25 abril 2016

Arábia Saudita: espreitando o nosso querido aliado

Afinal, da Arábia Saudita sabemos pouco. País muçulmano, aliado do Ocidente no Vizinho Oriente, cheio de petróleo, governado pela família Saud, aí fica a Meca. Basicamente isso é tudo.

Vamos espreitar um pouco mais?
Esperem: antes é útil fazer uma pequena resenha histórica, porque o silêncio dos media, também neste assunto, é pesado.

O que é compreensível, considerando que deveria falar-se dum País socialmente atrasado, onde as liberdades civis são muito limitadas e onde pode ser encontrado o Islão na sua vertente mais retrógrada: tudo isso num dos nossos principais aliados.

A descoberta do petróleo

O fundador da dinastia, 'Abd al-Aziz ibn' Abd al-Rahman b. Faisal al Saud, oficialmente reunifica o País em 1926, depois de décadas de guerras com as famílias rivais. Na altura, a Arábia não tinha mudado muito se comparada com o tempo de Maomé. Wikipedia (versão portuguesa) fala da vinda do Profeta, em 620 d.C., e logo a seguir do nascimento do primeiro Estado árabe, em 1744: não é preguiça, é que na prática nada aconteceu ao longo de mais de mil anos. E até às primeiras décadas do séc. XX, o País encontrava-se numa condição de pobreza abismal, enquanto a política era dominada pelas guerras de poder entre os vários clãs da península.

Em 1926, como afirmado, al Saud proclama-se Najd, ou seja, governante absoluto, com poder de vida e de morte sobre a população, assim como protector dos lugares sagrados do Islão. Foi adoptada a Sharia como única lei estadual, que ainda está em vigor: de facto, todos os preceitos são respeitados, como cortar as mãos dos ladrões, a decapitação pública, a flagelação por delitos menores. Ainda hoje há uma polícia religiosa que garante que os tais preceitos sejam respeitados por todos; não há direitos civis, direitos das mulheres, eleições (as primeiras, municipais, foram concedidas apenas no ano passado) e a escravidão foi abolida apenas em 1962.

Riad: 1937 e hoje
Até 1937, o País era muito pobre: na prática só existiam a pastorícia, a pesca e pequenos comércios. Mas naquele ano foi descoberto o petróleo, e tudo mudou: a Arábia não só está sentada por cima dum oceano de ouro negro, mas este é também da melhor qualidade (o Crude Light), fácil de refinar e com custos de extração muito baixos, ao ponto de tornar-se a referência no mercado.

Tudo isso permitiu que os sauditas influenciassem de maneira decisiva o preço da matéria prima, aumentando ou diminuindo a produção à vontade.

O petróleo inundou o País de dinheiro, permitindo que a dinastia reinante compensasse a falta de liberdade através da distribuição de riqueza para toda a população, dotando a Arábia de infra-estruturas modernas, construção de cidades a partir do zero, com os trabalhos mais humildes e fadigosos realizados por trabalhadores estrangeiros a custos muito baixos, tudo sem exigir taxas.

Mas este foi apenas o primeiro golpe de sorte da península; o segundo golpe tomou forma no início dos anos '70. Com o abandono da convertibilidade do Dólar em ouro, os EUA tiveram de encontrar uma maneira de impedir que a moeda se depreciasse mesmo continuando a imprimir dinheiro de forma desproporcional à sua economia. Então foram concebidos os petrodólares, isso é: cada País produtor de petróleo podia vender a matéria-prima apenas em Dólares, mantendo assim alta a procura pela moeda americana.

Em seguida, o pacto entre entre sauditas e EUA foi reforçado, com a família Saud a comprometer-se para vender o ouro negro apenas em Dólares, reinvestindo uma grande parte dos lucros em empresas americanas e Títulos de Estado dos EUA; em troca, Washington comprometeu-se a manter no poder a casa Saud, a não levantar objecções mas sim ajudar o regime autoritário, fornecer material militar, deixar que o OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) aumentasse o preço do barril em 400% em 1973.

E assim chegamos aos dias de hoje.

O Rei doente

Em Setembro de 2015, um príncipe saudita não identificado diz ao Guardian que 80% da família real suportaria um golpe contra o rei da Arábia Saudita, Salman bin Abd al-Aziz Al Saud e que a maioria dos religiosos do País, conhecida como Ulama, seria a favor dum golpe para derrubar o actual governante e instalar no lugar dele o ex-Ministro do Interior, Ahmad bin Abd al-Aziz Al Saud.

Mais tarde, nas páginas do Times:
É melhor para o País que o Rei Salman se demita, não podemos manter pessoas doentes nas chefias.
Também acrescenta que o Príncipe Herdeiro Muhammad bin Nayef al Saud (MbN) e o vice-Príncipe Herdeiro, Mohammad bin Salman Al Saud (MbS), devem ser punidos e expulsos.

Rei Salman, bin Nayef (MbN), bin salman (MbS)
O príncipe, cujo nome não é revelado por razões de segurança, tinha anteriormente escrito duas cartas para solicitar uma revolta dentro das fileiras reais. Nessas cartas falava do Rei:
Não é segredo nenhum que o problema mais grave é o estado de saúde mental, o que tornou o Rei sujeito ao controle do filho dele.
O Príncipe MbN é sobrinho do rei, é o primeiro na linha de sucessão ao trono e Ministro do Interior. O vice-Príncipe MbS é o filho de Salman, gere o Ministério da Defesa e o seu poder está em ascensão.

Numa carta enviada aos componentes da família real, é invocado um golpe para isolar o impotente Rei Salman, o Príncipe Herdeiro MbN e o vice-Príncipe MbS, este último indicado entre os principais culpados pelas condições da terra natal.

Rei Salman foi coroado como Rei da Arábia Saudita em 23 de Janeiro de 2015, após a morte do seu meio-irmão o Rei Abdullah bin Abd al-Aziz Al Saud, com a idade de 90 anos. A luta na casa real surgiu em 29 de Abril de 2015, quando o rei Salman levantou Muqrin das suas funções de Príncipe Herdeiro e nomeou o seu sobrinho MbN como o novo sucessor. Não contente, nomeou o seu filho MbS como vice-Príncipe, colocando-o directamente atrás de MbN na ordem de sucessão.

O octogenário Rei da Arábia Saudita sofre de periódicos "apagões", com incapacidade de falar e uma saúde deteriorada: os médicos aconselham os filhos a limitar as aparições públicas dele, a fim de não divulgar o agravamento das condições. Alguns relatos falam de doença de Alzheimer, outros demência senil, pelo que, o governo é praticamente administrado pelo Príncipe MbN. Em 23 de Janeiro de 2015, nas páginas do Washington Post, os advogados do Arábia Royal Court afirmam que o Rei "certamente não está a sofrer de demência ou qualquer outro tipo de dano mental". The Economist, no mesmo mês, afirma exatamente o contrário.


Sem dúvida há o facto de existirem fortes tensões no interior da família real. Entre 2011 e 2015, MbS tornou-se famoso pela expulsão de vários vice-Ministros, o que todavia deixou o mesmo MbS sem uma forte base de apoio na família, em particular entre os seus irmãos e meio-irmãos. Um destes últimos, Abdulaziz bin Salman, foi promovido a vice-Ministro do Petróleo, mas é vinte anos mais velho e acha irritante trabalhar sob as ordens do irmão bem mais novo. Além disso, uma parte da família gostaria de voltar para o sistema de sucessão tradicional, de irmão para irmão, interrompendo o actual de pai para filho.

Entre os vários episódios que contribuem para alimentar o mal contento: em 24 de Setembro de 2015, durante a peregrinação anual a Meca, a multidão colapsou matando pelo menos 2.236 peregrinos que ficaram sufocados e esmagados. O acidente ocorreu no cruzamento das estradas 204 e 223 e a causa do desastre ainda é controversa e contestada. No entanto, de acordo com rumores, tudo isso foi provocado pela passagem dum comboio real: uma força de150 polícias e 200 soldados que, segundo o diário Ad-Diyar, escoltava MbS. A passagem obrigou ao fecho duma estrada, com os peregrinos forçados a voltar para trás, contra o fluxo de tráfego. Ad-Diyar também afirma que o Príncipe e a sua comitiva deixaram o local rapidamente e que as autoridades sauditas impuseram o silêncio dos media.

O petróleo, os Dólares, a guerra...

MbS sobre a política de petróleo tem ideias claras: tinha sido ele a propor uma venda parcial da empresa petrolífera estatal, a Saudi Aramco. E mesmo que o Ministro do Petróleo, Al-Naimi, tenha mantido a sua posição, as mudanças na estrutura do poder foram mais numerosas do que o esperado.

Simon Henderson (do Washington Institute e director do programa para os Países do Golfo e a política energética) numa entrevista afirma:
A mudança de liderança da regência real saudita não teve qualquer efeito até agora, mas é preciso manter-se vigilante. Isso porque numa mudança da actual política, Al-Naimi deveria ser afastado do cargo. As previsões para o futuro dependem de como a actual política da Arábia será avaliada, se for analisada com cuidado ou se for vista como uma simples reação improvisada perante uma situação difícil. Pessoalmente, acho ser mais provável a segunda leitura, embora a interpretação dominante revelou a primeira como mais provável.
A remoção de Al-Naimi seria um sinal importante: entrado na Aramco no final da década dos '50, foi determinante na política do petróleo ao longo dos últimos 30 anos, com a revista Time e Bloomberg a reconhece-lo como uma das pessoas mais influentes do planeta.

As principais reservas naturais de petróleo e de gás da península

Num entrevista ao The Economist, MbS afirma:
Uma guerra entre Arábia Saudita e Irão seria o início duma grande catástrofe na região, que iria reflectir-se fortemente sobre o resto do mundo. Com certeza, não vamos permitir uma coisa dessas.
Palavras aparentemente tranquilizadoras. Mas ao mesmo tempo MbS decidiu intervir militarmente no Yemen e pode utilizar o exército também no interior do reino para eliminar MbN. Isso porque em Janeiro deste ano, de facto, começaram a circular vozes insistentes acerca de MbN que teria mantido conversações secretas com os líderes tribais do País para aumentar os conflitos internos e desestabilizar o reino.

O BND, o serviço de inteligência da Alemanha, publicou recentemente uma nota segundo a qual a Arábia Saudita adoptou "uma política de intervenção impulsiva", isso a sublinhar tanto os movimentos internos (apesar da calma aparente) quanto os no exterior, bem mais notórios. O problema é que o Príncipe MbS é um jogador político que está a desestabilizar o Oriente Médio.

Só em Janeiro deste ano: 47 decapitações
Exemplo disso são a guerra travada no Yemen, o apoio aos "rebeldes" da Síria, o financiamento ao Estado Islâmico.

É ele, o Príncipe MbS, o principal acusado pelos bombardeios da Força Aérea da Arábia, que mataram milhares de civis iemenitas.

É ele que apela ao nacionalismo sectário sunita e a concentração de todo este poder nas suas mãos está a criar desestabilização.

Foi ele que recentemente sugeriu austeridade e reformas do mercado: um enorme erro uma vez que as autocracias do Médio Oriente têm estabelecido um tácito contrato social com as pessoas, que vivem sem liberdades políticas mas que em troca recebem uma quota das receitas do petróleo, combustível subsidiado, alimentos, alojamentos e outros benefícios. Quebrar este pacto arrisca pôr em causa a relativa tranquilidade no interior do reino.

A Arábia Saudita está a lutar contra o colapso dos preços do petróleo (uma queda de mais de 50% no ano passado, quando foram precisos 70 mil milhões de Dólares retirados dos fundos de investimento estrangeiros para proteger a sua posição fiscal); é empenhada numa campanha militar (agressão) contra o vizinho Yemen, um desastre que o público identifica com MbS e que está a revelar-se extremamente cara e prolongada sem apresentar grandes resultados; depois há as intrigas no palácio e o dissoluto estilo de vida da família real fazem crescer ainda mais a tensão.

É este o atual retrato da Arábia Saudita, um País de 28 milhões de pessoas das quais um terço imigrantes, o principal aliado do Ocidente no Mundo árabe e o principal produtor do sangue que corre nas veias da nossa sociedade: o petróleo.


Ipse dixit.

Fontes: The Guardian, The Economic Times, Before It's News, Peakoil, News.com, International Business Times, AWDNews, ABO

2 comentários:

  1. Como é difícil para o cidadão comum avaliar os acontecimentos, que geralmente estão interligados, aqui, ali e acolá, com tantas zonas de sombra, seja do passado de alguns lugares, seja até mesmo da existência de outros, que é sabida num momento e em outros simplesmente desaparece. O post esclarece alguns aspectos do passado para mim desconhecidos. Confesso que me surpreenderam as duas fotos, 1937 e agora...não faz tempo longo! Mas vejam só o Egito, por exemplo: foi um palco iluminado quando da tal revolução colorida que, com o tempo e o repeteco ficou manjada como mais uma estratégia de mudança de regime do império do caus. Mas depois...sumiu para a imprensa brasileira pelo menos. Ouvi falar que nos últimos cinco anos não parou de acontecer por lá...e nada. E, por falar em Arábia Saudita parece que al-Sissi presentou-a com duas ilhas importantes para os nacionalistas egípcios em agradecimento por vultuosos empréstimos...saiba-se lá porque. E nada na imprensa. De ataque terrorista mesmo, desses que é para ser imputado a muçulmanos raivosos, quando é no Ocidente, aqui a gente decora, mesmo sem querer. Ouvi dizer que da mesma maneira lá no Paquistão, dias depois de Bruxelas, se foram 300 para o paraíso, mesmo sem ter feito as malas. E nada...nem um comentariozinho. Não sei como é que isso está aparecendo/não aparecendo na Europa, faz 4 ou 5 anos que aí não vou, mas no Brasil...não deve ser por acaso que somos tão mal informados.

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  2. Anónimo26.4.16

    Lahore, Paquistão? Muçulmanos a matar muçulmanos claro que passou mas não tem o impacto de infinitamente menos pessoas numa cidade europeia, com um nome estranho e com uma frequência política duvidosa, óbviamente por razões de "programação".

    Nuno
    @Maria:
    Tendo visto o excelente Above Citizen Kane e como estive aí nessa altura, a nossa imprensa não chega (embora pareça tentar?) a esse nível de "qualidade"(sic). @Krowler grato nunca tinha visto(só peca por escasso, é ainda pior, só vivenciando e perceber como afecta o dia a dia) no entanto as coisas saem de "programação", por vezes e se o presidente Camacho for eleito (idiocracia) vai ser dificil contolar essa mesma "informação/programação".

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