02 novembro 2015

Smart

A História contada é apenas uma versão da realidade: existem outras versões, provavelmente bem mais próximas da realidade.

Um bom exemplo chega da ex-União Soviética, hoje conhecida como Rússia. E é um exemplo interessante porque demonstra também como exista um fio vermelho que liga o passado ao presente e este último ao futuro.

Não é novidade o facto da História não ser um conjunto de "saltos" mas algo bem mais homogéneo e linear; pode ser novidade descobrir a natureza do tal "fio vermelho", quem o gere e quanto distante isso fique das nossas convicções.

Smart: Magnitogorsk

Se observamos as cidades de Gary (Indiana, Estados Unidos) e aquela de Magnitogorsk (Rússia) podemos notar muitas similitudes: cidades marcadas por um quadrilátero constituído pelas grandes vias de comunicação, um rio que divide o habitado da empresa siderúrgica, até a disposição dos implantes desportivos e do terminal ferroviário é a mesma. Não é um acaso: quem construiu Gary em 1906 desenhou Magnitogorks também em 1928.

Na altura, como parte da preparação do Plano Quinquenal, uma delegação soviética chegou em Cleveland (Ohio, EUA) para discutir com a agência de consultoria Arthur G. McKee o desenvolvimento da cidade russa, até então representada por poucas casas em volta dum antigo complexo militar.  Nascia assim a primeira smart city russa, que nas primeiras fases até atraiu trabalhadores americanos, sobretudo engenheiros.

Desde 1937 Magnitogosrk tornou-se uma cidade fechada (com limitações acerca dos movimentos de cidadãos estrangeiros) mas nem por isso esta estranha colaboração Oeste-Leste acabou.

Magnitogorsk
Em 1986, o professor Antony C. Sutton do Hoover Institute publicou The Best Enemy Money Can Buy, que conta da presença da Ford Motor Company na cidade de Nizhni-Novgorod (também conhecida como Gorki). Também aqui os Estados Unidos colaboraram de forma activa não apenas na produção de veículos civis  como também militares.

O acordo tinha sido assinado em 1929: o governo soviético se empenhava na aquisição de 13 milhões de Dólares em meios de transportes e peças sobressalentes, enquanto a Ford fornecia assistência técnica pelo menos até o ano 1938. De facto, todos os modelos da GAZ (Gorki Avtomobilnyi Zavod) foram construídos segundo os ditames da fábrica de Gorki.

Carros e camiões da Ford-Gorki não só encheram as ruas dos Países do Pacto de Varsóvia, mas também os campos de batalha; modelos produzidos a partir de 1930 têm sido frequentemente modificados para uso militar, como camiões blindados e plataformas móveis de mísseis. O que criou bastante confusão entre os soldados norte-americanos no Vietnam e na Coreia, surpreendidos em ver os camiões blindados comunistas demasiado semelhantes aos deles. Alguns modelos nascidos da colaboração ainda são utilizados pelas forças do Leste (obviamente foram actualizados com o passar das décadas).

Tudo isso não deve surpreender, pois existem dois planos distintos: o primeiro é aquele vendido ao povo e é o mesmo que podemos encontrar nos media; o segundo é aquele dos bastidores, ignorado pelos mesmos órgãos de comunicação. O primeiro plano conta a história de Países empenhados numa feroz guerra ideológica, o segundo relata as aventuras do Deus Dinheiro e das suas leis do mercado, que são bem mais fortes de qualquer ideologia, até o ponto de poder ser utilizadas para enfraquecer o eventual inimigo a partir do interior (história bem antiga esta) ou até para criar inimigos, quando isso for conveniente (ver os financiamentos americanos de Hitler).

Resumindo: duas histórias, uma para manter o povo calmo e bem encaminhado, outro para alcançar determinados objectivos.

Smart city, smart car

Tudo isso acabou com a era de Estaline? Nem pensar. O Verdadeiro Poder (porque é disso que estamos a falar) não conhece ideologias e tem muita paciência. Sabe que o trabalho pode ser demorado, mas compensa. E nem é preciso mudar de esquema.

Lembra o Leitor das cidades-fantasma da China? Imensos prédios vazios, construídos sem que haja um único morador, por vezes no meio do deserto. Estas cidades são as smart city de hoje, exactamente como foi Magnitogorsk na altura. E quem encontramos atrás das smart city (deveria escrever-se cities) chinesas?

Eis a página das colaborações (partnership) do sito internet de Tianjin: não a velha Tianjin, que existe desde pelo menos a Idade Média, mas a nova, que está a ampliar-se com uma velocidade impressionante.


Tratamos apenas dos nomes mais conhecidos:
  • GM é a General Motors, que dispensa apresentações.
  • Mitsui Fudosan Residencial é uma empresa imobiliária, nomeadamente a maior do Japão.
  • Panasonic, Philips, Samsung e Siemens são outras multinacionais bem conhecidas.
Cereja no topo do bolo: a bênção das Nações Unidas, que em 2010 preparou a conferência sobre as alterações climatéricas nesta cidade, considerada um "modelo de desenvolvimento".

Uma smart city que não é única: Kazan é o exemplo russo (com Toshiba, Ford, Mitsubishi...). E dado que a História costuma repetir-se, eis que a Ford assinou com a Universidade de S. Petersburgo um acordo de cooperação que tem como objectivo a construção de carros auto-conduzidos, ligados via satélite. E a China? Tranquilos: a Ford está presente também aí, com as smart cars (é tudo smart: cidades, carros...), um investimento de 1.8 biliões de Dólares.

Atrás do smart: a Trilateral

Mas quem fica atrás desta "vaga" de colaborações entre multinacionais e BRICS?

Voltemos atrás, até a smart city de Kazan.
Além dos já citados investidores, podemos encontrar um nome interessante: Allianz.

A multinacional alemã de seguros é na verdade uma criatura da americana Pimco (assets de 1.52 triliões de Dólares em Junho deste ano), mas o que é curioso aqui é observar os seus recentes funcionários:
  • Oliver Bäte, o actual chefe executivo, é membro da Comissão Trilateral.
  • Wolfgang Ischinger, actualmente embaixador e antigo chefe de Comunicação e pesquisa da empresa, faz parte da Comissão Trilateral.
  • Enrico Tomaso Cuccchiani (Conselho de Administração) também milita na Comissão.
  • Henning Schulte-Noelle (ex chefe executivo, agora membro do Conselho de Supervisão), Alfonso Cortina (membro do Conselho International e também Chefe vice-Chefe da Rothschild Europe), Katinka Barvsch (directora dos Relacionamentos Político e também parte do grupo Rockefeller) são todos membros da Comissão Trilateral.
Será que a Comissão Trilateral desenvolve um qualquer papel neste mundo smart que abraça os BRICS? Vamos até outra smart city, Skolkovo, que está a surgir a poucos quilómetros da capital Moscovo, uma espécie de Silicon Valley russa. O elenco dos investidores-colaboradores é significativo: Boeing, Cisco, Airbus, Dow Chemical, Ericsson, General Electric, Honeywell, IBM, Intel, Microsoft, Samsung, Siemens...

E mais uma vez, olhamos para a lista da Comissão Trilateral: há concordâncias? Há.
Da Comissão Trilateral fazem parte:
  • Shephard W. Hill, presidente da Boeing.
  • Andrew Liveris, chefe da Dow Chemical.
  • Clara Gaymard, chefe da General Electric France.
  • Richard Thoman, ex-vice presidente da IBM.
  • Lee Jay Y., vice-presidente da Samsung.
  • Joe Kaeser, chefe supremo da Siemens.
  • Peter Loscher, chefe executivo da Siemens.

O que significa tudo isso?

Significa que, como lembrado no começo do artigo, há duas realidades: uma visível e uma menos visível. A menos visível constitui a desilusão de quem prefere ficar parado no esquema das antigas ideologias, esquecendo que o mundo de hoje vive numa outra dimensão: a dimensão do Verdadeiro Poder que não conhece fronteiras ou ideias políticas, cujas armas de eleição são a propaganda e o dinheiro. Rússia, China e qualquer outro membro das Nações Unidas abraçaram o "livre mercado" e, ao fazer isso, entregaram-se à mesma lógica de poder que infelizmente regula a maioria do planeta.

Para nós sobrou a primeira dimensão, a mais simples, feita de bons dum lado e maus do outro. Uma visão elementar que todos conseguem entender e partilhar, não sendo preciso muito esforço para isso.

A segunda dimensão se calhar é um pouco mais complexa e menos visível mas isso não significa que fique escondida: não é preciso esconder nada, pois ninguém vai espreita-la. O que é uma pena, pois é aí (e não nas ideologias) que podemos encontrar os mecanismos de base que regulam toda a nossa sociedade, sem excepções. É também aí que o Verdadeiro Poder é obrigado a deixar os seus rastos.


Ipse dixit.

Fontes: Antony C. Sutton - The Best Enemy Money Can Buy (ficheiro Pdf, inglês), no texto.

6 comentários:

  1. "Show" de postagem. Sou grato

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  2. Voltastes inspirado...parabéns!! Mais um tijolo no muro da ilusão que os BRICS operam economicamente de forma diversa. E nem poderiam...economicamente. Afinal no reino encantado do capitalismo financeiro a globalização impera absoluta.E isso é tudo que interessa: o poder aos poderosos do planetinha...quase. Porque não quer dizer que, no âmbito da política internacional, os BRICS não representem uma certa resistência à dominação do império único de plantão ( ou, para ser-te, com justiça, fiel, o que aparece como império no mundo visível). Não sei se estou correta no meu raciocínio, mas um certo equilíbrio nas visibilidades não deixa de ser oportuno, principalmente para os brasileiros, eternamente viciados no complexo de vira lata, a dobrar os joelhos perante o império estadunidense. Uma força diplomática (5 juntos, e quais 5, não é não!? Vamos esquecer as inevitáveis divergências e diferenças), algumas decisões em bloco, como um banco dos BRICS operando com uma cesta de moedas...(veja-se que o assassinato de Gadaffi, só para exemplificar, foi resultado também da implantação em curso de um banco comum aos países africanos, coisa que, por suposto, não agradaria nunca aos podres grandes poderes econômicos). Mas ao final Max, pode ser que eu esteja redondamente enganada e tudo não passe de efeito de superfície. Que pensar!?
    Abraços e vamos em frente.


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  3. Anónimo3.11.15

    Uma Microsoft ianque e outra cossaca. Uma GE ianque e outra cossaca. Uma Dow Chemical ianque e outra cossaca. Difícil ter guerra deste jeito.

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  4. Anónimo3.11.15

    É tudo igual à superficie é que parece diferente.
    Maria, bom exemplo da Líbia viu-se o que aconteceu.
    O motivo é motivar a população a acreditar em falsos paradigmas para justificar certos fins.
    Isso faz se de tenra idade e continua até a campa.
    Que dizer do mundo em que se morre mais de fome, guerra que morte natural. (Complexo) militar industrial bancário agroquimico etc...
    Guerra ao terror, guerra às drogas ahem...guerra à democracia.

    Nuno

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  5. Anónimo3.11.15

    http://youtu.be/OIh78GiTqrE

    Nuno

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  6. Anónimo4.11.15

    Creio, em minha opinião, que países como a China e a Rússia com sempre tiveram ideais socialistas ou comunistas, se tornaram muito igualitárias no nível individual.... Quero dizer, se você vê chineses ou russos, você não encontra aquele espírito competitivo e destruidor de um para o outro como se vê em países capitalistas selvagens como EUA ou Brasil. Mais recentemente a China descubriu fraudes na bolsa de valores, as mesmas praticadas por americanos pelo mundo todo e por isso é muito provável a participação americana na fraude... mas o fato é que o governo chinês cortou o mal pela raiz, quando se tem um estado atuante o povo fica mais sossegado e em paz... mas quando, em nome de uma suposta democracia sucateia-se o estado, aí prevalecerá a lei do mais egoista. Os bancos e as grandes multinacionais tomam conta de tudo, comprando políticos para fazerem políticas que destrua o estado e tire o dinheiro de sua população para dar a bancos e multinacionais. Aí está o capitalismo selvagem, em nome de uma suposta democracia pelo mundo eles financiam golpes de estado para que através deste golpe de estado destrua o estado e através do estado tomem atitudes não democráticas empobrecendo suas populações, privatizando seus bens essenciais como energia eletrécia e água, e ainda sucanteando estes bens essenciais para que aumente o valor das contas de água e luz e assim escravizar as populações financeiramente. Também utilizam dos títulos do governo para coagir o povo a ter mais impostos e menores investimentos em educação, saúde e saneamento básico, isso quando estes não são privatizados e tornam o povo refém da inciativa privada, assim como é a saúde nos EUA ou como é a água no Peru. Privatizaram a distribuidora de água no Peru, a distribuidora de água ficou anos fazendo seus mananciais secarem e como diminuiram o nível da água aumentaram as contas do povo para sugá-los assim como aconteceu e acontece em São Paulo.

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