a lidar com notícias da última hora.
E querem saber algo? Nenhuma das duas parece coisa tão simpática.


Ipse dixit.

Fontes: no texto.

5 comentários:

  1. Chaplin16.6.15

    E as poucas agencias noticiosas são, historicamente, desde o final da segunda guerra, controladas por quem? Pergunta difícil...

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    1. Chaplin você poderia explicar mais sobre isso... tenho uma enorme curiosidade...

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  2. Max mais uma vez muito obrigado... Chaplin gostaria que abrisse uma discussão sobre isso, ainda não entendi a ligação...

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  3. Chaplin18.6.15

    Olá Burgos! Fica difícil discorrer à fundo sobre o tema neste espaço, mas podemos sintetizá-lo. As agências noticiosas foram criadas como mais um instrumento do sistema mestre ou estabelecimento da ordem única, como quiser. Na época, a inteligência à serviço dos grupos dominantes avaliaram-nas como imprescindível para propagar, pautar e editar em nível global (ocidental) os assuntos e questões com repercussão favorável aos seus interesses, desprezando ou descartando os contrários. Funcionam como verdadeiros funis e dificultam para não dizer impossibilitam a prática jornalística livre e minimamente democrática. Trata-se de um monopólio, onde a notícia tornou-se propaganda sob ideologia burguesa capitalista sionista disfarçada de notícia, e em mais um dos tantos monopólios sionistas. Abraço.

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  4. Então, isso eu já imaginava... mas só não consigo entender como os sionistas enriqueceram tanto já que judeus foram massacrados na II Guerra pelo nazismo... Então não foram? A ideia e a retratação sobre os Nazistas é o que temos agora contra o Estado Islâmico? EM parte uma farsa onde são criados conflitos, atentados para fazer parecer que o EI está por trás de tudo???

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