08 junho 2015

Futebol e sociedade - Parte I

Um trecho dum comentário que o Leitor Anónimo escreveu a seguir o último artigo, o "desabafo"
acerca da invasão do futebol nos medias nacionais de Portugal (como sempre: muitíssimo obrigado para participar!):
Panem et circenses!
Já vem dos romanos. Os gladiadores foram substituídos pelo futebol (e não é só em Portugal, Max, é global), e tornou-se numa arma de controle da população.[...]
Justo, não há dúvida.
O futebol é uma arma de distracção maciça, utilizada para desviar a atenção dos cidadãos.
Todavia, pouco antes, outro Leitor Anónimo tinha escrito:
Os media, como disse o Max, fazem o trabalho deles, que é vender o quer rende.
E aqui está o problema.

Um diário ou um programa televisivo/radiofónico desportivo não seriam produzidos se não houvesse um público disposto a receber o conteúdo. Temos a certeza de que seja toda culpa da camada de Valium que é continuamente despejada por cima das nossas cabecinhas? Ou será que nós, enquanto cidadãos, temos a nossa responsabilidade? Por exemplo, favorecendo assuntos "leves" como o futebol em detrimento de outros mais importantes.

Observem a seguinte tabela. A base é o portal Net Papers (que aconselho, pois reúne os diários internacionais) e Wikipedia. Do primeiro peguei o número de diários desportivos publicados, da segunda o total dos habitantes dos vários Países.

Obviamente, a tabela tem interesse quando forem analisados os diários desportivos que alcançam um público nacional: em Portugal, por exemplo, além de A Bola, O Jogo e Record há também o Desportivo de Guimarães, o Desportivo Transmontano e o Jornal Sporting que, todavia, têm uma relevância local e bastante limitada (sobretudo o Jornal Sporting, que julgo ter 12 Leitores, 13 no máximo lololol).

Da mesma forma, não foram consideradas as edições locais que "repetem" com algumas actualizações, as edições nacionais (é o caso de O Jogo). Além disso, não foram contabilizados os portais exclusivamente digitais (sem versão impressa, não disponíveis nas bancas).

Os resultados são os seguintes:


Duas notas:
  1. a Grécia não aparece na tabela porque, dada a situação económica, muitos diários parecem ter fechado durante os últimos anos e estabelecer quantos ainda estão em actividade não é simples.
  2. esta não é uma tabela "cientificamente" correcta, porque não tem em conta  o poder de compra dos habitantes. Neste caso, os 4 jornais da Roménia têm mais "peso" do que os três de Portugal, porque um cidadão romeno tem que gastar mais (comparativamente) para comprar um jornal desportivo. Da mesma forma, a posição da Dinamarca é enganadora, em primeiro lugar porque há um só diário deste género em todo o País, depois porque o rendimento individual permitiria comprar muitos mais diários desportivos em comparação com a Roménia ou com Portugal.
Comentário: na Bélgica, Finlândia, Irlanda, Noruega, República Checa e Suíça não existe um único diário desportivo, apesar de, num par dos casos, haver o mesmo número de habitantes de Portugal (Bélgica e Rep. Checa).

No fundo da tabela, pelo contrário, encontramos Portugal, onde é publicado um diário desportivo por cada 3.5 milhões de habitantes. Parabéns, meus senhores.

Mesmo considerado a diferencias no poder de compra, a posição de Portugal é penosa: não há outro País europeu onde sejam publicados tantos diários desportivos em relação ao total dos habitantes.

Então: é apenas culpa dos media? Temos a certeza de que seja um fenómeno "global"? Ou há algo que diferencia os Leitores da Alemanha (1 diário desportivo por cada 82 milhões de habitantes) e Portugal (1 diário por cada 3.5 milhões de habitantes)? Que acham?

Tentei a mesma operação com a América do Sul, mas aqui os problemas são ainda maiores. Vamos ver a razão. Antes a tabela:


Os problemas:
  1. No Brasil não consegui perceber quais são os diários desportivos regionais (que parecem ter mais importância do que na Europa) e quais nacionais. Confio na bondade dos Leitores para eventuais emendas.
  2. A questão do poder de compra parece-me mais importante ainda do que na Europa e isso falsifica bastante a tabela. Os casos do Paraguay e do Ecuador parecem-me os mais significativos neste sentido.
  3. No Brasil (como sinaliza Chaplin) há rádios que transmitem futebol 24 horas por dia, um fenómeno desconhecido na Europa (por enquanto...), talvez exista o mesmo em outros Países do mesmo Continente e isso tem influência nos resultados da tabela.
  4. A recente crise da Argentina tem tido o mesmos efeitos observados na Grécia, pelo que dados certos não há.
No geral (seja Europa, seja América, seja outro Continente qualquer), a situação é mais grave ainda
do que parece porque o futebol é uma indústria e nada mais do que isso.

As empresas (as sociedades desportivas) devem gerar grandes lucros para poder apostar em atletas conhecidos que possam atrair mais público e favorecer a venda dos acessórios (cachecóis, boné, etc.).

Os atletas estão nas mãos de representantes (os agentes) que têm carteiras tão numerosas ao ponto de poder influenciar os destinos duma equipa ao longo duma inteira temporada.

Nem podemos esquecer a guerra dos direitos televisivos (e quem acham que paga estes direitos afinal? Pensem nisso), os sponsors e os nunca claros relacionamentos com as entidades bancárias (acerca dos quais as autoridades fecham os olhos, caso contrário seriam bem poucos os clubes que não entrariam em falência dum dia para outro).

A violência que gravita em volta do futebol obriga a deslocar centenas, por vezes milhares de polícias em ocasião dos eventos mais importantes (e tudo isso tem um custo: quem acham que paga?).

Falando das instituições internacionais, a situação até piora: as ligações FIFA, EUFA e grandes corporações estão no mínimo duvidosa, mas o poder é tão elevado que pode obrigado um País a contraria as suas próprias leis nacionais (ver caso Mundias do Brasil e cerveja).

O futebol alimenta o crime organizado. A FIFA, por exemplo, tem um longo historial de corrupção, que culminou nos últimos dias com as demissões do presidente Joseph Blatter (segundo alguns um "golpe" da Rússia, segundo outros um "golpe "do FBI). Fala-se de ligações com a Máfia da Sicília, de jogos falsificados para pagar subornos e assegurar votos para os Mundiais de 2022. Meus senhores, esta é canja.

Procurem na internet algo relacionado com a Tailândia, a central da apostas mundiais de futebol, e o relacionamento entre esta actividade e aquela de reciclagem de dinheiro derivado do comércio da droga. Falamos de algo que acontece diariamente, com montantes desconhecidos mas sem dúvidas assustadores, em comparação com os quais os subornos de Blatter são brincadeiras de crianças.

O futebol não é apenas panem et circenses, não é só uma arma de distracção maciça. É uma indústria podre que alimenta o crime organizado e vive em simbiose com as grandes corporações.

Poderá dizer o Leitor: "Eh sim Max, descobriste a água quente". Sem dúvida.
Mas este artigo não é contra o futebol: na internet não faltam escritos melhores do que este acerca do assunto. O foco aqui está em nós: nas tabelas publicadas acima.

Qual grau de desenvolvimento pode reivindicar um País com o maior rácio entre habitantes e diários desportivos publicados? Ou onde existem rádios que transmitem futebol 24 horas por dia?

Como sempre, dúvida: porque o futebol é tão importante em determinados Países e menos em outros? Aliás, a pergunta está mal feita, pois deveria ser: por qual razão o futebol representa uma parte tão importante numa sociedade enquanto numa outra, onde é igualmente apreciado e seguido, não ocupa uma tal prioridade?

A resposta pode fornecer um instrumento para entender melhor a atitude das pessoas em alguns Países? Obviamente sim.

Muitos, para denegrir o fenómeno, descrevem o futebol como "onze estúpidos [os mais cultos chegam até 22, nda] que correm atrás duma bola". Erro e ingenuidade, pois o futebol é muito mais do que mero desporto, entretenimento, indústria, marketing ou instrumento para "controlar" as massas. Assim como errado e grave é desvalorizar o papel activo que futebol exerce em algumas sociedade.

Atenção, pois não é esta uma pessoal tentativa para defender o futebol: é exactamente o contrário.
Mas aqui entramos no âmbito da sociologia e, dado que hoje está calor, vamos ver o resto na segunda e última parte deste artigo.


Ipse dixit.

10 comentários:

  1. Anónimo8.6.15

    off topic mas mencionado no texto:

    http://www.forbes.com/sites/erikkain/2011/07/05/ten-years-after-decriminalization-drug-abuse-down-by-half-in-portugal/

    http://www.theguardian.com/world/2010/sep/05/portugal-drugs-debate

    http://www.spiegel.de/international/europe/evaluating-drug-decriminalization-in-portugal-12-years-later-a-891060-2.html

    http://www.tdpf.org.uk/blog/drug-decriminalisation-portugal-setting-record-straight

    http://www.nytimes.com/roomfordebate/2014/03/17/lowering-the-deadly-cost-of-drug-abuse/decriminalizing-possession-of-all-illicit-drugs

    N. em tudo é mau, li a parte que menciona o negocio da droga.
    Somos agora um exemplo positivo.

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  2. Anónimo8.6.15

    O cara que vendeu a idéia de que era moderno e sofisticado mulheres fumando, será que concordaria com a afirmação, de que de fato, algo nos é oferecido simplesmente porque o desejamos? Há um desenho animado brasileiro que foi muito premiado que toca nesta questão: "Meow". Um gato cujo dono resolve certo dia não lhe oferecer mais a tigela de leite, mas uma com coca cola. A princípio o gato se irrita, esperneia, mas aos poucos acaba se adaptando à nova dieta. No fim ao invés de um "miau", ouvimos um "meow". Lógico que aí também temos uma crítica a invasão cultural. A publicidade estuda todos estes meandros e Bernays foi mestre maior nestes assuntos. Sei de gente que compra o que não necessita. Aquela estória do ter para ser, não creio que seria tão atual se não tivéssemos as propagandas de carrões, de tênis, ou como na minha época com a dos cigarros. Para eles não somos humanos, somos consumidores e é assim que tratamos à nós mesmos. É mais ou menos semelhante à nossos treineiros chamarem seus jogadores de peças, e assim, os próprios se considerarem.

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  3. Mais de 95 % dos jornais desportivos em Portugal são vendidos para cafés, restaurantes e outras casas do tipo.
    Grande parte da informação desportiva é lida online. (E não faltam sites para isso em portugal)

    Os jornais mais lidos em portugal (segundo a Marketest):

    1ª- Record - 18 milhões de paginas por ano
    2ª - A Bola - 16 milhões
    3ª - Mais Futebol - 6,9 milhões
    4ª - O jogo - 5,9 milhões
    5ª - Expresso - 5,4 milhoes

    Claro que quem lê o Record, também lê a A Bola e o O Jogo e por ai diante.

    Fonte: http://www.tvi24.iol.pt/marketest/estudo/jornais-on-line-recebem-342-mil-visitas-diarias

    Esses gráficos não nos dizem grande coisa, mas já ajudam a perceber e juntamente com este top dos mais visitados que o futebol é um grande negocio e que uma boa parte da população esta completamente alienada a ele o que pode até não ser mau se estes milhões praticarem também o desporto heheheh.

    Depois ha outra curiosidade, certamente acontece em outros países mas, aqui em portugal se recuarmos na historia poderemos ver que os clubes, principalmente os 3 grandes, estão ligados a politica, que se serve do futebol para fazerem as suas trafulhices. No caso dos jornais desportivos A Bola, Record, O Jogo, são claramente jornais que existem como suporte a estes 3 grandes clubes, as suas ideologias e as guerras entre norte e sul. São uma espécie de mecanismos de propaganda politica, futebolística e regional. Se o Max for a uma "Casa do Benfica" só le a A Bola. A uma "Casa do Porto" so le o "O Jogo" e do Sporting só o "Record". E isto não acontece por escolha dos gerentes de cada casa......

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  4. Anónimo9.6.15

    Volto a dizer, é apenas Panem et circenses!
    A Sampdoria, por exemplo, posso dizer que é um péssimo clube de futebol!
    Pronto, já fui expulso do Blog :-D
    É a reacção que este tipo de insignificancias que provocam altas bruscas de tensão, de hiperacidez gástrica, perturbações cárdio-vasculares que tonam as pessoas fácilmente controláveis.
    Não consigo compreender, embora goste de desporto, que não é apenas futebol, como alguém consegue chegar ao ponto de actos de pura violência, por algo insignificante, e demonstre elevada passividade cada vez mais roubado por um governo por exemplo.
    O facto de demonstrar relação futebol/jornais, não demonstra toda a realidade.
    Adquirir jornal implica o acto de compra, logo um entrave financeiro a maior abrangência do fenómeno.
    E também dos romanos, a bela táctica, dividir para reinar.

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  5. Chaplin9.6.15

    O futebol, enquanto indústria é o melhor exemplo existente no mundo, por sua abrangência, mas não podemos esquecer dos países onde outros esportes exercem a mesma função sociológica, mesmo não tendo o mesmo tamanho enquanto negócio, com exceção dos USA, onde algumas modalidades representam números bem maiores do que o esporte bretão. Ou seja, a causa está no condicionamento inconsciente ou não, imposto ao indivíduo, mesmo antes do mesmo tomar o leitinho materno. Quando adulto, chega na altura de poder perceber algo estranho, mas não consegue ir adiante, pela mesma razão, o seu próprio condicionamento não auto-reconhecido, que o impede de ver a realidade sem tal interferência. E essa condição vale para toda e qualquer situação de vida, muito além da questão do futebol.

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    1. Anónimo10.6.15

      Sem esquecer que os pequenos torcedores sao levados aos estadios pelas maos de seus pais, assim como estes ultimos foram levados tambem pelos seus. Por isso penso qua a coisa e induzida e nao um servico oferecido porque ha uma demanda.

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  6. Anónimo9.6.15

    Aqui no Brasil acho que só existe um diário esportivo ainda em circulacão: o Lance! Os antigos Jornal dos Sports e Gazeta Esportiva fecharam as portas, a GE migrou para a net. Alguns jornais "normais", mas mais voltados para o "segmento" popular colocam um grande foco no futebol para atrair público. Tem também a concorrência com os jornais gratuitos. Tenho certeza que muita gente lê apenas a parte de esportes destes jornais.

    E no Brasil tem uns mil programas esportivos na televisão, que chegam ao nível de analisarem o estado psicológico de cada jogador, do juiz e do treinador. Além de tratarem do futebol como se fosse a análise política do país. São uns "doutores"...

    Faltausername

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  7. Anónimo10.6.15

    Futebol é algo Tribal, onde equipes locais enfrentam equipes de outras localidades disputando a supremacia. Mas isso não está ligado tão somente ao futebol, existem outras práticas desportivas que despertam esse sentimento tribal. Não vejo a prática desportiva como ferramenta alienante, mas sim como ferramenta de integração da sociedade, claro que com alguns excessos. O Futebol em alguns casos pode se assemelhar ao partidarismo político, onde há bandeiras, paixões, cores, disputas, competições, etc, acaba por despertar esse sentimento tribal. As únicas ferramentas alienantes utilizadas pela mídia em geral são aquelas onde há a sugestões de ideias, comportamentos, estilos de vida... Aí temos um belo exemplo que são as telenovelas. O futebol como prática desportiva não tem esse alcance de penetração na sociedade, pelo contrário, acaba sendo reflexo da sociedade como figura passiva, não sendo o futebol agente alienante, sua influência do futebol na sociedade é praticamente nula. As universidades em si são muito mais alienantes que uma telenovela, por exemplo.

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