29 abril 2016

Síria, Ucrânia: dois massacres, duas atitudes


Bombas do governo sírio bombas contra Aleppo. Atingido um hospital, muitas mortes de civis.
O recente ataque em Aleppo ocorreu na Quarta-feira e envolveu o hospital de Al-Quds, que tem o apoio de Médicos Sem Fronteiras (MSF) e do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV): de acordo com MSF, pelo menos 14 mortos, embora o Observatório sírio para os Direitos Humanos (OSDH) eleva para 27 o número de mortes. Entre as vítimas também o último pediatra ainda presente em Aleppo.

Fica indignado o inútil Secretário-Geral da ONU, Ban Ki Moon:
É necessário que seja feita justiça para estes crimes.
O chefe do grupo de trabalho das Nações Unidas para a ajuda humanitária, Jan Egeland, afirma que "nas próximas horas" serão cruciais para o futuro de "milhões de pessoas" que dependem da ajuda humanitária.

Esta a versão espalhada em coro pelos órgãos de informação.

28 abril 2016

As minas destroem as florestas


Na Colômbia, duas empresas de mineração norte-americanas querem impor a extração de ouro num parque nacional da região amazónica. Não satisfeitas, pedem uma compensação de biliões de Dólares ao Estado colombiano num tribunal de arbitragem do...Texas.

Do Texas? Podem? Sim, do ponto de vista legal podem: as empresas Cosigo Ressources (Canadá) e Tobie Mining and Energy (EUA) invocam as regras do livre comércio que permitem às empresas processar um Estado se acham que os seus lucros estão a ser reduzidos por causa das normas laborais, ambientais ou sociais. Podem ao abrigo do Acuerdo de Promociones Comerciales entre Estados Unidos y Colombia (TLC) aprovado em 2011.

27 abril 2016

Inforgrafia: mass media, a ilusão de escolha

Quem possui os órgãos de comunicação de massa?
Quem gere os diários, a rádio, a televisão, o cinema, a música?
Eis alguns dados acerca da situação dos mass media nos Estados Unidos.

Do ouro e do declínio do Dólar

Desde que Kissinger construiu o acordo global dos petro-dólares com a Arábia Saudita e a OPEP, em
1973, o Dólar dos Estados Unidos permaneceu qual única moeda de reserva do Mundo ao longo de quase 50 anos. Mas agora as coisas poderiam mudar: e seria uma mudança com consequências enormes.

Desde 09 de Junho de 2015, o gigante petrolífero russo Gazprom vende oficialmente todo o petróleo e o gás em Rublos e Yuan (a moeda chinesa, também chamada Renminbi ou mais simplesmente RBM), tornando de facto estas duas como novas reservas globais. China e Rússia concluíram um acordo baseado no ouro para ser utilizado em vez do Dólar: na prática, um quase regresso ao Golden Standard.

26 abril 2016

Opera: VPN grátis, ilimitada e integrada

O que é uma VPN? É uma rede de comunicação privada virtual (inglês: virtual private network)
construída sobre uma rede de comunicações pública (internet). A conexão estabelecida utilizando as tecnologias de "tunelamento" e da criptografia para manter seguros os dados trocados.

Confusos? Ok, vamos fazer um exemplo: Zé tem um vários computadores em casa, ligados numa rede; depois tem outros computadores no escritório, que constituem outra rede. Problema: as duas redes não comunicam entre elas: mas estabelecendo uma VPN, as duas redes podem comunicar.

O sábio Leitor pode pensar: "Então, e o que ganho com isso? Eu não tenho duas redes".
Calma, sábio Leitor, calma. Uma VPN tem outra aplicação interessante: imaginem o seu computador, ligado via internet, e um computador posto num País onde opera a censura. Com uma VPN podemos estabelecer uma comunicação de forma que seja possível navegar "no interior" do País censurado, acendendo assim a conteúdos que de outra forma seriam bloqueados para nós. Mas deixando de lado a censura, há também serviços, vídeos (caso de Youtube), músicas e outro material que resulta ser limitado geograficamente por várias razões, como as de autoria: com um rede VPN o obstáculo é contornado.

App de Informação Incorrecta

Olá pessoal.

Informação Incorrecta já tinha lançado uma App há bastante tempo, pelo que decidi refrescar tudo em ocasião do 6º aniversário do blog.

A nova App, que é compatível com o sistema Android e iPhone, está disponível para o download com os seguintes conteúdos:
  • página Blog
  • página Facebook
  • página Twitter
  • página Youtube
  • contactos
  • possibilidade de partilha via Facebook e Twitter
  • Pocket Tools que contém: scanner, notas, lanterna e pedómetro.
Fiquem descansados: o pedómetro não é nada de ilegal, é um simples conta-passos.

25 abril 2016

Arábia Saudita: espreitando o nosso querido aliado

Afinal, da Arábia Saudita sabemos pouco. País muçulmano, aliado do Ocidente no Vizinho Oriente, cheio de petróleo, governado pela família Saud, aí fica a Meca. Basicamente isso é tudo.

Vamos espreitar um pouco mais?
Esperem: antes é útil fazer uma pequena resenha histórica, porque o silêncio dos media, também neste assunto, é pesado.

O que é compreensível, considerando que deveria falar-se dum País socialmente atrasado, onde as liberdades civis são muito limitadas e onde pode ser encontrado o Islão na sua vertente mais retrógrada: tudo isso num dos nossos principais aliados.

A descoberta do petróleo

O fundador da dinastia, 'Abd al-Aziz ibn' Abd al-Rahman b. Faisal al Saud, oficialmente reunifica o País em 1926, depois de décadas de guerras com as famílias rivais. Na altura, a Arábia não tinha mudado muito se comparada com o tempo de Maomé. Wikipedia (versão portuguesa) fala da vinda do Profeta, em 620 d.C., e logo a seguir do nascimento do primeiro Estado árabe, em 1744: não é preguiça, é que na prática nada aconteceu ao longo de mais de mil anos. E até às primeiras décadas do séc. XX, o País encontrava-se numa condição de pobreza abismal, enquanto a política era dominada pelas guerras de poder entre os vários clãs da península.

23 abril 2016

Energias renováveis? Sim, mas...

Entre 1946 e 1947, General Motors, Standard Oil (Rockefeller) e Firestone foram os protagonistas dum
golpe para lançar o petróleo até aí onde ainda hoje está: no Olimpo dos combustíveis. Simplesmente, destruíram os sistemas de transporte por electricidade nos EUA, forçando milhões de norte-americanos a usar carros, camiões, autocarros, tudo um gasolina / diesel com pneus. O resto do planeta seguiu o exemplo.

Hoje os lucros do sector do petróleo e do gás são cerca de 5.000 mil milhões de Dólares por ano. Um terço do PIB dos EUA nas mãos de poucas corporações. E se estes forem os lucros, imaginem os investimentos...

Em 2015, os investimentos globais (não os lucros) no campo das energias renováveis ​​foram apenas de 329 bilhões de Dólares. Os grandes lucros ainda são esperados, enquanto o dinheiro é investido nas fontes mais populares da energia renovável: solar, eólica, biomassa e energia a partir dos resíduos, biocombustíveis, hidroelétrica, geotérmica, oceânica, mais umas de menor importância.

21 abril 2016

Ouro: o preço manipulado

Tudo bem, hoje é Quinta-feira e está o sol, mas afinal quem é que decide o preço do ouro ou da prata?
Ora bem, eis uma boa pergunta.

A resposta? A mais natural seria: as leis do mercado, como a procura e a oferta. Demasiado natural, não acham? Pois.

A resposta correcta chega da Deutsche Bank, o simpático banco alemão: quem decide o preço do ouro é um cartel, composto por bancos internacionais que deliberadamente manipulam o preço dos metais preciosos para obter vantagens económicos nas negociações.

Admitimos: não dá para ficar muito surpreendidos, não é?
Mas esta não é novidade nenhuma. Em 12 de Setembro de 1919, às 11:00 horas, cinco comerciantes de ouro (NM Rothschild & Sons, Mocatta & Goldsmid, Pixley & Abell, Samuel Montagu & Co. e Sharps Wilkins) realizaram a primeira fixação do preço do ouro em Londres e a prática manteve-se ao longo das décadas. Em Abril de 2004, a NM Rothschild & Sons anunciou que planeava retirar-se do grupo e a Barclays tomou o seu lugar, em Junho de 2004.

20 abril 2016

9/11: as 28 páginas

E assim a Arábia Saudita levantou o tom.
Os Estados Unidos querem tornar públicos documentos até hoje classificados acerca do 9/11?
Então eles, os árabes, ameaçam vender até 750 biliões de Títulos de Estado emitidos por Washington, com o fim de criar o caos em Wall Street e arredores. Palavra de Adel al Jubeir, ministro dos negócios estrangeiros de Riad.

Ok, paremos e reflectimos: 15 dos 19 alegados terroristas eram cidadãos da Arábia, é verdade, mas daí? Eram criminosos, em teoria sem nenhuma ligação com o governo de casa Saud. Por qual razão a Arábia deveria chegar a ameaças tão violentas contra aquele que é o seu principal aliado nas questões políticas e militares do Oriente Médio?

19 abril 2016

Serviço público: como individuar um terrorista em 6 passos

E que tal duas palavrinhas acerca dos atentados de Bruxelas? E não só.

Em primeiro lugar registamos a opinião do chefe do serviço secreto ucraniano, segundo o qual "a Rússia está por trás do ataque de Bruxelas". Sim, sem dúvida. Até eu desconfio que tenha sido o mesmo Putin a acompanhar os terroristas até o aeroporto, despendido-se deles com uma bomba e uma matrioshka para cada um.
Em frente.

Já sabemos que o vídeo publicado pela CNN, e relançado pelos meios de comunicação de todo o mundo, era falso. Ou melhor: era sim um atentado, mas filmado pelas câmaras de segurança russas em 2011 no aeroporto de Domodedovo, em Moscovo (onde mora Putin, eu bem disse que aquele homem é suspeito...). Um pequeno "erro" da CNN, onde ao que parece os jornalistas não têm ideia do que se passa no mundo até que alguém os avise via Facebook ou Twitter ("Pessoal, o vídeo é falso!" "Nãoooo!" "Juro!"). Não faz mal: as imagens foram vistas e no imaginário colectivo agora estão ligadas ao atentado de Bruxelas. Óptimo trabalho.

18 abril 2016

A vitória do Sim: após Dilma

O Sim ganhou e agora o processo de impeachment segue o percurso que o levará até o Senado do Brasil.

Poderá o PT travar aí a destituição da Presidente? Não sabemos. Mas, mesmo que consiga, será um governo terrivelmente fragilizado. E o Brasil agora precisa de tudo, mas não dum governo débil.

É preciso enfrentar a crise económica e com urgência. É preciso construir infraestruturas, aquelas que foram sacrificadas para construir os estádios dos Mundiais de Futebol e as Olimpíadas. Estradas, autoestradas, centros logísticos, portos, aeroportos capazes de impulsionar a exportação, de atrair os investidores sobretudo estrangeiros.

Poderá um governo tão frágil fazer isso? Desenhar e implementar um programa de grande esforço nacional para encontrar uma saída perante a actual queda económica? Não.

16 abril 2016

Presidencias EUA: besta contra besta

Raramente foi observada uma campanha destas proporções. E falamos aqui da campanha mediática contra o candidato Donald Trump. Artigos, notícias nos telejornais, inteiros programas dedicados ao candidato presidencial.

Isso enquanto é silêncio acerca de Hillary Clinton; no máximo podemos saber que há outros candidatos democratas que recolhem consensos e conquistam Estados nas primárias. Parece implícito o facto da Clinton ser a escolha natural, óbvia, do Partido Democrata. E isso apesar do eleitorado enviar sinais bem diferentes (ver vitórias do candidato Sanders).

Voltemos ao milionário com os cabelos efeito porquinho-da-Índia.
Trump é uma besta ao quadrado, acerca disso não pode haver muitas dúvidas. O típico fruto duma sociedade, aquela norte-americana, em plena decadência de valores, de moral, até dum mínimo de bom gosto. Os seus apoiantes afirmam que Trump é incómodo porque diz a verdade, porque subverte as regras do jogo.
Não: Trump é uma besta ao quadrado, ponto final.

14 abril 2016

Derivativos: tudo sob controle. Ou nem por isso.

Uma breve actualização dos dados.
No geral, os artigos de Economia ou Finança estão cheios de gráficos ou números, pelo que requerem maior atenção ou uma boa capacidade de análise; raramente os grandes números conseguem transmitir a imensidade que escondem.

Por exemplo: segundo o Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements, BRI), a exposição de todos os grandes bancos dos EUA em matéria de Derivativos, no último trimestre de 2015, era de 247.000 biliões de Dólares. Isso é: 13 vezes a já enorme Dívida Pública dos Estados Unidos.

Dados confirmados pelo Departamento de Controle da Moeda (Office of the Comptroller of the Currency, OCC) que até apresenta o relacionamento entre Activos de cada banco e exposição. 

13 abril 2016

Greetings from Cuba

Tinha iniciado Castro em 1959.

Mais tarde, muito mais tarde, foi a vez de Chavez, na Venezuela. Uma espécie de revolução socialista estilo Bolivar, defeituosa e cheia de buracos. Mas tinha continuado. Mais em baixo Lula, numa estranha imitação capital-socialista. Mais em baixo ainda a Kirchner, nada mal mas demasiado centrada no choque com a Finança. Morales na Bolívia tinha feito dois ou três movimentos verdadeiramente ousados, depois Correa no Equador, com grande coragem não apenas no papel.

Em poucas palavras: uma ideia, algo para tentar quebrar o domínio económico dos Estados Unidos no continente e não só. Uma ideia não nova, adaptada às novas exigências, mas sempre melhor do que a desolação nos outros cantos do Mundo. O "quintal" dos EUA tinha despertado.

12 abril 2016

Ucrânia: o "Não" da Holanda

Imaginem se tivesse ganho o Sim. Imaginem se os eleitores holandeses tivessem aprovado com ampla maioria a entrada da Ucrânia na União Europeia.

No dia seguinte, eis os diários com títulos na primeira página: a vitória do espírito democrático europeu, a humilhante derrota de Putin, os eternos valores que estão na base do Velho Continente, etc.

Porém aconteceu exactamente o contrário: os eleitores holandeses rejeitaram com ampla maioria a entrada da Ucrânia na União Europeia. E a notícia não foi devidamente realçada. Além da crise dos refugiados, da tensão com a Rússia e do drama ainda não resolvidos acerca da dívida grega, a União tem agora este novo problema: os Holandeses se opõem à admissão da Ucrânia. E isso é altamente simbólico. Estamos perante uma vitória não só do Presidente russo, mas também de todos aqueles que gostariam de ver a UE dissolvida, porque este é um duplo estalo para a UE.

11 abril 2016

A fábrica do terror

Thomas Fuente trabalhou 29 anos no FBI, até 2008.
Dirigiu o Departamento das Operações Internacionais a partir da sede de Washington, foi responsável pelos agentes especiais destacados na Interpol, Nações Unidas, Europol. Desde 2006 até a reforma foi também membro do Comité Executivo da Interpol. Hoje colabora com a CNN como especialista e é membro do Conselho dos Consultores do Departamento de Estado da Segurança Diplomática.

Interessa? Sim, interessa porque em 2011 Fuentes decidiu colaborar com Trevor Aaronson, jornalista americano, director do Centro da Florida do Jornalismo Investigativo. O resultado foi The Terror Factory: Inside the FBI's Manufactured War on Terrorism ("A Fábrica do Terror: Dentro da Guerra contra o Terrorismo Fabricada pelo FBI"), um livro que numa sociedade minimamente normal deveria ter funcionado como uma pedrada no charco mas que, infelizmente, bem poucos conhecem (hoje pode ser adquirido na Amazon por 8,04 Dólares: "Baía do Suspiro", o romance romântico de Nora Roberts, custa 10,89 Dólares...).

O livro descreve como o FBI, na condução das suas próprias actividades contra o terrorismo islâmico no território dos Estados Unidos da América, crie a partir do nada as ameaças, instruindo, armando e financiando os "terroristas" que posteriormente se orgulha de ter capturado.

08 abril 2016

O Brasil da crise

Situação complicada no Brasil? Sem dúvida.
Tentamos pôr um pouco de ordem para quem vive fora do País, contando com a ajuda dos Leitores sul-americanos para eventuais desenvolvimentos.

Impeachment

E comecemos em 2015, um ano amargo na óptica da Esquerda da América do Sul: a desaceleração da economia chinesa (que alguns ainda continuam a negar...), acompanhada pela queda dos preços das commodities e dos ataques especulativos contra Títulos e Bolsas de Valores locais (sem contar as pontuais vozes de iminentes deafult), tem inevitáveis ​​repercussões nas condições de vida e nas escolhas do eleitorado. Em 23 de Novembro, na Argentina é Mauricio Macri que ganha contra o candidato peronista; duas semanas depois, em 7 de Dezembro, é a vez da Venezuela, onde o partido chavista, liderado por Nicolas Maduro, perde as eleições depois de 17 anos de poder consecutivos. Dois estalos nada mal.

Mas o mosaico ainda não fica completo sem a decisiva peça brasileira: chega a recessão (PIB fecha 2015 com -3,8%), embora não suficiente para derrubar o recém eleito governo.

Em Dezembro é aberto um processo de impeachment (a medida constitucional de cassação do mandato) contra a Presidente Dilma Rousseff, algo que gira em torno da rejeição por parte do Tribunal Federal de Contas da União (TCU) do orçamento federal de 2014 e, em particular, da acusação de não ter contabilizado algumas dívidas aos bancos controlados pelo Estado.
Para já é importante realçar isso: o processo de impeachment é relativo a uma questão de contabilidade (federal) e nada tem a ver com o caso Petrobras.

Petrobras, Lava Jato & Igrejas

Petrobras, eis o nome. Uma empresa petrolífera estatal, um gigante que factura algo como 91 biliões de Dólares (dados de 2014). É muito dinheiro. O núcleo da acusação é o seguinte: a Petrobras teria "inchado" ou seus contratos para um valor de 2 bilhões de Dólares ao longo da última década, dinheiro que teria sido alegadamente distribuído a líderes políticos. E o período temporal cobre as presidências tanto de Dilma Rousseff quanto do seu antecessor, Lula da Silva.

O clima aquece em ocasião da "detenção" do ex-presidente Lula: no dia 4 de Março de 2016, 4 policiais federais invadem o seu apartamento para depois acompanha-lo para um rápido interrogatório (três horas). Este faz parte da Operação Lava Jato, uma investigação de amplo alcance que tem como objectivo apurar um esquema de lavagem de dinheiro: no caso de Lula, o ex-Presidente teria recebido fundos da Petrobras para financiar a sua campanha eleitoral.

A "mini-detençaõ" de Lula é sem dúvida um erro: não havia necessidade (contra o ex-Presidente nem é formulada uma acusação), tendo também em conta razões de ordem público. E, de facto, a tensão no País começa a crescer, com tumultos na frente da casa de Lula e de Dilma Rousseff. A Presidente responde com um erro crasso: nomeia o ex-Presidente e amigo Lula qual Ministro-Chefe da Casa Civil. Desta forma, Lula é subtraído à Justiça ordinária e fica passível de investigação apenas pelo Supremo Tribunal Federal.

Por qual razão erro crasso? Por duas boas razões. Para já, Dilma ou alguém da equipa dela deveria ter previsto quais as contra-medidas (o pedido de anulação da nomeação, depois pontualmente apresentado). Mas há algo de mais profundo e sinistro. A mensagem enviada por Dilma é simples: a política pode tornar-se um meio para fugir à Justiça (sobretudo se tivermos uma amiga Presidente do República, diga-se), as Leis podem ser contornadas se o fim é proteger... quem? Um cidadão qualquer, uma vítima dos acontecimentos? Não: um amigo, um colega de partido. Mau.

Voltamos um pouco atrás. Qual a principal suspeita que paira sobre Lula, Dilma e não só (a Operação Lava Jato é muito mais do que o Partido dos Trabalhadores)? Corrupção, o facto de ter gerido a Petrobras como fonte de rendimentos ilícitos. No caso de Lula há ainda a suspeita dele ter favorecido alguns contractos com empresas privadas em troca de "regalias" (o triplex, a fazenda...). As investigações estão em pleno andamento, portanto é difícil ter uma opinião bem definida acerca do assunto.

Mas estes são quase "pormenores": nesta altura o Brasil já está divido em duas fações, a que quer a cabeça de Dilma, a que vê a Presidente e Lula vítimas dum enredo surgido até fora do Brasil (em Washington). Raciocinar não adianta, pois não parece haver zonas neutras: ou se aceita a teoria da conspiração (e neste caso vale tudo, até nomear um amigo como Ministro para subtrai-lo à Justiça), ou se apoia a acção dos investigadores (então a publicação de conversas telefónicas privadas já não é uma flagrante violação da privacidade - e não apenas isso - mas um direito dos cidadãos "que têm que saber").

O clima aquece ainda mais e em meados de Março as manifestações multiplicam-se. Um papel interessante é também desenvolvido pelas igrejas evangélicas: em particular se destacam nas manifestações o televangelista Silas Malafaia, líder carismático da igreja pentecostal Assembleia de Deus Vitória em Cristo e dono dum império estimado em cerca de 150 milhões de Dólares, e Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono duma fortuna de dividida entre Brasil e Estados Unidos.
Entretanto, a tensão política no País atinge o nível de perigo: tanto Dilma Rousseff  quanto Lula falam abertamente de golpe que quer quebrar a ordem democrática.

No dia 28 de Março o Partido do Movimento Democrático Brasileiro deixa definitivamente o governo, forçando Dilma a uma remodelação. No mesmo dia, o Supremo Tribunal Federal anula a anulação da nomeação de Lula qual Ministro-Chefe da Casa Civil mas, logo a seguir, outros juízes avançam com novas anulações. É sem dúvida uma situação caricata na qual é cada mais evidente a fractura entre poder judicial e poder político.

Crise

O Brasil enfrenta uma crise institucional enquanto se encontra mergulhado numa crise económica também. E não é um mero acaso. Do espantoso sucesso económico sobra a desolação do desemprego, o PIB em queda, o encerramento das actividades económicas e 2.000.000 despedimentos só em 2015. As previsões não são positivas, pelo menos até 2020 quando está marcada a luz no fim do túnel da recessão (a propósito: bem vindos amigos brasileiros no clube dos que esperam a tal luzinha...).

Vista "de fora", a situação é de difícil interpretação. É necessário conhecer um mínimo de história do País para entender por quais razões foi possível chegar até este ponto. Um ponto de não regresso, provavelmente, no qual há a sensação de que algo tem ainda que acontecer antes que ás águas possam voltar a acalmar-se. Entretanto, tomar partido é complicado. Dum lado, uma Justiça que parece ter saído do âmbito das suas competências para desenvolver uma uma clara ação política, com excessos que fazem lembrar de perto a Operação Mani Pulite dos anos '90 em Italia. Do outro, um  executivo sob pressão, desnorteado, com declarações e escolhas tanto absurdas quanto perigosas.   

O futuro? Incerto. O sonho socialista da América Latina parece ter chegado ao fim: após a derrota de Maduro na Venezuela, após um Obama que saltita em Cuba, sobram realidades importantes sim, mas não tão emblemáticas. Mas seria um erro ver o Brasil como parte deste movimento: na verdade, o caminho escolhido foi outro, desde que o País foi entregue às leis do livre mercado.

Pouco importam a corrupção (que existe e bem enraizada), os sucessos em âmbito social  do governo Lula (que não podem ser postos em causa) ou até as ideologias (frágeis cortinas de fumaça para capturar seguidores): não há uma verdadeira tentativa de golpe, pois o que se passa no Brasil é um duro choque entre dois grupos de poder, dois grupos internos mas com óbvias ligações ao exterior. Não existe o risco do regresso duma ditadura militar, pela simples razão que não é este o objectivo de quem segue as directivas de Washington. Tal como não há risco duma deriva socialista, porque quem olha para Pequim seguem bem outros modelos. E pouco importa se no governo quem decide for o Partido dos Trabalhadores ou outro movimento qualquer, pois são as leis do Capitalismo que mandam. E um Capitalismo com rosto humano ainda tem que ser inventado.


Ipse dixit.

Relacionados:
Acerca da Petrobras: A Petrobras e o charco
A Operação Lava Jato: Operação Lava Jato
Outras investigações: A Operação Zelotes - Parte I, Parte II, Parte III, Parte IVA Operação Satiagraha - Parte I, Parte II

FMI: quanto pior, melhor

"Quando o mundo ao redor do FMI não vai bem, nós prosperamos. Nós tornamos extremamente activos porque emprestamos dinheiro, ganhamos juros e encargos e o resto todo, e a instituição vai bem. Quando o mundo vai bem e temos anos de crescimento, como foi o caso de 2006 e de 2007, o FMI não vai bem, financeiramente e não só."

Música e letras de Christine Lagarde,
Directora do Fundo Monetário Internacional.
Universidade Wharton, Pensilvânia, 4 de Abril de 2016.

07 abril 2016

Panama Papers


...e agora: Panama Papers. Tentando ficar sérios.

Resumo dos episódios anteriores.
Há um ano, "alguém" subtraiu do estudo legal Mossack Fonseca & Co., do Panamá, documentos sensíveis que demonstram a ligação entre pessoas e instituições de primeiro plano com paraísos fiscais (os offshores) espalhados pelo mundo fora. Quantos documentos? 11,5 milhões, 50 vezes mais do caso Wikileaks. O que deve ter custado uma fortuna em pendrives.

Ofsciór!

Ninguém sabe ao certo quem é este "alguém": não são precisos grandes voos de fantasia para sugerir nomes, mas oficialmente a fonte dos Panamas Papers é desconhecida. Só sabemos que este "alguém" contacta os editores do diário alemão Süddeutsche Zeitung (Munich) e, sem pedir um tostão em troca, descarrega os sacos de pendrives cheias de documentos. Os alemães pensam "Krauten!" que significa "E agora o que podemos fazer com esta tralha toda? Formatamos e ficamos com as pendrives que dão sempre jeito ou contactamos uma organização sem fins lucrativos, séria e independente, para que seja desenvolvido um duro trabalho de investigação?".

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