07 março 2017

Úteros para aluguer

Italia do Norte: um casal gay decide realizar o seu projecto de procriação, vai para um Estado "em que
os casais do mesmo sexo não são discriminados ou de outra forma impedidos na sua fundamental aspiração para tornar-se pais".

Aqui, uma mulher doa os seus óvulos, fertilizados com o esperma de um dos pais, e estes são implantados no útero duma segunda mulher disponível para a gravidez.

Em 2009 nasce um par de gémeos, todos voltam felizes para Italia e aqui surgem os problemas: o Pais não tem uma lei que possa reconhecer este tipo de paternidade.

Choros, gritas, horror: os gays estão a ser discriminados.

Fevereiro de 2017: o Tribunal de Trento reconhece o efeito legal "da providencia (dos EUA, ndt) que estabeleceu a existência duma relação parental entre duas crianças nascidas através da gestação de outros e do seu pai não genético". Dito de outra forma, como também explica o juiz Marco Gattuso, é estabelecida a absoluta indiferença entre as técnicas de procriação que tenham sido utilizadas em relação ao direito da criança para o reconhecimento do estado de filho no âmbito dum projecto compartilhado de parentalidade.

Festa, tripudio, a felicidade paira sobre o Pais: o racismo foi derrotado.
Opinião pessoal: cambada de bestas.

Não sou católico, mas a decisão do Tribunal, com todas as consequências que implica, é simplesmente abominável.

1. Está fora de questão o direito que todos têm de viver a sua sexualidade segundo os próprios instintos (excluindo, como é claro, a pedofilia). Mas esta liberdade não pode envolver um terceiro sujeito que não tem possibilidade de escolha: a criança. Em princípio (ou melhor, segundo a lei da Natureza) cada criança tem o direito de ter um pai e uma mãe. Portanto, não é verdade que essa lei tutela as crianças: tutela apenas o desejo do casal homossexual.

2. Esta lei consagra a completa mercantilização do corpo feminino. A mulher fica apenas como incubadora, nada mais do que isso. A gravidez se torna um mero negócio: faço a gestação, entrego a criança e recebo o dinheiro. Qual a diferença entre uma mulher que aluga o seu corpo por dinheiro ao longo duma hora (uma "puta") e uma que aluga o seu corpo por dinheiro ao longo de 9 meses? E' apenas uma questão de tempo? As feministas nada tem a dizer?

3. Voltemos ao desejo de maternidade dum casal homossexual. E vamos até a esquecer o direito da criança em ter um pai e uma mãe. Nem falamos da capacidade dum casal homossexual em dar amor porque isso é implícito. Mas quantas crianças abandonadas existem nos orfanatos, quantas nunca terão a possibilidade de ter uma família? Minha irmã foi adoptada, bem sei o que significa isso, o incrível acto de amor em acolher um pequeno ser que não é "nosso" mas que será "filho" ou "filha" na mesma. Em Italia são 35mil as crianças que esperam para ter uma família: é mesmo necessário envolver os óvulos duma mulher e o útero duma outra mulher? E' apenas "desejo de maternidade" o que impede de adoptar?

4. Serena Marchi, autora dum livro sobre estas questões ("Meu Teu, Seu - Mulheres que dão à luz por conta de outros"):
Nas minhas viagens para encontrar mães substitutas notei que quase todas as mulheres fazem isso com alegria, mas acima de tudo com a consciência de colmatar uma espécie de injustiça da natureza, que impede que dois homens possam para ter filhos.
A única injustiça da Natureza foi ter permitido o nascimento de indivíduos como Serena Marchi, que descrevem a "felicidade" duma mulher paga para carregar uma criança ao longo de nove meses, dar à luz com dores de parto e, em seguida, ser feliz para não voltar a vê-la nunca mais.

Se a ideia for mandar de pernas para o ar as milenárias bases da nossa sociedade e até da nossa espécie então tudo bem, não são os únicos que tentam isso, venham que há espaço para todos. Mas se é só para espalhar porcarias, acusando até Mãe Natureza de ser "injusta" com os homossexuais, então que haja pelo menos o bom gosto de fazê-lo em respeitoso e ignorante silêncio.

Porque, como dizia Francis Bacon "O homem é o ministro da Natureza, mas à Natureza comanda-se apenas obedecendo a Ela". E Bacon é considerado um dos fundadores do Método Cientifico. Que raio.


Ipse dixit.

Fontes: Huffington Post (edição italiana), Serena Marchi, Massimo Fini

5 comentários:

  1. Olá Max: Que cada criança tenha de ter necessariamente um pai e uma mãe, acho discutível.Afinal,o que qualquer indivíduo precisa é de amor, segurança e atendimento às suas necessidades vitais, de socialização e de liberdade.
    Mas, esta história de ficar gerando gente num planeta rebentado e em uma sociedade suja e violenta, já isso considero pessoalmente egoísta. Quanto mais essa manobra toda (mais uma forma de mercantilização, é verdade) para fazer "nascer" um (a) filho (a), quando abundam os já nascidos cujo destino é ainda mais incerto que os demais.Mais um detalhe do cinismo social que impera, aí mascarado de direitos dos casais de mesmo sexo. Por sinal, hoje, quando me falam em direitos, já começo a desconfiar.Abraços

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  2. Esta prática neoliberal que aqui descreve é semelhante aos experimentos científicos e sociais, efectuados pelo Nacional-Socialismo em seres-humanos.

    Do ponto de vista científico e jurídico é fácil impedir este crime contra a liberdade de escolha, vontade, e decisão do indivíduo (neste caso o bebe, ou criança se preferirem) acerca do ambiente/contexto parental no qual pretende viver ou ser gerado; porém como refere no seu post a decisão do juiz é assombrosa, o que denota na minha opinião que o mesmo não agiu com imparcialidade e razão.

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  3. A decisão do juiz não é errada nem abominável ... é incompleta e por conseguinte pode ser mal dirigida. Acontece que o problema já existe a jusante. A decisão pode ser analisada em duas partes: 1.ª "E estabelecida a absoluta indiferença entre as técnicas de procriação que tenham sido utilizadas em relação ao direito da criança para o reconhecimento do estado de filho..." O que é juridicamente equilibrado. 2.º "... no âmbito dum projecto compartilhado de parentalidade." O problema reside na 2.ª e sobre o qual já existia jurisprudência. Ora, o Juiz tem de decidir no caso concreto ( que lhe é submetido) e com base no edifício normativo já existente. A decisão do juiz já estava minada anteriormente por vários projectos de lei que visavam a igualdade entre casais do mesmo sexo. Projectos de origem politica ( o Judicial decide com base na orientação politica ) Projetos políticos que surgem por pressões de movimentos cívicos... os quais todos sabemos quem os financia e cujo objectivo parece ser o completo terraplanar dos valores em que assenta a sociedade... dai para a frente, a motivação e o objetivo final será discutível...porém todas as possibilidades são más ou desconhecidas a longo prazo. Portanto em vez de se concentrarem na mão que vos dá bofetada ... concentrem-se no cérebro que tomou a decisão, o juiz agiu condicionado. As motivações de quem manipula a justiça e os movimentos cívicos ou outros é o cerne da questão.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Que não haja descriminação na adopção de crianças por casais homosexuais: estamos todos de acordo.

    Que seja permitida a doação de ovócitos de uma mulher a um casal infértil de heterosexuais: é a prática corrente.

    Que seja permitido a um casal de heterosexuais a doação da gestação: raramente é necessário por questões de biologia, mas quando se fez foi possível legalizar o casal como pais da criança.

    Que os casais homossexuais devem ter os mesmos direitos que os casais heterossexuais: também estamos de acordo.

    Assim penso que seria difícil para o juiz uma outra decisão que não a legalização da parentalidade deste casal.

    No meu entender a questão que se coloca é: é legítimo utilizar estas técnicas? Por favor mostrem-me um estudo de como foi a vida de 10.000 daquelas crianças durante 40 anos.

    O problema é que fazemos todo o que podemos fazer, sem excepções. Depois a própria acção, o próprio efeito da nossa acção não refletida é em si a nova moral e os fundamentos de qualquer pensamento ortodoxo...

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