01 dezembro 2015

COP21: onde tudo é lucro

E voltemos a falar de ambiente. Nomeadamente da cimeira de Paris, o COP21.

Diz Maria:
Não Max! Nem Paris nem nenhuma conferência mundial sobre o clima vai tratar dos problemas reais porque a função primordial desses eventos é acumular dados sem importância,contraditórios ou inverídicos, apresentá-los como grandes preocupações da governança mundial, cuidadosamente varrer para o esquecimento qualquer alusão que aponte para a responsabilidade do setor privado ou estatal de grandes conglomerados econômicos.
Quais os problemas reais?
  1. a fome mundial
  2. a destruição sistemática de florestas
  3. a contaminação sistemática de águas subterrâneas e superficiais
  4. o envenenamento "cientificamente e tecnologicamente" conduzido pela produção/uso/descarte exacerbados de materiais não degradáveis a médio prazo
  5. o incentivo cada vez maior ao consumismo desenfreado
  6. E muuuuito mais.
Verdade. Os grandes temas ficarão à porta, fora dos assuntos tratados.
No entanto, é provável que haja algumas mudanças.

Nova ordem: tudo é "verde"

Após o anúncio de Obama, de Xi Jimping e até mesmo dos governos dos Países do Golfo, algo está a mexer-se. Depois dos planos de desinvestimento de várias empresas petrolíferas e o sucesso da economia verde, desta vez haverá um ponto de viragem. Consciências ambientalistas? Nem pensar. As consciências nada têm a ver com o lucro. E aqui sempre e só de lucro se fala.

O economista britânico Nicholas Stern afirma que custa mais reparar os danos ambientais provocados de que preveni-los. E está certo: o ex-gerente da Deutsche Bank, Pavan Sukhdev, calcula que as emissões do sistema de produção prejudicam 11% do produto interno bruto global: isso enquanto só 2% seria suficiente para evitar os efeitos negativos.

Os "capitães" das industrias entenderam isso? Mais uma vez: nem pensar. Ou melhor: já sabem isso e há muito. Mas o que realmente muda a visão dos investidores é a prova de que agora é possível ganhar mais com a green economy. Reciclagem, sustentabilidade ambiental: as decisões do COP21 tornarão estes sectores mais lucrativos. É esta a única coisa que interessa.

Num mundo por um terço saturado de mercadorias e para dois terços endividado, continuar na estrada dos negócios do costume não é conveniente. São precisos novos mercados. Estimulações estatais, acumulação de recursos financeiros para os investimentos, individuação de novos "nichos", novos produtos, novas aplicações tecnológicas. Agora o "ambiente" (mas só uma parte dele...) é preciso, representa uma grande oportunidade.

Os Estados são chamados a criar um novo molde de regulamentação através das licenças de emissões poluentes (negociáveis, porque tudo não passa de mercadoria) e de taxas de carbono (podes pagar? Ok, então podes poluir). Estes moldes serão encontrados e, neste aspecto, o COP21 será um sucesso.

Os cientistas terão que inventar novas tecnologias limpas para "o bem do planeta". O que não é
explicado é que estas "novas tecnologias", regularmente patenteadas, irão restaurar a hierarquia entre Países desenvolvidos e Países "atrasados": estes últimos serão assim condenados a exportar matérias-primas em troca de tecnologia "verde" de importação.

Ou achamos que Países africanos submergidos pelas dívidas conseguirão investir biliões de Dólares (que não têm) em laboratórios de pesquisa (que não têm)?

As empresas precisam de dispositivos mais eficientes, novos produtos, novas soluções: isso gera novos sectores, novas empresas, novos mercados. Novos lucros. Portanto, as decisões estão tomadas, e em Paris serão discutidos os tempos. O facto é as soluções existem há alguns tempos: não é necessário um painel de doutorados para entender que o lixo atirado duma chaminé acaba por poluir o ar e recair por cima das nossas cabeças. Solução? Não atirar lixo pela chaminé.

O problema é que até ontem esta era uma solução não rentável. Agora passa a ser. Será o 2015, o 2050 ou o final do século, mas o percurso está marcado. Obviamente vai demorar ainda um pouco: justo o tempo para acumular mais estragos. Depois o sol voltará a brilhar sobre Pequim e acima de todas as florestas destruídas, dos rios poluídos, das ilhas de plástico nos oceanos e sobretudo de Wall Street. Será uma espécie de Paraíso.

A incompatibilidade

Infelizmente, e apesar dos inevitáveis proclamas post-COP21, há uma incompatibilidade de fundo entre a Natureza e o nosso sistema "lucro&crescimento sempre". Há uma lógica predatória que supervisiona o comportamento das empresas capitalistas; uma lógica que também permeia os governos e a nossa sociedade toda. Esta lógica impede olhar para os recursos naturais como activos que devem ser preservados, não depredados. Já sabemos isso.

Então esta é tarefa nossa, porque empresas e governos são incapazes de desenvolve-la: expliquem não apenas às crianças, mas a todos que a Natureza não é "nossa", não é uma loja na qual podemos pegar naquilo que nós apetecer e sair sem pagar, porque a conta chega. Pode ser o ambiente arruinado das futuras gerações ou o câncer do nosso pulmão agora. Mas a conta chega, sempre.

Anónimo:
Esta cimeira não é sobre o clima, não é sobre a natureza e a sua solução.
Esta é uma cimeira de negócios e interesses. Só estão a preparar o futuro.......o futuro sem petróleo.....mas que terá outros "ouros negros" como a agua, sol, vento....iremos pagar tudo isto no futuro e bem pago.
É tarefa nossa, de cada um de nós, explicar que há uma incompatibilidade estrutural do nosso sistema com o ambiente onde vivemos. As necessidades das empresas capitalistas para aumentar continuamente o volume das mercadorias compradas e vendidas não encaixam na necessidade de salvaguardar o ecossistema. Não dá, é inútil tentar: temos agora um par de séculos de História que estão aí para demonstra-lo. Não são suficientes todas as energias renováveis do ​​universo para sustentar o estilo consumista; não é suficiente a nano-bio-tecnologia para evitar o esgotamento dos recursos. E não podemos esperar que seja um Obama a dizer isso: é nossa obrigação ir até lá onde políticos e media não podem ou querem chegar.

No ano passado o meu telemóvel deixou de funcionar. Fui à loja, expliquei o que se passava. "Quando acabou a garantia?" pergunta a funcionária. "No mês passado" respondo eu. "Ah, então é normal. Como assim? Era um telemóvel simples, de 20 e poucos Euros: não é um problema de custo, é de princípio. Multipliquem isso vezes todos os telemóveis que "morrem" uma vez acabada a garantia: um mar de plástico e metal no lixo, substituído por outro mar de plástico e metal que também deixará de funcionar em breve. Explicação? O mercado: tem que vender, facturar, crescer.

Até quando os governos continuarem a pensar que o bem estar dos homens é sinónimo de crescimento económico, trabalho e a Natureza serão sacrificados em favor do ídolo chamado dinheiro e tudo será avaliado com uma única medida: o produto interno bruto.

...e nós?

O que podemos fazer nós? Manifestações, demonstrações? Sim, tudo bem, tudo ajuda. O problema é que nas manifestações participa quem já tem consciência dos problemas. E isso é insuficiente. A coisa mais importante é explicar, falar com as pessoas.

Nós já estamos "formatados", mesmo entendendo certas coisas somos escravos dum estilo de vida que implica atitudes negativas neste aspecto. Mea culpa: avariou-se o tal telemóvel? Comprei outro.

Mas eu não tenciono viver mais do que 200 ou 300 anos ainda, depois basta, farto-me. E acho que os Leitores pensam o mesmo. Então aqui ficarão as novas gerações. Estas são formatadas desde o primeiro dia em que entram numa escola, mas são mais receptivas, é natural que assim seja.

Falem com as pessoas de qualquer idade, tentem corrigir os erros, deles e nossos. Expliquem que o COP21 não passa dum circo onde as empresas planeiam gerar novos lucros, privados não públicos; onde os vários Obama e Xi Jimping falam não no interesse do ambiente (o nosso interesse) mas porque receberam luz verde para criar novos mercados.

Expliquem que o drama da nossa terra não é apenas o alegado Aquecimento Global, há problemas mais profundos que continuam a ser ignorados. Repito mais uma vez, mesmo sendo aborrecido: é uma nossa tarefa, é uma nossa obrigação, não esperem nada dos governos. 

Ensinem às crianças que pode haver um lugar melhor. Bem melhor. Sobretudo façam isso. Não podemos ser apenas criadores de novas marionetas (another brick in the wall, diziam os Pink Floyd) , temos que transmitir e alimentar sonhos. Inútil deixar dinheiro aos filhos: valores e sonhos são bens infinitamente mais precisos.


Ipse dixit.  

5 comentários:

  1. Possuem todos os meios de lavagens cerebrais, de qualquer cérebro, tanto para o bem como para o mal. São escolhas. Religiosidade não é o mesmo que espiritualidade. Fazem o que querem. São o poder. Ritualistas. Todas as utopias humanitárias são tática dentro da estratégia escravagista. Parasitam corpos e almas. Milenarmente. Incrédulos estamos em 2015 para 2016 falando em discos voadores, extraterrestres, Internet, televisão, chips, drones, drogas, celulares, e, as realezas, continuam se apresentando com as (mesmas) indumentárias rituais (arquétipos) do tempo das caravelas e cruzadas... E o beija-mãos dos que nos escravizam...

    "Ensinem às crianças que pode haver um lugar melhor. Bem melhor. Sobretudo façam isso. Não podemos ser apenas criadores de novas marionetas (another brick in the wall, diziam os Pink Floyd) , temos que transmitir e alimentar sonhos. Inútil deixar dinheiro aos filhos: valores e sonhos são bens infinitamente mais precisos.

    Sinto muito, sou grato.

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  2. A postura de tentar ensinar às próximas gerações me reporta a uma amiga que milita ativamente em iniciativas de proteção aos animais. Recentemente ela desenvolve campanhas nas escolas, sempre acompanhada por cães de rua que alimenta, dá casa e carinho, retribuindo afeição, e que se tornaram verdadeiros artistas no convívio com crianças, velhos e doentes. Eu louvo a atitude da Mariana e do já famoso vira latas Darci, assim como admiro a tua esperança...mas me reservo o direito de, infelizmente, não estar certa quanto aos efeitos que vocês acreditam. Desgraçadamente o sistema foi tornado quase onipotente e onipresente e a construção de uma consciência coletiva mais digna se tornou muito duvidosa. Aquilo que ainda acredito é na associação dos "mutantes" (no sentido de mutante mesmo) do sistema ,que permita a manutenção de "ilhas de sobrevivência digna", em meio ao caus.

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    1. Olá Maria!

      Olha que a minha esperança é mesmo pouca. Acho que devemos fazer isso, é um nosso dever. Mas daí a ter resultados...

      O sistema é onipresente? Sim, de facto é assim. Mas desconfio que seja um sistema com pés de bairro. Continua porque nós assim queremos: houvesse alguém que espirrasse um pouco mais forte, não sei o que poderia acontecer.

      Noto que estamos cada vez mais perto de intervenções militares: planos nos EUA, planos na França (o terrorismo!), ontem ouvi na rádio um opinionista português que lograva a utilização dos militares na prevenção contra os radicais islâmicos (em Portugal, imagina tu...). Quando um sistema tem a necessidade de enviar o exército nas ruas significa que algo está mal, sente que é precisa a força para manter o tudo controlado.

      Não que as pessoas estejam a abrir os olhos, nada disso: mas poderia acontecer algo
      que provocasse um abano nos ânimos. Um exemplo: a Deutsche Bank está ligada ao oxigénio e isso dura há meses. Agora, este é um colosso presente em todos os principais Países: Imagina numa eventual falência as consequências que poderia ter. E o banco alemão é a ponta do icebergue: vivemos num oceano de papel sem valor.

      Quando começas a mexer nas carteiras das pessoas, aí sim que dói e começam os maus pensamentos...

      Grande abraçooooooooo!!!!!

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