05 dezembro 2015

Boca de Rosa

Bocca di Rosa, uma canção de Fabrizio De André, com arranjamentos da Premiata Forneria Marconi. Gravado ao vivo em Firenze, Janeiro de 1979.




Boca de Rosa

A chamavam Boca de Rosa
punha o amor, punha o amor
A chamavam Boca de Rosa
punha o amor sobre qualquer coisa.

Apenas descida na estação
da aldeia de Santo Ilario
todos repararam com um olhar
que não se tratava de um missionário.

Há quem o amor o faz por tédio,
Quem se o escolhe por profissão,
Boca de Rosa nem um, nem outro,
ela o fazia por paixão.

Mas a paixão frequentemente conduz
a satisfazer as próprias vontades
sem perguntar se o desejado
tem o coração livre ou então tem mulher.

E foi assim que de um dia para o outro
Boca de Rosa atirou sobre si
a ira funesta das cadelas
a quem tinha subtraído o osso.

Mas as comadres duma aldeia
não brilhavam de certeza pela iniciativa,
as contra medidas até aquele ponto
se limitavam às injúrias.

Sabe-se que a gente dá bons conselhos
sentindo-se como Jesus no templo,
sabe-se que a gente dá bons conselhos
se já não pode dar o mau exemplo.

E foi assim que uma velha que nunca tinha sido esposa,
sem filhos, sem mais vontades
se presa a briga e certamente o gosto
de dar a todas o conselho justo.

E abordando as cornudas,
as apostrofou com palavras claras
''O furto do amor será punido - disse
pela Ordem Constituída''.

E aquelas andaram do comissário
e disseram sem parafrasear:
''Aquela nojenta tem clientes demais,
mais de um consórcio alimentar''.

E chegaram quatro carabineiros
com os penachos, com os penachos
e chegaram quatro carabineiros
com os penachos e com as armas.

O coração tenro não é uma dote
da qual estejam cheios os carabineiros
mas daquela vez a tomar o comboio
a acompanharam sem vontade.

Na estação haviam todos:
do comissário ao sacristão
na estação haviam todos
com os olhos vermelhos e o chapéu na mão.

Para saudar quem por um pouco
sem pretensões, sem pretensões
para saudar quem por um pouco
tinha trazido o amor na aldeia.

Havia um cartaz amarelo com uma escrita preta
dizia: ''Adeus Boca de Rosa,
Contigo parte a Primavera''.

Mas uma noticia um pouco original
não precisa de algum jornal,
como uma flecha atirada do arco
voa veloz de boca em boca.

Na estação sucessiva
muita mais gente de quando tinha partido
quem manda um beijo, quem atira uma flor,
quem se reserva por duas horas.

Até o padre que não despreza
entre um Misere e uma Extrema Unção
o bem efémero da beleza
a quer ao lado na procissão.

E com a Virgem na primeira fila
e Boca de Rosa pouco distante,
leva-se pela aldeia
o amor sacro e o amor profano.

É durante este período (desde 1969) que De André é submetido a uma série de verificações por parte da polícia e dos serviços secretos.

De acordo os documentos libertados na década de Noventa, De André era acusado de ser simpatizante das Brigadas Vermbelhas e a casa dele era suspeita de ser um refugio para membros dos movimentos extra-parlamentares de Esquerda. A reforçar essas hipóteses, do ponto de vista dos investigadores, o facto de que em Genova De André tivesse contactos com pessoas pertencentes a grupos anarquistas.

Na verdade, De André tinha já definido o terrorismo como totalmente nocivo porque tende a reforçar o poder, não a debilita-lo (o que pode também ser encontrado no álbum Storia di un Impiegato, de 1973). A actividade política de De André foi sempre limitada ao apoio económico da revista anárquica A - Rivista Anarchica.


Ipse dixit.

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