29 dezembro 2015

As previsões para 2016

A melhor maneira para acabar o ano de 2015?
Com as previsões para 2016!
A pior maneira?
Com as previsões de Bloomberg.

A agência de notícias decidiu que o espumante tem que ficar engasgado nas nossas gargantas, então acaba de publicar A Pessimist's Guide to the World in 2016 ("Um Guia Pessimista para o Mundo de 2016"). Pelo menos o título é honesto.

Vamos espreitar? E vamos.

Cenário 1: Petróleo acima de 100 Dólares

Oriente Médio: tem que ser, nesta altura é a zona mais quente do planeta. Previsões? As tensões podem explodir, elevando o preço do petróleo acima de 100 Dólares por barril, com consequências desastrosas para as nossas economias.

28 dezembro 2015

Suíça: stop ao dinheiro criado pelos bancos privados?

...e depois dizem que a democracia directa não mudaria nada.

Pegamos no caso da Suíça: os cidadãos podem influenciar a actividade do governo através de iniciativas e referendos, porque o povo é o órgão político supremo do Estado. Esse é o princípio que caracteriza o sistema político da Suíça.

Deveria ser o mesmo nos outros Países? Teoricamente sim, mas há uma levíssima diferença: na Suíça existe a democracia directa.

E um dos resultados é o seguinte: num dos próximos referendos (consultações frequentes no País), os cidadãos suíços vão decidir se for o caso de proibir aos bancos comerciais de criar dinheiro. Na prática: só dinheiro criado pelo Banco Central.

23 dezembro 2015

Boas Festas!

É Natal!
Que dizer, não hoje, mas em breve será Natal.

O blog pára, pois quem escreve precisa calar-se no espírito natalício, retirando-se numa gruta no interior de Espanha, sem luz, alguma fatias de pão seco e apenas um boi (o burro custava demais, mesmo que usado).

Desejo apresentar os Votos de Boas Festas a todos os Leitores. Todos, os que lêem, as famílias deles, os amigos, os parentes passados, presentes e futuros, até a 6ª geração. Um Bom Natal e uma Boa Entrada no Ano Novo que, lembro para os mais distraídos, será 2016 d.C.

22 dezembro 2015

Marx não era de Esquerda

Em 1905, a Secção Francesa da Internacional Operaria (SFIO, o partido socialista da altura), indicava quais os seus objectivos: 
Socializar os meios de produção e troca, transformar a sociedade capitalista numa colectivista ou comunista, através da organização económica e política do proletariado.
Nenhum partido socialista hoje ousaria afirmar o mesmo, e até muitos movimentos comunistas teriam dificuldades: os socialistas hoje são social-democratas ou social-liberais, enquanto os comunistas baixam o tom e vestem a roupa democrática para poder sentar-se num parlamento. Ou desaparecem.

Assim, a quase totalidade da Esquerda tornou-se "reformista", abraçou a economia de mercado, abandonando nos factos os trabalhadores. Não há Esquerda, não há Direita: há um conjunto de partidos nenhum dos quais tenciona adoptar aquelas medidas que permitiriam tornar a sociedade algo diferente. Não digo "melhor", porque este é um juízo que só a História pode dar, simplesmente "diferente".

21 dezembro 2015

Bíblia: a cópia de Gilgamesh

Há dois problemas fundamentais na Bíblia: o primeiro (relativo à versão que está nas nossas casas), menos importante, é que muitas vezes são escolhidos na leitura apenas alguns passos, os mais conhecidos e os mais interpretados. Outros são obscuros, aborrecidos até, pelo que são pouco "frequentados".

O outro problema é o tipo de leitura que é feita, isso é: a interpretação. Esta não foge da interpretação imposta pelos Pais da Igreja, o que muitas vezes exclui a leitura mais simples e imediata. Nós podemos ler um trecho, ficar surpreendidos com quanto encontrado, mas eis que (sobretudo nas versões comentadas) aparece logo a explicação: "sim, foi escrito assim mas na verdade os autores queriam dizer outra coisa".

Este segundo aspecto é determinante porque uma leitura "simples" da Bíblia decepciona: encontramos passagens sem sentido, que até estão contra quanto afirmado em outras partes do Livro. A "interpretação" (com aspas) é necessária para poder harmonizar o conteúdo. Também é necessária para "mimetizar" algumas falhas que, se detectadas e ligeiramente aprofundadas, levariam facilmente a uma comparação com outras obras da Antiguidade. E aí os problemas seriam bem maiores.

Egoísmo, empatia & psicopatia

Um dia,
 não importa quando e não importa onde,
 um Mestre viu um escorpião afogar
 e decidiu retira-lo da água.
Quando o fez, o escorpião picou-o.
Para o efeito da dor, o Mestre deixou o animal

 novamente cair na água.
O Mestre tentou retira-lo outra vez e o animal ainda o picou.
 

Um jovem discípulo que estava lá veio até o Mestre e disse:
"Desculpe-me, Mestre, mas por que continuar?
Não entende que cada vez que tenta
 retira-lo da água ele vai pica-lo?"
 
O Mestre respondeu:
"A natureza do escorpião é aquela de picar
mas isso não vai mudar a minha que é de ajudar."


Posto que eu teria directamente estrangulado o escorpião, este trecho é do blog Tra Cielo e Terra, que considero um dos melhores produtos de toda a internet em língua italiana, verdadeira oásis de reflexão no meio do caos da rede. Mesmo que possa não concordar com tudo quanto escrito, como é o seguinte caso.

Egoísmo

Todos basicamente pensamos primeiro em nós, e não poderia ser de outra forma.
Assim como nunca haverá uma atitude altruísta, uma vez que cada ação, cada pensamento, mesmo os que são vistos de fora e definidos como nobre e altruísta, são sempre ditados pela vontade do indivíduo de receber uma gratificação para as profundezas da sua alma.
Algumas pessoas recebem gratificação sentindo-se úteis para outras pessoas, enquanto  há aqueles que seguem o seu instinto mesmo à custa de atropelar e prejudicar o próximo.
A pergunta pode ser: egoísmo ou altruísmo? A resposta é simples: egoísmo, em ambos os casos.
Na verdade são duas formas de egoísmo, não tão diferente entre elas: duas formas de egoísmo que no exterior levam até consequências diferentes.
Também no altruísmo nós procuramos a nossa gratificação. Simplesmente, esta é obtida "em favor" dos outros, enquanto no egoísmo "clássico" tudo é desde logo em nosso favor. Mas, em ambos os casos, o objecto final das nossas atenções não muda: nós.

Podemos distinguir entre "egoísmo positivo" e "egoísmo negativo"? Um provoca o Bem (com o altruísmo), outro o Mal (com o egoísmo só para nós)? Talvez. Mas aqui surge uma dúvida, algo que tem empenhado ao longo dos séculos as melhores mentes para entender a origem do Mal: porque alguns são homens justos (com um egoísmo positivo) enquanto outros maus (com um egoísmo negativo). Porque a história dos homens não consegue prescindir de guerra e destruição?

Talvez, como afirma o autor do citado blog, a questão foi mal posta: não é preciso descobrir o que torna um homem cruel e bom, mas refletir sobre porque o egoísmo de alguns provoca o bem enquanto o egoísmo dos outros causa o mal.

Ser egoístas está na nossa natureza: não importa se for um egoísmo "positivo" ou "negativo", sempre egoísmo é e não há outra maneira de ser. O que, então, distingue os dois egoísmos?
A resposta está numa palavra: empatia.

Empatia

A empatia é a cola da sociedade humana, um elemento essencial de qualquer relação.
Literalmente significa sentir emoções profundas e sentimentos em comunhão com aqueles dos que nos rodeiam. Deriva do grego: en- pathos.

É uma qualidade inerente ao ser humano, mas é distribuída duma forma extremamente variada: empatizar é entender o que o próximo está a sentir tentando e, em certa medida, experimentar nós próprios a mesma sensação. É algo que ajudou a nossa espécie a sobreviver ao longo dos milénios, a cultivar a união entre as tribos por exemplo.

Basicamente, há dois tipos de empatia: a empatia cognitiva e a empatia afectiva empatia/emocional. Simples entender a diferença e as consequentes reacções.

A empatia cognitiva significa a compreensão da origem e das implicações dos sentimentos que uma outra pessoa está a experimentar. Podemos entender que a pessoa na nossa frente está chateada, triste, assustada, feliz e também sabemos por que isso acontece: estes, como é óbvio, não são nossos sentimentos e bem podem não nos afectar.

A empatia afectiva, pelo contrário, é a empatia propriamente dita e implica o nosso profundo envolvimento com os sentimentos da pessoa com quem entramos em contacto. A tristeza dos outros torna-se a nossa tristeza, a preocupação é partilhada bem como a alegria ou a esperança.

Esta última é a raiz do "egoísmo positivo": uma pessoa que faz o bem para o próximo, por sua vez beneficia do seu bem-estar; a felicidade duma pessoa que ajudamos se torna a nossa felicidade também.

A empatia é a raiz da sobrevivência da sociedade humana; além de quanto afirmado (favorecer a união entre as tribos), existem muitas razões pelas quais os homens não se matam um ao outro para obter os alheios: há fraqueza, a covardia, o medo das consequências, mas há também a a empatia, a capacidade de sentir a dor e o sofrimento daqueles que estão à nossa frente e experimentá-lo nós mesmos.

A empatia é também uma força que cresce exponencialmente com a proximidade: não é algo teórico, mas uma necessidade física dos sentidos. Saber que nalgum lugar do mundo uma mãe em luto pela morte do seu filho nos toca; mas ver esta mãe, observa-la enquanto chora é coisa bem diferente.

Esta é também a razão pela qual os senhores da guerra ao longo dos anos tornaram-se cada vez mais refinados: os psicopatas que enviam homens a morrer numa guerra sabem muito bem este é um traumático, que traz dor e sofrimento.

Daí a ciência da propaganda que doutrina as mentes com o claro objectivo de limitar a empatia: o que é um drone se não um assassino que faz o trabalho dum soldado? Mas o drone é uma máquina, sem alma, sem coração, até sem rosto. Não há um homem que carrega no gatilho, é a máquina que materialmente mata. Tudo isso alimenta a distância entre os seres humanos e limita a empatia. A consciência da dor que provocamos é mais limitada, tornando-se quase "virtual".

Psicopatia

Uma das cosias que gosto do autor de Tra Cielo e Terra é o facto dele utilizar a expressão "psicopata" para definir as elites não como simples ofensa mas, mas segundo o sentido original do termo: a psicopatia é um transtorno mental caracterizado principalmente pela falta de empatia e remorso, pelo egoísmo, egocentrismo e facilidade em utilizar a arte do engano.o e engano.

Os psicopatas são fortemente inclinados a assumir comportamentos desviantes e decidir actos agressivos contra os outros, sendo orientados na direcção dos crimes mais violentos. Todavia, o psicopata-padrão muitas vezes parece um indivíduo absolutamente normal: simulam emoções que na verdade não sentem ou mentem sobre os seus verdadeiros fins.

Do ponto de vista dum psicopata, nenhuma acto "mau" está excluído. Há apenas acções úteis e acções para alcançar os seus objectivos: sentimentos, dor, devastação dos outros seres humanos são elementos que não afectam de forma alguma e não provocam nenhuma reacção.

Escolha

É neste ponto que discordo com o autor de Tra Cielo e Terra. Eliminemos a categoria dos psicopatas, que para nossa sorte representam uma minoria (embora muito influente). Se nos outros casos tudo é uma questão de egoísmo ou empatia, onde fica o livre arbítrio? Uma pessoa pode ser condenada porque lhe falta a empatia? Um Estaline era só um pobre desgraçado com excesso de egoísmo positivo? A responsabilidade é só de Mãe Natureza?

Podemos pôr tudo nas mãos dos obscuros desenhos dum qualquer Deus ou da citada Mãe Natureza, do acaso; e isso sem dúvida ajuda, acalmando a nossa consciência. Mas eu prefiro pensar que cada um entre nós tem a possibilidade de escolher (eis o livre arbítrio) e é directamente responsável das suas acções. Qualquer indivíduo conhece a diferença entre o Bem e o Mal: é nossa opção, e exclusivamente nossa, cultivar um ou o outro. As consequências desta escolha não são dum Deus ou duma outra entidade: são nossas. A única maneira séria que termos para acalmar a nossa consciência é escolher o percurso feito de Bem e segui-lo. O resto são apenas álibis.

Então o Mestre, depois de ter reflectido e com a ajuda de uma folha,
 retirou o escorpião da água e salvou-lhe a vida.
Depois, falando ao seu jovem discípulo, continuou:
"Não alterar a tua natureza se alguém te aleijar, apenas toma precauções.
 Por que os homens são quase sempre ingratos perante o benefício que recebem.
 Mas isso não é motivo para parar de fazer o bem,
para abandonar o amor que vive em ti.
Uns procuram a felicidade, outros a criam.
Preocupa-te mais da tua consciência do que da tua reputação.
Porque a tua consciência é o que tu és,
a tua reputação é o que os outros pensam de ti.
Quando a vida te apresenta mil razões para chorar,
 mostrar-lhe que tens mil motivos para sorrir".

[nota pessoal: acho que o desgraçado do escorpião só queria suicidar-se, porque farto de ouvir o Mestre. Então afastou-se da água, ligou a televisão e ficou a observar um reality show ao longo de 4 horas. Só assim conseguiu].


Ipse dixit.

18 dezembro 2015

Ideia na Fed: juros negativos!

Prontos para um artigo aborrecido? Algo de economia?
Muito bem! Então vamos.

Na Federal Reserve (a Fed) fala-se com cada vez mais frequência de juros negativos do dinheiro.
Podemos pensar: "Então? Problema deles, nós já não queremos saber do Dólar!".

Não, problema nosso: porque BRICS & Yuan podem ser o futuro, mas agora estamos ainda todos atrelados ao Dólar. E se a Fed diz "azul" todo o mundo adopta o azul. Portanto, o que a Fed diz conta, e muito: não apenas conta na óptica das grandes empresas, conta também na nossa carteira.

Ora bem: Larry Summers, num discurso feito no Fundo Monetário Internacional, afirma que os juros muito baixos, perto do zero, não têm conseguido estimular o crescimento do PIB (o Produto Interno Bruto que, como sabemos, é a medida utilizada para avaliar o desempenho económico).

Quem é Larry Summers? Bom, é um economista estadunidense, já foi secretário do Tesouro dos EUA (com Bill Clinton), trabalhou no Banco Mundial, Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Citigroup, Merrill Lynch e obviamente é hebreu. É preciso mais?

A maravilhosa teoria

A ideia é: se o dinheiro custar pouco (juro baixo), é mais fácil que haja investimentos.
Faz sentido.

Imaginem ir comprar um aspirador em prestações (como sempre: estas são simplificações extrema, tanto para tornar tudo mais discursivo):
"Quantos são os juros das prestações?"
"40%. Mas leva uma escova de dente como prenda".
Fogo, 40%... melhor ficar com a vassoura.

Pelo contrário, imaginem uma situação com juros baixos, tipo "3%": muito mais aliciante, não é?

Além disso: com juros na ordem do 40%, as pessoas tendem a deixar o dinheiro no banco. Afinal, ganham 40% sem mexer um dedo. Pelo contrário, com um juro perto do zero, o dinheiro na conta ganha... perto de zero. Isso significa que uma empresa tem mais interesse a investir em projectos lucrativos do que manter o dinheiro parado na conta sem ganhar nada.

O único problema é aquele dos cidadãos: eles têm dinheiro na conta e com juros perto do zero não
ganham nada. E dado que não têm investimentos nos quais participar, o dinheiro deles perde valor.

Mas tranquilos: está tudo previsto. A teoria ensina que se o dinheiro na conta nada ganha (juros próximos do zero), o cidadão gasta mais e isso ajuda a economia (o PIB cresce). Resultado: afinal o cidadão fica melhor, porque toda a sociedade ganha com uma economia em crescimento.

Não é preciso ser um génio da economia para entender que há umas falhas neste raciocínio. Um cidadão sem dinheiro pode ficar entusiasta observando o PIB crescer, mas quando entra numa loja e descobre não ter dinheiro para comprar o pão pode também ficar um pouco desapontado.

Mais uma vez: tranquilos, a teoria prevê tudo. Dado que o PIB cresce, as empresas ganham e os salários aumentam, pelo que ninguém fica sem dinheiro. Portanto a palavra de ordem é: gastar, gastar, gastar. Não há gasto? Então o PIB não cresce: tragédia.
Esta, pelo menos, a teoria. 

Pelo que o simpático Larry Summers propõe o quê? Baseando-se na genial teoria acima apresentada, ele faz o seguinte raciocínio: se até com juros particularmente baixos a economia não tem conseguido reanimar-se, então pode ser uma boa ideia introduzir os juros negativos. Segundo Summers, a Fed deveria fixar um valor negativo para os juros. Por qual razão? A razão é aquela descrita acima: é preciso estimular o PIB, mais investimentos, criar mais empregos (uma empresa que ganha com os investimentos assume mais), conseguir o Santo Graal do crescimento.

Mas a verdade é que um juro negativo não é coisa tão simples assim. Tem implicações na vida das pessoas, de todas as pessoas. Até nas nossas? Até nas nossas.

Há juros e juros...

Nos últimos anos temos assistido aos Quantitative Easing (QE), criação de dinheiro injectado na sociedade com juros ridículos, quase zero. Praticamente dinheiro atirado balde após balde. O Leitor pode pensar "Mas a mim ninguém atirou nem sequer um cêntimo". Pois, e a mim também, fique descansado. Na verdade, este dinheiro criado do nada e vendido com um custo próximo do zero (quando não zero mesmo) nunca chega aos nossos bolsos: é dado aos bancos.

E aqui encontramos o primeiro problema: os bancos não somos "nós". O que o simpático Summers se esquece de referir é que quando o juro for muito baixo, o banco ganha pouco com os empréstimos. Então o que faz? Investe na Finança, onde os ganhos são bem maiores. Moral: o dinheiro dos QE não chega até nós mas desvia antes (a queixa dos bancos actualmente é: "Não encontramos investimentos suficientemente lucrativos para conceder empréstimos").

Depois há um segundo problema no caso dos juros negativos. Este é um pouco mais complicado, mas vamos entender.

Hoje um Leitor normal deste blog tem (no mínimo) 1 milhão de Dólares na conta. Com um juro de 1% (baixo), ganha 10.000 Dólares. Não é muito, mas é sempre melhor do que nada.

E com um juro de zero? Simples: o Leitor fica com o seu milhão de Dólares, sem ganhar nada. E fica também enervado, por isso chega aqui e começa a insultar todos, a dizer que este blog não presta, etc..

Mas com um juro negativo? Aqui a situação é mais grave: não apenas não ganha, mas até perde dinheiro. Por absurdo: imaginemos um juro negativo de -1%. Sobre o seu milhão, o Leitor perde 10.000 Dólares. Fica histérico e a coisa piora porque vai ao banco e descobre que para levantar o simplesmente utilizar o seu milhão até deve pagar o banco.
Pagar o banco para utilizar o nosso dinheiro? Sim, exacto: quando os juros forem negativos é assim que funciona, porque o banco também sofre os juros negativos e perde dinheiro. Não ganha com os nossos depósitos, aliás, o dinheiro torna-se um custo.

Então porque o simpático Summers apoia a ideia dos juros negativos? Porque quando o dinheiro parado no banco se tornar um custo, mais vale gasta-lo. Pelo menos não perdemos nada: melhor investi-lo em algo que, eventualmente, pode fazer ganhar algo do que deixa-lo na conta a perder valor.

E eis que volta a grandiosa teoria: com juros negativos, as empresas perdem dinheiro na conta, pelo que preferem investi-lo e arriscar ganhar algo desta outra maneira. E o cidadão comum, aquele que como nós tem apenas um milhão de Dólares no banco? Mesma coisa: levantamos as nossas poupanças e vamos gasta-las, porque na conta só perdemos dinheiro. Gastam as empresas, gastam os cidadãos: é o triunfo da economia que volta a funcionar. Esta é a teoria de Summers, que está certa. Bom, talvez esteja certa. Ou talvez não.
Aliás: não.

Olha: a estagnação!

O juro negativo tem um problema: torna os cidadãos mais pobres. Desaparecem as poupanças
(porque, como afirmado, deixar dinheiro no banco significa perde-lo) e estas não são de imediato compensadas pelo eventual aumento dos salários (que até poderia provocar uma subida da inflação).
Mas o problema é ainda mais complexo.

As nossas economias, já há alguns anos (desde 2007), entraram numa fase de estagnação. Não é uma questão de juros, é uma questão macro-económica que já foi presente no passado. Os QE inundaram (literalmente) os mercados de dinheiro e nada aconteceu: isso porque o nosso sistema está doente, escolheu um percurso errado que não leva até o crescimento mas concentra as riquezas em poucas mãos.

Uma fase de estagnação não é por si obrigatoriamente negativa: por exemplo, pode ser uma óptima ocasião para redistribuir a riqueza, para planificar e rever as falhas não apenas da economia e da sociedade. Podemos bem encarar a estagnação como se fosse uma pausa: não há crescimento? Tudo bem, então é altura de ver e rever o que se passa e escolher um rumo para o futuro. Isso numa sociedade normal, claro.

Mas os economistas como Summers (e como Krugman, que apoia as ideias de Summers) não conseguem entender uma fase que não seja de crescimento. Na óptica deles, qualquer período que não comporte crescimento é um falhanço. E aqui encontramos o quid, como diziam os Romanos, o cerne da questão. A nossa sociedade, por como ela está estruturada, já não pode ter um crescimento como teve nas décadas passadas. Por várias razões: porque a riqueza se encontra demasiado concentrada em poucas mãos; porque os mercados estão saturados; porque vivemos um período de grande incerteza acerca do futuro (guerra? Não guerra?).

Claro: a História ensina.

A fase actual faz lembrar a grande estagnação que caracterizou o período entre 1873 e 1896. Um período estranho, onde estavam a preparar-se eventos extremamente dramáticos: as grandes crises económicas (especialmente a de 1929) e as duas guerras mundiais.

Desde a segunda metade do 1800, e especialmente desde 1870, aumentou o confronto entre os vários Países capitalistas avançados para a conquista das colónias e para a redistribuição daquelas já adquiridas. A longa estagnação de 1873-96 foi o sintoma (provavelmente o primeiro) do questionamento acerca da supremacia inglesa, até então indiscutível, e o surgimento de alguns novos poderes.

Basicamente é o que se passa hoje. Estamos no meio duma crise sistémica, com a supremacia dos EUA cada vez mais em discussão: e as potências lutam para controlar as novas colónias (em primeiro lugar o Oriente Médio e a África). Isso enquanto no horizonte aparecem aquelas que já são realidades: a Rússia e a China.

Significa isso que o futuro verá necessariamente eventos dramáticos? Não podemos responder agora e talvez nem interesse: a queda da Inglaterra foi um processo que demorou décadas, completado apenas com o fim da Segunda Guerra Mundial, 70 anos depois do início da primeira crise.

O que interessa, pelo contrário, é observar as manobras de quem, como Summers ou Krugman, entende muito bem o que se está a passar e mesmo assim propõe soluções para "relançar" uma economia catatónica. Interessa porque estas manobras, na verdade, não têm como fim relançar algo: a economia está em coma profundo e assim ficará até que alguém decida pôr um travão numa Finança controlada por um punhado de pessoas. Interessa porque Summers e Krugman bem sabem disso, mas nem lhes passa pela cabeça de citar o problema.

Reféns da Finança

Como sabemos, a Finança é hoje o "novo" grande jogo, cada vez mais afastado da Economia.
"Novo" porque em origem a Finança é o natural complemento da Economia: não é má, pelo contrário (a Finanças é a ciência e a profissão da gestão do dinheiro e o seu âmbito de estudo são as instituições financeiras, os mercados financeiros e o funcionamento dos sistemas financeiros nacionais e internacionais).

Mas esta Finança, aquela que temos, é assustadora, cada vez mais presente na sociedade disfarçada de empresas que fazem parte de empresas maiores, que fazem parte de multinacionais, que estão nas mãos dum grupo muito limitado de pessoas. Esta não é Finança: é uma oligarquia de vampiros.

Por esta razão, não interessa a quantidade de dinheiro "atirado" para a sociedade, porque a sociedade é controlada e gerida por esta oligarquia. Então, como explicar a "brilhante" ideia de Summers? Como um novo passo na direcção do empobrecimento geral dos cidadãos: retira-se o dinheiro das contas dos cidadãos para que este possa financiar o "jogo" da Finança.

Não é a primeira tentativa e não vai ser a última. A Finança hoje é fundada sobre um castelo de papel, onde o dinheiro real representa apenas uma mínima fracção do tudo. Uma Finança assim precisa de dinheiro real, precisa de todo o dinheiro possível. Por qual razão? Porque esta Finança não pode parar. A verdade é que no dia em que alguém pedisse para trocar parte daquele castelo de papel com dinheiro real, tudo desmoronaria com uma rapidez impressionante.

Lembram-se da crise dos subprimes em 2007? Um monte de papel na base do qual não havia dinheiro. O esquema do qual estamos a falar é exactamente o mesmo, muda a escala (que neste caso seria global).

Quantos bancos faliram desde 2007? E tudo apenas por uns empréstimos concedidos nos EUA. Quem fala hoje de eliminar ou controlar a Finança não sabe o que diz. A propósito, que fique entre nós, mas Occupy Wall Street foi algo muito parecido com um suicídio em massa: parem a Finança e amanhã vejam o vosso dinheiro desaparecer, as lojas vazias, as bombas de gasolina sem combustível. Porque todo o sistema dos bancos entraria em colapso. E sem bancos, na nossa sociedade, não há nada. A verdade? Somos reféns desta situação.

Solução!

Solução? Há. Utilizar este período de estagnação para rever o funcionamento da nossa sociedade, Economia e Finança em primeiro lugar. A segunda em particular deve ser encarada como uma bomba. O que fazemos perante uma bomba? Vamos trata-la com um martelo? Não: começamos a estudar a sua estrutura, com delicadeza, para perceber onde, como e quando intervir. Um fio errado e tudo rebenta. E ninguém deseja que tudo rebente, não é?

Summers e Krugman nem pensam em desactivar a bomba. Eles acreditam que o jogo tem que continuar, com a Finança alimentada mais uma vez por uma Economia que "tem" de voltar a crescer. Mesmo que isso passe por uma (nova) fase de empobrecimento geral. Porque o Santo Graal continua a ser o mesmo: o crescimento, medido com o PIB.

É possível um crescimento ilimitado num sistema limitado como o nosso? Afinal o planeta é o que é, os recursos são limitados. Bom, a minha resposta pode surpreender: acho ser possível um crescimento ilimitado, mesmo aqui, no nosso sistema limitado. Mas para que isso seja (eventualmente) possível, muitas coisas devem mudar. Muitas? Não, "muitas" ainda é pouco. Praticamente tudo: a nossa sociedade deve ser substituída por algo erguido por cima de alicerces completamente diferentes.

Na nossa actual sociedade, mudar só a percentagem dum juro significa enfrentar um incêndio com um copo de água. Meio cheio, porque meio já foi bebido pela Finança.


Ipse dixit.

Nota 1: a última imagem é do filme Nosferatu, eine Symphonie des Grauens ("Nosferatu, uma Sinfonia do Horror"), de Friedrich Murnau. O filme é antigo (de 1922), sem som, mas é considerado um dos marcos na história do cinema. Caso não o conheçam, aconselho espreita-lo nesta versão legendada.

Nota 2: Bom Fim de Semana para todos! 

17 dezembro 2015

Bíblia: o livro do qual nada se sabe

A Bíblia de Gutenberg, primeira edição
Título provocatório? Nem pensar.

O seguinte artigo é parte duma conferência de Mauro Biglino que, como sabemos, é um académico especializado na tradução do antigo hebraico. Sabemos também como o termo Elohim (que na Bíblia é utilizado para indicar "Deus") seja na verdade um pronome substantivo singular ou plural, dependendo o sentido do verbo e/ou do adjectivo que seguem.

Mas vamos além disso.
É possível escrever um livro de receitas para fazer o pão, livro no qual não existem os termos "Farinha", "Água" e "Amassar"? Complicado, não é? A resposta é "Não", não podemos escrever um livro de receitas de pão sem utilizar aqueles termos. Mas isso é exactamente o que acontece no Antigo Testamento (de seguida: A.T.).

O idioma no qual foi escrito o A.T. não tem o termo "Deus". Não tem o termo "Eternidade". Não tem o verbo "Criar". Este é o dado do qual partimos. E visto que não é possível escrever um livro nestas condições, a lógica consequência é que a Bíblia não fala de Deus. Pronto, seria possível acabar aqui porque no antigo hebraico não existem os termos Deus, Eternidade ou Criação: portanto é impossível que a Bíblia fale de Deus.

Mas vamos fazer um esforço: se os termos citados não existem, como é que a Bíblia sempre foi considerada qual livro sagrado, inspirado directamente por Deus? A resposta é: fantasia teológica. Com a Bíblia podemos só "fazer de conta que...".

"Deus"
Na Bíblia original o termo "Deus" não existe. Não é uma afirmação feita por um possuído, é a afirmação da exegese hebraica (exegese, em âmbito filológico, é uma explicação ou interpretação crítica de um texto, particularmente de um texto religioso): no antigo hebraico não existe um único termo que signifique ou exprima o conceito de "Deus". Se num idioma não existe o termo "Deus" é porque não existe o conceito de Deus: cada palavra é a elaboração dum conceito pré-existente. Nada de palavra "Deus"? = Nada de conceito de Deus. E vice-versa. Muito simples. Esta não é uma questão de interpretação, este é um facto, perguntem a qualquer linguista.

"Eternidade"
Peguem num qualquer dicionário de hebraico e aramaico bíblicos, como por exemplo aquele da Sociedade Bíblica Britânica (página 304) e procurem o termo olam, que na Bíblia é sempre traduzido como "Eternidade": no referido dicionário, a primeira coisa escrita é "Não traduzir como eternidade". Olam é um tempo "muito comprido" mas não eterno. Por qual razão a Bíblia traduz sempre olam com "eternidade"?

"Criação"
É possível encontrar em rede estudos conceituados no qual é afirmado que na Bíblia não existe nenhum Deus criador. A razão? Bara, termo do antigo hebraico que a Bíblia traduz como "criação", indica mais simplesmente "intervir numa situação já existente para modifica-la". Procurem o rabino Edward Greenstein, Professor Bíblico na Universidade de Tel Aviv, na Universidade Bar-Ilan e na Jewish Publications Society de New York (onde são admitidos só rabinos, sendo a instituição o topo mundial das publicações de estudos teológicos hebraicos): Greenstein escreve que "a história do primeiro capítulo da Génesis é na realidade uma sucessão de divisões". A Génesis não fala de "criação" mas de "divisões" operadas pelos tais Elohim com o fim de tornar uma situação preexistente algo mais idóneo do ponto de vista das suas necessidades. Nenhum filólogo traduz bara com "criar": essa é uma tradução sucessiva, introduzida por necessidades teológicas.

Resumindo: na Bíblia não há o conceito de Deus, falta o conceito de Eternidade e nunca se fala duma Criação. O A.T. não fala da origem do Universo, não fala dum Deus criador, nem fala dum Deus.
Este é um facto.

Quem escreveu a Bíblia?

O Profeta Isaías
A Bíblia é um livro (melhor: um conjunto de livros) do qual sabemos praticamente nada. Os autores?

Foram dezenas de indivíduos dos quais, outra vez, nada sabemos. Alguém, numa determinada altura, decidiu reunir uma série de escritos e tradições orais para criar o cânone bíblico, o conjunto de 46 livros considerados pela Igreja Católica como verdadeiros.

Os Protestantes têm 39 livros "verdadeiros". Os hebraicos têm também 39 livros. Os cristãos coptas têm 39 livros (que são os mesmos dos hebraicos) mais outros que não são considerados "verdadeiros" nem pelos hebraicos nem pelos outros cristãos. Os Samaritanos têm 6 livros "verdadeiros", os outros são considerados como falsos.

Na prática, os livros "verdadeiros" dependem do lugar onde nascemos.

Mas voltemos aos autores. Os primeiros 5 livros que formam o Pentateuco, tradicionalmente atribuídos à Moisés, foram escritos depois do exílio babilonês, portanto no V século a.C.. Isso significa, no mínimo, 7 séculos depois de Moisés. 700 anos. Imaginem escrever hoje um livro acerca de vida e obras dum indivíduo que viveu na altura em que a América nem tinha sido descoberta pelos Europeus.

E mais: no tempo de Moisés o idioma hebraico não existia. A primeira prova da língua hebraica antiga é do X século a.C. e é composta por um alfabeto proto-hebraico encontrado no sitio de Tel Satia. Ou seja: pelo menos 300 anos depois de Moisés.

Mesmo assim, vamos tentar perceber algo acerca dos autores da Bíblia.
Pegamos no Livro de Isaías, o maior dos Profetas do A.T..

O livro de Isaias é composto por 66 capítulos dos quais os primeiros 39 são atribuídos a Isaías "porque não temos razões sérias para nega-lo" (ver estudos do Prof. Penna, consultor do Pontifício Conselho Bíblico do Vaticano). Ou seja: não sabemos se foram verdadeiramente escritos por Isaías, simplesmente não temos motivos suficientes para provar o contrário. O que é diferente. Mas estes são os primeiros 39 capítulos: e os outros?

Os capítulos desde o 40 até o 55 foram escritos por um indivíduo chamado Deutero-Isaías. Deutero em grego significa "segundo", portanto o Segundo Isaías. Pormenor: o Segundo Isaías escreveu 200 anos após o primeiro. Os capítulos desde o 56 até o 66 foram escritos pelo Terceiro Isaías, que viveu algumas décadas após do Deutero-Isaías. Portanto, na melhor das hipóteses, o Livro de Isaías foi escrito num período de 250 anos.

Três pessoas escreveram o Livro de Isaías? Não. Os estudos do citado Prof. Penna, que reconhecem os primeiros 39 capítulos como de autoria do primeiro Isaías, admitem todavia que os entre o 10 e o 23 não foram escritos por ele.

É com se eu hoje decidisse acabar um livro iniciado em 1765, afirmando ser obra dum tal Max 1º mais a participação de outro ou outros autores desconhecidos; continuado em 1965 por um alegado Max 2º; acabado hoje, em 2015, por mim, que declaro a obra "autêntica" e "inspirada por Deus" (mas não posso utilizar o termo "Deus" porque não tenho este conceito). Alguém poderia duvidar das minhas afirmações?

Qual Bíblia?

A Torah
Acabou? Nem por isso.

Porque o Livro de Isaías que temos hoje nas nossas Bíblias é a versão dos Massoretas (escribas hebraicos que se dedicaram a cuidar das Escrituras que actualmente constituem o Antigo Testamento, entre o VII e o XI século d.C.) e é diferente da versão presente nos Manuscritos do Mar Morto (II século a.C.): há pelos menos 300 variantes, das quais algumas são inteiras palavras presentes numa versão e não na outra.

Portanto, mesmo admitindo que um único Isaías tenha escrito o Livro dele (o que sabemos de certeza não ser verdadeiro), temos que perguntar: qual versão escreveu?

A única certeza que temos é que a Bíblia que nós temos não é a Bíblia original. E esta não é uma afirmação de ateus ou antisemitas, mas de docentes hebraicos que estudam o A.T., como o Prof. Alexander Rofé ( 40 anos passados na Universidade Hebraica de Jerusalém). Não é a mesma porque cada vez que a Bíblia era transcrita era também modificada. O que, já por si, é um processo bastante natural, que aconteceu também no caso de obras não religiosas (como os clássicos gregos).

A Bíblia era modificada também em função das ideias de quem a lia. Na Bíblia dos Saduceus, por exemplo, existia o versículo "O justo permanece firme na sua firmeza", enquanto na Bíblia dos Fariseus o versículo era "O justo permanece firme na sua morte": isso porque os Fariseus achavam existir vida além da morte, pelo que entendiam transmitir a ideia de que o justo permanece tal também no além; os Saduceus, pelo contrário, não achavam possível uma vida após a presente (como afirmado no A.T., inclusive) e tinham um versículo baseado exclusivamente no presente.

No livro de Jeremias é presente uma conhecida profecia acerca da captura de Jerusalém por parte de Nabucodonosor II (634 a.C. – 562 a.C., mais ou menos): mas os académicos hebraicos reconhecem que esta profecia foi inserida só depois do evento, para que as pessoas acreditassem nas capacidades proféticas do Livro. Todas as profecias bíblicas, todas sem excepção, foram inseridas depois do evento que "preveem".

O livro de Daniel, livro profético por excelência, no Cânone hebraico nem é considerado. O livro de Daniel serviu e ainda serve como base para teorias alucinadas ao longo dos séculos (por exemplo, foi utilizado para confirmar a "profecia dos Maias" em 2012): a "profecia dos 490 anos", como explica o Rabino Maior do Sinai Temple de Los Angeles, é fruto duma mistificação. A profecia original era de "70 anos", depois dos quais algo deveria ter acontecido. Dado que nada aconteceu, os 70 anos foram transformados em 70 semanas de anos.

O problema é que a Bíblia original já não existe. E nós hoje sabemos que era diversa: por causa dos processos de transcrição apenas citados, e por causa de omissões voluntárias. O A.T. original incluía 11 livros que, simplesmente, foram feitos desaparecer e acerca dos quais nada sabemos. Só sabemos que existiam porque são citados na mesma Bíblia que temos ainda hoje.

A Bíblia é apenas um dos muitos livros escritos pela Humanidade. O problema nasce na altura em que alguém decide utiliza-lo como base para o poder. Então torna este livro "palavra de Deus" e, como tal, impossível de ser discutida, conjunto de "verdades absolutas". As contradições, os anacronismos, as mistificações, são presentes em todos os livros, neste aspecto a Bíblia não é pior de que outras obras. O problema, como afirmado, é que a Bíblia foi transformada em algo mais, então, como tal, merece mais atenção e procura.

A Bíblia sem vogais

A Bíblia não é um livro "mau". É um "tijolo", sem dúvida, mas consegue ser fascinante se encarado
por aquilo que é: não um livro religioso.

Mas a Bíblia foi elevada até o grau de "Livro dos livros", o que implica uma enorme responsabilidade. Podemos considerar como "Livro dos livros" uma obra da qual nem sabemos como deve ser lida?

A Bíblia, como todos os textos semíticos, é escrita apenas com as consoantes. As vogais não existem, existem só os sons vocálicos que são introduzidos na altura da leitura. Quais eram os sons vocálicos que eram utilizados em origem na leitura do A.T.? Ninguém sabe disso e ninguém poderá alguma vez sabe-lo, porque este é um conhecimento que existia apenas na forma oral e que foi perdido com o tempo.

As nossas Bíblias derivam dos sons vocálicos que foram introduzidos pelos citados escribas Massoretas (em particular no trabalho desenvolvido entre o VI e o IX séculos d.C.): os Massoretas introduziram pontos e linhas no texto bíblico para estabelecer quais sons vocálicos deveriam ser utilizados.

Pegamos na palavra hebraica "Terra" (אֶרֶץ) que é lida tebel: existem dois pontinhos debaixo das duas primeiras consoantes (o hebraico é lido de direita para esquerda) que indicam quais vogais inserir, neste caso a vogal "e". É suficiente acrescentar um outro pontinho a estas duas consoantes para que o sentido da palavra seja totalmente transformado: neste caso o termo já não significa "Terra" mas "mulher que tem um relacionamento sexual com um animal" ou "nora que tem um relacionamento sexual com o sogro". Admitimos: é um pouco diferente da ideia de Terra.

É como se num livro encontrássemos as letras "pt". Nós temos que introduzir as vogais e "pt" pode tornar-se "pata", "pota", "puto" ou aquele termo no qual todos os Leitores malandros estão a pensar. Apenas no século IX d.C. (portanto há 1200 anos) foi estabelecido quais vogais utilizar e, portanto, qual o sentido das palavras. Mas no IX d.C. os livros do A.T. já tinham pelo menos 1400 anos de vida (os fragmentos mais antigos são os de Ketef Hinnom, do VII século a.C.). Pelo que, os Massoretas pegaram num livro antigo de séculos, do qual não conheciam a forma original em como devia ser lido, e escolheram introduzir as vogais que ainda hoje utilizamos, dando assim um significado definitivo às palavras do A.T.. "Definitivo" mas incerto: era mesmo assim que a Bíblia era lida em origem? Outra vez: ninguém pode afirma-lo.

Não é um problema de tradução, mas de interpretação: os Massoretas, ao introduzir os sons vocálicos, deram um determinado sentido a todas as palavras da Bíblia, sem ter a certeza de que aquela interpretação fosse a correcta. Na prática, o que os Massoretas fizeram foi dizer "A partir de agora a Bíblia vai ser lida assim". Ámen.

Stop, paremos outra vez. Porque, considerando tudo quanto escrito até agora,  isso significa que nós não sabemos:
  • quem escreveu a Bíblia;
  • quando foi escrita;
  • como era escrita;
  • como era lida.
Em compensação, temos a certeza de que a Bíblia actual é sem dúvida diversa do original.
Nada mal como livro sagrado.

E o panorama piora. Porque ao ler a Bíblia tal como ela é, sem uma interpretação teológica, o resultado é deprimente. A ninguém passaria pela cabeça de fundar uma religião baseando-se exclusivamente na Bíblia tal como ela é: é preciso que alguém explique que "não, não é assim, quando foi escrito isso na verdade era intenção dizer outra coisa". Mas a verdade, como vimos, é que não sabemos quase nada daquele livro.

Então, pelo menos, tentamos ver o que realmente está lá escrito.


Ipse dixit.

16 dezembro 2015

Peter Sunde: reflectindo...

Quando iniciou a difusão de internet, o mundo saudou esta "novidade" como algo que teria
revolucionado uma componente fundamental da nossa sociedade: a informação.

A informação é poder. Sem informação não há poder ou, se houver, será difícil e de curta duração.
Informação significa muitas coisas: das coisas básicas, como saber ler e escrever, até as mais complexas, como o estudo das interacções geopolíticas. Ser dono da informação permite entender onde estamos, o que estamos a fazer e por qual razão. Mais: possibilita a criação de novas ideias e a formulação de previsões acerca do futuro.

Uma internet livre significaria isso: a livre circulação da informação. Seria uma enorme conquista por parte da Humanidade. Não podemos esquecer que até poucos séculos atrás, o só facto de possuir livros era sinónimo de riqueza: porque eram caro e raros. Internet pode fornecer não um livro, não uma biblioteca, mas todas as bibliotecas do presente e do passado, simplesmente com um clique.

Voltamos atrás: a informação possibilita a criação de novas ideias e a circulação delas. Mas o que interessa ter todas as bibliotecas do planeta se depois nem sequer um livro lermos? A biblioteca funciona se utilizada, se enriquece o nosso conhecimento. É aí que somos confrontados com outras opiniões, é assim que nascem ideias.

Agora pegamos na afirmação de alguém que conhece internet, Peter Sunde, cuja entrevista foi publicada no artigo anterior:
Hoje a internet é uma merda. É um projecto fracassado. Provavelmente sempre foi assim, mas agora mais do que nunca falhou.
Demasiado pessimista? Talvez. Mas basicamente certo. Hoje internet falhou. Temos a ligação via cabo? 100 Mega por segundo? O mais rápido navegador do planeta? Mas interessa isso? Não, não interessa: o que conta são os conteúdos. E aqui começam os problemas.

Internet, no imaginário colectivo, está dividia em duas partes: uma oficial, gerida por grandes empresas, meios de comunicação, instituições públicas e privadas; uma não oficial, gerida pelos cidadãos, como blogues, páginas pessoais, fóruns, social network. Esta divisão é fictícia, não existe: a quase totalidade fica nas mãos dos privados, mesmo quando isso não parece.

Trackers

Uma simples acção como aquela de abrir o nosso navegador Chrome, significa enviar para Google os nosso dados, que são colectados e utilizados para operações de marketing, criar um nosso perfil, ou mais ainda. Abrimos uma página qualquer, como aquela do diário português Público e logo somos cumprimentados com 12 trackers:
  • ChartBeat
  • Facebook Connect
  • Facebook Social Plugins
  • Google Adsense
  • Google Analytics
  • Google+ Platform
  • Mixpanel
  • Parse.ly
  • Pinterest
  • Piwik Analytics
  • Realtime
  • SAPO Ads
O que é um tracker?
É um software que analisa o comportamento do visitador duma página internet. Como explica Wikipedia, versão inglesa:
No contexto comercial compreender o comportamento dos visitantes dum site, a fim de identificar as intenções de compra, é visto por muitas empresas como uma maneira eficaz para direcionar as actividades de marketing. [...] Do ponto de vista duma organização de vendas, interagir com um potencial cliente quando ele está a procurar activamente uma compra pode produzir enormes poupanças em fundos de marketing.
Esta a justificação comercial: mas a verdade é que eu abro a página do Público apenas para procurar notícias, não tenciono comprar nada, só procuro informações. No entanto, as organizações acima listadas sabem que eu estou a visitar a página do Público. Elas sabem: eu nem sei da existência dos trackers (a não ser que instale no Firefox a extensão Ghostery).

Eis o trackers que monitorizam a nossa actividade na página do dito diário:

Chartbeat: uma empresa de New York que analisa em tempo real o tráfego dos visitantes, mostrando  
a origem deles, o tempo de carregamento da página, o sistema operativo utilizado, o navegador, a resolução do ecrã, de qual páginas chegámos e para a qual saímos (entre as outras coisas).
Facebook Connect: porque Facebook deve saber que estou a visitar o Público?
Facebook Social Plugins: ok, posso entrar no Público e conectar-me via Facebook. Mas não poderia ser uma opção on-demand?
Google Adsense: é o analisador de publicidade de Google.
Google Analytics: é o analisador do tráfego de Google.
Google+ Platform: como Facebook.
Mixpanel: é como Chartbeat, analisa o comportamento dos visitantes. Esta empresa é uma pequena loja dos horrores, na qual podemos encontrar ligações com Skype, e-Bay, Twitter, Bloomberg, Instagram, Pinterest, Paypal, Uber, mais uma série de investidores filantropos.
Parse.ly: outra empresa analisadora do tráfego, em parte ligada à Google através de Invite Media. Também aqui não faltam filantropos.
Pinterest: a empresa para a partilha de imagem. Porque Pinterest deve saber que eu visito o Público mesmo que não deseje partilhar imagem não é claro, mas tudo bem...
Piwik Analytics: sim, exacto: é outra empresa que analisa o tráfego.
Realtime: adivinhem?
Sapo Ads: empresa de publicidade da Sapo, subsidiária da Portugal Telecom, por sua vez de propriedade da francesa Altice, atrás da qual há fundos de investimentos e televisão via cabo nos Estados Unidos.

Isso, repito, só ao abrir a página principal dum diário online.
Já repararam quantas empresas que analisam o tráfego e o comportamento dos visitantes? Porque esta é informação e do tipo extremamente valioso. Não é a informação que faz crescer o conhecimento de nós utilizadores de internet, mas faz crescer os lucros das empresas privadas.

Internet aberta e círculo fechado

Agora, há aqui uma par de considerações que devem ser feitas.
Em primeiro lugar: multipliquem mentalmente estes dados recolhidos numa só página (aquela do Público, o diário que visitei) vezes todas as páginas que costumamos consultar diariamente, vezes todos os utilizadores de internet. Uma quantidade de dados avassaladora. Mas ficamos no particular: porque internet tem que saber qual o nosso comportamento uma vez online? Os nosso gostos, o que preferimos, o que não gostamos, quanto tempo ficamos numa página, em quais objectos clicamos, quais ignoramos... E reparem: nós entregamos "voluntariamente" (e inconscientemente) todos estes dados que na verdade são dinheiro. É esta uma internet livre? Não, não é. É apenas uma peça do grande "livre mercado".

Depois há o segundo aspecto, ainda mais importante: vimos alguns nomes de empresas, nomes que não dizem nada. Na maioria são sociedades que analisam o tráfego, nada mais: cada uma faz o trabalho dela, podemos pensar. Eventualmente a dúvida é: mas porque raio o diário Público precisa de tantos analisadores e tráfego? Bah, coisas deles, o que interessa a nós?

Mas assim, como curiosidade, pegamos na primeira da lista: Chartbeat. Esta é uma empresa que pertence a outra empresa, a Betaworks. E Betaworks significa Airbnb, Groupon e Twitter. Airbnb é por acaso a empresa citada na entrevista de Peter Sunde, a "maior cadeia de hotéis do mundo" que não tem hotéis. 

Na Airbnb encontramos Andreessen Horowitz, bilionário que também é presente no Skype e numa outra empresa da lista, a Mixpanel. Da Betaworks faz parte também o investidor Keith Rabois, também na Mixpanels, PayPal, LinkedIn. E na Betaworks há o empreendedor Max Levchyn, (também presente na Mixpanels), com ligações a Paypal, Yahoo e membro da lobby FWD.us de Mark Zuckerberg.

Mark Zuckerberg? Aquele do Facebook? Sim, ele, que faz parte da ONG World Technology Network
com Al Gore, Maurice Greenberg, Larry Page e Tony Blair. Começam a ver o quadro?
Esperem, vamos observar melhor esta FWD.us, assim as coisas ficam ainda mais claras.

FWD.us é uma lobby, fundada por Zuckerberg e pelo amigo dele, Joe Green, investidor da empresa Asana (Airbnb, Dropbox, Disqus, Foursquare, Pinterest, Uber, Google Drive, etc.), sócio de Andreessen Horowitz. A FWD.us, que dispõe de 50 miliões de Dólares em doações, faz o que todas as lobbies fazem: pressionam os decisores políticos. Mas há um ponto no programa da FWD.us que acho merecer destaque (Washington Post, 10 de Abril de 2013): a redução das despesas corporativas na contratação dos funcionários, encorajando os imigrantes a competir com os cidadãos americanos para obter o emprego. Não é simpático?

Da FWD.us fazem parte também:
  • Bill Gates (Microsoft)
  • Drew Houston (Dropbox)
  • Ruchi Sanghvi (Carnagie)
  • Reid Hoffman (LinkedIn)
  • Sean Parker (Facebook e Spotify)
  • Ron Conway (AddThis, Airbnb, Digg, Facebook, Foursquare, Google, Napster, PayPal, Pinterest, Reddit, Twitter. Amizades: Henry Kissinger, Arnold Schwarzenegger)
  • Jim Breyer (World Economic Forum, 21st Century Fox, Marvel, Walt Disney, Council on Foreign Relations)
  • Matt Cohler (Facebook, LinkedIn, Dropbox, Instagram, Twitter, Uber, AOL)
  • John Doerr (Compaq, Sun Microsystems, Amazon, Macromedia, Google, Bono dos U2; conselheiro da Administração Obama).
Agora o quadro fica bem mais visível, não é? Porque depois a lista poderia continuar e seria muito, mas mesmo muito comprida, incluindo a maior parte das empresas que hoje ditam as leis na internet. O grupo de poder é constituído por um círculo restrito de pessoas com ligações comerciais e políticas. Esta é internet hoje. Não existe uma "internet aberta", que espalha conhecimento e ideias: existe uma internet fechada, que é um mero instrumento comercial.

E reparem: não falamos aqui de espionagem por parte da NSA, este seria bem outro assunto, até mais inócuo. Aqui tudo é absolutamente legal.

Como já falámos, nem a informação alternativa escapa: tem uma função bem precisa e limitada, inútil repetir. Na óptica de Peter Sunde, internet está perdida: é uma guerra que provavelmente não é possível ganhar. Os meios estão firmemente nas mãos das poucas empresas citadas, são elas que tratam com os governos, são as lobbies delas que obrigam os parlamentos a aceitar ou rejeitar determinadas leis. Não há nenhuma intenção de utilizar a open internet, a internet aberta ao serviço dos cidadãos, em prol da comunidade. Em internet tudo é mercado.

Utopia? Não, Linux.

Muitos entre nós podem considerar tudo isso como normal: afinal não é o lucro, fruto do mercado, que permite variar e ampliar a oferta presente na internet? A resposta é não. Absolutamente não.

Internet não é uma fábrica de viaturas, onde a compra dum modelo permite que a empresa continue a funcionar e investir para o futuro. Internet não vende nada simplesmente porque nada produz. Internet é uma ligação que viaja num fio (ou cabo), onde o conteúdo deveria ser criado e gerido pelos utilizadores, instituições públicas ou voluntários.

Utopia? Não, realidade. Peguem num qualquer sistema Linux gratuito (são mais de 300): é feito por voluntários (mas não só), funciona lindamente, tem dezenas de milhares de programas disponíveis, é desenvolvido sem pausas. O servidores da Google, da Netfix ou da Bloomberg são Linux, porque mais estáveis, mais personalizáveis (depois adquirimos um computador e embutido encontramos o sistema Windows...).

O caso Canonical

O sistema Ubuntu (que é Linux) é da empresa Canonical, com sede no Reino Unido. Oferece gratuitamente:
  • Ubuntu, o sistema de base;
  • Kubuntu, que utiliza o ambiente gráfico KDE (bem superior ao do Windows);
  • Lubuntu, que utiliza o ambiente gráfico LXDE, pensado para computadores já velhotes;
  • Xubuntu, qu eutiliza o ambiente gráfico Xfce (fica entre Lununtu e KDE);
  • Ubuntu GNOME, com o ambiente gráfico GNOME;
  • Ubuntu MATE, com o ambiente gráfico MATE;
  • Edubuntu, pensado para a utilização nas escolas;Mythbuntu, sistema operativo que é também plataforma multimédia;
  • Ubuntu Studio, um sistema operativo que inclui tudo para criações multimédias.
Repito: tudo grátis, é só descarregar e instalar.
Um milagre? Não: uma escolha política. Vende-se às empresas, doa-se aos privados.
Uma empresa pobrezinha? Nem pensar: a Canonical emprega funcionários em mais de 30 Países e mantém escritórios em Londres, Boston, Taipé, Montreal, Xangai, São Paulo e Ilha de Man.

O caso Debian

A Canonical é uma excepção? Nem por isso.
O sistema Debian 5.0 Lenny tem tido um custo de desenvolvimento de 8 biliões de Dólares. Investidores? Fundos de investimentos? Grande jogadas na Finança? Nada disso.

O Projecto Debian distingue-se de todos os outros pela sua forma peculiar de organização: a estrutura é baseada numa sociedade democrática real, com um documento que estabelece as regras internas do projecto (a Constituição Debian).

Todos os participantes são voluntários e não há uma empresa de investimentos atrás do Debian: todas as despesas são pagas a partir dos donativos recolhidos através da Software in the Public Interest (SPI Inc.), uma organização sem fins lucrativos para projetos de software livre. Debian é uma das principais distribuições Linux livre de interesses comerciais.

Não existe uma hierarquia ou liderança; há membros com funções específicas (como gestão de servidores ou coordenação das versões), mas todas as principais decisões são tomadas com o sistema da maioria através de votação. As discussões internas sobre o projecto são geralmente realizadas via e-mail.

Falamos de Canonical, Debain, e seria possível continuar. Tudo isso não é apenas possível: é real. Mas Linux, o sector open source e software livre representam uma minoria no panorama da internet. Em Abril deste ano a percentagem de utilizadores dum sistema Linux era de 1.68% no mundo. Windows Vista, possivelmente o pior sistema operativo criado alguma vez pela Microsoft (bem pior do que o famigerado Windows 8), alcança 2.46%.

A grande maioria das pessoas escolhe pagar tudo: computador, sistema operativo (ou acham que vem "de borla"?), ligação à internet e software. Um direito (porque hoje internet tal deve ser considerada) é transformado numa despesa.

Activismo? Não: cérebro

Portanto, resumimos: temos uma internet controlada por um restrito círculo de empresas e um público que sujeita-se a comprar tudo o que estas empresas oferecem, que entrega alegremente os seus dados pessoais, que não entende como uma internet livre (verdadeiramente livre) seja hoje um direito. Sublinho mais uma vez: um direito, porque internet é conhecimento, informação, comunicação, circulação de ideias.

Esta é a guerra que Peter Sunde considera perdida. Tem razão?
Krowler:
O que podemos fazer para mudar isto? Criar anti-corpos ao modelo, dando ás pessoas a única coisa que lhes pode servir de alguma coisa: conhecimento.   
Exacto. Os anti-corpos só podem ser criados com o conhecimento. Este é ainda possível? Por enquanto sim. E provavelmente assim será no futuro.

Não é contrassenso? Afinal aquelas empresas donas da internet teriam todo o interesse em limitar a difusão do conhecimento. Mas fiquem descansados, pois não há contrassenso aqui: aquelas empresas sabem muito bem que o conhecimento difundido hoje via internet é inócuo. A maior parte das pessoas não se liga à internet para aprender algo, mas para jogar, comprar, falar com amigos, partilhar imagens nas redes sociais... Claro, há também que deseje aprender, fazer mais do que isso. Mas são uma minoria.

Há dois pontos na entrevista de Sunde com os quais não concordo.
O primeiro é quando afirma que o Comunismo triunfará. Mas esta é uma questão que agora não interessa.

O segundo, pelo contrário, é importante e está dividido em dois trechos:
1.Também precisamos aprimorar as nossas habilidades quando se trata de activismo, temos que ser bons no momento certo e conseguir a atenção dos media: não fomos capazes de fazê-lo. 
2. Bom, devemos ter em mente que internet coincide com a sociedade. As pessoas devem entender que não é uma boa ideia ter todos os arquivos e dados no Google, Facebook e nos outros servidores privados. Todas essas coisas precisam de adquirir relevância política.
Não é um problema de activismo: é uma questão de cérebro. Nunca os activistas conseguirão
alcançar a atenção positiva dos media, porque quem controla os media são as mesmas pessoas que controlam internet. Nos media, Peter Sunde será sempre apresentado como "o gajo que permite descarregar ilegalmente filmes" e não mais do que isso. A chave está no cérebro das pessoas: é aí que algo tem que fazer "click!" e mudar.

Internet falhou? Sim, sem dúvida: de potencial instrumento de cooperação, partilha e crescimento pessoal tornou-se uma forma de gerar lucros nas mãos de poucos. Internet está a falhar não por causa da censura (facilmente contornável), mas porque a quase totalidade dos seus recursos é utilizada para criar dinheiro e porque nós não temos consciência acerca do que é poderia e deveria ser internet.

O problema não é Facebook em si: o problema é Facebook qual parte dum limitado grupo de "donos" que utilizam internet exclusivamente para fins comerciais. Internet falha porque nós, o público (isso é: a sociedade), não estamos prontos para entender a potencialidade deste meio. É como ter um Ferrari que utilizamos apenas para as compras do fim de semana.

Vou fazer alguns exemplos muito banais.

Primeiro exemplo: é possível efectuar uma visita virtual ao Museu do Prado de Madrid. É um bom serviço, gratuito, com tanto de música de fundo. Há obras fantásticas, estão aí, só à espera de ser vistas. Quantos entre nós gastaram um pouco do seu tempo para espreitar aquelas maravilhas?

Segundo exemplo: há várias bibliotecas online que permite descarregar legalmente obras literárias. Há clássicos gregos, romanos, do Renascimento. É possível viajar no tempo, nas mentes dos grandes pensadores, confrontar as ideias deles. Quantos entre nós descarregaram alguma coisa?

Terceiro exemplo: as bibliotecas das universidades são uma fonte riquíssima de assuntos de todos os tipos. Querem saber algo de Ciência? É só escolher. Se depois dominarmos o idioma inglês, a escolha é praticamente infinita. Quantos entre nós consultam aqueles textos?

Tudo isso é informação, conhecimento, saber. Que fica aí, porque as nossas prioridades são outras.
Sem dúvida, os governos poderiam e deveriam fazer mais para difundir este tipo de conhecimento, informar o público, etc. Mas não podemos sempre esperar que alguém prepare o nosso almoço: de vez em quando poderíamos também nós escolher o menu.

O contrassenso


Como afirmado: é um problema de cérebro. O nosso cérebro, o da sociedade. A verdade, que Peter
Sunde não diz, é que o restrito clube de empresas que gerem internet limitam-se a explorar as nossas limitações. E contra a preguiça mental não há activismo que possa funcionar.

Há depois uma contradicção do mesmo Sunde: como é possível mudar internet se, como ele afirma, internet é a sociedade? Porque é assim mesmo: internet é o espelho da nossa sociedade. Fazer entender às pessoas que não é boa ideia partilhar dados no Facebook? Mas quantos se ligam à internet exclusivamente para entrar no Facebook? Porque no Facebook encontras amigos, imagens, jogos...

Todavia, há uma passagem fundamental aqui: "Todas essas coisas precisam de adquirir relevância política". Porque se goste ou não, internet é hoje política. Não apenas uma forma de partilhar ideias políticas, mas uma maneira de fazer e viver a política. Havia duas possibilidades: uma internet neutra e até "comunista" (com aspas, claro) e uma capitalista. Foi escolhida a segunda, com a nossa plena cumplicidade (como na vida real, olhem o caso...).

Não é internet o problema: ela é apenas um dos problemas da nossa sociedade, onde tudo é dinheiro. Não é possível ter uma internet livre num mundo ultracapitalista, este seria o verdadeiro contrassenso. Esta é a derrota que Peter Sunde entendeu.
Todas essas coisas precisam de adquirir relevância política. Temos de parar de pensar na internet como se fosse uma realidade separada e começar a nos concentrar em como gostaríamos que fosse a nossa sociedade.

Nada mais.


Ipse dixit.

15 dezembro 2015

Peter Sunde: internet falhou

Peter Sunde é um informático norueguês, melhor conhecido por ser um dos fundadores de The Pirate Bay.

Podemos ter várias opiniões acerca deste site de torrent, mas Sunde não é simplesmente "um gajo que permitiu descarregar filmes": é uma pessoa activa no mundo da internet e da sociedade, tendo até participado na fundação dum partido político na Suécia (Piratpartiet).

Por isso é interessante entender qual o seu ponto de vista acerca da internet, o presente, o futuro, os seus limites. É esta a ocasião fornecida pelo magazine Motherboard.
Desisto

Peter: Hoje a internet é uma merda. É um projecto fracassado. Provavelmente sempre foi assim, mas agora mais do que nunca falhou. 

Motherboard: Peter, penseava em perguntar como iam as coisas, mas parece claro que não seja o caso.
Não, não consigo encontrar nada bom neste momento. As pessoas ficam satisfeitas muito facilmente. Por exemplo, pega na neutralidade da internet na Europa. É terrível, mas as pessoas estão a dizer que "poderia ser pior." É absolutamente a maneira errada de lidar com isso. Facebook está a trazer internet para a África e em outras Nações pobres, mas fá-lo limitando o acesso aos seus serviços e ganha dinheiro com os dados daquelas pessoas. E faz isso com a permissão dos governos. A Finlândia há algum tempo tornou o acesso à internet um direito humano. Acção inteligente, a única que fazer acerca de internet em qualquer País do mundo.

14 dezembro 2015

Paris, COP21: a população triunfa.



Acabou a cimeira de Paris e foi um sucesso.
Kumi Naidoo, dicretor executivo da Greenpeace:
O mais importante desta conferência é que a indústria dos combustíveis fósseis recebeu hoje a mensagem de que este é o final da era das energias fósseis.
E a indústria estremece. Não já, porque o acordo entrará em vigor apenas em 2020. Mas vai estremecer, uhi se vai...

Nick Hewitt, professor de química atmosférica na Universidade britânica de Lancaster:
Há motivos importantes para estar cético. Seria necessário deixar os carburantes fósseis no solo, não os explorar e o acordo nada diz sobre este assunto.
Como assim? Não era o fim da época das energias fósseis?
Tá bom, sabemos como são estes cépticos, nunca satisfeitos...

12 dezembro 2015

Bíblia: os Elohim

Aproxima-se o Natal? Somos mais bons.
Eu não, sinto-me enervado. Então: Religião.

Ok, ok...falar mal da Religião é simples, mas antes de ser acusado de disparar contra a Cruz Vermelha, deixem-me dizer uma coisa: se for verdade que acusar a Igreja de crimes é demasiado fácil (Inquisição, Cruzadas, etc.), mais complicado é ir à raiz do problema.

Aí é preciso conhecimento, não apenas lugares comuns (mesmo que baseados em factos históricos). Por exemplo: é preciso basear-se num texto de confiança, não duma Bíblia qualquer. E é necessário conhecer o hebraico antigo.

Mauro Biglino está a fazer um óptimo trabalho, traduzido em vários idiomas. Nada de novo (Erich von Däniken, Zecharia Sitchin, Walter Raymond Drake, Mario Pincherle, Peter Kolosimo... já tinham feito o mesmo), mas Biglino tem alguns pontos que jogam em seu favor: é um académico, especializado em história das religiões e na tradução do hebraico antigo, tanto de ter tido vários livros publicados pela Edizioni San Paolo (com a Edizioni Paoline a editora mais prolífica no âmbito católico).

11 dezembro 2015

O autocarro sem gónadas

Pergunta: quem é mais perigoso para o Mundo?
Os Estados Unidos? Os Sunitas? Os Xiitas? As monarquias do Golfo? A Rússia? A China? A CIA? israel?

Escolhida a resposta?
Pena, está errada.
A resposta correcta é: nós.

Refletimos: somos 7 biliões. "Eles", os alegados maus, quantos são? Algumas centenas? Exageremos: milhares? Exageremos até o limite: milhões? Nós somos sempre mais, muitos mais.

"Mas são eles que mandam, que têm os meios".
Falso. Nós deixamos que eles mandem, damos-lhes os meios. Até votamos neles, sempre.

Imaginem os Leitores de estarem sentadinhos num autocarro. De repente, o condutor decide abandonar a estrada e viajar pelo meio do campo, cheio de buracos. Incómodo, não é? Pois. O que faz um passageiro normal num caso como este? Levanta-se, vai até o condutor e pergunta: "Amigo, tens alguns problemas? Deixa lá, conduzo eu que tu não estás em condições". Se o condutor não concordar, leva um murro na cabeça e o autocarro volta para a estrada.

10 dezembro 2015

A Toyota responde

A Toyota responde ao meu pedido de esclarecimento.
Apreciamos a atenção e vamos ler.
Caro Mr. Dernam [deve ser um meu parente, ndt],

Obrigado por entrar em contacto com a Toyota Inc. e partilhar as suas preocupações sobre os produtos Toyota desviados.

Gostaríamos de tranquilizar: a Toyota tem uma rígida política para não vender veículos a compradores que potencialmente poderiam usa-los ou modificá-los para as actividades paramilitares ou terroristas, e temos procedimentos e compromissos contratuais em vigor para ajudar a impedir que os nossos produtos sejam desviados para utilizações militares não autorizadas. Na verdade, a Toyota parou de vender veículos na Síria há vários anos, por exemplo, a menos que estejam a ser usados para iniciativas internacionais de ajuda humanitária. Estamos empenhados em cumprir integralmente as leis e os regulamentos de cada país ou região onde operamos, e exigimos que os nossos revendedores e distribuidores façam o mesmo.

O Califa

O Califa antes
Mas afinal, quem é este Califa, terror de granes e pequeninos?

É engraçado: sabemos bem pouco acerca destes indivíduo: e o que pensamos saber pode estar errado.

O nome é Abu Bakr al-Baghdadi (أبو دعاء), mas nem este é o nome dele: nasceu Ibrāhīm'Awwād Ibrāhīm 'Ali al-Badri al-Sāmarrā'ī. Para os amigos: o Califa.

Uma espécie de biografia

De acordo com a sua biografia, publicada em 2013 por uma organização de militantes,o Califa tem um doutoramento em Estudos Islâmicos conseguido na Universidade de Ciências Islâmicas de Bagdade. Mas isso é falso:eventualmente o Califa estudou Direito.

Segundo algumas fontes, era um imam na altura da segunda invasão americana do Iraque, em 2003. Pouco depois, o Califa entrou nas fileira de Al-Qaeda no Iraque, quando esta se encontrava gerida por Abu Musab al-Zarqawi. Logo torna-se emir de Rawa, uma cidade de 20 mil almas no Iraque, onde preside os tribunais religiosos: é acusação, juiz e manda os condenados a serem ajustiçados publicamente. Um bom sistema judiciário, sem dúvida: rápido e económico

07 dezembro 2015

Eleições: França, Venezuela, Dinamarca

Semana de eleições aquela que acabou ontem.
E resultados com algumas surpresas.

França

A França vira à Direita. Não é bem uma surpresa, as sondagens tinham amplamente antecipado esta possibilidade. Seria simples agora culpar os atentados de Paris e é o que fazem muitos comentadores nos media. Mas é um erro. Ou melhor: apenas uma maneira para esconder as causas reais.

As sondagens tinham sido feitas quando o massacre de Paris nem era uma hipótese nas mentes mais perversa. A vitória da Frente Nacional não tem nada a ver com o Isis ou o terrorismo islâmico. Foi construída sobre a desilusão das pequenas empresas, dos comerciantes, da classe média. Mas os números são claro: 30% dos eleitores significa que a Frente conseguiu conquistar um seu espaço entre todas as camadas sociais, que abandonaram os Republicanos de Sarkozy, a primeira vítima das eleições.

Londres: reciclagem e criminalidade

Como relatado no documento recentemente publicado pelo Banco da Inglaterra, metade das notas inglesas são utilizadas para a lavagem do "dinheiro sujo" das organizações criminosas ou circulam no estrangeiro.

A economia paralela inglesa trata principalmente de actividades criminosas que incluem, para além do tráfico de drogas e prostituição, pagamentos consideráveis ​​de bens e serviços como por exemplo obras de construção, que permitem evitar os impostos. De acordo com o relatório, a economia paralela atinge 10% do PIB (produto interno bruto) da Grã-Bretanha.

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