03 junho 2016

Os tarot de Carla a Raposa

A emissora SIC, com a TVI, forma a dupla da estupidificação televisiva em Portugal.
Dúvidas?

O programa é “A Vida Nas Cartas - o Dilema”, que já pelo título se percebe ser algo profundo; nele actua a taróloga Carla Duarte que, como todos os colegas dela, deveria ser obrigada por lei a procurar um trabalho digno deste nome.

Não satisfeita de ganhar a vida à custa da ignorância das pessoas, a simpática Carla põe o nariz em assuntos que ultrapassam em muito as suas capacidades. Como foi o caso de Maria Glória, senhora que ontem ligou queixando-se de sofrer violência doméstica.

Eis o resultado:


A telespectadora assim se queixava:
Há 40 anos que eu sofro de violação doméstica… Ele bate-me, ele faz-me tudo
"Carla a Raposa", como provavelmente é conhecida entre os amigos, antes interrompeu várias vezes a mulher para repetir o número telefónico para onde as pessoas devem ligar para obter um "consulta". Número de valor acrescentado, obviamente.

Depois tranquilizou Maria: o marido não tem outro relacionamento. E, por breve instantes, Carla a Raposa pareceu ter recuperado o bem do intelecto: “O que interessa se ele tem alguém ou não, mediante o que você tem em casa?”. Exacto: estamos a falar dum verme, não duma pessoa normal, alguém do qual a mulher deveria livrar-se o mais rapidamente possível. Era isso que entendia a simpática Carla?
Não precisamente.

"Ahhhh, ele quer uma mãe, ele não quer uma mulher de si, percebe?"
Mas percebe o quê? Uma mãe?!? Mas este é um gajo que deveria levar uma porrada de todo tamanho e esta emérita deficiente diz que a esposa tem que fazer o papel de mãe?

"Você escolheu este homem e, independentemente de tudo, é com ele que vai ficar"? Sim, ora essa, o casamento é sagrado, uma vez unido um casal não pode separar-se, era só que faltava... Doutro lado nas cartas saiu a Imperatriz e perante este, que é um facto, há pouco para fazer: "Paciência e calma" é a receita.

Depois entra em cena a sabedoria: "Quando damos amor, recebemos amor, mesmo que seja em menor quantidade". Ninguém consegue parar Carla a Raposa: é como um atirador enlouquecido que dispara contra qualquer forma de inteligência em circulação, um autêntico seek and destroy.

"Se você recebe violência, corte este ciclo e não dê violência, nem que seja por palavras". Justo. Não dizia o Cristo para oferecer a outra face? Aqui nada de face mas miminho. Quanto mais o marido bater, tanto mais miminhos a mulher terá que dar. Com um sorriso na cara, podemos imaginar.

"Por muito difícil que isso seja". Carla é raposa e sensível também: entende que pode não ser simples, mas sabe que é a estrada correcta. Nada de ir à polícia, apresentar uma queixa e arrastar a besta para o tribunal. É ficar com a besta, ter paciência, calma, e sobretudo miminhos, tantos miminhos.

Nada mais para acrescentar, não vale a pena.
Para boa sorte, a violência domestica em Portugal é crime público (isso é, não depende da queixa da vítima) e não está subordinada à capacidade de discernimento de certo indivíduos. A propósito: agora esperemos que a SIC retire esta deficiente do ecrã, já são suficientes as infinitas novelas para atordoar as pessoas.

O contacto da APAV (Apoio à Vítima) pode ser encontrado neste link.
No Brasil não conseguiu encontrar uma única organização mas várias: uma lista parcial pode ser encontradas nesta página.


Ipse dixit.

02 junho 2016

Petróleo: o segredo sujo

Eis uma interessante investigação que, obviamente, não viu as primeiras páginas dos jornais.
Bloomberg explica como, durante décadas, a Arábia Saudita reciclou petrodólares, isso é: financiava o deficit dos EUA através da compra de Títulos de Estado americanos com o produto das vendas de petróleo, enquanto Washington proporcionava fornecimentos militares aos sauditas.

Título: "A História não contada atrás de segredo de 41 anos da Arábia Saudita acerca da Dívida dos EUA" (The Untold Story Behind Saudi Arabia’s 41-Year U.S. Debt Secret). Algo que sempre pertenceu ao reino da conspiração, sem nenhuma confirmação ou declaração oficial do Departamento de Tesouro dos EUA; mas mudou quando Bloomberg decidiu utilizar a Freedom of Information Act , a lei que nos EUA desde 1996 garante a difusão das informações essenciais, para tentar saber qual a parte de Dívida Pública americana deita pela Arábia Saudita.

Os dados eram mantidos secretos desde 1974: a Dívida nas mãos de Riad encontrava-se misturada com aquelas de outros Países, como Nigéria, Kuwait, etc.

Mas agora: um passo atrás.

A viagem

Em 1974 o mundo se encontrava no meio duma das piores crises petrolíferas devido a um embargo dos Países árabes da OPEP: estes protestavam contra os Estados Unidos que tinham fornecido ajuda militar a israel durante a Guerra do Yom Kippur e a crise tinha feito quadruplicar o preço do barril. Inflação galopante, colapso das Bolsas, economias dos EUA e europeia em queda livre.

Dez meses após o início da Guerra do Yom Kippur (que tinha começado após o ataque contra israel por parte duma coligação árabe liderada pelo Egipto e pela Síria, o mundo árabe via nos Estados Unidos o principal inimigo: tinha sido os norte-americanos a fornecer o apoio militar e político que tinha permitido a Tel Avive de derrotar os árabes.

A maior preocupação de Rei Faisal (monarca da Arábia Saudita) era evitar que o dinheiro do petróleo pudesse directa ou indiretamente acabar nas mãos dos inimigos jurados dos árabes.

Mas em Julho de 1974 houve "a" viagem:  o então Secretário do Tesouro dos EUA, William Simon, e o seu vice, Gerry Parsky, foram até Riad para tentar neutralizar o petróleo como arma económica e encontrar uma maneira de convencer o reino a financiar o deficit americano com a sua riqueza feita de petrodólares. Complicado? Sem dúvida, muito complicado. Mas os EUA conseguiram, após promessa de que o pacto teria sido mantido secreto.

Por qual razão a Arábia deixou-se arrastar para um pacto tão perverso que traía a causa dos Países árabes e, de facto, ajudava tanto os EUA quanto o inimigo israel? Simples: dinheiro. Washington era a capital da maior potência ocidental, aquela que proporcionava o maior mercado do planeta. Poderia Riad optado para um acordo com o bloco soviético? Não. Ou melhor: sim, poderia ter feito isso, mas as implicações teriam sido enormes e, sobretudo, Moscovo não poderia ter oferecido aquele sistema (o capitalista) que significava um consumo em constante crescimento por parte de cidadãos e empresas.

De esquerda: G. Ford, J. Carter, R. Reagan, H.W. Bush

É naquele pacto que podemos encontrar a origem da actual situação no Médio Oriente: a absoluta impunidade do regime teocrático saudita, por exemplo, nasceu naquele ano. O Presidente dos EUA, Richard Nixon, e o rei saudita, Faisal bin Abdulaziz Al Saud, optaram para um segredo que foi respeitado até hoje por parte de todos os Presidentes americanos que se seguiram, democratas e republicanos.

A chantagem

Durou também porque quanto mais o tempo passava, tanto maior era a Dívida nas mãos dos Árabes. Bloomberg cita uma fonte do Tesouro dos Estados Unidos segundo a qual o volume dos investimentos sauditas na Dívida americana seria cerca de duas vezes o que afirmam as estatísticas oficiais: de acordo também com vários analistas, a Arábia Saudita esconderia a quantidade real de Títulos dos EUA em transações através dos centros financeiros offshore.

Bloomberg adverte:
Enquanto o colapso do petróleo tem aumentado a preocupação de que a Arábia Saudita possa liquidar os seus Títulos do Tesouro para conseguir dinheiro, surge um grande problema: o espectro de que o Reino possa utilizar o seu conveniente posicionamento no mercado da Dívida mais importante do mundo como uma arma política, tal como já fez com o petróleo na década dos anos '70.
Uma preocupação que tem bases bem reais dado que, em Abril, a Arábia já avisou que começará a vender até 750 biliões de Títulos do Tesouro e outros activos dos EUA se o Congresso em Washington aprovar uma lei que permite considerar Riad responsável dos ataques terroristas contra as Torres Gémeas de New York em 11 de Setembro de 2001. Uma lei que já foi aprovado pelo Senado americano no passado 17 de Maio e que actualmente se encontra na Câmara, empurrada pelo Partido Republicano (é o mesmo partido de Nixon, o Presidente que assinou o acordo secreto com a Arábia).

De esquerda: B. Clinton, G. W. Bush, B. Obama.

Voltemos um pouco atrás, apenas de poucos meses, tanto para observar uma curiosa coincidência: em Abril de 2016 a Arábia Saudita ameaçou vender 750 biliões de Dívida Pública americana; no mesmo mês eclodiu o caso Panama Papers, no qual são citados o monarca da Arábia Saudita, Rei Salman, e o sobrinho dele, Muhammad bin Nayef bin Abdulaziz Al Saud, Príncipe Herdeiro, Primeiro-Vice Primeiro Ministro e Ministro do Interior. Tal como dito: coincidências, sem dúvidas.

Dívida & dúvidas

Mas quanta Dívida americana têm entre as mãos os Árabes? Difícil responder pois, como vimos, parte da mesma parece ter sido escondida nos paraísos fiscais. E nem podemos esquecer aqueles Países árabes que detém Dívida americana e que estão muito bem relacionados com Riad (valores em Dólares em Short Scale): Bahrein (1.2 biliões), Qatar (3,7 biliões), Oman (15.9 biliões), Kuwait (31.2 biliões), Emirados Árabes Unidos (62.5 biliões).

Podemos tentar adivinhar, tendo como base o seguinte ponto: as estatísticas do Fundo Monetário Internacional demonstram como os bancos centrais tendem a investir em Dólares 2/3 das reservas monetárias; e dado que a Arábia tem uma reserva estimada em 600 biliões de Dólares (e sem esquecer que a moeda do País, o Riyal, está ligada à moeda americana), não é difícil apostar numa valor de Dívida perto dos 400 biliões.

Valeu?

Resumindo: aquele de 1974 foi um bom acordo do ponto de vista dos contraentes?

Segundo Riad foi, sem dúvida. Os Países do OPEP (a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, na qual a Arábia é incontestavelmente o principal membro) aumentaram o preço do barril e conseguiram um rápido e colossal enriquecimento.

Segundo os Estados Unidos... sim, mais ou menos. Sim porque em 1971 o Presidente Nixon tinha decidido abandonar a convertibilidade do Dólar em ouro (fim dos acordos de Bretton Woods) e encontraram na Dívida adquirida pelos principais Países do OPEP o indispensável suporte para a economia doméstica; além disso o Dólar (antes ligado apenas ao valor do ouro, depois flutuante) tornou-se moeda de referência nas trocas não apenas de petróleo.

Todavia, os EUA entregaram boa parte do "valor" deles aos bancos centrais daqueles mesmos Países, com o resultado de que hoje uma Arábia qualquer pode fazer voz grossa se os EUA votarem uma lei pouco simpática em Riad. Na verdade, a ameaça dos árabes é mais teórica de que factual: dificilmente conseguiriam vender o montante de Dívida declarado. Mas não deixa de ser significativo: após décadas de mútuo suporte, o relacionamento entre Washington e Riad atingiu um ponto de aparente roptura e aquele que ontem era um meio para proporcionar recíproco enriquecimento, hoje é uma arma apontada contra os EUA.

Além disso, há um evidente paradoxo: numa altura em que o terrorismo islâmico cria medo em boa parte do planeta, os bancos centrais da maioria dos Estados investem em Dólares americanos; e estes mantêm o seu valor com a carteira daquele País que é o principal financiador dos terroristas islâmico, como no caso do ISIS.


Ipse dixit.

Fontes: Bloomberg, Business Insider

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