05 janeiro 2016

A tradição milenária de Gilson

Olha olha... e não é que entre os Leitores do blog temos uma pessoa que faz um dos trabalhos mais
antigos do mundo?

Ok, se calhar esta coisa do "trabalho mais antigo do mundo" pode fazer pensar numa outra actividade ainda. Mas, em boa verdade, estamos a falar de algo extremamente útil, que surgiu ainda antes da olaria, da cerâmica: já existia quando os nossos antepassados pintavam as paredes das cavernas.

Qual actividade é esta? Engenharia informática? Errado: é a arte de entrelaçar fibras. É assim que eram fabricadas as primeiras peças de roupa: pedaços de peles juntos com fibras vegetais. Há 27 mil anos, em Dolní Věstonice (Morávia, República Checa), já havia alguém que entrelaçava fibras para fazer cestos e roupa.

Aliás, é provável que a verdadeira arte de entrelaçar tenha surgido não com a roupa mas com a necessidade de transportar: cestos para objectos ou para armazenar alimentos, depois redes para pescas, para capturar aves e outros animais; mais tarde motivos ornamentais, como pulseiras ou colares.

Depois surgiu o tear (bastante cedo até: já no Neolítico, cerca de 12/10.000 anos atrás) então os
tecidos começaram a ser fabricados de outra forma. Mas também a arte de entrelaçar evoluiu: nasceu o processo de empalhar, uma das formas de artesanato presente na história de qualquer civilização humana.

Infelizmente, o empalhador utiliza materiais naturais, que com o passar dos milénios tendem a degradar-se até desaparecer. Os mais antigos objectos empalhados hoje conhecidos são alguns cestos que têm entre 10.000 e 12.000 anos de idade (foram encontrados no Egipto), mesmo assim mais cedo do que quaisquer achado de cerâmica.

Mas um empalhador não fazia apenas cestas: durante a Época Vitoriana, tanto para falar dum período mais perto de nós, tornaram-se de moda os móveis de vime, enquanto as cadeiras empalhadas já existiam há séculos. E também os materiais mudaram a segunda dos gostos: palha, vime (do salgueiro), ráfia (das palmeiras), rattan (várias espécie de palmeiras), cana, bambu...

Tudo isso para homenagear um Leitor (e colega blogueiro) que continua esta antiga tradição: Gilson Sampaio. Aqui na Europa esta arte está quase desaparecida, mas é bom saber que algures ainda há quem faça certas coisas.

(A propósito: caso precisem, pensei bem pôr o contacto do Gilson na coluna de direita).


Ipse dixit.

5 comentários:

  1. Max, meu caro.
    Você é muito generoso e o simples dizer 'sou muito grato' não expressa de forma real meu sentimento. Portanto, te deixo um forte abraço.
    Não sem razão, você fala sobre o fim do ofício. Suas imagens atestam isso: a modernidade já produz 'tapetes sintéticos(?)' já trançados, concorrência letal para quem, como eu, empalha fio a fio. Por ser muito mais em conta, o fio sintético é o mais requerido, a palhinha natural é cara, é importada da Ásia - Índia, Tailândia, Cingapura e outros(a origem varia para justificar a volubilidade do preço pelo único importador aqui da região).
    Te deixo outro abraço.

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  2. Aqui no Brasil esta arte ainda persiste. Parabéns ao Gilson e ao II pelo registro.

    Sempre grato.

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  3. Pois eu sempre me perguntava o que fazia aquela cadeira de palhinha no blog do Sampaio. Mas eu gostava dela porque me lembrava de uma cadeirinha idêntica, só menorzinha, para crianças, que eu ganhara quando pequena, acho que meu primeiro balanço. Agora sei que é o trabalho do Gilson, belo trabalho por sinal. Quando no comércio vejo móveis de palhinha, logo passo a mão e verifico com tristeza que são feitos de plástico. Nada de admirar...o mundo já ficou plastificado.

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  4. Anónimo6.1.16

    Muitos parabéns ao Gilson pela mui nobre actividade de fazer cadeiras de palhinha. Desejo-lhe muito sucesso.

    Krowler

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  5. José Figueiredo8.1.16

    Arte rara em Portugal nos dias que correm, embora noutros tempos existissem muitos e bons artistas a trabalhar a palhinha neste país.

    Agradeço também ao blogue "Informação Incorrecta" por permitir através das suas publicações, criar diversos caminhos de elevado interesse para quem os percorre, lendo.

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