29 março 2017

A guerra no Yemen

Os media continuam a ignorar aquela que é uma guerra sangrenta. A foto acima (e o vídeo no fundo do artigo) mostra o protesto do dia 26 de Março deste anos em Sanaa, a capital do Yemen: cerca de 1 milhão de pessoas contra a guerra que Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Estados Unidos estão a travar no País há dois anos.

New York Times, Washington Post, para não falar dos diários europeus, em silêncio. Grande realce no caso das 8.000 pessoas que desfilaram em Moscovo, lideradas pelo racista e ultra-nacionalista Navalny. Mas do milhão de pessoas no Yemen nada.

A guerra no Yemen foi lançado como um acto de força da Arábia Saudita e nem se sabe oficialmente qual a razão. Os Estados Unidos foram a seguir e ninguém sabe bem porquê. Há dois anos foi perguntada ao general Lloyd J. Austin, comandante do Comando Central dos EUA, a razão do americano:
Actualmente não conheço os objectivos específicos, para estimar as possibilidades de sucesso deveria primeiro conhecê-los.
Fala-se de "avançada do terrorismo", de "territórios nas mãos de Al-Qaeda". Mas as reais motivações são outras: o País é o único xiita numa península (a Arábica) sunita. E ser xiita hoje em dia traz um certo azar: veja-se o caso do Irão, da Síria, do Iraque... Uma vez caído o Yemen, toda a Península Arábica estará gerida pelos sunitas, que poderão assim concentrar-se no Norte, contra a Síria e o Irão.

A história recente

O Yemen, que tem uma história milenária, durante os séculos XVI e XX tornou-se parte do Império Otomano (embora o xiitas, de facto, continuaram a governar as zonas interiores), mas em 1918 as regiões do Norte conseguiram a independência. Em 1839, o Império Britânico tinha ocupado a cidade portuária de Aden e criado uma pequena colónia, cercada por alguns protectorados sobre os quais exercia uma eficaz influência. Mas também os Ingleses, em 1967, tiveram que retirar-se por causa das forças insurgentes e, em 1970, nasceu o regime marxista da República Democrática Popular do Yemen, também conhecida como Yemen do Sul.
 
Ali Abdullah Saleh
Portanto, entre 1970 e 1990 houve dois Estados iemenitas: no Norte a República Árabe do Yemen,
governada de maneira autoritária por Ali Abdullah Saleh, no Sul a República Democrática do Yemen, regida por um regime marxista.

Mesmo depois da unificação, que ocorreu em Maio de 1990, no Sul apareceram vários movimentos de independência que continuam a operar contra o governo central (ainda em Janeiro de 2015, por exemplo, os líderes separatistas do Sul leram uma espécie de declaração de "independência").

O momento mais importante na história recente do Yemen foi o fim do regime de Saleh após os protestos da "Primavera Árabe": Saleh tinha governado o País desde 1978, antes apenas o Yemen do Norte, depois todo o País unificado. Entre o final de 2011 e o início de 2012, no Yemen começou uma lenta e complicada transição política, apoiada e em certa medida impulsionada pelos Países do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Oman e Qatar). Depois de muitas pressões, Saleh concordou em abandonar o poder e Abdel Rabbo Monsour Hadi foi eleito qual novo Presidente.

Abdel Rabbo Monsour Hadi
Se calhar "eleito" não é a melhor das expressões, pois Hadi era o único candidato nas eleições presidenciais: na verdade, Hadi foi uma escolha de Saleh, o qual tentou individuar um homem de transição para unificar duma vez por todas o País.

Mas Hadi (sunita) foi considerado pelos iemenitas como demasiado próximo da Arábia e do Ocidente e em 22 de Janeiro de 2015 foi obrigado a abandonar o poder após uma tentativa de golpe. Poucas semanas depois, em 25 de Março de 2015, para deter o avanço xiita, 150.000 homens das forças de terra e 100 aeronaves da Força Aérea da Arábia Saudita (com o forte apoio de 10 Países árabes: os do Golfo mais Egipto, Sudão, Marrocos e Jordânia) desencadearam uma feroz guerra para entregar o Yemen aos sunitas.

Apenas uma nota acerca da religião: os xiitas do Yemen são zaiditas e constituem uma dissidência bastante antiga no seio dos xiitas. Os zaidistas podem ser definidos islâmicos liberais e moderados: não ficam muito longe dalgumas Madhhab (escola jurídica muçulmana) sunitas. Isso pode ajudar a explicar a escolha de Hadi como novo Presidente em 2012: uma escolha de transição, em princípio um sunita não tão afastado do Zaidismo. Mas não resultou.

A guerra

Os sauditas afirmam que a sua coligação, até agora, atirou 90.000 bombas em território iemenita: significa 123 bombas por dia, 5 por cada horas. Os xiitas afirmam terem destruído 176 veículos blindados, 643 blindados, 147 carros de combate, 12 helicópteros Apache, 20 aeronaves e 4 drones. Eles também lançaram mísseis: 109 balísticos tácticos. Os EUA fornece planeamento, serviço de intelligence e munições.

Em Outubro de 2015 Amnisty International publicou um relatório que acusava a Arábia Saudita de crimes de guerra no Yemen, em particular o uso de bombas de fragmentação e bombardeios de escolas e outros alvos civis. Em 26 de Outubro e em 2 de Dezembro do mesmo ano, a Arábia Saudita bombardeou duas clínicas de Médicos Sem Fronteiras. Em Abril de 2016, Human Rights Watch relatava que em Março tinham sido utilizadas bombas de fragmentação fabricadas nos EUA contra a cidade de Mastaba, o que resultou na morte de 107 civis (incluindo 25 crianças).

Os dados oficiais da ONU falam de cerca de 9.400 iemenitas mortos até 2016 (mais de 13 mil até hoje), incluindo 2.230 crianças, e 16.000 feridos. Mas são números que ficam bem longe da realidade (com 5 bombas por hora...): um único ataque árabe contra um funeral em Sanaa fez mais de 800 mortos. No noroeste do Yemen, ao longo da fronteira saudita, cada cidade foi bombardeada. O total das vítimas mortais não deve ficar longe das 100 mil unidades.

A diferença entre os valores oficiais e os reais é explicada de forma simples: os sauditas têm ameaçado a ONU de cortar os financiamentos no caso de operações de socorro ou demasiado barulho acerca do assunto. Obviamente, a ONU dobrou-se.

O Yemen está a morrer de fome. Mesmo antes da guerra, 90% dos alimentos básicos eram importados. Desde então, os sauditas bombardearam todos os sistemas de produção de alimentos e todas as principais pontes foram destruídas: isso num País no qual já há 2 milhões que sofrem de subnutrição. Não há qualquer forma de importar alimentos em Sanaa e em outras áreas do País. O porto de Hodeida, na costa Oeste, encontra-se bloqueado no lado do mar: a marinha e a força aérea saudita destroem todos os navios que tentem transitar.

Os sauditas têm pressa: sabem que, mais cedo ou mais tarde, alguém pode intrometer-se na guerra. Um alto funcionário da Administração dos EUA afirmou que estão "com medo da situação"; os aliados poderiam agir de qualquer maneira:
Não somos capazes de antecipar as consequências para as nossas operações contra o terrorismo.
As causas

Pois é, o terrorismo. Antes a acusação era aquela segundo a qual havia campos de treino para os militantes de Al-Qaeda. Agora seria o Isis que tenta ocupar o País. Mas Al-Qaeda é a CIA enquanto o Isis é uma criatura das Monarquias do Golfo. Dito de outra forma: ambas foram utilizadas tanto como um meio para desestabilizar o País, quanto como uma mera desculpa para intervir militarmente. A verdadeira razão é sempre e só uma: a feroz guerra que as Monarquias sunitas desencadearam contra os regimes xiitas no Médio Oriente.

Além disso, o Yemen é um País pobre, sem dúvida, mas está localizado numa posição estratégica, porque controla metade do Estreito de Bab el Mandeb, que liga o Mar Vermelho com o Golfo de Aden e que é uma rota de comércio bastante importante, até para a passagem do petróleo.

O Yemen é também considerado um "Estado falido", uma terra disputada entre as duas vertentes mais poderosas da religião islâmica: a sunita, liderada pela Arábia Saudita, e a xiita, que tem como maior País o Irão. A diferença é que o Irão não invadiu o Yemen...



Ipse dixit.

Fontes: Amnesty Internetional (idioma Inglês), Medici Senza Frontiere (Italiano), Press Tv, Foreing Policy, Moon of Alabama, ONU (Inglês)

3 comentários:

  1. Quanto tempo vocês acham que vai levar para os sobreviventes do massacre abandonarem o local? Ouvi dizer que muitos já se deslocam. Incentivo não vai faltar já que sabemos que o comércio de gente é negócio próspero e não sectário. Não querem saber se é saudita ou xiita. Por sinal sai do Iêmen e já vai ser considerado terrorista potencial.Este é o século dos deslocamentos forçados.

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  2. Anónimo29.3.17

    Não gosto de situações onde impera o desequilibrio.
    Era interessante alguém de peso colocar-se do lado do Iemen, mas é um cenário pouco provável.

    Krowler

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  3. Esse domínio na base do divide et impera que se faz no oriente médio desde lawrences das arábias beneficia desdesempre as agendas de "combustível fóssil" que não tem nada de fóssil, é abiótico, não existe lógica em fósseis migrarem todos para os cemitérios de elefantes para morrer e formar os bolsões petrolíferos!
    Todas as plantas em uma dada época do ano adquiriam pernas e migravam para as arábias para morrer nas mil e uma noites!
    Os continentes inclinavam, caima todos para um lado e eram soterrados formando os bolsões...
    Como fica claro, o petróleo é mais uma mentira perpetrada pelas elites parasitárias!
    Os poços de petróleo sempre se reenchem devagar e a cambada sabe disso, mas inventa até fraking para enganar o povão e no no embalo mata as reservas aquáticas do povo!
    A agenda de sequestro das águas está a cavalo, tal e qual as agendas de chemtrails envenenando o ar!
    A desgraça humana está em todo canto, todos os países ESTÃO em guerra, a guerra dos seres humanos contra os escolhidos de deus, tudo cantado no manual biblico, e o apoca está fresquinho vindo a cavalo, quem mandou acreditarem em deus!

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