04 março 2017

E o vento apita

E' uma daquelas noites estranhas, onde o tempo não corre, passadas com a janela aberta sobre uma
noite ventosa e uma garrafa de vinho ao lado.

Os últimos meses tem sido um inferno e, para complicar ainda mais, o teclado nem fala português. Quando temos que ver uma pessoa que amamos apagar-se dias após dia, sem para poder fazer, perguntamos qual o sentido de tudo isso. Inútil esperar pela resposta, outros perguntaram o mesmo mil e mil vezes antes de nós e ninguém alguma vez respondeu. Talvez porque não há resposta, talvez porque mesmo a pergunta é estúpida.

Passei pelas ruas onde cresci e senti-me estrangeiro na minha terra: uma sensação nova que não estava à espera de experimentar, algo que atingiu-me em cheio. Os tempos mudaram, ou talvez, mais simplesmente, eu estou mais velho e não consigo entender. Vejo caras estranhas, que falam idiomas esquisitos, com roupa diferente, olhos que te fixam como fosses uma alienígena. Eu não entendo mas, no fundo, sinto que algo não bate certo, algo destoa em todo isso. Porque não é possível construir o novo Paraíso partindo do desespero e do ódio.

Um passo atrás. Viagem de ida, Espanha, no meio da meseta. Uma aldeia da qual ninguém lembrará o nome: num canto duma praça, debaixo dum céu de cor do chumbo, um africano com as suas misérias em mostra para ser vendidas. E' tudo o que tem para oferecer, mas é isso tudo o que nos temos para oferecer-lhe? Mais: temos mesmo que oferecer-lhe alguma coisa?

Genova, encontro um amigo: está farto destes imigrantes, não trabalham, só pedem dinheiro, quando conseguem roubam. E cheiram mal. E' verdade, é mesmo assim. Sinto algo no peito, a sensação de que algo está a ser-me roubado: é o direito de percorrer as ruas e encontrar as minhas recordações, numa esquina agora ocupada por vendedores do Equador, numa loja agora equivoco bar de africanos. Qual a razão?

Molare, baixo Piemonte, terra de vinho, avelãs e corças. Oito imigrantes trabalham de forma voluntaria na autarquia. Limpam o cemitério onde acabei de enterrar a minha mãe. Outra vez: não bate certo. Deixaram o lugar onde morriam de fome para trabalhar grátis em Italia? Decido informar-me. A historia é um pouco diferente: há uma empresa que "ajuda" os imigrantes: recebe 35 Euros por dia por cada imigrantes. Para eles, os africanos, apenas uma esmola. Ainda estou na rua, pego no telemóvel e faço as contas: 35 euros vezes 8 imigrantes vezes 22 dias de trabalho "voluntario", são mais de 6 mil euros por mês. Nada mal, nada mal mesmo.

Lembro duma reportagem na televisão. Um autocarro que leva os imigrantes até a fronteira, depois volta atrás. Alguns dias depois carrega outros imigrantes, destino a mesma fronteira. Mas, que surpresa!, são os mesmos imigrantes transportados antes. "Sim, até conheço os nomes deles, cada vez são os mesmos" diz o condutor. A empresa ganha milhares de Euro por cada viagem. E' uma cooperativa "vermelha", tal como a empresa de Molare.

"Vermelho" aqui significa progressista, do lado dos pobres, dos desfavorecidos. Ganham milhares de Euros por dia com estes mortos de fome. E explicam que temos de ser bons, não podemos deixa-los morrer de fome. Seriamos egoístas, seriamos racistas, suprema ofensa por qualquer ser humano. E é verdade, não podemos deixa-los morrer: valem milhares de Euros por mês.

Mas será que importa? E depois, a garrafa esvaziou-se...


Ipse dixit.

9 comentários:

  1. Anónimo5.3.17

    Feliz por tê-lo conosco mais uma vez Max.

    Em tudo que você descreveu nunca podemos deixar de ter em mente a cumplicidade do parlamento europeu com os saqueadores "hegemonistas". Como um povo culto assistiu pacificamente a criação de uma monstruosidade destas (parlamento eleito de forma indireta), uma boa parte de nós sulamericanos não consegue entender. Aceitar que os desbravadores do farwest, por meio da OTAN, lhes obriguem a participar do butim sem que haja comoção popular (ao menos daqui de onde enxergo), é algo estarrecedor. Os mesmos que participaram, participam, do saque, são os mesmos que hoje lucram 6 mil euros em cima de um grupelho de imigrantes. Uma grave doença domina à todos nós. Nos tornamos passivos em demasia.

    Um abraço sulamericano repleto de saudades,

    Expedito.

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  2. Anónimo5.3.17

    Lamento a sua perda.

    Agora os escravos até vêm de livre vontade. Arriscam a vida de livre vontade. Aceitam toda a miséria de livre vontade.
    E continua havendo quem ganhe dinheiro à custa deles.

    Tudo tem um preço. O enriquecimento da Europa à custa de países pobres tem um preço.

    A nossa vida não é nada comparada com o tempo que demora a transformar as sociedades.

    Como sempre você não consegue ver de fora quando está dentro da história.

    Algo irá resultar de tudo isso.

    Agora o problema está em quem está ou em quem chegou?

    Quem está foi e voltou e quem chega afinal procura o que não conseguiu onde estava.

    Você pode prever muita coisa, mas a verdade é que ninguém sabe o que vai resultar de tudo isso.

    A passividade das pessoas é apenas aparente.
    O ódio está lá. O ressentimento. Dos dois lados.

    O que falta saber é quanto tempo mais vai aguentar até todo o mundo revelar o que realmente sente por quem está e por quem chegou e o que fará nesse momento.

    Eu acho que o ser humano pode estar muito polido mas é tudo a mesma coisa de sempre, todo o mundo tem seu lado negro.

    É esperar para ver como todo o mundo vai gerir esses sentimentos.

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  3. Anónimo5.3.17

    Max, bemvindo de volta.

    Grande abraço
    Krowler

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  4. Salve Max: Obrigada por atender-me, ou mesmo que não seja. E vamos ao assunto do dia.
    Somos mercadoria Max, corpos, pedaços de corpos e mentes.Sei que te custa aceitar a visibilidade que a migração forçada trouxe hoje na Europa para uma realidade muito antiga. Faz quanto tempo que os corpos prostituídos de eslavas são comercializados no Ocidente? Faz quanto tempo conversávamos eu e tu sobre o tráfico de órgãos que garante a longevidade dos poderosos do mundo? E não foi a busca incessante de pistas, de indícios, de provas, que fizeram desaparecer alguém tão amado por mim quanto a Maria, tua mãe, por ti? São milenares as notícias do tráfico dos escravos que garantiram a espoliação do Novo Continente em função do Velho. Faz quanto tempo as mentes são traficadas pelos interesses dos quais os mídias são executores exemplares pelo mundo afora?
    Agora simplesmente a Europa conhece nova forma de extração de lucro a partir da mercantilização de humanos. São as ONGS "em favor" dos despossuídos, diga-se de direita ou esquerda, estatais ou privadas.Está escancarado o comércio. É isso que Gênova a Malone te assombra, além do que o cinismo explícito nos esmaga e, se algum alento ainda emerge para gritar, ele flui de uma garrafa de vinho.Abraços. E sempre bemvindo...ao grito. Gritar?...Nos resta alguma outra coisa a fazer?

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  5. Anónimo5.3.17

    Boas Max, é sempre bom ter um sinal teu.

    O tempo não pára, passa por nós sem apreceber-mo-nos e quando nos deparamos com isso o embate e doloroso. Ao ler as palavras que aqui deixaste recordei-me do choque que senti ao visitar ha pouco tempo um sitio do qual tinha muitas recordacoes de criança... mas tudo estava diferente... muito diferente... Pensei para comigo, como é possivel. Bem sei que é erro meu pensar que teria aquela aldeia a minha espera tal como era ha muitos anos atras mas que me apanhou de surpresa esse sentimento ... la isso apanhou... e fez-me pensar no que perdi entretanto.

    Abraço Max :)

    EXP001

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  6. Chaplin6.3.17

    Olá! Bom contatar novamente! Falas de funcionamento mundo, diretamente dependente das relações de dominância e poder. Tuas sensações podem ser novas, mas esses processos são velhos. A história, não aquela contada em prosa e verso nos bancos escolares e reproduzidas por gerações, mostra nitidamente o quanto somos oprimidos por minorias sectárias. Acontece que a opressão tem duas vertentes, uma visível, a imposição pela força, militar, bélica, mas é a segunda vertente que produz os maiores estragos, a propaganda, que se disfarça de história, educação, ciência, jornalismo,etc, e conspira permanentemente contra os princípios básicos entre os seres humanos, em favor, lógico, de minorias. Acabamos tão condicionados a ela que somos incapazes de identifica-la na maior parte do tempo. Podemos exemplificar com teu próprio contexto exposto. Filantropia, há muito virou um mega negócio, para burlar pagto de impostos e lavar dinheiro. ONGs são movimentos que estão à serviço dessas minorias e recebem incentivos financeiros para propósitos seletivos. Voltamos um pouco no tempo e nos deparamos com entidades de espectro global como Cruz Vermelha, Rotary e Lions, que nada mais são que ramificações "filantrópicas" da conspiratória maçonaria. Abraço e bom retorno.

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  7. Feliz pela sua volta, Max.
    O que descrevestes , meu caro, são reflexos de um colonialismo insano. Pode demorar, mas um dia a conta chega. Hoje , como há séculos atrás, cada ser explora o outro do jeito que mais lhe convém.
    Abraço. Boa re-re-re-vinda

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  8. Grande Max, felizes sejam os tempos vindouros.

    Mas sim, tem sido sempre assim desde o fim das sociedades gilânicas de que em tempos falaste. E a Europa tem sido o centro desse pensamento hegemónico de hierarquia desde há alguns séculos. Todos somos atingidos, mas talvez e os mais empobrecidos são também muitas vezes os mais zelosos do sistema.

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  9. Anónimo12.3.17

    "Molare, baixo Piemonte, terra de vinho, avelãs e corças. Oito imigrantes trabalham de forma voluntaria na autarquia. Limpam o cemitério onde acabei de enterrar a minha mãe. Outra vez: não bate certo. Deixaram o lugar onde morriam de fome para trabalhar grátis em Italia? Decido informar-me. A historia é um pouco diferente: há uma empresa que "ajuda" os imigrantes: recebe 35 Euros por dia por cada imigrantes. Para eles, os africanos, apenas uma esmola. Ainda estou na rua, pego no telemóvel e faço as contas: 35 euros vezes 8 imigrantes vezes 22 dias de trabalho "voluntario", são mais de 6 mil euros por mês. Nada mal, nada mal mesmo." Fez-me lembrar algo de humberto eco, pendulo de foulcaut, belbo (por vezes é dificil arrumar a própria "casa" quanto mais o mundo, mas é sintomático... o mundo é a nossa casa)

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