27 abril 2017

A Guerra de Coreia

Nestas semanas fala-se com cada vez mais frequência dum possível choque militar entre o Ocidente (nomeadamente os Estados Unidos) e a Coreia do Norte de Kim Jong Un.

Não seria a primeira vez, pois logo após a Segunda Guerra Mundial, a situação era a mesma: também naqueles dias falava-se do perigo representado pelas armas de Pyongyang e da defesa dos valores "democráticos" por parte dos EUA.

Após mais de 60 anos, a Coreia do Norte permanece como uma espinha na historiografia estadounidense: uma guerra que não foi ganha, um chefe (o jovem Kim Jong Un) que é o directo herdeiro do chefe nortecoreano da altura (é neto de Kim Il Sung). E, logo atrás, ainda uma China que impede que a península coreana se transforme numa nova Síria (ou Afeganistão, ou Iraque, ou Líbia...).

A ascensão de Kim Il Sung, o regime de  Syngman Rhee

A península coreana, que sempre foi objecto das miras expansionista, imperialista e colonialista, tanto do Ocidente como dos japoneses, rebelou-se contra a ocupação de Tóquio e saiu da Segunda Guerra Mundial duramente provada, social e economicamente. A dominação japonesa tinha começado em 1905 e não foi nada leve: opressão, exclusão dos direitos mais básicos de expressão, de associação, de liberdade política, exploração dos camponeses e saques dos recursos dos quais a Coreia. Fala-se aqui de ouro, prata, zinco, chumbo e outros tesouros do subsolo, canalizados para as grandes empresas japonesas.

Contra este estado de coisas, desde os anos '30, tinha-se desenvolvido uma forte luta de resistência que, desde 1940, gradualmente veio à tona sob a liderança do Partido Comunista e do seu líder Kim Il Sung. Os trabalhadores e os camponeses apoiaram de forma activa o movimento guerrilheiro, especialmente porque o foco estava na libertação nacional do domínio estrangeiro e nas reformas democráticas e progressistas, necessárias num País que do ponto de vista social se encontrava bastante atrasado.

Esta plataforma foi vista desde o início como algo negativo por parte das forças angloestadunidenses por causa dos interesses económicos: como exemplo, Allen Dulles, irmão de John Foster Dulles (que, como veremos, será o verdadeiro estratega da Guerra da Coréia) e chefe do Serviço Secreto dos Estados Unidos (OSS na altura), em 1934 era membro do conselho do Banco Schroeder, um dos pulmões financeiros dos nazistas, e em 1945 sentava-se nos escritórios da National City Bank, controlada pelos Rockefellers, principal acionista da New Korea Company, grande corporação fundada para assumir o domínio económico após a derrota do Japão.

Os guerrilheiros coreanos tinham o apoio da União Soviética e, com base nos acordos de Moscovo entre EUA, URSS e Grã-Bretanha em 1945, a península coreana foi temporariamente dividida em duas partes: a Norte do 38º paralelos ficava a zona de ocupação soviética, ao Sul do mesmo paralelo a parte dos EUA. Esta divisão tinha sido entendida como provisória, contingente, pois os mesmos aliados, em 1943 (conferência do Cairo), tinham concordado para o futuro uma Coreia unida e neutra.

Kim Il Sung
De facto, no Norte a antiga hierarquia de tipo ainda feudal foi completamente desmantelada, as fábricas foram reconstruidas, as terras dos latifundiários expropriadas e distribuídas entre pequenos e médios agricultores. Como resultado, o desemprego desapareceu gradualmente.

Surgiram também novos partidos políticos: ao lado do Partido Comunista, apareceram o Partido Democrático da Coreia do Norte (fruto dos interesses da pequena burguesia progressista), o Partido dos Jovens Amigos (inspirado na seita religiosa progressista Cihondoge), o Novo Partido Popular da Coreia do Norte. Isso não deve surpreender, pois ainda hoje existem vários partidos na Coreia do Norte, tais como o Partido Social Democrata e Partido Chondoist, regularmente representados na Suprema Assembleia Popular (o parlamento).

Apesar disso, no Norte os Russos recusaram conceder eleições democráticas, entregando o poder nas mãos de Kim Il-sung, até então fiel executor das directivas moscovitas. E a situação não estava melhor no Sul: aí, os norte-americanos subentraram aos funcionários japoneses e nomearam como chefe do País um representante da antiga aristocracia coreana, Syngman Rhee, que também tinha tido formação académica nos Estados Unidos. Rhee, uma vez nomeado Presidente (1948), começou uma ampla operação de repressão contra todos os simpatizantes comunistas (com o pleno apoio das forças de ocupação dos EUA), à medida que no Norte acontecia o mesmo contra os simpatizantes do Sul.

Tinham passados apenas dois anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial e a Coreia já se encontrava mergulhada numa nova vaga de repressão, massacres (como o massacre de Jeju, na Coreia do Sul, onde foram mortas mais de 14.000 pessoas), ocupação estrangeira (desta vez actuada através de dois ditadores-fantoches).

Entretanto, já em 1948 a União Soviética tinha proposto que as forças de ocupação estrangeiras abandonassem a Coreia e, no mesmo ano, retirou os soldados da Exército Vermelho. A proposta foi recusada pelos americanos que continuaram a gerir o Sul, apoiando a ditadura de Syngman Rhee.

No mesmo ano, foram decididas eleições no Norte e candidatos do Sul tentaram implementar a consultação também naquela parte do País controlada pelos americanos. O resultado foi desastroso: na Coreia do Sul as autoridades perseguiram tanto os candidatos (muitos dos quais foram presos) quanto os eleitores; no Norte, um percentagem no mínimo suspeita (99%!) escolheu a Frente Única Nacional Democrática, o partido apoiado pela União Soviética. Que, a seguir, confirmou o poder ao fiel Kim Il-sung.

Mas do ponto de vista social, a situação pior era sem dúvida aquela da Coreia do Sul. A situação económica era péssima, os agricultores viviam em condições miseráveis e havia uma forte repressão. Só uma grande greve em 1949 obrigou Rhee a prometer uma reforma agrária, mas a situação era explosiva. A guerra estava já no ar, era apenas uma questão de tempo.

Entre Guerra Fria e alavanca económica

Syngman Rhee
Para entender as razões da guerra, é bem observar o desempenho económico dos Estados Unidos,
principal aliado da Coreia do Sul, e o contexto histórico.

Contrariamente a quanto seria possível pensar, a Segunda Guerra Mundial deixou os EUA em condições preocupantes: feito 100 o poder de compra do Dólar em 1939, em 1946 encontrava-se em 71,2 e em 1950 tinha regredido até 57. Um colapso impiedoso, que contrastava com o forte desenvolvimento da economia da URSS, o único País no mundo onde os preços diminuíam ano após ano.

O índice de produção global dos EUA, feito 100 em 1937, atingiu 212 em 1943, durante a guerra, mas em 1948 já tinha descido para 170 e atingiu 156 em 1949. No primeiro trimestre de 1950, o investimento regrediu 14% em comparação com o mesmo período de 1949, enquanto o desemprego avançava para níveis perigosos: 6,5% em Janeiro de 1950, em comparação com 3,40% do mesmo mês de 1948 e 4,3% em 1949. Em Março de 1950, as exportações norte-americanas totalizaram 867 milhões de Dólares contra 1.177 bilhões do homólogo período do ano anterior. O lucro líquido das empresas totalizou 21 biliões de Dólares em 1948, mas em 1949 já tinha caído para 17 biliões.

Estes números não devem surpreender. A realidade é que a guerra tinha funcionado como alavanca económica temporária, mas os EUA ainda descontavam os efeitos da Grande Depressão e os historiadores bem sabem que a utilização das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki tinha sido ditada em boa parte por uma condição de desespero: em 1945 os americanos não tinham possibilidades económicas para continuar a guerra por muito mais tempo ainda.

A Segunda Guerra Mundial tinha empurrado para cima a produção dos EUA, mas a resistência do Japão teve o efeito de esticar demais o esforço bélico e quase acabado os recursos do País. Uma nova guerra, desta vez mais limitada geograficamente, teria representado outra alavanca em favor da economia norte-americana?

Por fim: a Guerra Fria. É complicado estabelecer a data precisa em que teve início a confrontação entre as duas super-potências: há quem aponte para o fim da Segunda Guerra Mundial, há quem prefira o 1947. Seja como for, a Coreia representava o primeiro grande testes, ainda mais interessante porque situado ao longo das fronteiras da China, o segundo maior País comunista do planeta.

As provocações

Wikipedia:
Com o objetivo de retaliar supostas pequenas incursões de soldados do sul na fronteira, o exército norte-coreano cruzou a fronteira do paralelo 38, com a proteção de artilharia pesada, em 25 de junho de 1950.
A versão suportada pela História devidamente corrigida conta que foram os coreanos do Norte a atacar o Sul. A realidade é bem mais complexa.

No começo do ano, Kim Il-Sung viajou para Moscovo e Pequim à procura de apoio para uma guerra iminente: a União Soviética ficou bastante envolvida com a militarização da Coreia do Norte (mas recusou de forma decidida um envolvimento directo) enquanto o líder chinês Mao Tse Tung transferiu 50 mil soldados de etnia coreana para a Coreia do Norte.
E o Sul?
 
Clare Boothe Luce, futura embaixadora dos EUA em Itália, escreveu:
O nosso povo não quer nem a crise nem a guerra, mas se tivesse que escolher preferiria a guerra.
Por sua vez, numa entrevista ao United Press (7 de Outubro de 1949), Syngman Rhee disse que podia conquistar Pyongyang em três dias. E apenas uma semana antes (dia 30 de Setembro) tinha escrito ao amigo Dr. Robert Oliver (desde 1947 chefe do Escritório de Washington para a Imprensa na Coreia):
Estou convencido de que chegou o momento para lançar uma ofensiva. Vamos caçar a gente de Kim Il Sung para as montanhas, onde gradualmente iremos mata-las com a fome.
Em 1 de Novembro de 1949, o New York Herald Tribune informou um comunicado assinado por Sin Sung Mo, Ministro sul-coreano da guerra:
O exército de Seul está pronto para entrar em território comunista.
Douglas MacArthur
Portanto, é evidente que as duas Coreias não passavam de piões no grande tabuleiro da Guerra Fria.

Ambas as facções sabiam que um choque era só uma questão de tempo. Estabelecer agora de quem foi o "primeiro tiro" não é tarefa simples.

Na Primavera de 1950, o General dos EUA William L. Roberts deu ordens para uma série de ataques armados e infiltrações contra a Coreia do Norte: o governo de Pyongyang contabilizou 2.167 destas acções já em 1949. É certo de que a Coreia do Norte actuou da mesma forma.

O bloco comunista e os Estados Unidos viam no terreno da península coreana a possibilidade de ampliar as respectivas esferas de influências na Ásia e de revitalizar a industria nacional (em particular a dos armamentos): tratava-se apenas de esperar para a ocasião certa.

Neste âmbito, as miras dos EUA eram ainda mais específicas: a Coreia do Norte era bem apoiada pelo bloco comunista e estava a recuperar do período colonizador japonês com uma certa rapidez. O mesmo não pode ser dito em relação à Coreia do Sul, onde o regime ditatorial de Syngman Rhee limitava-se a ré-propor um modelo de sociedade ultrapassado, dominado por uma aristocracia fechada em si mesma.

No Sul, não pouca era a pressão exercida pela Oriental Mining Co., cujo chefe era Samuel Hodd Dolbear, conselheiro pessoal de Syngman Rhee. Objectivo: as minas de Unsan, ricas em ouro e pratas, localizadas uns 50 km a Norte de Pyongyang. Não de forma casual, Unsan foi teatro duma batalha já nos primeiros meses da guerra (desde 25 de Outubro até 4 de Novembro de 1950: no total uns 4.000 mortos).

A guerra

Os meses anteriores ao começo da guerra representaram um crescendo de provocações.

Em 28 de Abril de 1950, o australiano Melbourne Sun informou através do jornalista americano Richard Johnson, bem introduzido no serviço militar, as intenções do governo de Seul para atacar o Norte.

Em 5 de Maio, Thomas T. Connally, Presidente do Comitê do Senado dos EUA para os Assuntos Externos, declarava ao US News and World Report:
Muitas pessoas pensam que os EUA precisam de uma guerra. É melhor fazê-la agora.
Em 17 de Maio, ainda  Syngman Rhee:
Se não podemos proteger a democracia com a guerra fria, teremos de arrancar a vitória com aquele quente.
A situação precipitou no final do mês de Maio: Rhee perdeu as eleições, apesar do terror espalhado ao longo da campanha eleitoral (cerca de 10% da população estava na prisão e quem era encontrado na posse de armas, de qualquer tipo, era sumariamente executado). Para contornar a derrota eleitoral, Rhee impus a lei marcial no sucessivo 11 de Junho, depois das grandes manifestações dos coreanos do Sul que tinha aprovado a proposta da Frente Democrática Unida para eleições livres gerais em toda a Coreia.

Como informou o New York Times, no dia 20 de Junho, o Secretário de Estado da Defesa Louis Johnson e o Chefe de Estado Maior do Exército dos EUA, Omar Bradley, encontraram-se em Tóquio em "reuniões ultrasecretas com o General McArthur, comandante em chefe das forças americanas no Pacífico".

Era a guerra, que teria oficialmente iniciado cinco dias depois. Mas hoje sabemos que já no dia 23 a artilharia de Seul tinha bombardeado o Norte enquanto unidades de infantaria tinham atacado a localidade nortecoreana de Haeju (tal como relatado pelo jornalista John Gunther) A prova disso fica nas declarações de diários como o Daily Herald, The Guardian e o New York Herald Tribune: estes noticiaram que no dia 25 as tropas do Sul tinham ocupado a cidade de Haeju. Mas o dia 25 foi marcado pela ataque da Coreia do Norte e o Sul demorou meses (na prática até a intervenção americana) para conseguir responder de forma adequada.

Já no dia 27, o Presidente sul-coreano Rhee, ordenava a evacuação da capital Seul, não antes de te ordenado aquele que ficou conhecido como os Massacres das Ligas Bodo (28 de Junho), onde pelo menos 100 mil suspeitos de simpatia com o comunismo foram executados sem julgamento.

Os restantes eventos bélicos podem ser seguidos em qualquer bom livro de história. A Rússia decidiu não apoiar o esforço da Coreia do Norte, que portanto ficou com a ajuda de Pequim. Aliás, é bom realçar como já em Setembro de 1950, os deus exércitos "principais" (o da Coreia do Norte e aquele do regime sulcoreano de Rhee) tinham deixado de existir: as frentes eram ocupadas pelos soldados chineses no Norte e por aqueles dos EUA no Sul. Entretanto, o General McArthur pediu para utilizar bombas nucleares contra as cidades chinesas e tentou envolver Taiwan no conflito, mas o Presidente Truman recusou e por fim destituiu o chefe do exército americano no Pacífico (que continuava a criticar a atitude de Washington).
 

Após uma série de avanços e recuos por ambos os lados, a guerra acabou no Verão de 1953, deixando uma situação idêntica àquela pré-conflito: as duas Coreias continuavam divididas pelo 38º paralelo, situação que permaneceu até hoje. Pelo meio: dois anos e meio de devastação, mais de 2 milhões de soldados mortos, 2 milhões de civis mortos ou feridos segundo as estimativas.


Ipse dixit.

Fontes e Bibliografia essencial:
John Gunther: The Riddle of MacArthur: Japan, Korea, and the Far East (1951)
J. F. Stone: The hidden history of the Korean War (1952)
Trygve Lie: In the Cause of Peace (1954)
Robert T. Oliver: Syngman Rhee: The Man Behind The Myth (1954)
Albert Norden: Le secret des guerres: genese et techniques de l’aggression (1972)
Karunakar Gupta: How did the Korean War Begin? (The China Quarterly, London, 1972); Comment: The Korean War (The China Quarterly, 1973).
J.C. Goulden: The Untold Story of the War (1983)
Peter Lowe: The Origins of the Korean War (2014)
MultPl: US Unemployment Rate by Year
Juche Italia: Kim Il Sung
Kim Il Sung: Eliminazione del dogmatismo e del formalismo e il costituirsi dello Juché nel lavoro ideologico ((1955)

3 comentários:

  1. Um dos melhores artigos que já li sobre a Península da Coreia.

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  2. Vamos analisar sob outra ótica.
    Qual o maior beneficiado com a Coreia do norte?
    Os EUA que com isso tem pretexto para colocar suas bases nos lombos da Russia e da China!
    O vietname foi só para inglês ver, pois a coreia era a cereja do bolo, agora tanto a Rissia quanto a China tem armas apontadas para eles de todos os lados.
    O que seria dos EUA sem o querido Kim Jong Un?!
    Apenas um atacante lá do outro lado do pacífico oceano!
    O Japão sabia disso e por isso tentou tirar o hawai das patas estadunidenses!
    O EUA são anglossionistas e como tal a meta é fazer o sol nascer e se por em todo lugar com a bandeira estadunidense, mesmo que sol brilhante poente ou nascente seja uma bola de fogo antes de um "florescente" cogumelo! :D

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