12 novembro 2015

As sociedades gilánicas - Parte I

Um artigo sobre a História? Nada disso.
Falamos aqui de sistemas de governos.
Ou melhor: de organizações diferentes da nossa.

E comecemos com uma observação: há um buraco. Onde? Na História.

Aha! Então é um artigo de História!
Não, não é: sigam o raciocínio pois este não é um buraco casual.

O que é ensinado nas escolas? É ensinado que o esquema é este:
1 .Pré-história
- Paleolítico
- Mesolítico
- Neolítico
2. História Antiga
- Primeiras civilizações: Egípcios, Suméria, Babilónios, etc.
No imaginário geral, o Neolítico (que é sempre Idade da Pedra) é uma época obscura, povoada por brutos que vivem em cavernas e nem falam mas emitem grunhidos. O que é falso, como é óbvio, pois é mesmo durante este período (pelo menos desde 12.500 a.C.) que é desenvolvido um tipo de vida sedentário, com a prática da agricultura e a criação de animais domestico.

Depois temos as primeiras civilizações, com o aparecimento da escrita: é ensinado na Mesopotâmia, perto do 3.200 a.C., quando na verdade aconteceu nos Balcãs entre 5.400 e 4.000 a.C..

Portanto, temos um "buraco" entre 12.500 (no mínimo) e o 5.000 a.C. (arredondando): 7.000 anos durante os quais em determinadas áreas do planeta parece não ter acontecido nada. Em particular na Europa, na área do Mediterrâneo: o que é particularmente esquisito, pois é mesmo aí que pouco mais tarde teria nascido a primeira forma de escrita.

De facto, na escola não faltam relatos acerca do primeiro Egipto, das civilizações da Mesopotâmia: mas estas não apareceram antes do 3.500 a.C. e nas áreas da África do Norte ou no Oriente Médio. O que aconteceu antes e nas outras áreas? A falta de documentos escritos explica tudo? Na verdade não.

Marija Gimbutas, arqueóloga e linguista lituana, dedicou boa parte da sua vida a reconstruir aquelas civilizações que os livros de escola recusam considerar, até nomear. São as chamadas sociedades gilánicas.

As sociedades gilánicas

Quantos anos tem o Estado como forma de organização do poder? Na Europa cerca de 1.200 anos, mas se considerarmos o poder centralizado dos Estados como os actuais, então temos que escolher uma data bem mais perto da nossa: é do 1500 a criação dos primeiros Estados nacionais.

Vice-versa, ao considerar um dos primeiros códigos de leis, aquele do rei Hammurabi, devemos recuar até quase 1.800 anos antes de Cristo.

E o que havia antes? O nada? Como vimos, os livros escolares deixam este capítulo em branco, fornecendo uma ideia errada: que antes do Estado não existisse uma sociedade digna deste nome mas sim um conjunto de indivíduos sem nenhum tipo de organização. Ou, no máximo, com uma organização desconhecida. Isso é falso, como é óbvio: tanto a escrita quanto a ideia de Estado não podem ter surgido "do nada"; evidentemente, tinham que existir as condições que levaram ao surgimento dos dois. E entre uma caverna e o Código de Hammurabi, a distância é de anos-luz.

Portanto, devem ter existido civilizações anteriores, umas formas de organização evoluída, muito além da simples tribo. E existiram: são conhecidas com o termo "sociedades gilánicas".

A descoberta das sociedades gilanicas é obra da já citada Marija Gimbutas, seguida pelo antropólogo Riane Eisler, seu herdeiro cultural, e pelo arqueólogo irlandês-americano James Patrick Mallor. Marija Gimbutas foi quem cunhou o termo "gilan", que é uma contração de"gi' + 'um", abreviaturas das palavras gregas Giné (mulher) e Andros (homem). A letra "l" no meio tem dois significados importantes:
  1. o sinal fonético grego leyin / lyo que significa "livre".
  2. sinal de união e ideal cultural entre os dois sexos.
O termo já indica qual o sentido destas primeiras sociedades: civilizações auto-organizadas, não violentas, em que homens e mulheres tinham direitos iguais. Estamos a falar dum período temporal muito amplo, que varia aproximadamente entre 7.000 a.C. (data dos primeiros achados) e o 3.500 a.C. (em algumas zonas até 1.500 a.C.), na área do Sudeste da Europa, incluindo as ilhas: aí sociedades pacíficas floresceram e evoluíram, sendo refinadas, sem hierarquias, sem um verdadeiro Estado centralizado. Sociedades não-patriarcais, "anarquista" antes do tempo, onde a auto-organização durou milhares de anos sem por isso gerar caos e violência.

Como é possível fazer estas afirmações? Muito simples: com a Arqueologia, a disciplina científica que estuda as culturas e os modos de vida do passado a partir da análise de vestígios materiais. Em nenhum sito ou sepultura gilánica foram encontradas armas, mesmo na era dos metais. Nenhuma representação do tempo mostra cenas de guerra. E as inúmeras estatuetas da Deusa Mãe ("Venus" ou "Grande Deusa", como são chamadas por M. Gimbutas) atestam que, em princípio, Deus era uma mulher, e que, consequentemente, essas sociedade não utilizavam a força física como uma ferramenta organizacional.

É demasiado simples cair na tentação de idealizar estas antigas sociedades, mas os achados falam por si. Porque há achados, como será observado em seguida. Por enquanto, lembramos que estas características "proto-anarquistas" forma confirmadas também pelo urbanista Colin Ward e pelo sociólogo Erich Fromm; e que as teorias de M. Gimbutas são hoje geralmente aceites pela comunidade científica.

O sistema social gilánico era de tipo não piramidal ou hierárquico: os elementos "pessoal" e "colectivo" não eram dissociados, mas interdependentes. Isso bem explica o silêncio dos textos escolares acerca do assunto: o âmbito de aplicação desta descoberta é tão grande e "perigoso" que justificou a sua censura constante por parte das instituições.

Esta descoberta, que também dividiu a frente dos arqueólogos (e ainda divide), prejudica profundamente a nossa ideia de que não há outra forma de "civilização" se não um Estado e a hierárquica. As sociedades gilánicas são a prova de que é possível viver sem um Estado, sem estruturas centralizadas, sem hierarquias e em paz.

Observamos mais de perto uma sociedade gilánica. Bem conhecida até, apesar de já pertencer à ultima fase gilánica.

A Civilização Minoica: Creta

A Civilização Minoica surgiu durante a Idade do Bronze Grega na ilha de Creta, e foi uma das últimas entre as gilánicas. É conhecida como Minoica por via do Rei Minos que, todavia, é uma figura da mitologia grega: aliás, todos os reis de Creta (Catreu, Deucalião, Idomeneu, Licasto, Melisso de Creta, Téctamo etc.) são figuras mitológicas da vizinha Grécia. Simplesmente: não existiram.

A Civilização Minoica foi descoberta só em época recente (entre 1900 e 1905) e ainda provoca debates. O elevado grau de sofisticação atingido (com tanto de escrita, a famosa Linear, cuja tradução constitui um desafio; mas não faltam joias, cerâmicas, pinturas, escultura, arquitectura...), a falta de provas de guerras, a riqueza, as divindades femininas, a amplitude do comércio (todo o Mediterrâneo, desde a Espanha até a longínqua Mesopotâmia), tudo isso é razão de espanto.

O que temos acerca da sociedade da ilha sugere algo diferente, sobretudo quando comparado com as contemporâneas organizações como a do vizinho (via mar) Antigo Egipto.

Pegamos numa das pinturas:


Nesta pintura, que pertence ao Palácio de Cnossos, podemos observar uma cena de jogo: duas mulheres e um homem enfrentam um touro. Isso porque as actividades sociais, incluindo os jogos, eram livremente e normalmente realizadas por mulheres e por homens, numa relação de igualdade.

E para além da questão igualitária entre masculino e feminino (aspecto que falta à cultura "democrática" e "civil" grega, tal como as seguintes), o que surpreende é o estilo da pintura, o refinamento artístico, o grau de fluidez: falta a "seriedade" ritual típica das figuras asiáticas e não só, o que sugere uma visão muito mais naturalista.

Natureza que é sempre bem presente nas obras: estes, por exemplo, são alguns exemplos sempre do Palácio de Cnossos:


No Palácio de Cnossos, considerado o mais importante de toda a ilha, faltam por completo imagens de reis ou guerreiros. O que não deixa de ser esquisito, sobretudo considerando que nas outras civilizações contemporâneas poucos eram os que tinham a possibilidade de encomendar grandes obras de artes e que, portanto, estas muitas vezes representavam pessoas de nível superior nas camadas sociais (em Agía Triáda, o sarcófago já pertence à época em que a ilha tinha sido ocupada pelos Gregos de Micene).

Vice-versa, nas pinturas de Creta há representações de homens e mulheres, sem que seja possível observar uma distinção social ou de sexos (única excepção: os sacerdotes femininos). Ambos os sexos participam nos mesmos desportos, nos mesmos exercícios físicos; e construções com muitas salas que foram descobertas nas cidades mas longe dos palácios (em teoria, nas zonas "pobres") deixam subentender uma igualdade social e uma distribuição da riqueza.

Os homens minoicos vestiam tangas e kilts, enquanto as mulheres vestiam com mangas curtas e saias adornadas com pregas. Os vestidos eram abertos dos ombros até o umbigo, permitindo que o peito ficasse exposto, talvez durante ocasiões cerimoniaisAs mulheres também tinham a opção de usar um corpete apertado, a primeira peça de vestuário "à justa" conhecido na história. Os padrões na roupa enfatizavam desenhos geométricos simétricos.

Fundamentalmente comerciantes, através da interação com outras civilizações do Oriente Médio os minóicos estavam cientes da arte da metalurgia. A sua habilidade se manifestou na criação de joias exportadas em todo o Mediterrâneo.

Também a habilidade dos ferreiros era famoso no mundo antigo, e muitos artesãos trabalham no estrangeiro, como na Grécia continental e as ilhas do mar Egeu.

As cidades minóica estavam conectadas com estradas pavimentadas em pedra, as ruas eram drenadas e os sistemas de água e esgoto eram até realizados por meio de condutas em argila. Os edifícios eram do tipo multifuncional: escritórios administrativos, santuários, espaços de armazenamento encontravam-se reunidos numa única construção.

Muitas disputas têm sido levantadas pela descoberta de armazéns nos recintos dos palácios. No segundo palácio de Festus, por exemplo, um número de salas no lado oeste da estrutura têm sido identificadas como um complexo usado como armazém; dentro destas áreas de armazenamento, descobriram-se vários frascos, jarros e vasos, destacando assim o papel do complexo como um potencial centro de re-distribuição de produtos agrícolas. Isso sugere várias possibilidades, incluído um modelo onde todos os produtos económicos e agrícolas eram reunidos num palácio e daí redistribuído.

Cnossos
Dado que como localidade como Cnossos há evidências de especialização do trabalho, com oficinas integradas nos palácios, fica aberta a possibilidade do excedente de produtos agrícolas sustentar uma população de administradores, artesãos e profissionais religiosos. O número de quartos, casa ou apartamento nos palácios indicam a possibilidade de sustentar uma grande população de indivíduos retirados do trabalho manual.

Há debates entre as armas recuperadas entre as ruínas minoicas. E isso é fundamental: se nas outras civilizações a guerra era um normal instrumento de poder e de expansão, em Creta as coisas parecem diferentes.

O arqueólogo Keith Branigan:
A quantidade de armamentos, as impressionantes fortificações e os agressivos navios sugerem um período de intensa hostilidade. Mas uma verificação mais precisa sugere que todos os três elementos-chave são essencialmente limitados à afirmação do status e ao estilo em voga [...] A guerra como tal, no sul do Egeu durante a Idade do Bronze antigo, passou a ser personalizada e talvez ritualizada (Creta) ou, em menor escala, foi intermitente e essencialmente uma actividade económica. [1999, pág. 92].
O arqueólogo Krzyszkowska:
O facto importante é que, na região pré-histórica do Egeu, não temos em si nenhuma evidência directa de guerra ou de estado de guerra. [Krzyszkowska, 1999]
Studebaker:
Embora alguns arqueólogos vejam cenas de guerra em alguns fragmentos de arte minoica, outros interpretam estas cenas mais como festas, danças sagradas, eventos desportivos. [Studebaker, 2004, pág. 27]
Estamos a descrever um Paraíso em terra? Longe disso.
Há indício (e talvez algo mais) segundo os quais em Creta eram praticados sacrifícios humanos. O que não é nada simpático. Mas o foco aqui está todo na organização da sociedade, que parece ter sido algo muito diferente do nosso conceito de "Estado" ou de sociedade.

Neste aspecto, é importante realçar as características da religião minoica (as poucas que foi possível decifrar até agora). Digno de nota é o facto de não existir representações pictóricas dos deuses. Há, isso sim, esculturas. E nestas encontramos uma deusa ou um grupo de deusas, entre a quais o destaque vai para a Grande Mãe.

O culto da Grande Mãe é fundamental porque liga directamente a Civilização Minoica ao Neolítico e talvez ao Paleolítico: não faltam figuras femininas (chamadas de "Vênus") encontrados em toda a Europa pré-histórica. Isso demonstra como Creta não fosse uma excepção mas estivesse na mesma senda das organizações pré-históricas da área mediterrânea e não só.

Doutro lado, esta ligação é evidente também em outras civilizações da mesma área, onde com o passar do tempo a Grande Mãe assumiu novos nomes e hábitos: supervisiona o amor sensual (Ishtar-Astarte-Aphrodite), a fertilidade das mulheres (a tríplice Hecate), a fertilidade dos campos (Demeter / Ceres / Perséfone / Proserpina), a caça (Kubaba, Cybele, em seguida Artemis-Diana).

Sucessivamente, em Creta apareceu a deusa Potnia theron; esta é uma expressão micênica e pode ser equiparada à deusa Artemis (sucessivamente Diana). Como tal, pertence já ao período em que a ilha tinha sido ocupada pelo povo Micênico (1.450 a.C.), perdendo as suas antigas características.

Há ainda muito para perceber acerca da Civilização Minoica, mas desde já não podem ser negadas algumas características que afastam esta realidade do modelo actualmente em uso. A imagem duma Creta dominada por uma casta real (os tais reis mitológicos) desvanece perante os achados arqueológicos e deixa vislumbrar uma sociedade mais igualitária: entre os dois sexos e provavelmente nos relacionamentos sociais. Uma sociedade que ficava mais perto da Natureza (uma Natureza bem viva, como demonstram as obras de arte), onde a guerra tinha sido reduzida a manifestação simbólica.

Resumindo, e tentando ficar longe dos excessos interpretativos que não faltam, uma sociedade diferente da nossa, mas que mesmo assim existiu e prosperou ao longo de séculos (desde 3.650 a.C. - Fase Pré-Palacial - até 1.450 a.C., com a invasão dos Micênicos), alcançando picos culturais e tecnológicos que ainda hoje deixam perplexos. Sinal de que uma organização diversa do nosso Estado, que concentra em si todo o poder numa estrutura piramidal, é possível.

Não admira que nas escolas se continue a falar de "reis de Creta"...


Ipse dixit.

Fontes: na segunda e última parte do artigo.

4 comentários:

  1. OFF-TOPIC:

    http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKCN0T12IA20151112

    Vai começar a festa?

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  2. mobilização republicana13.11.15

    caro max,

    sobre o aspecto feminino da divindade: está presente em todo o lugar e em todas as religiões "orgânicas", por assim dizer, vide o culto à maria no catolicismo, por exemplo, ou a kwan yin entre os chineses, ou as consortes da tríade hindu, parvati, lakshmi e saraswati.

    aquelas religiões em que esse aspecto feminino é suprimido, ou sufocado, são "não orgânicas", a meu ver e dos meu botões,,,

    abraços de além mar!

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    Respostas
    1. Verdade Mobilização!

      Todavia... todavia o culto mariano (só para fazer um exemplo) é sempre subordinado à Deus. que é homem. Tal como Cristo. Infelizmente, após a morte de Jesus, as pulsões machistas ocuparam toda a cena do Cristianismo: e isso apesar do mesmo Jesus ter deixado várias indicações (mesmo nos Evangelhos "oficiais") no sentido de não haver diferença entre homem e mulher.

      Pegamos nas aparições de Fátima: Nossa Senhora fala e diz "não sei até quando poderei travar o braço do meu Filho" (ou algo de parecido), deixando entender que a última palavra não é dela. Uma condição subordinada sempre presente no Velho Testamento, nunca presente no Novo Testamento mas mesmo assim assumida como facto.

      Curioso também o facto da Grande Mãe ter originado múltiplas deusas que já na mitologia grega sofrem dos mesmos poderes limitados: no topo do Olimpo encontramos Zeus, não uma Deusa.

      A época da Grande Mãe é algo diferente, porque esta não era simplesmente a representação duma mulher dotada de super-poderes espirituais e não (como é Nossa Senhora): era algo mais profundo, muito ligado à Natureza e à Terra.

      Refletia um relacionamento entre seres humanos e ambiente que com o tempo desapareceu. Os Homens tinham a noção da dependência que existia entre ambiente e vida: a vida deles, das suas famílias, dos animais que caçavam. Não era algo apenas espiritual, mas presente em todas as fases da existência deles.

      Os homens duma tribo africana (não lembro o nome) uniam-se (literalmente) com a Terra, por meio de buracos praticados no chão (o que deve ter sido incómodo também...), pois da fecundidade dela dependia a sobrevivência da tribo toda.

      Interessante também que o culto da Grande Mãe seja um dos mais antigos: quando o Homem começou a pôr-se perguntas, individuou na Natureza o elemento-chave e, depois dos cultos animistas, evoluiu para o conceito da Terra como Mãe geradora de tudo.

      Abraçoooooo!!!!

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  3. 7000 anos de intervalo, já havia percebido, cabe uma civilização tão desenvolvida como a nossa nesse espaço de tempo. Toda vez que vejo sobre os Vedas (escrituras Hindus) penso nisso.

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