19 janeiro 2016

A bomba de Kim

O ensaio da bomba H realizado pela Coreia do Norte despertou durante a passada semana e recebeu
uma condenação unânime: Ban Ki-moon, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, ameaças de novas sanções económicas por "violação do direito internacional".

Antes de prosseguir: o que é uma bomba H (bomba hidrogénio)?

Bom, podemos descreve-la como uma espécie de bomba atómica "reforçada". Ao contrário da bomba atómica "normal", que funciona com o mecanismo de fissão, a H comporta a fusão, o que gera uma potência muitas vezes superior (teoricamente não existem limites, na prática a bomba H é 50 vezes superior em termos de destruição).

Resumindo: não é uma coisa simpática. Mas vamos em frente.
Aqui não é intenção defender ou condenar a Coreia do Norte, coisa que não interessa minimamente, mas fazer algumas observações.

A primeira é que, com toda a probabilidade, este teste foi apenas uma operação de propaganda operada pelo regime de Pyongyang, como parecem pensar até mesmo os Estados Unidos, que levantaram sérias dúvidas.

Tudo bem, mas vamos fazer de conta que não tenha sido propaganda: imaginemos que a Coreia do Norte tenha realmente desenvolvido a bomba H. Aquele País não assinou o Tratado de não Proliferação das Armas Nucleares (TPN), portanto de qual "violação do direito internacional" estamos a falar? Se uma pessoa (ou um País, como neste caso) não assina um tratado, não pode viola-lo e nem há nenhuma lei do direito internacional que proíba a produção duma bomba H: EUA e Rússia, por exemplo, detêm mesmo este tipo de armas (os Russos até desenvolveram a maior dela, a Bomba Zar ou RDS-220, 10 vezes a potência de todos os explosivos utilizados durante a Segunda Guerra Mundial).

Podemos dizer que não assinar o dito Tratado é sinal de mau gosto. E isso é verdade. Mas não podemos esquecer que israel, Índia e Paquistão também não assinaram. Alguém ouviu queixas? Não? Pois.

Outra coisa que não podemos esquecer ao falar do TPN, é que os EUA, apesar de ter reduzido as suas ogivas (10 mil em vez de 15 mil: apenas uma centena seriam suficiente para destruir o planeta inteiro...), venderam a tecnologia necessária para a produção de bombas nucleares a algo como 35 Países, incluindo França, Grã-Bretanha, Canadá, israel, Índia, Austrália, Argélia, Coreia do Sul, Congo e até mesmo... ao Irão. Sim, exacto, o arqui-inimigo do Oriente Médio (pecunia non olet diziam os Romanos: "o dinheiro não cheira mal").

Podemos pensar: "Sim, mas Kim Jong-un é um ditador, louco e imprevisível".
Além do facto de que o bomba atómica, como é sabido, tem apenas um valor de dissuasão e nenhum ditador, por quanto "imprevisível," seria tão louco até utiliza-la porque ele e o seu País seriam imediatamente aniquilados por uma tempestade nuclear (e particularmente os ditadores têm em boa consideração as suas vidas); além disso, temos que considerar de acordo com o Centro de Pesquisa Eurasia Group, Kim Jong-un não é considerado como um "líder imprevisível". Que não seja um poço de simpatia é notório, mas a política dele (como aquela do pai) tem seguido um percurso bastante lógico até, conseguindo conservar uma relativa autonomia política e económica (esta muitas vezes à custa do povo).

Interessante notar como na lista do Eurasia Group apareçam o líder ucraniano Poroshenko, o rei da Arábia Saudita (fieis aliados dos EUA) e, Vladimir Putin. Quando há um mês o líder russo, em vez de ameaçar simples testes nucleares (em verdade nem precisa: tem cerca de 10.000 de bombas...), falou de utilizar o nuclear contra o Isis, a coisa passou quase despercebida (mereceu umas linhas ao longo dum dia).

Em vez disso, para a propaganda de Kim Jong-un dois dias de tragédia mediática...


Ipse dixit.

4 comentários:

  1. Ocorre que junto com a opinião "seletiva" contra a bomba da Coréia do Norte, a mídia aproveita para "informar sobre a vida na Coréia do Norte, no país mais fechado do mundo" e, naturalmente dá a velho show de estupidezes com o ar de furo de reportagem. Pergunta aos "bem informados pela TV" se sabem sobre a ingerência militar que ficou conhecida como guerra da Coréia? Sabem sim...um ou outro filme idiota de Hollywood feito para engalanar as atividades mercenárias das investidas militares dos EUA. Que a Coréia do Norte seja um exemplo de organização estatal em benefício de um povo, no meu ponto de vista, claro que não. Mas é terminantemente proibido falar das coisas como elas são e como e porque chegaram a ser como elas são. Quanto à bomba, penso que é simplesmente ridículo queixar-se de um país que tenta desesperadamente a corrida armamentista como uma possível forma de impedir sua invasão por parte do império em decadência que ainda atua como tal.

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  2. Anónimo19.1.16

    Estas coisas que aparecem nos orgãos de comunicação de massas, fazem parte daquele folclore que a rapaziada gosta de ouvir, para depois manterem à mesa do café ou do restaurante umas conversas do tipo 'intelectual para totós'.

    Krowler

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  3. Olá Max: por questões de "família" acabo ouvindo notícias da longínqua Alemanha que me levam a crer que mama Merkel anda em dificuldades em função de uma política favorável à migração de refugiados da Àfrica e Oriente Médio (Síria em especial) e que agora, diante de escaramuças, choque de culturas, terrorismo, oposição orquestrada de dentro e/ou fora da longínqua terrinha, ou seja lá o que for, parece tirar-lhe das mãos os votos que faz seis meses eram tidos como certos. Afinal este perece ser um assunto europeu, no momento, e apreciaria deveras um post teu a respeito. Estás aí perto, e parece que até Portugal vai modestamente dar a sua contribuição à fixação em seu território de alguns desgraçados pela sanha de poder universal de quem pode se dar ao luxo de brincar com o destino dos outros.

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  4. Chaplin20.1.16

    O que chama a atenção é o trecho do blogueiro: "mas a política dele (como aquela do pai) tem seguido um percurso bastante lógico até, conseguindo conservar uma relativa autonomia política e econômica (esta muitas vezes à custa do povo)." Mas qual política econômica que já existiu que não foi à custa do povo? Seja ele qual for, do próprio país ou de outro. Mas o que interessa aqui é preparar um futuro candidato a ocupar o trono do "mal". Quando o Isís esgotar suas fichas, o sionismo anglo-saxão já terá sua mais nova peça propagandística aprontada.

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