10 setembro 2015

Guerra e Paz: somos bons!

Como é a nossa sociedade? É boa.

Mas quanto boa? Uhi, muitíssimo boa. Provavelmente a melhor. Por qual razão? Porque nós somos bons. E, para prova-lo, pode ser boa ideia pegar na História e reescreve-la.

Tão simples, não é?

Revista Super Interessante (vendida também no Brasil), edição portuguesa deste mês, Setembro de 2015, páginas 86 - 91. Assunto: a Paz. Como é a Paz? É boa, ainda bem.

E, de facto, o artigo entende demonstrar como a Paz tenha tido um papel fundamental na nossa História. Não se trata de demonstrar que não houve guerras, mas que o homem "é um ser complexo, capaz de comportamentos altruístas ou egoístas, e tanto de atitudes pacíficas como violentas".

Ok, se calhar não é esta uma observação particularmente profunda. E nem aquela segundo a qual "se a violência não produz grandes alterações a longo prazo, o verdadeiro motor da história é a paz": é lógico que os maiores avanços (nas várias áreas) sejam obtidos em condições de paz, quando os pesquisadores podem desenvolver o trabalho deles, quando há tempo e condições para tentar encontrar soluções para os vários problemas, para melhorar as condições de vida duma sociedade. Não me parece propriamente um pensamento revolucionário.

Mas vamos em frente.
Volto a página e deparo-me com o seguinte subtítulo: "Ente os anos de 1815 e 1914 houve apenas 18 meses de guerra".

Desculpem? Importam-se de repetir?
Vou logo procurar no artigo o sentido deste disparate. Ah, cá está: "O sociólogo Karl Polany designou o período entre 1815 e 1914 como a Paz dos Cem Anos, durante a qual as grandes potências só se combateram durante um total de dezoito meses".

Mas que raio de visão é esta? O sociólogo judaico (ah, pois...) Polany esqueceu-se de dois "pormenores":
1. as grandes potências não combatiam na Europa, mas participavam em conflitos nos outros continentes.
2. além dos conflitos entre as grandes potências da época, havia outros conflitos, de carácter regional: e, não poucas vezes, na base destes havia o espírito colonialista das mesmas grandes potências.

Esta visão "eurocêntrica" da História (na altura os Estados Unidos ainda não eram uma potência de nível internacional) leva até resultados completamente errados. Entre 1815 e 1914 houve:
  • um total de 349 conflitos.
  • em 181 destes conflitos houve uma intervenção directa dum País ocidental, na maior parte dos casos o Império Britânico, a principal potência do século XIX até o início do XX. Nesta conta não são consideradas as guerras nas quais participaram apenas os Estados Unidos.
  • alguns destes conflitos geraram perdas enormes: Rebelião Taiping (1851-1864) 20 milhões de mortos; Revolta Dungan (1862–1877) entre 8 e 12 milhões de mortos; Conquistas de Shaka (1816-1828) 2 milhões de mortos; mais umas tantas guerras com "apenas" algumas centenas ou dezenas de milhares de mortos. 
A Rebelião Taiping sozinha, combatida entre a Dinastia Qing, os exércitos Xiang e Huai com o apoio de França, Reino Unido e Estados Unidos contra o Reino de Taiping, provocou mais mortes do que a Primeira Guerra Mundial. Nada mal como "Paz dos Cem Anos". 

Mas continuemos.
No mesmo artigo, Super Interessante publica também um gráfico do Institute for Economics and Peace (IEP) fundado pelo empresário australiano Steve Killelea em 2007: este é um gráfico que analisa não apenas as guerras mas também os níveis de criminalidade internos. Vamos espreita-lo, na versão referida ao ano de 2011:
Clicar para aumentar!





É lindo, não é? Olhem o Canada, por exemplo: uma maravilha, um autêntico paraíso.

Mas há algo que não bate certo. Em 2011, a NATO interveio na Líbia, estabelecendo uma no fly zone, bombardeando até os civis, derrubando o regime num País soberano que pensava na vidinha dele e que não estava empenhado em conflito nenhum. E quem fazia parte (e ainda faz) da NATO? Quem tomou parte activa neste conflito? Exacto: o Canada. Que, ao mesmo tempo, já se encontrava empenhado na operação NATO no Afeganistão.

Como pode um País responsável de invasões contra dois Países soberanos ser considerado entre os "mais pacíficos" do planeta? Segundo o mesmo IEP, o Canada é o 13º País mais pacífico do mundo enquanto a Mongólia é 61ª. Este último  País, que desde o fim da Segunda Guerra Mundial não entrou em conflito nenhum (em 2011 só tinha um número muito reduzido de tropas no Afeganistão), que não conhece o analfabetismo, que respeita as minorias étnicas e religiosas, que não tem problemas raciais, que desde a queda do Comunismo encontrou o seu percurso democrático, é menos pacífico do que o Canada. Isso segundo o IEP, claro.

É possível afirmar que na Mongólia existe uma taxa de criminalidade superior: o que é verdade. Na lista de Países por taxa de homicídio intencional, a Mongólia apresenta um pouco simpático 9.7, um meio termo entre o 1.6 do Canada e o 25.2 do Brasil (isso para não falar do 90.4 das Honduras).

Mas se assim for, então o gráfico do IEP confere um peso preponderante à criminalidade interna em detrimento dos conflitos exteriores nos quais os vários Países tomam parte. E exclui, por exemplo, outros dados como as despesas militares (o Canada é 13º na lista das despesas militares per capita, a Mongólia nem aparece na lista dos primeiros 35; também como percentagem do PIB as despesas do Canada são superiores).

Obviamente, neste gráfico a Rússia é sempre pior do que israel a partir do ano de 2012. As operações
Pilar Defensivo (2012) ou Margem Protetora (2014) contra a Faixa de Gaza não são consideradas, pois massacrar Palestinianos é normal.

Mas não admira: o IEP, como lembrado, é uma estrutura fundada pelo empreendedor australiano Steve Killelea. Este simpático senhor (candidato ao Nobel da Paz) faz parte do Clube de Madrid, uma ONG que tem como objectivo espalhar a Democracia. Entre os membros: José María Aznar, Felipe Calderón, Aníbal Cavaco Silva, Bill Clinton, Mikhail Gorbachev, Romano Prodi... bom, estamos entendidos, não é?

Dúvida final: mas somos bons ou maus?
Nem um nem outro. Somos o fruto da educação que recebemos, dos valores transmitidos, da sociedade em que vivemos. Muitas vezes não é o homem a trair, mas os seus problemas.

Update

Como curiosidade, fui espreitar os vários conflitos combatidos no continente europeu entre 1815 e 1914.

E ainda bem que foram 100 anos de paz! As listas podem ser encontradas nos links de Wikipedia nas fontes. O único período em que na Europa não se registaram guerras foi entre 1885 (Guerra entre Sérvia e Bulgária) e 1905 (Revolta de Lozd, na Polónia e a Revolução Russa). São 20 anos, não mais do que isso.

Pelo meio (sempre entre 1815 e 1914) há, por exemplo, três Guerras de Independência Italianas (a primeira, sozinha, durou 12 meses), com a participação de Italia, França, Prússia e Áustria. Mas nada de grave, ora essa: só na Batalha de Solferino (III Guerra, 1859) foram 16.750 mortos.

Depois houve também a Guerra Franco-Prussiana (Julho 1870 – Maio 1871): 167.000 mortos.

A propósito: a Primeira Guerra de Independência Italiana (12 meses) mais a Guerra Franco-Prussiana (10 meses) perfazem um total de 22 meses. Só estas duas juntas, que viram a participação de boa parte das potências europeias da época. Mas não eram 18 meses de guerra em 100 anos?


Ipse dixit.

Fontes: Wikipdia - List of wars 1800–99, List of wars 1900–44, List of wars by death toll, List of countries by military expenditure per capita, Institution for Economics and Peace: Vision of Humanity, Revista Super Interessante, edição Portugal, nº 209 Setembro de 2015, páginas 86-91. 

6 comentários:

  1. Bom e mau...é tudo muito relativo. Nos poucos onde predomina a bondade, existe alguma coisa de mau; na maioria onde predomina a maldade, deve existir alguma coisa boa (sabe-se lá onde!). Tem gente que não vale nada e melhora, tem gente que é boa e um belo dia vira demônio. Sempre foi assim? Acredito que sim, e depende do conceito de bom e mau. O que pode ser bom para um é justo o contrário para outro. Porque? Creio que nascemos um animal como qualquer outro. E aí o ambiente vai nos tornando gente. A humanização tende a nos tornar piores, a civilização nem se fala. A sociedade disciplinar e mais contemporaneamente a de controle então...nem é bom pensar. Por tudo isso penso que o estado de guerra chegou para ficar, para sempre, guerras visíveis ou invisíveis, guerras sem fim...até o fim da humanidade, o que não é sem tempo, pois este fim o planeta com certeza agradeceria

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  2. Anónimo11.9.15

    Sá a partir de 6 milhões é que conta.....

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    Respostas
    1. Anónimo11.9.15

      *Só

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    2. Anónimo11.9.15

      Quer gostem quer não, a guerra têm sido o motor de sempre no avanço da tecnologia e industria e das grandes mudanças sociais. Inclusivé este próprio meio de comunicação.
      A grande guerra de 1914-1945 mudou a vida das mulheres no mundo ocidental.

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    3. Anónimo12.9.15

      Excelente então, vamos matar mais 60 milhões de pessoas e pode ser que no final inventem o tele-transporte.....

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    4. Anónimo12.9.15

      É... Temos que ser gratos por este sistema genocida (sendo irônico, ok?). O que acho questionável é a afirmação de que os avanços tecnológicos são resultado de guerras e do regime capitalista que aí está (que só sobrevive com guerras). Na verdade o regime capitalista (este que aí está) boicota todo avanço tecnológico (e houve muito boicote) que não resulte em dividendos para o feudo. A energia livre poderia ter impulsionado a humanidade por outros caminhos. Uma outra forma de tecnologia poderia ser a força motriz da humanidade nestes nossos dias. A forma que o capitalismo assumiu (este que aí está) nos privou de uma outra possibilidade de existência, que dificilmente poderia ser pior do que o que temos vivenciado. Agora que nos deparamos com a beira do abismo fica evidente que dificilmente algo poderia ser pior do que ter permitido aos grandes grupos definirem os caminhos que a humanidade deveria tomar.

      Expedito.

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